— Parte IV: Ibiúna, seis casais, uma noite
Existe uma coisa pior do que ver a sua esposa com outro homem.
É não ver.
Pra quem tá chegando agora: prazer, somos o Casal Apimentados.
Vamos nos apresentar como Jorge e Lúcia — nomes fictícios, por motivos que qualquer casal liberal entende.
Eu, Jorge: negro, 1,85 m, corpo forte sem ser musculoso, 33 anos na época.
Ela, Lúcia: 1,72 m, loira natural, olhos verdes, seios fartos e umas coxas grossas que sempre foram meu ponto fraco. Mesma idade que eu.
Casados há treze anos quando tudo isso começou. Nada de liberal, nada de swing, nada de nada — até uma tarde de 2017 numa feira erótica em São Paulo, quando um desconhecido no escuro fez uma pergunta que mudou o rumo do nosso casamento.
A pergunta foi: "com ou sem emoção?". E ela respondeu "com emoção".
É por isso que essa frase aparece em todos os nossos contos.
Nos contos anteriores: a feira erótica e o labirinto escuro (I), a nossa primeira noite no The26 Club com o Rodrigo e a Helena (II), e a quinta-feira em que um celular quase acabou com o nosso casamento — e o sábado que veio depois (III).
O convite
A Helena mandou a mensagem numa terça, com o celular da Lúcia aberto em cima da mesa da cozinha e nós dois lendo juntos.
Um sítio em Ibiúna. Casa grande, seis quartos, piscina aquecida. Doze pessoas — seis casais, todos conhecidos entre si, ninguém entrando de paraquedas. Chegada sábado às quatro da tarde, saída domingo depois do almoço.
Lúcia estava eufórica. Eu também, até chegar no último parágrafo.
"Só uma coisa: a casa tem uma regra. Vocês precisam saber antes de responder, porque muito casal desiste quando ouve."
Eu li duas vezes achando que era brincadeira.
Depois da meia-noite, nenhum casal pode ficar junto.
Você entra numa parte da casa, seu parceiro entra em outra. Não pode procurar. Não pode espiar. Não pode combinar de se encontrar "sem querer" no corredor. A regra vale até o café da manhã, e quem quebra é convidado a ir embora — os dois.
Eu larguei o celular na mesa.
— Que graça tem isso?
Lúcia não respondeu na hora. Ficou olhando pra tela com uma cara que eu conhecia — a mesma cara da fila do labirinto.
— Amor — ela disse. — Você percebeu que a nossa coisa inteira é eu te procurar com o olho?
— Percebi.
— E se não tiver olho?
O que a gente descobriu discutindo
A gente brigou por causa disso. Não brigou feio, mas brigou.
Meu argumento era o óbvio: o que faz aquilo funcionar pra mim é estar perto. É ela me achar. É o "com emoção" dito na cara dela. Tira isso e vira só... sexo com estranho. Qualquer um faz.
O argumento dela demorou três dias pra sair, e saiu numa quinta à noite, lavando louça de costas pra mim:
— Jorge, você tem certeza de que você gosta de me ver com outro? Ou você gosta de saber que eu volto?
Eu não respondi.
— Porque são coisas diferentes — ela continuou. — E eu quero saber qual das duas é.
E aí ela desligou a torneira, virou pra mim com as mãos ainda molhadas e falou a frase que fez a gente aceitar o convite:
— Eu quero uma noite em que eu não seja a sua mulher fazendo uma coisa com a sua autorização. Eu quero uma noite em que eu seja só eu.
Eu respondi pra Helena no sábado seguinte. Uma palavra: *vamos*.
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O sítio
Chegamos às quatro e dez, com uma mala pra dois e um silêncio nervoso no carro desde Cotia.
A casa era bonita sem ser exibida — madeira, pedra, um deck enorme dando pra um vale verde, piscina fumegando no frio de junho. Os donos, que eu vou chamar de Marcos e Dani, receberam a gente com abraço de quem conhece há dez anos.
E aí veio a parte que ninguém conta sobre esse mundo: as primeiras cinco horas foram absolutamente domésticas.
Churrasco. Cerveja. Uma roda de violão sofrível. Uma senhora de cinquenta e poucos — casada com um cara de sessenta — que contou a história de como eles entraram no lifestyle em 1994, quando não existia internet e o negócio era classificado de jornal. Todo mundo rindo. Uma discussão séria sobre o preço do metro quadrado em Ibiúna.
Lúcia de moletom e chinelo, sem maquiagem, com uma taça de vinho na mão, gargalhando de uma piada do Rodrigo.
Eu olhei pra ela naquele momento e pensei: eu vou perder essa mulher hoje.
Não perder de verdade. Perder de vista. E aquilo me dava um frio na barriga que eu ainda não sabia classificar.
Onze e quarenta
O Marcos bateu a colher no copo e explicou a regra em voz alta, pra todo mundo.
— Não é jogo. Não é castigo. É pra vocês descobrirem o que vocês querem quando ninguém tá olhando.
Falou do mesmo jeito calmo que a recepcionista do The26 tinha usado com a gente poucas semanas antes.
E completou:
— Quem não quiser participar, fica no chalé de baixo com o casal. Sem julgamento, sem cobrança, a casa é de vocês do mesmo jeito. Isso vale até meia-noite em ponto.
Eu olhei pra Lúcia.
Ela pegou minha mão.
E apertou.
Uma vez.
Ela tinha subido depois do jantar e trocado o moletom por um vestido verde-escuro que eu nunca tinha visto — comprado pra aquela noite, eu descobri depois.
Nos últimos dez minutos, a gente saiu pro deck sozinho. Frio de rachar. Ela de casaco por cima do vestido, eu sem casaco nenhum, bancando o forte e morrendo de frio.
— Se você quiser desistir, a gente desiste agora — ela disse. — E eu não vou tocar mais nesse assunto na vida.
— Você quer ir?
— Eu quero. — Ela nem pensou. — Mas eu quero mais não perder você.
Eu segurei o rosto dela com as duas mãos.
E falei, porque só tinha uma coisa pra falar:
— Com emoção, amor.
Ela chorou e riu ao mesmo tempo, me beijou uma vez, curto, e às onze e cinquenta e nove ela soltou a minha mão e foi pra ala leste.
Eu fiquei olhando ela ir embora pelo corredor.
Foi a coisa mais difícil que eu já fiz.
A ala oeste
Eram cinco pessoas do meu lado, contando comigo. Três mulheres, dois homens. Sala grande com lareira acesa, sofás fundos, uma garrafa de vinho aberta e nenhuma pressa.
E, pela primeira vez em toda essa história, eu estava sozinho.
Sem a Lúcia pra olhar. Sem ninguém pra pedir permissão. Sem plateia que importasse.
Levei uns quarenta minutos pra parar de olhar pra porta.
Quem sentou do meu lado foi uma mulher que eu vou chamar de Carol. Trinta e poucos, ruiva de tintura, tatuagem no antebraço, aquele tipo de pessoa que fala baixo e te obriga a chegar perto pra ouvir. A gente conversou sobre bobagem por meia hora — trabalho, série, o frio.
Aí ela falou:
— Você tá com cara de quem deixou alguma coisa do outro lado da casa.
— Tô.
— Quer falar sobre isso?
— Não.
Ela sorriu.
— Ótimo.
E me beijou.
Eu vou ser honesto sobre os primeiros dez segundos: eu não estava lá.
Minha cabeça estava num corredor da ala leste tentando adivinhar qual porta. Eu beijava uma mulher linda de olhos abertos, pensando na minha esposa, me sentindo um lixo por estar ali e um lixo maior ainda por ter deixado ela ir.
A Carol percebeu. Ela parou, encostou a testa na minha e falou:
— Ela tá bem. Você sabe disso.
— Sei.
— Então volta.
E eu voltei.
Foi diferente de tudo que tinha acontecido até ali.
Sem espelho, sem plateia, sem ninguém pra quem eu estivesse fazendo aquilo. Só eu e uma mulher que eu tinha conhecido cinco horas antes, no chão de um tapete grosso na frente de uma lareira, com o resto da sala fazendo suas próprias coisas e ninguém prestando atenção em ninguém.
Ela tirou a minha camisa devagar, com aquela calma de quem não tem pressa de chegar em lugar nenhum. Beijou meu peito, meu pescoço, mordeu meu ombro com força suficiente pra deixar marca — marca que eu ia ter que explicar depois, e que eu não expliquei porque a Lúcia viu, entendeu e não perguntou.
Eu deitei ela de costas no tapete e tirei o vestido dela puxando de baixo pra cima. Corpo pequeno, quente, arrepiado inteiro pelo calor da lareira de um lado e pelo frio do outro.
Eu desci a boca por ela sem pressa nenhuma. Barriga, quadril, coxa. Fiz com ela exatamente o que eu tinha visto a minha esposa fazer na Helena naquele quarto do The26 — provocando, chegando perto e voltando, até ela agarrar meu cabelo e falar meu nome de um jeito irritado.
Aí eu cedi.
Ela gozou com a coxa apertando a minha cabeça e a mão tapando a própria boca, e mesmo assim o som escapou e a sala inteira ouviu, e ninguém olhou, e isso me deixou mais duro do que se todo mundo tivesse olhado.
Eu entrei nela ali mesmo, no tapete, com o fogo estalando do lado. Devagar no começo, depois nem tanto. Ela enroscou as duas pernas na minha cintura e me puxou pra dentro com o calcanhar, e ficou repetindo *assim, assim, assim* no meu ouvido, e eu segurei o pulso dela contra o tapete e fiz do jeito que ela pediu até ela travar de novo.
Ela gozou pela segunda vez de olho fechado e testa franzida, e o corpo dela apertou o meu inteiro.
E eu gozei dentro dela pensando na minha esposa.
Isso é a coisa mais honesta que eu vou escrever nessa série. Eu gozei com uma mulher linda embaixo de mim, na frente de uma lareira, num sítio em Ibiúna — pensando na Lúcia.
E entendi, naquele exato segundo, a resposta da pergunta que ela tinha feito na pia da cozinha.
Não era ver.
Era saber que ela voltava.
Três e quarenta da manhã
Eu levantei do tapete, vesti a calça e fui até o corredor.
Fiquei parado na porta que separava as duas alas da casa por um tempo que eu não sei medir. Devia ter uns cinco metros de corredor até o outro lado. Cinco metros e uma regra.
Dava pra ouvir. Não a voz dela especificamente — dava pra ouvir a casa. Vozes abafadas, uma risada de mulher, uma cama, alguém andando descalço no piso de madeira.
Em algum daqueles quartos estava a minha mulher.
Eu coloquei a mão na maçaneta.
Fiquei assim uns dez segundos.
E tirei.
Voltei pro tapete, deitei de costas olhando o teto de madeira, com a Carol dormindo enrolada num cobertor do meu lado, e fiquei acordado até o sol nascer.
Não por ciúme. Juro que não era ciúme.
Era saudade. Uma saudade absurda, física, de uma mulher que estava a cinco metros de mim.
O café da manhã
Sete e meia. Sol batendo no deck, névoa subindo do vale, cheiro de pão na chapa.
Ela apareceu na porta da cozinha de moletom, cabelo preso num coque torto, sem maquiagem nenhuma, com aquela cara de quem dormiu duas horas.
A gente se olhou do outro lado da mesa por uns três segundos.
E aí ela atravessou a cozinha inteira, na frente de onze pessoas, subiu no meu colo com as duas pernas e me abraçou pelo pescoço com uma força que quase derrubou a cadeira.
Ficou ali. Sem falar nada. Uns dois minutos.
O sítio inteiro fingiu que não viu — e depois eu descobri que aquilo acontece todo santo domingo naquela casa, e que os donos chamam de "a hora do reencontro", e que é o motivo real da regra existir.
Quando ela finalmente falou no meu ouvido, foi isso:
— Nunca mais.
— Nunca mais o quê?
— Nunca mais uma noite sem te achar.
O que ela me contou na volta
Na estrada, com a serra passando pela janela, ela me contou tudo. Sem eu perguntar. Nome, quem, quantos, o quê — e eu escutei tudo sem sentir nada além de tesão e um orgulho esquisito.
Mas teve uma parte que ela demorou pra falar.
— Teve uma hora que eu quebrei a regra.
Eu olhei pra ela.
— Umas três e meia. Eu fui até a porta do corredor. — Ela riu, sem graça. — Fiquei com a mão na maçaneta que nem uma idiota.
Eu tive que encostar o carro.
Duas semanas depois, a Dani ligou pra Lúcia com uma proposta diferente.
Não era um convite pra festa.
Era um convite pra gente receber. Na nossa casa. Com a nossa cama, o nosso banheiro, os nossos porta-retratos na estante.
E eu descobri que existe uma diferença gigantesca entre fazer isso fora — e abrir a sua porta.
Isso eu conto na Parte V.
Casal Apimentados
