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O Único que Ficou de Fora (2°TEMPORADA) - Décimo Quarto Capítulo: A Vida Como Ela é

Um conto erótico de Astrogildo Kabeça
Categoria: Grupal
Contém 2396 palavras
Data: 19/08/2026 17:34:54

Não foi programado. As mensagens começaram a diminuir. Não drasticamente, mas gradativamente. Tinha dias que rolavam apenas aquelas mensagens típicas de “Bom dia, Que todos tenham uma terça-feira abençoada” e só. O grupo mais agitado era dos colega de faculdade. Genildo, Beatriz, Breno, e Cauê, participavam de um grupo de veteranos que trocavam informações de pesquisa. Já estavam na reta final do curso, menos de um ano para se graduarem.

Certa tarde, chegaram no bar pra tomar uma gelada. Naiara de mãos dadas com Genildo, namoro definitivamente retomado. Jemerson no balcão e Íris de um lado pro outro, atendendo várias mesas ao mesmo tempo.

- Ué, cadê Diego?

- Deve tá doente

- Não tô vendo ele ultimamente

- Estranho…

Íris chegou até a mesa deles, esbaforida

- E aí, jovens? Uma geladinha e cinco copos? Mais alguma coisa?

- Isso aí, Íris, por enquanto só

- Cadê o Diego?

Foi então que Íris fez uma cara meio debochada

- Hum, nem me falem desse aí… começou a faltar, sem dar satisfação… nos informaram que ele voltou a usar drogas, coisas que há tempos não usava. Percebemos que o caixa tava desfalcado. Fomos até a casa dele, conversamos, decidimos não dar queixa e ele não trabalha mais aqui.

- Nossa, que braba!

- Vixi

- Que onda

- Tô vendo que você ta aí abafada

- Nem me fale… mas tem uma garota que vai começar esse fim de semana, vamos ver como vai ser.

Dias depois, aparece no grupo. “Diego saiu”

Ninguém comentou nada. O grupo já estava paradão.

Passou mais umas semanas e foi a vez de Scheila se pronunciar

Shceila: Olá, grupo, tudo bem com vocês? Puxa, a gente nem tem se falado né? É a correria da vida. Bem, estou comunicando que farei um pós-doutorado e estou indo para a Alemanha nos próximos dias. Apesar da minha partida, estarei aqui pro que precisarem, ok? Devo ficar uns meses lá fora. Beijo em todos vocês!

Alguns mandaram mensagem de “boa sorte” e só. Dias depois…

“Scheila saiu”

Genildo estava jogando algo no playstation quando recebeu uma ligação. Era Tony

- Fala, parceiro, e aí?

- E aí, Tony? Tudo em paz. Alguma novidade?

- Sim, meu chapa. Fui convidado por uma colega pra trabalhar com veículos antigos lá em Maceió. Pô, velho, sempre fui fã de carros, você sabe. É uma boa chance de mexer com esses automóveis que fizeram história! Portanto, tô ligando pra você pra informar que já tô indo semana que vem

- Porra, velho, boa sorte pra você, sucesso! Valeu por avisar. Vai rolar despedida?

- Tô sem tempo, gostaria, mas tô na maior agonia. Vou ver se eu marco uma cerva, valeu? Um abraço!

- Abraço, brother.

Três dias depois, Tony era mais um deixando o grupo.

Numa festa na casa do pai de Genildo, Bianca apareceu acompanhada de um homem mais velho, uns 30 anos. Ela o apresentou a Genildo e Naiara, que estavam lá

- Diga, primo! E aí Nai? Bem, esse é o Alfredo, o conheci no centro espírita. Fui levada por uma colega do curso, nunca tinha ido, e ele estava palestrando. Ele é médium.

- Prazer, Alfredo

- Prazer

- É um prazer estar conhecendo os parentes de Bianca. Queria convidar vocês pra dar uma passada no centro, caso se interessem

- Ah, um dia, quem sabe

- Pode ser

- Vão lá, gente, é maravilhoso! Licença, vou dar um abraço em meu tio

Bianca seria a próxima a deixar o grupo.

O que Genildo percebia é que as coisas retomavam ao ponto anterior a todo esse imbróglio que surgiu após o primeiro passeio, com as pessoas seguindo sua vida sem estarem atreladas a um grupo coeso por meses, o que parecia elucidar que todos estariam integrados por algo cujo efeito já estava cessando. Desde que descobriu aquele grupo, ele passou a ficar muito confuso, indeciso, e passando a tomar atitudes mesmo sem querer. Com a desaceleração das mensagens no grupo, se sentia mais com o pé no chão, ciente, e mais decidido. Também passou a tratar Jamile como mãe, já que nesse tempo, ficava uma situação meio dúbia entre a familiaridade e o distanciamento proporcionado pelo grupo. Também retomou o bem bom com Naiara, que também via da mesma forma. Desde que teve acesso a todos os prints, e se sentindo apunhalado em saber que eles estavam em surubas no sítio, no motel, e onde fosse, ele, de modo impreciso, se dava conta de que Jamile, Naiara, e os demais não poderiam ter uma personalidade e, de uma hora pra outra, durante três meses, se transformarem em surubeiros, depois de uma orgia acidental. Isso não é normal! Não tinha como Jamile, uma mulher insossa, vivendo 50 anos de uma vida patética, de repente virar uma vadia, vagabunda, piranha, cadela, e isso ser considerado. Não dava! Ainda mais que, fora o pilates, Jamile voltou a passar as tardes de sábado assistindo Raul Gil, como esperam que uma mulher invisibilizada a vida toda como ela, fique. Portanto, restou a ele seguir com a vida, já que não tinha como decifrar direito o que houvera e, ainda confuso, não dar a louca e sair furioso, irascível, e tresloucado se achar no direito de responsabilizar quem quer que fosse por traí-lo. Aquilo era muito complexo pra ele ficar definindo conceitos sobre traição, enganação, sacanagem, corneamento, ou qualquer outro significado desses. Não era o caso.

Os meses foram passando, a formatura chegando, TCC’s sendo apresentados. Numa noite de sábado, Breno, Genildo, Beatriz, e Cauê tavam na beca, recebendo o canudo, diante das emocionadas Jamile e Naiara. Uma nova etapa começava pra eles. Já havia passado um ano desde que o grupo começou a se desmanchar.

Mais dois anos se passaram. Genildo e Naiara se casavam no fórum da cidade, um casamento coletivo, com diversos outros casais. Cauê e Jamile como testemunhas. Após o casório, foram almoçar na casa de Jamile. O pai de Genildo estava lá, e após anos de divórcio, Jamile reencontrou o ex-marido. Breno e Beatriz estavam ausentes do matrimônio por uma razão muito fofa.

- Olha aqui, gente!

Era uma mensagem de Breno no celular de Genildo, desejando tudo de bom e lamentando a ausência. Embaixo, o motivo de muitos “ohhhhhhhhh” que rolavam enquanto o celular passeava em mãos: A foto de Beatriz segurando a filha recém-nascida e ao lado dela um orgulhoso Breno segurando sapatinhos. A comilança rolava quando Cauê, reunido com Genildo e Naiara, mandou a novidade

Cauê: Tão sabendo da última? Jemerson fechou o bar. Parece que se separou de íris

Genildo: Porra, sério?

Naiara: Ah, eu ouvi um burburinho na faculdade e um dia vi o bar com outras pessoas atendendo. Depois da formatura de vocês, nunca mais apareci por lá.

Cauê: É, a vida né, velho? Acontece…

Mais um ano e meio se passou. Jamile estava encostada pelo INSS devido a uma tendinite aguda que estava prejudicando e muito os movimentos da mão esquerda. Ela inclusive, entrou na justiça com pedido de aposentadoria antecipada. Um dia, ao sair do escritório do advogado, resolveu dar uma passada rápica em um supermercado próximo. Já estava deixando o caixa quando se dirigiu a uma loja de produtos pra pets. Jamile adotou uma gatinha após Genildo deixar a casa. Quando entrou no recinto, viu uma mulher de cabelos cacheados no balcão. Seus olhos reagiram surpresos

- Íris???

- Meu Deus… Jamile!

As duas se abraçaram. Há anos não se viam.

- Menina, como vai você? Continua bonitona!

- E você tá bem mais magra, Jamile!

- Ah, tinha que cuidar da saúde. Quando passa dos 50 é dose!

- Seu corpo tá realmente bem diferente!

- Acho que comentei que tinha vontade de reduzir os seios… pois é. Fiz o procedimento tem dois anos. E aí, fiz uma dieta especial, pra combinar com meu novo busto.

- Nossa, e reduziu bastante, hein?

- Ah, não queria envelhecer com riscos de problemas na coluna. Melhor coisa que fiz.

- Mas e aí, como vai o Genildo?

- Casou, filha! Ele e Naiara. É, tão com a casa deles, toda arrumadinha, uma graça

- Ai, que ótimo! E o netinho?

- Ah, breve! Eles ainda tão se curtindo, depois vem a família. Naiara tá terminando o mestrado, então acho que depois eles pensam nisso. Quem tá com filha é Breno e Beatriz! Esses aí tão mais adiantados

- Ah, que sensacional! Puxa, tão bom ouvir essas boas notícias!

- Bom, já aproveitando, Cauê trabalha com Genildo, abriram recentemente uma sociedade.

- Você está alvissareira, hein!

- Bianca está namorando um médium; Tony está morando em Maceió.

- Uhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

- Já Scheila, Naiara soube que ela mudou de faculdade, está dando aula em outra instituição

- É, todo mundo bem

- Bem, agora me fale… E Jemerson? Como vai?

Nesse momento, o clima de boas novas acabou. Os olhos de Íris marejaram. Jamile notou que não era coisa boa o que ia ouvir

- Ele… ele faleceu. Tem cinco meses

Jamile tomou um grande susto

- Meu Deus, Íris… eu… eu sinto muito! Meus pêsames! Que horrível!

- Não estávamos mais juntos. Ele queria que eu administrasse o bar sozinha, ele estava em convênio com um complexo hoteleiro e aumentou os passeios de escuna. Não aceitei, nos desentendemos, e foi cada um pra um lado. Dei aulas de zumba, mas não estava me encaixando. Abri essa lojinha tem uns dez meses.

- E o que houve com ele?

- Meu irmão manteve contato com ele e me informou que ele passou mal durante um passeio. Foi levado pra emergência, fez exames, e constatou que ele tinha um problema congênito no coração. Os médicos estavam estudando se fariam uma cirurgia ou não. Liguei pra ele, nos falamos, e ele estava se sentindo cansado, mas confiante em que tudo sairia bem. Foi então que meu irmão me ligou… noticiando que ele teve uma parada cardíaca… e não resistiu…

- Muito triste isso. Bem sentida aqui. Quantos anos ele tinha?

- Ele tinha completado 45 anos.

- Nossa, jovem ainda. Puxa, que pena, lamento muito!

- No sepultamento, Diego apareceu. Tá bem diferente, barrigudo, cara inchada… me deu um abraço, disse que eu e Jemerson fomos muito importantes pra ele

- Essa é a parte chata desse encontro

- Pois é, fazer o que? É a vida

- Ele sempre foi um líder. Praticamente nos salvou de uma possível depressão ao formar aquele grupo de ajuda mútua.

- Foi ele também que mostrou que tínhamos que nos unir pra cuidar de Genildo, depois daquele flagra horrível pra ele.

As duas então, começaram a relembrar como se conheceram…

- Sabe, Iris, às vezes eu olho pra trás e não acredito em tudo o que a gente viveu. Aquele passeio, a tempestade, o grupo... foi tão intenso.

- Eu lembro de tudo como se fosse ontem. Do medo, do pânico, e depois daquela conexão que surgiu entre todos nós. Eu nunca imaginei que uma tempestade mudaria tanto a minha vida em poucos meses.

- Naquele momento eu só pensava que talvez não voltássemos para casa. Que um raio daqueles ia partir a escuna ao meio e virarmos cinza. Depois veio toda aquela tentativa de entender o que tínhamos vivido.E, sem perceber, nasceu uma amizade enorme entre pessoas que, em condições normais, talvez nunca tivessem convivido.

- Às vezes penso nisso… Qual era a probabilidade de nós duas sermos amigas?

- Quase nenhuma. Nossas vidas eram completamente diferentes.

- Durante algum tempo parecia que nos conhecíamos havia décadas.

- E do dia que o Genildo nos flagrou… Meu Deus, foi horrível. Por um momento, achei que ia perder tudo. Meu filho, minha vida, minha sanidade.

- Acho que nunca vi tanto medo junto. Eu pensei que tudo fosse acabar ali, que as amizades seriam destruídas,famílias se romperiam… Mas não perdeu. Ele foi um herói em superar tudo. Entendeu, se integrou. Foi quase um milagre.

- Quase não. Um milagre inteiro! Foi justamente quando tudo veio à tona que as coisas começaram a encontrar algum equilíbrio. Olhando pra trás... Se eu pudesse voltar no tempo, eu preferiria que nada disso tivesse acontecido. Não gostaria de reviver nada daquilo.

- Acho que essa parte me interessa…

- Eu sinto que a gente tava vivendo uma realidade alternativa, Iris, uma espécie de sonho ou delírio coletivo.

- Um universo paralelo.

- Isso! Quando o grupo se afastou, eu senti que finalmente tinha os pés no chão. Que tinha domínio sobre as coisas.

- Eu também senti isso, Jamile. Na época do grupo, a decisão era coletiva. O grupo parecia uma só cabeça, como se a gente pensasse junto. E tudo aquilo envolto em muito mistério... aquele encontro na marina sem a gente marcar nada, por exemplo. Até hoje eu não sei explicar como aconteceu.

- Foi como se o cosmos tivesse conspirando pra gente se encontrar. Não penso tanto assim sobre aqueles tempos, mas posso dizer com firmeza que nos perdemos em determinado momento. Era tudo desregrado, impensado, impulsivo… Foi um deslumbre, um desvario conjuntivo. Sou grata pela amizade, acolhimento, por sair de minha zona de conforto, por tudo ser tão libertador.... Mas a vida como ela é, as coisas como ela são tem suas vantagens. Sem mistérios irresolvíveis, sem a intensidade que chegava a ser sufocante.

- Às vezes, as experiências mais intensas são também as mais desgastantes. Passamos a decidir coisas no nosso tempo, a rotina voltou a depender de nós, sem a dependência de mensagens, como um vício… entendo você.

- Éramos unidos, formamos uma unidade agradável… mas paz, paz mesmo, eu senti quando tudo voltou à normalidade. Mas apesar de tudo, eu não me arrependo de ter conhecido você, nem Jemerson , nem todos os outros. Vocês me ensinaram tanto sobre mim mesma que eu não sabia. Estar na companhia de jovens que nem sonharia em um dia sentar num banco de praça, quanto mais… é isso.

- Foi tudo uma lição. De que a amizade pode vir dos lugares mais inesperados. E que a vida é cheia de reviravoltas.

- Guardo carinho por tudo o que vivemos, pelas pessoas, pelas conversas, a solidariedade que surgiu naquele momento difícil… Mas prefiro a vida como ela realmente é.

- Sem mistérios e com perdas… que fazem parte.

- Íris, foi ótimo lhe reencontrar! Com boas novas, com novas ruins, mas levando.

- Ah, Jamile, foi reconfortante você tá aqui. Se cuida, tá? Um abraço no pessoal!

- Tchau! Até um dia.

Naquela noite, Genildo chegou cansado, eram mais de 22 horas. Naiara dormia na sala, até roncava, a televisão ligada. Ele foi até a cozinha, bebeu água, tomou banho, comeu alguma coisa, e a esposa ainda em sono solto. Ele carregou ela, a deitou na cama. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Parecia um dia normal, como qualquer outro. Não era.

(continua...)

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Comentários

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Narrativa excelente....👏👏👏👏

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O que me deixa pensativo é que a sacanagem sempre acaba quando o corno descobre tudo 🤣🤣 Louco pra saber como o Astrogildo vai finalizar essa saga 😂😂

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- "O Genildo foi um herói em superar tudo..

" O cara levou uma galhada de todo tamanho, foi traído também pela mãe e pelos amigos, e ainda foi um herói? Isso é que é piada de mal gosto. Mais uma vez o autor leva os personagens para uma situação de amenizar as coisas, como se a fudelança fosse um fato isolado e que só aconteceu uma única vez, foram várias vezes, inclusive com data marcada e chácara alugada para abrigar a suruba,e o Genildo como todo corno manso, foi revirando o passado, até encontrar uma desculpa esfarrapada para absorver o chifre. Tô prevendo que antes do final a Naiara irá aprontar mais uma com esse amigo e sócio dele.

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