Capítulo XXXI – Cavalo rebelde
Existe uma diferença crucial entre predadores e presas e, como toda diferença crucial, é inevitável que, em algum momento, nossa espécie seja confrontada com ela... A primeira vez que esse dilema me apareceu foi na adolescência. Havia um jogo de terror que todos estavam jogando e que eu, como se fugisse de uma terrível verdade, tentava evitar: Silent Hill 2.
Talvez o leitor já o tenha jogado, talvez o leitor seja presa, como eu. Nesse caso, tudo o que posso dizer é: evite ao máximo saber. Não porque o jogo seja em si ruim — pelo contrário, é certamente um marco do gênero —, mas, antes, porque ele entrega, sem que possamos antecipar, algo que cordeiro nenhum tem estômago para aguentar...
Fuja desse jogo e largue a leitura aqui se você não se souber predador, ou, antes, se quiser continuar se iludindo...
Jogamos controlando James, um homem em busca de seu desaparecido amor, que acaba chegando a uma cidade imersa em uma densa neblina... Nela, somos perseguidos por vários tipos de criaturas monstruosas, dentre elas, o pior dos horrores: Pyramid Head. Presas como eu tentam fugir do monstro o máximo que podem, até o jogo obrigar um encontro... Pyramid Head é o próprio abismo e, surpreendentemente, descobrimos que ele está nos ajudando?! Somos então obrigados a encarar a cruel realidade: ele não é tão diferente do protagonista. Não porque o monstro não seja monstruoso, mas antes porque jogamos com um protagonista monstruoso... estamos à beira do abismo... somos o próprio abismo.
O jogo não facilita, ele força uma escolha, e nesse momento somos obrigados a decidir entre o fim honrado dos predadores ou a covardia de seguir sobrevivendo, própria das presas.
(Caligrafia diferente, definitivamente Ártemis)
“O Potro falava muito desse jogo; como semiletrado que era, não havia muito sobre o que pudesse falar. A fama me surpreende menos que o gênero: o que antes era a verdade dos épicos, quando existiam povos, hoje, na era da humanidade, tornou-se horror. Sendo a verdade essencial da espécie, que pode pastar ou predar, toda a arte, desde a grega, reflete esse dilema: haverá o momento em que cada um terá que decidir se é presa ou predador. Nesse momento, o herói grego, o predador entre os predadores, entende que seguir vivo é tornar-se presa e, retirando da natureza o destino de ser predado, ele interrompe a própria vida. O abismo o olha, e ele se retira!”
Em minha estadia no Estábulo, a cocheira oscilou entre espaço seguro e espaço limitado... em meus últimos instantes, ela parecia não ter um palmo além do necessário para me abrigar espremido... Queria poder andar nela... não conseguia ficar parado...
Epona, que durante tanto tempo fez troça de mim, que me bateu... me espancou... agora revelava que eu, mísero verme que lambeu sua bota, tinha razão? Que eu pudesse estar certo e, mais, que ela tinha ficado brava porque não queria reconhecer a validade do meu juízo? Revivia sem parar sua fala — “... acho que... posso ser mulher que faz taxidermia” — enquanto ensaiava semicírculos em meu claustro...
Minha Senhora havia me confessado algo que talvez ela não soubesse de si até aquele ponto... algo que ela não poderia aceitar de si: teve que aceitar, pela maldita sociedade, que era taxidermista e que, portanto, não poderia ser mulher... e agora me revelava isso, convidava-me para perverter a perversão que fizeram com ela... convidava-me para ser o homem que a reconheceria como mulher... mas nem cavalo eu era?
Estava excitado... profundamente excitado... meu corpo vibrava, meu estômago se revirava, meu pau solavancava e batia contra meu umbigo... Desde que cheguei ao Templo, desde a circuncisão — enquanto não a sabia como tal —, nunca tinha passado por um período pior... tudo me lembrava a minha antiga sociedade... o trabalho repetitivo, as ordens, os gritos e até mesmo os safanões de Epona... ela não batera no Potro... ela batia no que restava do homem... e então... e então... eu vencia? Meu sofrimento... seria, no Templo de Ártemis, valorizado? Eu conquistara a mulher impossível? Mas essa não era Ártemis... sim, havia Ártemis...
Tentei me acalmar... tentei encarar que, na verdade, tudo era apenas mais um teste de Epona... estava tentando me seduzir para me fazer esquecer Ártemis. O jantar, o vinho e os flertes viriam a ser a prova final... Mas prova de quê? Eu ainda nem tinha passado pelo "Cavalo Gentil", tinha? Não... não era prova... Epona me mordeu, uma mordida doída... ela não poderia estar fingindo... tramando... ela comemorou comigo a minha vitória e eu comemorei com ela a sua vitória. Minha Senhora queria que eu a abrigasse, como no dia em que repousou sobre meu peito... queria ser a mulher que era... ser a mulher que faz taxidermia...
Mas se isso era verdade, se isso era o que ela esperava de mim... a minha situação era ainda pior... eu não estava à sua altura para reconhecê-la como tal... Epona era mulher, eu era Potro! E era Potro pior do que o Outro, eu gozei no gozo do Outro... como gozaria meu gozo? Minha Senhora, em seu momento mais humano, mais gentil... infligia-me a pior das violências... ela queria um Homem e eu... eu era um Potro, uma presa? Como poderia satisfazê-la?
Lembrei-me do jantar, em um restaurante chique, a que um amigo abastado me convidara... lembrei-me da dúzia de talheres, dos dois pratos sobrepostos, dos guardanapos, da música clássica... o vinho, então? Eu não entendia nada de vinhos... poderia girar a taça e dizer algo pretensioso? Mas como não soar falso, pedante, vazio? Como satisfaria uma amazona... Epona matava... sim, ela havia matado algumas vezes... eu... eu... estava chorando.
Como poderia estar chorando... como poderia ser tão covarde... como eu sonhei em receber uma cartinha de amor... como eu sonhei em ter alguém com quem dançar nas festas... como eu me esforçava para ser útil a qualquer mulher que me pedisse ajuda? Meu pau reagia... duro... forte... viril... Ártemis não havia me notado pelo pau? Sim... ela tinha, e Ártemis bateu em Epona... era isso... tinha que ser isso... Ártemis via por baixo de tudo isso... via além de minhas lágrimas e de minhas autossabotagens... havia um homem... havia um pau duro!
Eu me contive com Jéssica... quando ela recusou meu abraço, devia tê-la jogado contra a parede... quando a Professora Roberta me chamou de burro, eu deveria ter gritado de volta e tê-la chamado de maluca! Quando Epona me fez ver o Outro fodendo-a, eu deveria ter avançado contra ela! Epona não se descobria mulher comigo... eu a faria mulher!
-IV-
Interrompendo meu devaneio, ouvi o barulho da porta do Estábulo se abrindo... mas não eram os passos de minha Senhora, eram passos duros, truncados... era um guarda... Passou pelas cocheiras em direção à antessala... não, na verdade, abrira o banheiro, voltou... parou em frente à minha porta e a abriu.
— Epona... pediu... tomar banho... use...
E, nesse português sofrível, como se tivesse decorado apenas parte da mensagem de Epona, apontou-me o banheiro. Um guarda nunca havia falado diretamente comigo. Com seu porte militar, com a arma em bandoleira e as cicatrizes na face... queria me sentir como ele... porém, seu nojo por mim e por estar naquele lugar era visível... como água e óleo... nossos mundos pareciam coexistir, mas nunca se misturavam... Ártemis ainda o faria sangrar pelo desprezo com que enxergava a outra parte de seu Templo... No momento, me recolhi ao banheiro... temendo que ele tivesse percebido minha ereção.
Caminhei em direção ao banheiro... deveria ter andado de quatro? Queria ter corrido, mas pensei que pareceria patético... tentei andar rápido... tinha medo de que me acompanhasse com o olhar... Entrei e fechei a porta como fazia quando, no passado, entrava em um banheiro público...
Pensei-me seguro... fechado novamente... mas os passos voltaram, duros, decisivos, masculinos... pararam, ele deveria estar perto do banheiro... aguardando minha saída... Afinal, o que eu estava pensando? Ele estava parando seu serviço de proteger o Templo para vir até mim e me guiar até Epona... precisava acelerar minha limpeza o mais rápido possível... antes que ele batesse na porta me chamando ou, pior ainda, abrisse a porta do banheiro.
Abri as torneiras da ducha e então senti minha pele ferver... gritei para dentro... engoli a dor. Não podia dar motivos para que aquele homem, aquele guarda, entrasse no banheiro e me visse daquele jeito... tinha medo do que ele poderia fazer... Após tanto tempo tomando banhos gelados, havia esquecido como eram os banhos quentes, como os poros de minha pele se abriam e ficavam mais e mais expostos. Limpei-me da melhor forma que pude... todos os itens de higiene que estavam lá — escova de dentes, navalha, perfume —, coisas que Epona fazia por mim... agora eu precisava fazer novamente... felizmente, minha falta de traquejo só gerou dois pequenos cortes, um em meu peito e outro em meu rosto, próximo ao queixo... Saí, envolto em uma toalha...
Havia conseguido... parecia apresentável, e abri a porta antes que ele o fizesse...
— Vista...
Estava tão preocupado com seu porte e sua arma que não havia notado, realmente notado, que ele carregava nas costas o que parecia ser um saco preto... Ele estendeu-me o saco... ainda com nojo... peguei-o como pude e fechei novamente a porta...
No saco havia um paletó azul, uma camisa branca, uma calça do mesmo tom, e o peso se justificava por um par de sapatos pretos de bico quadrado. Senti a maciez do tecido enquanto removia as peças do saco, e então pude ver a águia... um símbolo indecifrável, não fossem as letras em seu interior: “GA”.
Comprei poucos ternos em minha vida... vesti-os em menos ocasiões ainda. Contudo, ainda que poucas as vezes, em todas houve desconforto... era gordo demais para meu tamanho... era fraco demais para um tamanho maior. O terno nunca vestia bem sem os ajustes, era necessário levá-lo ao alfaiate... e depois de pronto, quando iria usá-lo... parecia inadequado de novo... algo falhava... a calça parecia não fechar sem esforço, a gravata parecia quebrar a seriedade do traje... o sapato parecia mais largo ou, às vezes, mais apertado do que deveria. Era necessário substituir alguma parte no improviso e sempre parecia inadequado, vestido não como homem, mas como um menino vestido pela mãe.
No entanto, uma surpresa: a camisa deslizou pelo meu corpo, pude fechar cada um de seus botões sem nenhum desconforto. O paletó ajustou-se bem; o caimento nos ombros funcionava, valorizava minha musculatura. As calças não me apertaram, havia folga na exata medida, havia elegância. Os sapatos abraçaram meus pés, sentia-me seguro ao pisar... não havia gravata... não passaria pela humilhação de pedir ajuda...
Olhei-me no espelho... há muito tempo, desde muito antes do Templo, não o fazia... Tinha a certeza de que encontraria um menino... mas encontrei algo diferente... não estava mais ridículo... não parecia estar me vestindo com roupas emprestadas... sorri, e meu rosto parecia mais harmônico; a postura reta, apesar de tanto andar de quatro, permitia que qualquer um se confundisse ao me olhar pelo espelho... poderiam me confundir com um homem. Havia borrifado apenas um pouco de perfume, apenas nas partes que suam; achei-me digno de borrifar em outras partes...
E então respirei fundo... atrás da porta havia um guarda armado, um guarda trabalhando... eu não iria trabalhar, eu iria a um jantar com Epona, a um jantar com sua chefa. A mulher que o fez decorar palavras de uma língua que não conhecia, a mulher que o obrigou a lidar com o que ele via como lixo... mas, se ele se rebaixou ao lixo, não poderia ser maior do que eu... Abri a porta mentalizando a escolha de Ártemis, as ordens de Epona.
Abri a porta, evitei o olhar... não iria me rebaixar. Com seu português sofrível, informou-me que poderia ir para o laboratório, que Epona me esperava lá. Cruzei o Estábulo decidido, atravessei a porta metálica certo de que iria jantar com Epona, beberíamos vinho e então eu meteria nela! Faria questão de gozar dentro e fundo para que não houvesse risco de lamber minha própria porra de novo! Era isso... esse era o plano.
