MENTIRAS PERFEITAS
Capítulo 3 – A Mentira Perfeita
Parte 1 – A obsessão
A fotografia publicada nos jornais desapareceu das manchetes em poucos dias.
Como acontece com quase todas as notícias, foi substituída por acontecimentos mais recentes.
Na casa dos Alves, a vida voltou ao ritmo habitual.
A mente humana possui uma capacidade extraordinária de ignorar sinais de perigo quando eles surgem de forma gradual. Na Alves Participações, a aparente normalidade operava como uma anestesia. Fred cumpria suas rotinas institucionais, Beatriz gerenciava os contratos com precisão cirúrgica e Renato movia-se pelas sombras da corporação, cada vez mais focado em alimentar sua teia.
Para Beatriz, o episódio transformou-se apenas em mais um dos inúmeros sustos provocados pelas constantes viagens do marido.
Para Renato, porém, aquela fotografia nunca saiu de sua cabeça.
Em seu escritório, já tarde da noite, ele ampliava a imagem repetidas vezes na tela do computador.
Observava cada detalhe.
Cada sombra.
Cada reflexo.
Cada expressão do irmão.
Não era apenas curiosidade.
Era uma obsessão crescente.
Ele ignorava que suas buscas já orbitavam o monitoramento discreto da Polícia Federal. Suas precauções nasciam de uma paranoia doentia e do medo obsessivo de que qualquer rastro digital pudesse vazar na rede, alertar Fred e arruinar sua cartada.
Por puro instinto de preservação, ele baniu o uso de e-mails pessoais e celulares para tratar do plano, limitando suas interações com Gustavo Nogueira a mensagens cifradas com códigos puramente comerciais sobre 'atualizações de campanhas de publicidade' da empresa, sem qualquer anexo, menção explícita a adulterações ou menção aos nomes de Fred ou daquela mulher, que seria apresentada para Beatriz como amante do irmão na fraude.
Os agendamentos de reuniões ocorriam de forma estritamente offline.
— Você não está correndo como alguém que foi pego de surpresa... — murmurou.
Pegou outra fotografia.
Depois outra.
Imagens corporativas.
Fotos de eventos.
Entrevistas.
Conferências internacionais.
Começou a compará-las.
A postura era sempre semelhante. As costas eretas. O olhar atento. Os movimentos econômicos. Como se Fred estivesse constantemente avaliando tudo ao seu redor.
Renato não possuía treinamento suficiente para compreender o que estava vendo. Mas percebia que havia algo diferente. Algo incompatível com a vida de um empresário comum.
Na manhã seguinte, Helena recebeu um telefonema criptografado.
— Relatório.
Ela abriu o notebook.
— O alvo demonstra crescente interesse pelas viagens de Frederico Alves — relatou Helena, acessando a intranet segura da Polícia Federal a partir de sua base móvel em Brasília.
— Depois da fotografia publicada na imprensa checa sobre o tiroteio que quase expôs a Força-Tarefa, ele intensificou buscas sobre deslocamentos internacionais e iniciou contato com profissionais ligados à manipulação digital.
Nossas sondagens via Operação Janus indicam que ele está se aproximando de fornecedores táticos offline.
A voz do outro lado permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Continue. Mas não interfira. Ainda precisamos descobrir até onde ele pretende chegar.
— Entendido.
Quando desligou, Helena caminhou até a janela. Conhecia Fred havia muitos anos. Sabia que, se Renato continuasse naquela direção, mais cedo ou mais tarde cruzaria uma linha perigosa.
O problema era que Fred ainda ignorava completamente a dimensão daquela obsessão.
Naquele mesmo dia, Fred retornava de uma reunião com investidores. Ao chegar à empresa, encontrou Beatriz revisando documentos. Ela sorriu ao vê-lo.
— Você chegou cedo.
— Cancelaram uma reunião.
Ela fechou a pasta.
— Tempo livre?
— Então vou aproveitar.
— Aproveitar o quê?
— Roubar meia hora do seu dia.
Ele riu.
— Autorizado.
Saíram caminhando pelo jardim da empresa.
Era um hábito antigo.
Sempre que conseguiam alguns minutos livres, caminhavam entre as árvores plantadas pelo pai de Fred décadas antes.
O aroma característico de terra molhada e as copas generosas das mangueiras antigas criavam um refúgio de calmaria em meio à arquitetura de concreto de Brasília.
— Lembra quando isso aqui era só um terreno vazio? — perguntou Beatriz.
— Lembro. Meu pai dizia que empresa boa precisa criar raízes.
Ela sorriu.
— Acho que ele tinha razão.
Fred parou diante de uma das árvores mais antigas.
— Quando ele morreu, pensei que não fosse conseguir.
— Conseguir o quê?
— Manter tudo funcionando.
Beatriz segurou sua mão.
— Você não manteve sozinho.
Ele olhou para ela.
— Eu sei. Foi justamente por isso que consegui. Sem você isso seria impossível.
Ela sorriu.
— Ainda bem que você finalmente admite.
— Eu nunca neguei isso!
Os dois riram.
À distância, Renato observava a cena através da janela do segundo andar.
Seu semblante endureceu.
Mais uma vez percebia que, apesar das ausências frequentes, o vínculo entre os dois permanecia intacto.
Enquanto existisse aquele amor, jamais conseguiria ocupar o lugar do irmão. Precisava destruir a confiança.
Era o único caminho.
Na universidade, Jonathan, que passava as tardes no laboratório avançado de computação da universidade mergulhado na evolução do seu projeto de detecção de fraudes digitais, apresentava seu algoritmo a uma banca de professores.
Na tela, duas imagens aparentemente idênticas. O software, batizado oficialmente por ele de "Olho que Tudo Vê" — após Larissa proibir terminantemente que ele usasse o nome "Olho de Sauron" em uma bem-humorada homenagem ao filme O Senhor dos Anéis —, rodava sua análise forense em tempo real.
— Qual delas é falsa? — perguntou um dos avaliadores.
Jonathan respondeu calmamente:
— Nenhuma pessoa conseguiria identificar apenas olhando. Mas o meu sistema faz uma varredura profunda através de redes neurais convolucionais.
— Explicando de forma simples para quem não é da área da computação — continuou Jonathan, olhando sutilmente para Larissa que assistia dos fundos —, o programa funciona como um microscópio digital de alta precisão. Ele estuda o ruído térmico do sensor da câmera, que é uma espécie de 'impressão digital' invisível que cada lente deixa na foto, técnica chamada de PRNU.
Enquanto falava, Jonathan ajustava as linhas de código em Python para mapear o ruído térmico do sensor da câmera.
O "Olho" também vasculha a chamada transformada discreta de cosseno, ou DCT, que basicamente calcula os borrões e os erros de compressão matemática nos blocos de pixels. Ele sabia que qualquer imagem manipulada por inteligência artificial generativa ou deepfake deixa artefatos invisíveis ao olho humano na transformada discreta de cosseno. Quando uma inteligência artificial tenta criar uma imagem do nada ou gerar alterações de difusão latente, ela deixa pequenos 'fantasmas' de iluminação e textura na pele. O olho humano é enganado, mas o código não.
Alguns segundos depois, linhas vermelhas começaram a surgir sobre uma das fotografias.
O software indicava pequenas inconsistências na iluminação, na textura da pele e no padrão de compressão.
Os professores trocaram olhares.
— Impressionante.
Jonathan sorriu discretamente. Ainda havia muito a melhorar. Mas o sistema começava a funcionar.
Larissa aproximou-se em silêncio, deixando uma lata de refrigerante ao lado do mousepad.
— Você está digitando tão rápido que parece que o teclado vai derreter.
Jonathan sorriu de canto, sem desviar a atenção das telas duplas onde matrizes matemáticas oscilavam.
— Consegui calibrar o filtro de detecção de artefatos de difusão latente. Agora, se alguém alterar um único pixel usando uma IA generativa, o programa acende um alerta vermelho em menos de três milissegundos.
Larissa sentou-se na borda da bancada, observando o namorado com admiração sutil.
— Você fala disso como se estivesse desarmando uma bomba.
— No mundo digital moderno, Larissa, uma imagem adulterada no lugar certo tem exatamente o mesmo poder de destruição de uma bomba. Eu só quero garantir que a verdade não seja editada.
Sem perceber, desenvolvia exatamente a ferramenta que, meses depois, salvaria sua família.
Naquela semana, Renato decidiu realizar um experimento.
Não contra Fred. Contra a própria tecnologia. Encontrou-se novamente com Gustavo. Levou imagens públicas de um ator famoso e solicitou uma demonstração. Algumas horas depois, assistia ao resultado. A reprodução impressionava. Expressões. Movimentos. Entonação da voz. Tudo parecia assustadoramente real. Mesmo sabendo que era falso, precisou assistir duas vezes para identificar pequenas imperfeições.
Gustavo fechou o computador.
— Ainda existem limitações, mas a tecnologia evolui praticamente todos os meses.
Renato perguntou:
— E daqui a um ano?
— Provavelmente será muito difícil distinguir realidade e fabricação.
— Material não falta. Com isso aqui, dá para reconstruir voz, expressões, movimentos... — Fez uma pausa. — Desde que seja para uma finalidade legal.
Renato permaneceu em silêncio. Era exatamente o que precisava ouvir.
Saiu da sala deixando Gustavo intrigado. Ele não sabia que acabara de dar o primeiro passo rumo a um crime sofisticado.
Naquela mesma madrugada, Fred acordou subitamente. Levantou-se sem fazer barulho. Foi até a cozinha beber água. Beatriz apareceu poucos minutos depois.
— Também perdeu o sono?
Ele sorriu.
— Acho que sim.
Ela encostou-se ao balcão.
— Você anda preocupado.
Fred hesitou. Depois respondeu:
— É só trabalho.
Ela aproximou-se.
— Você sabe que pode contar comigo.
A frase fez Fred sentir um peso no peito. Podia contar com ela para tudo. Exceto para aquilo que mais precisava compartilhar. Ele segurou delicadamente as mãos da esposa.
— Eu sei. E é justamente por saber disso que tento não trazer certos problemas para dentro de casa.
Beatriz sustentou seu olhar.
Havia amor.
Havia confiança.
Mas também havia uma pergunta silenciosa que voltava todas as vezes que ele viajava.
Que problemas eram esses?
Fred desviou o olhar por um breve instante.
Foi suficiente.
Pela primeira vez desde o casamento, Beatriz percebeu que existia uma parte da vida do marido que talvez jamais conhecesse.
A dúvida durou apenas alguns segundos, mas como uma pequena rachadura em um vidro, bastava existir para que um dia pudesse crescer.
Fred apenas apertou as mãos dela de forma terna, despedindo-se daquele silêncio incômodo com um beijo na testa antes de ambos retornarem ao quarto.
O peso daquela conversa inacabada flutuou sobre o aposento até que a madrugada cedesse espaço para a luz clara do dia seguinte, sem que o casal encontrasse o habitual alinhamento físico nas cobertas.
No escritório, já quase amanhecendo, Renato abriu uma pasta vazia em seu computador.
Digitou um único nome:
PROJETO VERDADE
Sorriu sozinho.
Ainda levaria meses.
Talvez um ano.
Não tinha pressa.
Mentiras realmente perigosas não nasciam da improvisação.
Nasciam da paciência.
E Renato era um homem extraordinariamente paciente.
Capítulo 3 – A Mentira Perfeita
Parte 2 – A construção da armadilha e o primeiro teste
Renato aprendera, ainda muito jovem, que existiam duas formas de destruir alguém.
A primeira era atacando diretamente.
A segunda era fazendo com que a própria vítima destruísse aquilo que mais amava.
Sempre preferira a segunda.
Era mais lenta.
Mais sofisticada.
E deixava menos vestígios.
Os meses seguintes consolidaram um dos melhores períodos da história da Alves Participações. Os contratos internacionais assinados por Fred começavam a produzir resultados concretos.
A empresa inaugurou um novo centro de distribuição. Ampliou sua atuação no mercado europeu. Firmou parcerias tecnológicas com empresas italianas, portuguesas e canadenses. A imprensa especializada destacava a competência da administração.
Em uma revista de economia, a manchete ocupava duas páginas:
"Empresa familiar brasileira cresce apostando em relações internacionais."
A reportagem elogiava a combinação entre duas lideranças muito diferentes.
Fred, descrito como um executivo reservado, estrategista e habilidoso na abertura de novos mercados.
Beatriz, apresentada como a administradora que transformava oportunidades em resultados concretos.
A reportagem usou duas fotos dos dois.
Uma na porta da empresa, acompanhados por alguns funcionários (Fred e Beatriz faziam questão de dividir o sucesso com eles) e outra em casa, com Jonathan (Larissa não quis participar, embora tivesse sido convidada por já ser considerada parte da família).
Ao terminar a leitura, ela sorriu.
Não gostava dos holofotes, mas sentia orgulho daquilo que haviam construído juntos.
Olhando a matéria, Beatriz recordou-se sutilmente do doce de Florença, do colar de safira e da noite do aniversário de casamento de vinte e um anos; aqueles eram alguns dos momentos de felicidade inabalável que operavam como as âncoras emocionais que a mantinham firme.
Naquela noite, Fred chegou em casa trazendo uma garrafa de vinho. Jonathan e Larissa também apareceram para o jantar.
Maria preparara lasanha, receita herdada da mãe de Fred.
Durante a refeição, o ambiente era leve.
Jonathan comentou:
— Pai, um professor mostrou a reportagem da empresa na aula de administração.
Fred levantou as sobrancelhas.
— Espero que tenha falado bem.
— Falou que vocês são um exemplo de sucessão familiar bem-sucedida.
Beatriz sorriu.
— Seu avô ficaria feliz ouvindo isso.
Jonathan olhou para o pai.
— Às vezes esqueço que você herdou tudo isso tão novo.
Fred permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Herdar é a parte mais fácil. Difícil é honrar quem veio antes.
A frase ficou gravada na memória de Jonathan. Anos depois, ela faria ainda mais sentido.
Larissa fez, então, um comentário simulando ciúmes:
— Tive que ouvir piadas das minhas amigas que meu namorado era muito gato, mas que meu sogro também não ficava atrás e como eu conseguia frequentar uma casa dessas.
Beatriz sorriu e perguntou:
— E qual a resposta que você deu para elas?
— Que eu estava muito bem servida com meu namorado, que não tinha necessidade de olhar para qualquer outro homem, especialmente meu sogro gato que, por sinal, mostrava como meu namorado será no futuro e que a minha sogra é tão linda que meu sogro só tem olhos para ela!
— Excelente resposta! Jonathan, está vendo por que sempre gostei dela?
E todos começaram a rir e conversar sobre como será que Jonathan seria no futuro, quando envelhecesse.
Enquanto a família celebrava, Renato isolava-se em seu apartamento. No monitor desconectado, ele estruturava o acervo físico de mídias que alimentaria o embuste.
O mapeamento biométrico de Fred avançava quadro a quadro, dividindo espaço com as filmagens analógicas de Helena que o fotógrafo de campo lhe entregara em mãos.
Nada de e-mails ou mensagens móveis; a paranoia ditava que a arquitetura da farsa permanecesse estritamente offline para evitar rastreamentos.
Renato não compreendia profundamente o funcionamento da inteligência artificial, mas aprendera o suficiente para saber que quanto maior fosse a quantidade de material, mais convincente seria o resultado.
Ainda assim, não tinha intenção de agir imediatamente.
Precisava de algo mais.
Precisava compreender Beatriz.
Suas inseguranças.
Seus medos.
Suas fragilidades.
Foi por isso que começou a intensificar sua presença na empresa.
Sem parecer invasivo.
Sem chamar atenção.
Passava para tomar um café.
Oferecia ajuda em reuniões.
Perguntava sobre clientes.
Comentava assuntos administrativos.
Tudo de forma aparentemente natural.
Em uma tarde particularmente cansativa, encontrou Beatriz sozinha na copa.
— Café?
Ela sorriu.
— Hoje acho que preciso de dois.
Renato preparou as xícaras. Entregou uma a ela.
— Você anda trabalhando demais.
— O mercado está exigindo.
— E o Fred continua viajando.
Ela respondeu com naturalidade.
— Faz parte do trabalho dele.
Renato apenas assentiu.
Não insistiu.
Ainda não era o momento.
Dias depois, outra viagem levou Fred à Europa.
O destino final da rota corporativa era Milão, na Itália. Ele cruzou a pé os caminhos de pedra da histórica Via Monte Napoleone sob a névoa fria do outono, antes de ingressar nos complexos empresariais localizados nas adjacências da monumental Piazza del Duomo.
Como sempre, a agenda empresarial foi cumprida rigorosamente.
Na manhã de terça-feira, reuniu-se com representantes de uma companhia ferroviária.
À tarde, visitou uma fabricante de equipamentos industriais.
No dia seguinte, participou de um fórum internacional sobre infraestrutura.
Todos os compromissos produziram resultados reais para a empresa.
Ao mesmo tempo, em horários que jamais apareciam na agenda oficial, encontrava-se com pessoas cujo nome nunca poderia constar de qualquer relatório empresarial.
Ao retornar ao hotel, abriu discretamente um notebook protegido por múltiplas camadas de segurança.
Leu os informes recebidos.
Digitou poucas linhas.
Apagou os registros temporários.
Fechou o equipamento.
Olhou pela janela.
Em seguida, pegou o celular e ligou para casa.
Beatriz atendeu sorrindo.
— Como foi o dia?
Fred respondeu com sinceridade.
— Cansativo, mas produtivo. E você?
— Conseguimos fechar o balanço do trimestre.
— Sabia que conseguiria.
Ela hesitou por um instante.
— Quando você volta?
— Sábado.
— Vou fazer seu prato favorito.
Ele sorriu.
— Então sábado não falto de jeito nenhum.
Após desligar, Beatriz permaneceu alguns segundos olhando a tela apagada do telefone.
Maria aproximou-se.
— Está com saudade.
Ela sorriu.
— Sempre.
Maria serviu chá.
— Seu marido vive viajando, mas nunca vi um homem olhar para a esposa do jeito que ele olha para a senhora.
Beatriz riu discretamente.
— Às vezes acho que nem mereço tanto.
Maria respondeu com convicção.
— Merece. Os dois merecem. Só peço a Deus que continuem enxergando isso.
A frase passou despercebida, mas soava quase como um presságio.
Na mesma semana, Helena entregava mais um relatório.
As informações começavam a preocupar.
Renato ampliara significativamente seus contatos com especialistas em inteligência artificial e manipulação audiovisual.
Também realizava consultas frequentes sobre tecnologias de clonagem de voz e reconstrução facial.
Ainda não havia crime. Pesquisar tecnologia não era ilegal. Mesmo assim, a convergência daqueles fatos chamava atenção.
Um dos analistas comentou:
— Talvez seja apenas curiosidade.
Helena respondeu:
— Ou talvez esteja aprendendo uma ferramenta antes de utilizá-la.
O coordenador da equipe fechou a pasta.
— Continuem monitorando. Qualquer mudança de comportamento deve ser comunicada imediatamente.
Na sexta-feira, Fred retornou ao Brasil.
No aeroporto, comprou uma pequena caixa de bombons artesanais. Não havia nenhuma data especial.
Nenhum aniversário.
Nenhuma comemoração.
Apenas lembrou que Beatriz gostava daquele chocolate.
Quando entrou em casa, entregou-lhe a caixa. Ela sorriu.
— Você não cansa de me mimar?
— Ainda estou compensando as viagens.
Ela brincou:
— Nesse ritmo, vou querer que viaje mais.
Os dois riram.
Jonathan, que acabava de chegar da universidade, observou a cena. Olhou para Larissa e comentou baixinho:
— Meu pai ainda conquista minha mãe como se eles tivessem começado a namorar ontem.
Larissa sorriu.
— Espero que você aprenda com ele.
Jonathan respondeu imediatamente:
— Essa parte eu faço questão de aprender.
Os quatro seguiram conversando na varanda até o anoitecer.
Renato jamais imaginaria que aquelas pequenas demonstrações de carinho eram exatamente o motivo pelo qual precisaria recorrer a uma mentira muito maior do que qualquer uma que já contara. Porque apenas uma prova aparentemente irrefutável seria capaz de romper um amor construído durante vinte e dois anos de vida juntos.
Os grandes planos não fracassam, normalmente, por falta de inteligência. Fracassam por falta de paciência.
Renato conhecia essa diferença.
Durante quase um ano, limitara-se a observar.
Colecionara fotografias. Vídeos. Entrevistas. Registros públicos. Informações empresariais.
Mapeara a rotina de Fred.
Conhecia seus horários de embarque.
Os hotéis que costumava utilizar.
Os restaurantes onde fechava negócios.
Os países visitados com maior frequência.
Quanto mais investigava, mais encontrava evidências de um empresário exemplar. Isso o irritava.
Não existia qualquer amante.
Nenhuma conta suspeita.
Nenhum luxo incompatível com o patrimônio.
Nenhum comportamento capaz de justificar uma crise no casamento.
Era preciso criar aquilo que a realidade insistia em negar.
Em outra parte da cidade, Helena analisava o mesmo problema sob uma perspectiva completamente diferente.
Os relatórios acumulados nos últimos meses mostravam um padrão preocupante. Renato havia deixado de apenas fazer perguntas, mas nada do que fazia, de maneira isolada, representava um crime. Em conjunto, porém, desenhavam um comportamento incomum. Ela preparou um relatório mais detalhado. Na conclusão escreveu apenas uma frase:
"O alvo demonstra planejamento incompatível com mera curiosidade empresarial."
O documento seguiu para análise. Helena ainda não sabia qual seria o próximo passo de Renato. Mas tinha certeza de que ele estava deixando de investigar. Passava a construir.
Na Alves Participações, a rotina seguia intensa. Naquela manhã, Fred e Beatriz reuniram-se com representantes de um grupo espanhol interessado em instalar uma unidade de produção no Brasil.
As negociações duraram mais de quatro horas. Ao final, um dos executivos estrangeiros comentou:
— Trabalhamos com muitas empresas familiares. É raro encontrar um casal que consiga separar sentimentos das decisões empresariais.
Fred sorriu.
— Não separamos. Aprendemos a fazer os dois caminharem juntos.
Beatriz completou:
— Quando existe confiança, uma coisa fortalece a outra.
A frase foi dita naturalmente. Nenhum dos dois imaginava a ironia que carregava.
Após a reunião, já no estacionamento, Beatriz entrou no carro ao lado do marido. Permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Posso fazer uma pergunta?
Fred sorriu.
— Desde quando precisa pedir autorização?
Ela respirou fundo.
— Você já pensou em diminuir essas viagens?
Fred demorou alguns instantes para responder. Não porque não soubesse a resposta. Mas porque precisava escolher cuidadosamente cada palavra.
— Todos os dias.
Ela voltou-se para ele.
— Então por que continua?
Fred apoiou as mãos sobre o volante e sentiu o peso da pergunta antes mesmo de respondê-la. Por um instante, imaginou contar tudo: que nunca pediu exoneração da Polícia, o uso do seu papel de empresário como fachada, a morte da mãe e o autor do crime sem punição, a sua obsessão em fazer justiça, a força-tarefa, os nomes, os riscos, os rostos que vira cair, as vidas que foram salvas pelas operações em que participou porque ele aceitara mentir para quem mais amava, os filhos que não perderam pais e mães...
Mas a imagem de Beatriz em perigo surgiu antes das palavras. Então ele escolheu novamente o silêncio.
— Porque, neste momento, ainda é necessário.
Beatriz manteve os olhos fixos nele.
— Necessário para a empresa?
A pergunta ficou suspensa entre os dois.
Fred respondeu apenas:
— Para tudo aquilo que construímos.
Ela aceitou a resposta, mas percebeu que ela continuava incompleta.
Foi a primeira vez que saiu de uma conversa com o marido sentindo que havia recebido apenas parte da verdade.
Na universidade, Jonathan encerrava mais uma etapa de seu algoritmo. O software executava varreduras estatísticas automatizadas por meio de blocos lógicos, analisando a integridade estrutural de compressão nos formatos JPEG e calculando o índice de inconsistência cromática latente. Agora o sistema era capaz de comparar milhares de quadros de um vídeo e vários minutos de áudio em poucos minutos. O professor examinava os resultados.
— Você percebe que isso tem aplicações muito além da pesquisa acadêmica?
Jonathan sorriu.
— Imagino.
— Esse tipo de ferramenta pode ajudar a combater fraudes digitais.
Ele apenas assentiu.
Nunca havia pensado seriamente nisso. Seu interesse era puramente técnico. Sem perceber, aproximava-se cada vez mais do papel que desempenharia no futuro.
Meses depois, Renato voltou a encontrar Gustavo Nogueira. Desta vez, levou consigo um pendrive.
Ciente de seus próprios temores e agindo puramente por paranoia tática contra vazamentos, Renato agendara aquele encontro utilizando estritamente a linha telefônica fixa analógica de sua mesa na Alves Participações, sabendo que centrais físicas prediais não sofriam varreduras automáticas de pacotes.
No escritório isolado, ele abriu a pasta de arquivos diretamente de dentro do pendrive físico, mantendo o computador de Gustavo completamente desconectado de qualquer rede de internet.
— O que tem aqui?
— Fotografias. Vídeos. Entrevistas. Palestras. Tudo do meu irmão.
— E há uma seção reservada em separado — acrescentou Renato, o tom de voz sombrio e baixo. — São registros em altíssima resolução de uma mulher que costuma frequentar os mesmos congressos internacionais que o Fred no exterior e que jantou comigo em Brasília. Contratei um fotógrafo profissional, para segui-la e filmá-la à distância em saguões de hotéis e restaurantes em mãos. Quero que sua tecnologia cruze os dados biométricos corporais e as vozes de ambos.
Gustavo analisou o dispositivo isolado. Havia centenas de arquivos brutos (raw).
— Para que você quer isso?
Renato respondeu sem hesitar.
— Quero saber até onde sua tecnologia consegue chegar.
Gustavo abriu alguns vídeos.
— Ainda estamos falando apenas de possibilidades. Disse Renato.
— Claro. Mesmo assim, preciso saber exatamente o objetivo.
Renato levantou-se.
— Quando chegar a hora certa, conversaremos.
Na mesma noite, Fred retornou para casa.
Encontrou Jonathan e Larissa organizando fotografias antigas da família.
Maria havia separado alguns álbuns para digitalização.
Jonathan ria ao mostrar uma imagem de quando tinha de cinco anos.
— Mãe, olha o corte de cabelo do pai.
Fred aproximou-se.
— Isso era moda.
— Nunca foi.
Todos riram.
Beatriz folheava outro álbum. Entre as páginas encontrou uma fotografia tirada em Florença, muitos anos antes.
Ela e Fred apareciam sentados em uma pequena confeitaria. Sobre a mesa estava exatamente o doce italiano que ele trouxera como surpresa no aniversário de casamento.
Ela sorriu sozinha.
— Lembra desse dia?
Fred olhou a fotografia.
— Como esquecer? Você disse que, se um dia voltássemos à Itália, queria comer aquele doce de novo.
Ela respondeu:
— E você lembrou tantos anos depois.
Jonathan aproximou-se.
— Vocês realmente lembram dessas coisas?
Fred respondeu de forma branda:
— A nossa mente armazena aquilo que a nossa essência define como precioso, Jonathan. É puramente uma prioridade do afeto — pontuou Fred, fixando os olhos nos dele.
— Ou, em outras palavras, a memória guarda aquilo que o coração considera importante.
Larissa sorriu discretamente. Guardou aquela frase para si.
Mais tarde, quando todos já haviam ido dormir, Beatriz permaneceu alguns minutos na sala.
Retirou o colar de safira apenas para limpá-lo com um pano macio.
Observou o brilho da pedra refletindo a luz do abajur.
Sorriu. Voltou a colocá-lo.
Fez isso quase sem pensar. Como quem veste uma lembrança.
No andar de cima, Fred fechava o notebook de trabalho.
Antes de apagar a luz, olhou uma fotografia do jantar comemorativo pelos vinte e um anos de casamento.
Na imagem, Jonathan aparecia rindo de alguma piada.
Larissa olhava discretamente para ele.
Beatriz sorria usando o colar recém-presenteado.
Fred ficou alguns segundos contemplando aquela cena.
Não sabia explicar por que, mas teve a estranha sensação de que precisava proteger aquela felicidade.
Mesmo sem compreender exatamente de quem.
Na manhã seguinte, Renato recebeu um e-mail de Gustavo pedindo que entrasse em contato. Valendo-se de sua costumeira paranoia para evitar pegadas na rede móvel, Renato fez a chamada utilizando estritamente o ramal fixo analógico de sua sala corporativa.
— Acho que encontrei alguém.
— Alguém para quê?
— Um especialista. Um dos melhores do país. Ele não faz perguntas. Só cobra caro.
Renato permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu calmamente:
— Marque a reunião. Chegou a hora de transformar um plano em realidade.
Naquele instante, sem que qualquer membro da família Alves soubesse, a mentira deixava de ser apenas uma ideia.
Ela acabava de ganhar um autor.