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A Hóspede Inesperada — Parte 2

Um conto erótico de SandroAndarilho
Categoria: Heterossexual
Contém 1639 palavras
Data: 22/09/2026 19:55:01
Assuntos: Heterossexual

Abri a porta.

Renata estava ali.

Parada no corredor, braços cruzados, com a mesma camiseta larga e o cabelo preso de qualquer jeito.

Só que agora não estava sorrindo.

— Que foi? — perguntei.

— Nada.

— Você bate na minha porta uma da manhã pela segunda vez e fala “nada”?

— Posso entrar primeiro?

Dei passagem.

Ela entrou e eu fechei a porta.

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

Renata ficou no meio do quarto, olhando para mim como se tivesse ensaiado alguma coisa no caminho e esquecido tudo quando chegou.

— Então? — perguntei.

— Então o quê?

— A mensagem.

— Que mensagem?

— Ah, vai se foder.

Ela começou a rir.

— Estou nervosa, porra.

Aquilo eu não esperava.

— Você?

— Eu.

— Finalmente.

— Finalmente o quê?

— Descobri alguma coisa que deixa Renata nervosa.

Ela apontou para mim.

— Não começa.

— Você passou a noite inteira me enchendo o saco.

— Porque era mais fácil.

— Mais fácil que o quê?

Ela não respondeu.

Chegou perto da cama e sentou novamente.

Eu continuei em pé.

— Você disse que não veio pra cá por causa do vazamento.

— Não disse exatamente isso.

— Está escrito no meu celular.

— Eu disse que não foi por causa do vazamento que escolhi vir pra cá.

— Dá na mesma.

— Não dá.

— Então explica.

Renata respirou fundo.

— Eu podia ter ido para casa da minha irmã.

— Certo.

— Podia ter ido para um hotel.

— Certo.

— A Paula também ofereceu a casa dela.

— E você veio pra minha.

— Vim.

— Por quê?

Ela olhou para mim.

— Porque eu quis.

— Excelente explicação.

— Alessandro...

— Estou perguntando sério.

Ela ficou quieta mais um pouco.

— Porque eu queria ficar perto de você.

Pronto.

Sem provocação.

Sem duplo sentido.

Só aquilo.

Eu me sentei ao lado dela.

— E precisava estourar um cano pra isso?

Ela riu.

— Não seja idiota.

— Estou tentando aliviar.

— Eu sei.

Ficamos lado a lado.

Nossos braços quase se encostavam.

— Agora é minha vez de perguntar — ela disse.

— Pergunta.

— Por que nunca aconteceu nada entre a gente?

— Porque você nunca deixou claro que queria.

Ela virou imediatamente.

— Eu nunca deixei claro?

— Não.

— Você é muito lerdo.

— Ah, claro. A culpa é minha.

— Eu já te dei umas quinhentas oportunidades.

— Tipo quais?

— Não vou fazer uma lista.

— Porque não tem lista.

— Tem, sim.

— Fala uma.

Renata pensou.

— Aquele aniversário da Paula.

Demorei alguns segundos para lembrar.

— O que tem?

— Quando todo mundo foi embora.

— Você pediu carona.

— Exatamente.

— Você estava sem carro.

— Eu tinha aplicativo no celular, Alessandro.

Comecei a rir.

— Como eu ia adivinhar?

— Eu fiquei quarenta minutos dentro do seu carro depois que você estacionou na minha porta.

— A gente estava conversando.

Ela ficou me encarando.

— Meu Deus.

— Que foi?

— Quarenta minutos.

— E daí?

— Meia-noite. Dentro do carro. Na porta da minha casa.

— Você podia ter falado.

— “Alessandro, gostaria de me beijar agora?”

— Ajudaria bastante.

Ela me deu um tapa no braço.

— Idiota.

Segurei a mão dela antes que afastasse.

Foi automático.

A brincadeira parou.

Olhei para nossos dedos.

Depois para ela.

Renata também tinha parado de rir.

Não sei quanto tempo ficamos assim.

Talvez dois segundos.

Talvez dez.

Só sei que dessa vez ninguém procurou uma piada para escapar.

— Posso? — perguntei.

Ela olhou para minha boca.

— Se perguntar de novo, eu vou embora.

Então beijei.

E foi engraçado porque, depois de anos imaginando como seria, o primeiro beijo não teve nada daquela perfeição de filme.

Nossos narizes bateram de leve.

Renata riu contra minha boca.

— Caralho...

— Começamos bem.

— Cala a boca.

Ela segurou meu rosto e me beijou de novo.

Dessa vez encaixou.

Devagar.

Sem aquela pressa de provar alguma coisa.

Minha mão ficou na cintura dela, por cima da camiseta. A dela passou pela minha nuca e ficou ali.

Quando nos afastamos, Renata não abriu os olhos imediatamente.

— Era isso? — perguntei.

Ela abriu.

— Isso o quê?

— Os quarenta minutos no carro.

— Não.

— Não?

— Naquela noite eu teria feito isso muito antes.

Comecei a rir.

— Agora você fala.

— Agora eu sei que você não vai fugir.

— Eu nunca fugi.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Quer mesmo discutir seu histórico?

— Não.

— Imaginei.

Ela me beijou outra vez.

Agora já não tinha tanto cuidado.

Ainda não era pressa.

Era vontade guardada.

Aquela vontade velha, acumulada de ocasiões em que alguma coisa quase aconteceu e nenhum dos dois teve coragem suficiente para descobrir.

Beijei seu pescoço.

Renata soltou o ar devagar.

Minha boca ficou ali por alguns segundos.

— Alessandro...

— Hum?

— Nada.

— Você fala meu nome e depois diz nada?

— Continua.

Continuei.

Ela passou os dedos pelo meu cabelo e riu baixinho.

— Que foi?

— Estou pensando numa coisa.

— Lá vem.

— Amanhã isso vai ser muito estranho.

Parei e olhei para ela.

— Quer parar?

Renata pensou.

Não respondeu imediatamente.

Depois balançou a cabeça.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

E me puxou pela camiseta.

O beijo seguinte respondeu melhor do que qualquer coisa que ela pudesse dizer.

A partir dali, paramos de conversar tanto.

Não completamente.

Com Renata, aparentemente, silêncio absoluto era impossível.

Entre um beijo e outro ainda aparecia um “idiota”, um “vem cá”, alguma risada quando um de nós esbarrava em alguma coisa.

Em determinado momento ela olhou para mim e começou a rir.

— Que foi agora?

— Nada.

— Renata.

— Estou lembrando de você falando que eu devia dormir.

— Devia mesmo.

— Quer que eu vá?

Olhei para ela.

— Nem fodendo.

Ela sorriu.

— Imaginei.

O resto aconteceu sem planejamento.

Sem discurso.

Sem aquela história de roupa voando pela casa inteira.

Só dois adultos que tinham passado tempo demais fingindo que não queriam uma coisa que, naquela altura, estava bastante óbvia.

A camiseta dela acabou sobre a cadeira.

A minha em algum lugar perto da cama.

E quando percebi, Renata estava deitada ao meu lado, ainda me olhando daquele jeito que tantas vezes tinha me deixado na dúvida.

Só que agora eu finalmente sabia o que aquele olhar queria dizer.

— Não fica se achando — ela murmurou.

— Não falei nada.

— Conheço essa cara.

Comecei a rir.

— Agora você está roubando minhas frases.

— Combina mais comigo.

Puxei-a para perto.

Ela veio.

E a madrugada continuou entre beijos, carícias, provocações sussurradas e aquela descoberta meio atrasada do corpo de alguém que você já conhecia havia anos, mas nunca daquele jeito.

Em algum momento, o mundo lá fora simplesmente deixou de ter importância.

Acordei sem saber exatamente que horas eram.

O quarto ainda estava meio escuro.

Estiquei a mão para o lado.

Vazio.

Abri os olhos.

— Renata?

Nada.

Sentei na cama.

As roupas dela não estavam mais na cadeira.

Por alguns segundos pensei:

Fudeu.

Ela tinha acordado, se arrependido e voltado para o quarto.

Ou pior.

Tinha ido embora.

Peguei o celular.

08:17.

Nenhuma mensagem.

Levantei, vesti um short e abri a porta.

Senti cheiro de café.

Fui até a cozinha.

Renata estava de costas para mim, mexendo em alguma coisa no armário.

Já estava vestida.

Short jeans, camiseta e cabelo preso.

— Bom dia — falei.

Ela se assustou.

— Caralho!

— Está roubando minha casa?

— Estou procurando açúcar.

— Segundo armário.

Ela abriu.

— Achei.

Fiquei encostado na porta observando.

— Você sumiu.

— Eu vim fazer café.

— Podia ter avisado.

Renata olhou por cima do ombro.

— Ficou preocupado?

— Não.

Ela sorriu.

— Mentiroso.

Aquela palavra de novo.

Peguei uma caneca.

— Dormiu bem?

— Depois que finalmente me deixaram dormir, sim.

— Ninguém obrigou você a ficar acordada.

— Claro.

Ela tomou café.

Eu também.

E então veio aquele silêncio inevitável da manhã seguinte.

À noite tudo parecia fácil.

De manhã, sob a luz da cozinha, você lembra que decisões têm consequências.

Renata apoiou a caneca na bancada.

— Então...

— Então.

— Ficou estranho?

— Um pouco.

Ela riu.

— Ainda bem.

— Ainda bem?

— Se você dissesse que estava tudo absolutamente normal, eu ia achar que sou muito ruim de cama.

— Renata!

Ela começou a rir.

— Que foi?

— Oito da manhã.

— E?

— Nada.

Balancei a cabeça.

Ela continuou sorrindo.

— Está arrependido? — perguntou.

Dessa vez havia seriedade por trás da pergunta.

— Não.

— Nem um pouquinho?

— Não.

Ela assentiu.

— Eu também não.

Ficamos em silêncio outra vez.

— Só tem um problema — falei.

— Qual?

— Agora eu sei que aquele seu jeito de provocar não era coisa da minha cabeça.

Renata se aproximou.

— E isso é problema?

— Grande.

— Por quê?

— Porque antes eu conseguia fingir que não entendia.

Ela parou na minha frente.

— E agora?

— Agora ficou difícil.

Renata colocou a caneca de lado.

— Coitado.

— Você está gostando disso demais.

— Talvez.

Ela me deu um beijo rápido.

E se afastou.

— Vou tomar banho.

— Você já tomou banho ontem.

— E?

— Nada.

Ela começou a andar pelo corredor.

— Renata.

Ela virou.

— Hum?

— Qual era a outra opção?

— Que opção?

— Você falou que podia ir para sua irmã, para um hotel ou para casa da Paula. Por que realmente escolheu aqui?

Ela ficou alguns segundos parada.

Achei que fosse fazer alguma piada.

Não fez.

— Porque eu já estava cansada de esperar você tomar iniciativa.

E continuou andando.

Fiquei olhando.

— Ah, agora a culpa é minha?

Ela respondeu do corredor:

— Sempre foi!

— Folgada!

Ouvi a risada dela.

Depois a porta do banheiro fechando.

Peguei minha caneca e voltei para a cozinha.

O celular dela estava sobre a bancada.

A tela acendeu.

Mensagem do encanador.

“Bom dia. Posso passar aí às 14h para fazer o reparo.”

Olhei para o corredor.

Depois para a mensagem.

Duas da tarde.

Ainda eram oito e meia.

Quando Renata voltou à cozinha alguns minutos depois, mostrei o celular.

— Parece que você vai ter que ficar mais um pouco.

Ela leu.

— Que pena.

— Está arrasada, né?

— Muito.

— Dá pra perceber.

Renata pegou a caneca.

Foi até a sala e se jogou no sofá como se já morasse ali.

— Alessandro?

— O quê?

— Tem alguma coisa pra gente fazer até duas?

Olhei para ela.

Aquele sorriso estava de volta.

O mesmo de sempre.

Só que agora eu não precisava mais ficar tentando descobrir o que significava.

— Tenho uma ideia.

Ela ergueu a sobrancelha.

— Finalmente.

E foi assim que o problema do apartamento da Renata demorou algumas horas para ser resolvido.

O nosso tinha acabado de começar.

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