MENTIRAS PERFEITAS
Capítulo 10 – O Recomeço
Parte 1 – O Acerto de Contas no Leito
O bipe rítmico e metálico do monitor cardíaco ditava a cadência fria do quarto 402 do Hospital de Base de Brasília.
Pela janela de vidro duplo, os eixos da capital desenhavam linhas de luzes estéreis sob a escuridão do Planalto Central, alheios à poeira que ainda assentava na pele dos personagens.
Fred Alves estava deitado no leito hospitalar, com o tronco envolto por faixas táticas que imobilizavam as suas costelas.
O impacto brutal dos três disparos de calibre .40 desferidos por Renato na chácara deixara um rastro arroxeado e violento em sua pele; o colete segurara os projéteis, mas a força cinética quebrara duas de suas costelas, fazendo com que cada ciclo respiratório se transformasse em uma queimação aguda.
A porta do quarto rangeu suavemente.
Beatriz entrou devagar, segurando o próprio corpo pelos braços, como se o ar-condicionado do hospital a fizesse tremer de frio.
Seus olhos azuis, inchados pelas horas de choro e pelo choque absoluto da verdade, fixaram-se em Fred.
O silêncio que se instalou no aposento tinha muitas camadas; não era mais o vazio das omissões do passado, mas um território cheio de coisas quebras que ambos precisavam encarar de frente. Havia uma distância física intransponível desenhada entre a poltrona e a borda da cama.
— Eu já posso ir embora — disse Fred, forçando a voz para que saísse linear, embora o movimento fizesse o seu peito protestar.
Beatriz aproximou-se e sentou-se na poltrona ao lado do leito, olhando para ele com uma mistura devastadora de amor e culpa profunda:
— Vou dizer de novo! Você acabou de levar três tiros no peito, Fred. Por favor, não brinque com isso.
Ele fechou a boca, observando o relevo do colar de safira que ela ainda mantinha no pescoço. O pingente em forma de infinito brilhava sob a luz fluorescente, operando como uma lembrança material de um pacto que agora sangrava.
Fred estendeu a mão esquerda devagar, e Beatriz a segurou com as duas mãos, levando-a de encontro ao próprio rosto. O toque de seus dedos contra a pele dela marcou a transição definitiva do agente de campo para o homem profundamente ferido pela traição.
— Eu sinto muito, Bia — confessou Fred, a voz suavizando pelo peso do arrependimento.
— Eu sinto muito por tudo o que o meu segredo causou. Eu passei vinte anos transformando o silêncio em uma ferramenta de proteção e não percebi que, para quem ama, silêncio demais vira abandono. O meu vácuo de informação foi o veneno que alimentou o seu torpor afetivo e abriu espaço para o Renato agir.
Beatriz fechou os olhos, as lágrimas escorrendo livres enquanto sua linguagem corporal traía a dor de quem carregava o veredito de suas próprias escolhas:
— Eu... eu fui fraca. Quando recebi aqueles arquivos falsificados de áudio e vídeo simulando a sua traição com a Helena, entrei em um estado de torpor psicológico total, eu não conseguia pensar direito, não sei explicar. Foi como se tivesse uma redução severa do meu nível de consciência provocada pelo pânico. A dor me isolou do mundo. Eu não te confrontei. Eu não mostrei o celular diante de você para exigir explicações porque, na minha mente ferida e mergulhada nesse torpor, assumi que você negaria tudo de qualquer forma ou simplesmente me abandonaria no Brasil, exatamente como os áudios clonados pela inteligência artificial diziam. Eu agi guiada por uma letargia destrutiva. Escolhi me entregar a Rafael por pura raiva, por me sentir humilhada e já descartada. Eu assumo a minha escolha, Fred. Nada justifica o que fiz, eu deveria ter ido embora de cabeça erguida em vez de destruir a nossa história naquele hotel. Eu me arrependi no exato segundo em que aconteceu... mas eu sei que quebrei a sua confiança.
Fred apertou os dedos dela, o conflito psicológico nítido em seu olhar gélido de analista:
— Eu te amo, Bia. Eu te amo mais do que qualquer missão ou juramento que fiz na agência. E a falsificação que o Jonathan ajudou a desvendar me faz compreender o tamanho do massacre psicológico que o Renato armou contra você na empresa e em casa. Eu sou um especialista em infiltrações, sei perfeitamente como um alvo é desestabilizado e isolado até ceder. Eu vi operadores da minha própria equipe seduzirem e manipularem alvos em campo usando essas exatas regras de saturação emocional. Estou propenso a te perdoar, porque a nossa história de vinte e dois anos pesa muito mais do que o rancor. Mas esses mesmos 22 anos são o motivo pelo qual entendo que você não me deu a oportunidade de me explicar. O marido aqui dentro ainda precisa de tempo e processamento psicológico sobre tudo o que ocorreu. Eu preciso digerir essa ruptura antes de conseguir olhar nos seus olhos sem ver a imagem daquela noite. Sem olhar para você com desconfiança. Com medo que possa acontecer de novo.
Beatriz baixou a cabeça, o soluço abafado contra o lençol.
Em seu íntimo, a barreira da confiança parecia intransponível; ela continuava achando que Fred jamais seria capaz de passar por cima da traição física de fato, e que o amor deles continuaria quebrado. A gravidade da situação mantinha-se suspensa, e um segredo ainda estava oculto de todos no quarto se apresentaria no futuro.
Parte 2 – Casas diferentes
Fred recebeu alta no fim da tarde do dia seguinte.
O corredor do hospital estava discretamente protegido por agentes. O relatório oficial falaria em tentativa de fuga, resistência armada, reação policial e morte do investigado Renato Alves. Alguns detalhes permaneceriam sob sigilo. Outros jamais seriam registrados de forma completa.
Beatriz ajudou Fred a vestir a camisa devagar, tomando cuidado para não tocar a região dolorida.
— Você parece um velho.
— Fui baleado.
— O colete foi baleado.
— Vocês combinaram essa resposta?
Ela quase sorriu. Quase.
Do lado de fora, Jonathan esperava ao lado de Mauro.
Helena falava ao telefone, coordenando providências sobre a custódia dos materiais apreendidos e o bloco de comunicações de Renato.
Mesmo morto, o estrago que ele poderia ter causado ainda exigia contenção.
Quando chegaram ao estacionamento, o sol começava a cair sobre Brasília. Por alguns segundos, os três — Fred, Beatriz e Jonathan — ficaram parados, sem saber exatamente como se despedir de algo que ainda não havia terminado.
— Eu vou para casa — disse Fred, por fim.
Beatriz assentiu.
— Eu também.
Ele olhou para ela. A confusão surgiu por um instante. Ela percebeu e baixou os olhos.
— Para a minha casa, Fred.
A frase foi dita sem dureza, mas foi definitiva naquele momento.
Jonathan olhou de um para o outro.
— Mãe...
Ela segurou a mão do filho.
— Precisamos de tempo, Jhonny.
Fred assentiu, embora a dor em seu rosto fosse mais funda do que a da costela.
— Eu entendo.
Beatriz respirou fundo.
— Não é punição.
— Eu sei.
— É só... muita coisa. Renato. Rafael. As imagens. A verdade sobre você. A culpa. O medo. Eu não consigo simplesmente voltar para a mesma casa fingindo que sabemos quem somos agora.
Fred olhou para ela com ternura.
— Eu não vou pedir isso. Também tenho um conflito dentro de mim que não sei resolver ainda.
A resposta dele também a afetou. Ela segurou o colar de safira, mas um pouco apreensiva, disse:
— Eu ainda não tirei.
Ele viu.
— Eu notei.
— Não sei o que isso significa.
— Talvez não precise saber hoje.
Beatriz assentiu, emocionada. Jonathan aproximou-se do pai e o abraçou com cuidado.
— Eu vou passar na sua casa amanhã.
— Quero você comigo sempre que puder.
— Vou estar.
Depois abraçou a mãe.
— E com você também.
Beatriz beijou a testa dele.
— Eu sei.
Mauro abriu a porta do carro para Fred. Helena ficou um pouco afastada, observando em silêncio.
Beatriz caminhou até Fred uma última vez. Por um momento, parecia que diria algo, mas as palavras não vieram. Então ela apenas tocou o rosto dele.
— Se cuida.
Fred cobriu a mão dela com a sua.
— Vou tentar. Sempre tentei.
— Tente melhor.
Ele sorriu de leve, apesar da tristeza.
— Sim, senhora.
Beatriz se afastou antes que a vontade de o abraçar a fizesse desistir do espaço que precisava. Entrou no carro com Jonathan. Fred permaneceu parado até vê-los sair. Quando o veículo desapareceu, ele baixou a cabeça.
Helena aproximou-se.
— Você fez o certo deixando que ela fosse.
— Não parece certo, mas pensando por outro lado, tenho que resolver o conflito entre o Fred analítico, que vê as informações e processa os resultados, com o Fred marido, que vê apenas a traição e a quebra da confiança.
— Nem tudo que é certo alivia na hora.
Fred olhou para o horizonte.
— Eu salvei tanta gente, Helena.
A voz dele falhou.
— E não consegui salvar minha própria família do que eu escondi.
Helena permaneceu ao lado dele.
— Hoje sua família está viva. Isso também conta.
Fred respirou fundo. As costelas doeram. O peito doeu mais.
— E amanhã?
Helena não respondeu de imediato.
— Amanhã você começa a fazer a única coisa que nunca pôde fazer direito.
— O quê?
— Contar sempre a verdade. Mesmo quando ela não salvar tudo de imediato.
Fred observou a estrada por onde Beatriz e Jonathan haviam ido.
Pela primeira vez em muitos anos, não havia missão, cobertura ou protocolo capaz de lhe dizer o próximo passo.
Havia apenas uma família ferida.
Um amor em ruínas.
Um filho que ainda o chamava de herói.
Uma esposa que ainda usava o colar que só trazia lembranças boas.
E a possibilidade, frágil e incerta, de que algumas verdades, mesmo tardias, ainda pudessem abrir caminho para alguma forma de recomeço...
Parte 3 – O Grampo e a Conexão de Inteligência
A morte de Renato encerrou uma ameaça imediata, mas não apagou o estrago que ele havia deixado. Durante as primeiras horas após a operação na chácara, a preocupação de Fred não foi com as costelas quebradas, nem com os hematomas provocados pelos disparos que o colete havia segurado.
Sua mente permanecia presa em uma única frase, dita por Renato segundos antes de tudo desabar:
— Meus contatos estrangeiros vão adorar saber que Fred Alves é um agente secreto.
Renato estava morto.
E, justamente por isso, a informação não sairia dali (ou pelo menos, era isso que se pensava).
Helena garantiu que todos os registros fossem classificados. Mauro determinou o recolhimento imediato dos aparelhos apreendidos. Os agentes envolvidos na ocorrência receberam instruções formais de sigilo. O relatório final mencionaria resistência armada, tentativa de fuga e reação policial proporcional. Nada sobre força-tarefa internacional. Nada sobre coberturas empresariais. Nada sobre Fred.
Naquela mesma tarde, no subsolo do complexo da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, a atmosfera na sala de monitoramento técnico era sufocante. O agente Mauro Ferreira permanecia estático diante do terminal central de escutas, com os fones de isolamento acústico pressionados contra as orelhas. O rítmico piscar dos LEDs vermelhos no painel indicava que o relé de gravação em tempo real capturava uma linha analógica prioritária. Mauro travou o maxilar e aumentou o ganho do áudio forense ao ouvir a voz do jovem agente infiltrado na PF — que naquele momento ele descobriu que estava na folha de pagamento do Deputado Flávio Brazino — disparar o pacote de dados:
— Deputado? O empresário Fred Alves, irmão do Renato... ele não é civil. Descobri nos logs do sistema que ele é um operador de inteligência disfarçado na agência federal. A cobertura dele é de alto escalão.
Do outro lado da linha, o som do silêncio de Brazino durou três longos segundos, interrompido apenas por um suspiro sôfrego de puro pânico. O verniz de homem público conservador desfez-se instantaneamente:
— Um agente? Meu Deus... se os russos descobrirem que o irmão do homem que geria a logística do Grupo Alves é um espião infiltrado, após as prisões que executaram na Europa — em especial a do Viktor Kovalenko —, a máfia russa vai achar que eu e o Renato éramos informantes da Interpol fornecendo as cargas! Eles vão me apagar! Eu preciso queimar esse arquivo imediatamente antes que a PF feche o cerco!
Mauro Ferreira enrijeceu na cadeira de metal, acionando o comando de espelhamento de chamada. Segundos após desligar o contato com o infiltrado, o display mostrou o deputado Flávio Brazino discar de forma obstinada para um número móvel originário do Rio de Janeiro. A ligação foi completada, e a voz de Brazino ressurgiu revestida de uma autoridade marginal fria e calculista:
— Alô? Estou ligando para cobrar aquele favor de campo que você me deve desde a campanha do ano passado — disparou o deputado corrupto, falando diretamente com um influente chefe de milícia fluminense.
— Tem um empresário de Brasília que está atravancando os nossos negócios logísticos e ameaçando a nossa estrutura. O nome dele é Frederico Augusto Alves. Quero esse sujeito e a família dele eliminados o mais rápido possível. Façam parecer um assalto ou emboscada de trânsito, mas sumam com eles da malha urbana. Vou mandar os dados de rotas do veículo corporativo por canal limpo.
O interlocutor respondeu de maneira seca:
— Claro, Deputado! Tudo o que precisar! Não esquecemos quem nos ajuda! Só que temos alguns problemas. Estamos próximos do final do ano. O pessoal aqui tem compromissos com a família, o senhor, mais do que ninguém, sabe a importância da família para pessoas de bem como nós! Sem falar que não podemos ir de avião devido às verificações de segurança e, como temos mandados pendentes contra nossos principais ativos, só poderemos ir de carro. Aí, vem um terceiro problema, por conta de Natal e Ano Novo as estradas vão estar mais cheias e com maior policiamento, transportar armas fica mais complicado. Assim que o ano virar, vamos mandar nossos melhores para Brasília. Eles vão estudar a rotina da família e verificar o melhor momento para fazer o serviço. Não vamos falhar!
Brazino ainda pensou em retrucar sobre deixar para o ano novo, mas desligou o terminal analógico sem dar maiores explicações e sem mencionar, em nenhum momento, que Fred Alves era um agente secreto disfarçado, tentando proteger a própria pele contra o vazamento do disfarce perante os próprios milicianos.
Mauro Ferreira removeu os fones com os nós dos dedos brancos de raiva, salvou o hash forense da gravação e acionou imediatamente a linha limpa e criptografada de Helena Costa.
No hospital, quando ainda estava em observação, Fred recebeu Helena no quarto. Ela entrou sem bater com força, apenas tocando levemente a porta antes de aparecer. Trazia o rosto cansado de quem não havia dormido.
— Acabou? — perguntou Fred.
Helena aproximou-se da cama.
— Renato não chegou a repassar a informação. Os aparelhos dele foram apreendidos antes de qualquer comunicação externa. O telefone usado para contato com o político também está sob custódia. Estamos rastreando todos os últimos contatos, mas até agora não há indício de vazamento para a Europa.
Fred fechou os olhos, aliviado por um segundo.
— Os nossos ainda estão seguros.
— Por enquanto, sim.
Ele abriu os olhos.
— Por enquanto?
Helena cruzou os braços.
— Fred, você foi chamado de agente na frente da sua família, de policiais locais, de equipes de apoio. Por melhor que controlemos o relatório, existe uma verdade impossível de ignorar: sua cobertura foi comprometida. Não pelos criminosos internacionais, mas pela sua vida.
Ele virou o rosto para a janela.
— Eu sei.
Helena deu um passo lento na direção do leito, os olhos azuis analisando a rigidez nos ombros de Fred.
O telefone funcional de Helena vibrou de forma insistente no bolso do casaco. Ela pediu licença visual a Fred, afastou-se até o recanto jateado da antessala do quarto 402 e atendeu a chamada segura. A voz de Mauro Ferreira surgiu na outra ponta, carregada de uma gravidade militar implacável:
— Helena, a situação estourou o teto — disparou Mauro, com a respiração curta.
— Eu acabei de interceptar e processar os áudios forenses da linha analógica do deputado Flávio Brazino. Com a gravação descobri que temos um X-9 na equipe. O corrupto infiltrado na PF é o mesmo cara que chamou o Fred de agente na frente de todos. Ele ligou para Brazino e entregou a identidade do Fred. O deputado entrou em curto-circuito. Ele acabou de ligar para milicianos amigos do Rio de Janeiro e ordenou a execução imediata do Fred e de toda a sua família em Brasília. A ameaça de morte é real, concreta e iminente.
Helena Costa sentiu o peito contrair-se, os olhos azuis fixando-se no vidro que a separava do leito do parceiro:
— Meu Deus, Mauro... o Fred está com duas costelas quebradas e psicologicamente destruído pelo colapso do casamento. Ele não pode saber dessa ordem de execução de maneira nenhuma! Se ele souber que a cabeça dele está a prêmio e que a milícia está subindo de carro para Brasília para apagar a Beatriz e o Jonathan, ele vai quebrar o protocolo, agir por impulso e comprometer a segurança da própria família. Nós precisamos manter a negação plausível absoluta com ele.
— Eu concordo — respondeu Mauro, o tom de voz linear.
— Mas o perímetro precisa de blindagem pesada imediatamente.
— Avise o Capitão Tom Sterling e os demais membros da Força-Tarefa de Berlim agora mesmo via canal SIGINT — comandou Helena, apertando o aparelho contra o ouvido.
— Eles já sabem, Helena — rebateu Mauro de pronto.
— A central técnica móvel da Janus em Charlottenburg captou o espelhamento do uplink de dados no mesmo milissegundo em que salvei o hash na nossa superintendência. Sterling, Chris, Alejandro e os demais receberam os áudios integrados e já estão montando as ordens de movimentação. Eles planejam descer em Brasília nas próximas vinte e quatro horas para blindar o perímetro de Fred sem que ele desconfie da milícia.
— Excelente — respirou Helena, recompondo a postura de comando. — Vou providenciar os utilitários reforçados com blindagem de nível superior através da distribuidora. Desligando.
Helena respirou fundo, contendo a emoção, e desligou o contato de rádio. Ela ajeitou os fios loiros do coque, recompôs a fisionomia e empurrou novamente a porta do quarto hospitalar para retornar ao leito, assumindo a postura de desinformação protetiva necessária para manter o amigo às escuras.
Ela quebrou o silêncio com uma observação pessoal, carregada de linguajar tipicamente operacional de campo:
— Mauro me disse que, quando vocês saíram da chácara e a equipe médica liberou a Beatriz e o Jonathan, você deu instruções automáticas para o motorista como se fossem seguir direto para a sua antiga casa no Lago Sul. Sua mente operou no automático, Fred. Você parecia querer seguir para o antigo lar de vocês.
Fred travou o maxilar, a respiração curta fazendo as duas costelas quebradas queimarem. Ele respondeu com uma voz baixa, que misturava a frieza do analista e a agonia do homem ferido:
— Eu fiz confusão mental na rota de saída, Helena. Após vinte e dois anos construindo uma rotina ao lado daquela mulher, o corpo opera por pura força do hábito e é difícil desvincular o destino daquela casa, do nosso lar, ainda que eu esteja profundamente magoado. Salvar a minha família não foi o ato automatizado de um mero protetor; foi um ato de amor absoluto, mas compreender a manipulação não apaga a dor do marido. Eu preciso de tempo.
Helena o observou com atenção.
— Você já tomou uma decisão.
Não era pergunta.
Fred respirou fundo.
— Vou me afastar da força-tarefa.Helena não respondeu de imediato.
— Temporariamente?
— Definitivamente.
A palavra caiu entre os dois como uma sentença.
Helena desviou o olhar por um instante.
— Eles não vão aceitar fácil.
— Não precisam aceitar. Só precisam entender.
— Você sabe o que isso significa?
— Sei.
Fred a encarou.
— Eu vivi todos esses anos entre dois mundos. O problema é que um deles quase destruiu o outro. Eu posso justificar muita coisa com dever, justiça, segurança internacional. Mas não consigo mais justificar olhar para Beatriz e Jonathan sabendo que eu os coloquei no centro de uma guerra que eles nem sabiam existir.
Helena sentou-se na poltrona ao lado.
— Você salvou muita gente, Fred.
— E quase perdi minha família.
— Uma coisa não anula a outra.
— Não. Mas uma precisa pesar mais agora.
Helena baixou a voz.
— E a Polícia Federal?
Fred permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Também vou pedir exoneração.
Ela respirou fundo.
— Você tem certeza?
— Tenho.
— Fred, pense bem. Se você pedir a exoneração definitiva agora, no meio desse turbilhão, vai fechar todas as portas de uma vez — sugeriu Helena, inclinando o corpo para a frente.
— Por que você não entra primeiro com um pedido de licença sem vencimentos? Deixe o rádio em silêncio por um tempo. Afinal, falta pouco tempo para você se aposentar e pendurar as chuteiras de vez... — ela sorriu de leve, tentando quebrar a tensão com uma brincadeira rápida, antes de voltar ao tom sério:
— E os impedimentos legais da função pública sempre foram administrados por causa da atuação internacional. Havia pareceres, autorizações, estruturas de blindagem. Mas sem a missão externa, a força-tarefa não vai aceitar a sua saída de maneira tão simples. Uma licença vai te dar o hiato necessário antes de você tomar a decisão final.
— A empresa do seu pai vai exigir dedicação integral.
Fred assentiu.
— E eu devo isso a ele. A Beatriz. A Jonathan. Talvez até a mim.
Helena olhou para ele com tristeza contida.
— A força-tarefa vai perder um dos melhores.
Fred sorriu sem humor.
— Eles sobreviveram antes de mim. Sobreviverão depois.
— Não é disso que estou falando.
Ele entendeu.
Durante anos, aquela equipe havia sido uma segunda família. Homens e mulheres que conheciam partes dele que Beatriz só começava agora a compreender. Gente que o vira se expor a grande risco para obter informações, negociar, mentir por uma causa, atravessas fronteiras e voltar sem medalhas, sem aplausos, sem qualquer direito de contar.
— Eu também vou sentir falta — confessou.
Helena assentiu.
— Então conte isso a eles pessoalmente. Porque eles virão.
Fred franziu o cenho.
— Quem?
— Todos.
— Todos quem?
Helena quase sorriu.
— A força-tarefa inteira. Incluindo os fundadores.
Fred fechou os olhos.
— Pelo amor de Deus... Loucura.
— Você achou mesmo que poderia pedir para sair por e-mail?
— Eu estava torcendo.
— Péssima estratégia para alguém que passou a vida lidando com inteligência.
Pela primeira vez desde a chácara, Fred riu. E aquele riso, fraco e dolorido, pareceu abrir uma pequena fresta no peso que dominava o quarto.
Helena se voltou para Fred, após estarem a sós no quarto do hospital:
— Há algo pior vindo na nossa direção, Fred — completou Helena, mantendo a fisionomia firme.
— Mauro e a equipe técnica terminaram de analisar a gravação forense obtida a partir da quebra de sigilo do telefone que o Renato utilizava. O homem com quem ele falava no Brasil e que funcionava como o intermediário político entre o Renato e os traficantes de drogas e armas era o deputado Flávio Brazino. O plano deles era usar a malha logística legítima do Grupo Alves para escoar entorpecentes e armas e lavar os ativos de toda a operação ilegal deles. Foi o próprio deputado quem forneceu ao Renato aquela foto antiga minha, obtida por meio de contatos escusos.
Fred enrijeceu no leito, o foco de operador ativando-se instantaneamente:
— Brazino... O Renato mentia para a Beatriz dizendo que eu operava em zonas de silêncio de rádio corporativo, mas ele estava usando os contratos que eu conseguia para se associar a um deputado e tentar usar a empresa para auxiliar o crime organizado.
— O nosso maior pesadelo é que a central de escutas registrou um contato considerado crítico — continuou Helena, a gravidade evidente em seu rosto.
— O agente que revelou seu segredo é um infiltrado na PF que estava na folha de pagamento do deputado. Ele ligou para Brazino e confirmou textualmente que o empresário Fred Alves é um operador de inteligência disfarçado. O deputado Flávio Brazino entrou em pânico total. Ele se vende para o eleitorado como um homem de fé, da família e conservador, mas nós levantamos que ele financia seus esquemas com tráfico de drogas, prostituição e casas de jogos ilegais, mantendo duas amantes e três filhos fora do casamento. Um legítimo político corrupto.
Helena cruzou os braços, detalhando a linha de perigo:
— Ao contrário de Renato, o deputado não é um homem inteligente e de visão. Ele imaginou que se os russos descobrirem que você é um agente, após as prisões que executamos na Europa — em especial a de Viktor Kovalenko —, a máfia russa vai achar que ele e o Renato eram informantes da Interpol fornecendo as informações sobre cargas e localização dos bandidos. Não passou pela cabeça curta dele que foi a nossa força-tarefa que obteve os dados. Temos que nos mexer agora para prender o deputado e verificar o que mais ele sabe.
Fred tentou mover o corpo para se levantar, mas Helena o conteve com firmeza:
— Você vai permanecer neste leito, Fred. Oficialmente a cúpula da Polícia Federal em Brasília ainda não foi notificada sobre esse disparo para evitar novos vazamentos. Os únicos cientes somos eu, o Mauro e os membros da Força-Tarefa internacional. Os seus companheiros já estão viajando para o Brasil neste exato momento para blindar o perímetro e capturar o deputado. Eles usaram como desculpa formal perante o departamento que estão vindo para impedir que você assine a papelada de desligamento da equipe. O General Vance isolou a missão. Nós vamos operar nas sombras, só que, considerando que nós só sabemos o que foi interceptado, temos que nos garantir para o caso de informações terem sido trocadas em reuniões presenciais, o que não parece ser o caso, mas é melhor prevenir. Por isso, você e sua família passarão a andar em carros blindados para segurança de Beatriz e Jonathan, principalmente.
— Concordo. – Disse Fred.