Nos dias seguintes, a cidade pequena funcionou exatamente como eu sabia que funcionaria.
Fabinho não conseguiu ficar calado. Eu já esperava. Conhecia o tipo dele demais: galinha, vaidoso, viciado em se gabar. Contou para os amigos do bar, para os colegas de trabalho, para qualquer um que quisesse ouvir. “Comi a Clara. A santa. A esposa do Roberto. De quatro, na sala da casa deles, enquanto o marido roncava no quarto.” Ele exagerou detalhes, inventou gemidos, falou da cabeça grossa do pau dele entrando nela, de como ela chupou os dois. Tudo com aquele sorriso safado de sempre.
E ninguém acreditou.
Eu ouvi os comentários de longe, no mercado, na escola dos meninos, até na reunião de pais. As mulheres riam e balançavam a cabeça. “Fabinho e suas histórias. Agora inventou que comeu a Clara? A Clara? Aquela mulher de família, que mal olha para os lados?” Os homens davam de ombros. “Ele fala isso de todas. Semana passada era a vizinha da padaria. Semana que vem vai ser a irmã de alguém.”
Eu andava pela cidade com a mesma postura de sempre: cabeça baixa, voz mansa, blusas discretas. Por dentro, porém, uma parte suja e satisfeita se alimentava daquilo. Gostava de ser só mais uma putinha nas histórias do Fabinho. Gostava de imaginar ele contando, os amigos rindo e duvidando, enquanto eu sabia a verdade. A Clara conservadora, a mãe de família, a esposa fiel… tinha sido usada por ele e pelo Lucas naquela noite. E o fato de ninguém acreditar me dava um poder estranho. Eu podia continuar sendo a santa por fora. E a vadiazinha por dentro.
Até que Roberto chegou em casa num fim de tarde, o rosto fechado.
Ele deixou a pasta em cima da mesa, passou a mão no cabelo e ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— Clara… andei ouvindo umas coisas. Sobre o Fabinho. Ele tá falando por aí que… que aconteceu algo entre vocês. Que ele te comeu. Aqui em casa.
Meu coração deu um salto, mas meu rosto permaneceu calmo. Eu estava lavando a louça. Continuei esfregando o prato com cuidado.
— Eu sei — respondi, voz baixa. — Já ouvi também.
Roberto se aproximou, apoiando-se na bancada.
— Me deixou desconfortável. Muito. Ver meu nome e o seu sendo jogados assim… como se você fosse uma daquelas meninas que ele fica contando vantagem. Uma qualquer. Uma putinha das fofocas dele. Você não é isso. A gente não é isso.
Eu sequei as mãos no pano, virei-me para ele e segurei seu braço com carinho. O olhar inocente, o tom de esposa preocupada.
— Amor… você conhece o Fabinho. Ele é assim. Sempre foi. Inventa, exagera, se gaba de tudo. Por isso eu nunca gostei dele. Ele trata as mulheres como se fossem troféus. Não liga se a pessoa é casada, se tem filhos, se é de família. Ele só quer ter o que contar. Eu nunca dei bola para esse tipo de homem. Você sabe disso.
Roberto suspirou, ainda inquieto.
— Eu sei. Mas… mesmo assim. Ouvir o meu nome junto com essas histórias…
— Não liga — murmurei, aproximando-me e beijando levemente a boca dele. — Ninguém acredita. Todo mundo sabe quem ele é. E sabe quem eu sou. A fofoca vai morrer sozinha. Como todas as outras.
Ele me abraçou. Eu correspondi, escondendo o rosto no peito dele. Por dentro, uma onda quente percorreu meu corpo. A mentira saía fácil. A culpa existia, mas era mais fraca que o prazer secreto de ter sido exatamente o que ele temia: a putinha da história do Fabinho.
Naquela mesma noite, depois que Roberto dormiu, eu peguei o celular. Procurei o número do Fabinho (Lucas tinha me passado dias antes, “só por precaução”). Digitei. O telefone tocou três vezes.
— Alô? — a voz dele saiu arrastada, como se estivesse no bar.
— Sou eu. Clara.
Houve um segundo de silêncio. Depois um risinho baixo.
— Santa Clara… que surpresa.
— Cala a boca — eu disse, a voz fria, baixa, brava de verdade. — Você não sabe ficar quieto, né? Teve que sair espalhando. Contando para todo mundo. Como se eu fosse mais uma das suas putas de bar.
Ele riu de novo, mas dessa vez com um pouco de cautela.
— Ei, ei… calma. Foi só conversa. Ninguém acreditou mesmo. Você sabe como é.
— Eu sei exatamente como é — continuei, caminhando até a janela do quarto, olhando a rua escura. — E por isso estou te ligando. Eu sabia que você ia fazer isso. Sabia que ia se gabar. E, sinceramente… uma parte de mim gostou. Gostou de ser só mais uma história sua. Mais uma putinha que você conta para os amigos. Mas tem um problema.
— Qual?
Eu respirei fundo. A timidez ainda existia, mas a ousadia que despertara naquela noite na sala era maior agora.
— Eu posso fazer o que você quiser comigo. Qualquer coisa. Do jeito que você gostar. Pode me usar de novo. Pode me chamar do que quiser. Pode me foder como fode as outras. Mas tem uma condição: quando você contar… tem que parecer mentira. Tem que soar tão absurdo, tão exagerado, que ninguém nunca acredite. Eu continuo sendo a Clara de família. A conservadora. A esposa do Roberto. E você continua sendo o mentiroso de sempre.
Do outro lado da linha, o silêncio foi longo. Eu imaginei a cara dele: primeiro de receio, calculando o risco, depois a mudança lenta.
— Você tá falando sério? — ele perguntou, a voz mais baixa.
Eu sorri. A expressão brava que eu carregava no rosto se desfez devagar. Meus lábios se curvaram num sorriso pequeno, sujo, satisfeito. Do outro lado, eu quase pude sentir a mudança nele também — o receio se transformando em algo mais quente, mais interessado.
— Estou olhando nos seus olhos agora, Fabinho — murmurei, mesmo sabendo que ele não estava ali. — E estou sorrindo. Você também está, não está?
Ele soltou uma risada baixa, rouca.
— Tô. Tô sorrindo, sim.
Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo o calor subir entre as pernas.
— Então… quando você quiser começar a mentira de verdade… me avisa.
Desliguei.
Fiquei parada na janela, o celular ainda na mão, o sorriso não saindo do rosto. Roberto roncava no quarto. A casa estava em silêncio. E eu, a mulher que todo mundo conhecia como inocente e fiel, acabara de transformar a fofoca em um novo acordo.
A vadiinha secreta não tinha terminado naquela noite.
Ela só estava começando de verdade.