A convivência com todos ali era perfeita. Até mesmo Tânia já me tratava bem, falava comigo cada vez mais e nossa relação foi melhorando com o tempo. Pedro tornou-se um amigo incrível; éramos cúmplices, algo que se fortaleceu muito após ele me contar algo que me surpreendeu.
Tudo começou quando surgiram algumas fofocas a nosso respeito. A gente se falava muito; às vezes ele ia à minha casa e ficávamos de papo até tarde. Ele adorava brincar com a Manu, e ela o amava, já que ele era um verdadeiro parque de diversões para ela. Pedro era muito forte: jogava Manu para cima, balançava-a e servia de cavalinho. Para ele, uma criança do tamanho da Manu era como uma boneca de pano. Ela adorava e aproveitava a situação.
Pedro também me levava para sair de carro; com muita paciência, ele conseguiu me ensinar a dirigir, e eu consegui tinha tirado minha CNH provisória há três meses atrás. Ele ficou muito feliz pela minha conquista, provavelmente mais do que eu mesma. Também saíamos sem motivo específico: íamos a lanchonetes, ao cinema e ao shopping. Pedro nunca demonstrou interesse além da amizade, por isso eu me sentia confortável com ele. Além disso, ele sabia da minha orientação sexual; não creio que ele perderia tempo tentando me conquistar. Eu me sentia segura ao seu lado, não só pela sua força, mas por ele me tratar bem e se preocupar comigo.
Contudo, para algumas pessoas, nossa proximidade parecia outra coisa, e logo surgiram fofocas. Ninguém da família de Helena questionou isso, pois conheciam muito bem o Pedro e a mim. Porém, entre os outros funcionários da padaria e alguns fregueses, diziam que tínhamos algo além de amizade; para alguns, já virávamos até namorados. Algumas pessoas chegaram a me perguntar, e eu sempre deixava claro que éramos apenas amigos.
Um belo dia, estávamos na minha casa, conversando e brincando com a Manu, quando Pedro tocou no assunto. Perguntou se eu estava sabendo das fofocas sobre nosso namoro. Eu ri e disse que sim, que até haviam me perguntado. Ele disse que também o questionaram é me perguntou se aquilo me incomodava. Se eu quisesse, ele se afastaria um pouco e reduziria as visitas à minha casa, pelo menos até o povo parar de falar. Eu disse que não, que não me incomodava e que não era para ele se afastar por isso. O que importava era que ele era meu melhor amigo, e a opinião alheia não tinha valor para mim.
Pedro disse que ficou feliz em saber que eu o considerava meu melhor amigo e que o povo falava demais. Afinal, éramos apenas amigos e não havia nenhuma chance de duas pessoas como nós namorarem. Olhei para ele sem entender, e ele explicou: duas pessoas gays de sexos opostos não têm chance de namoro, a não ser que seja um namoro falso para enganar a família. Devo ter feito uma cara de espanto, porque ele começou a rir e disse que todo mundo fazia aquela cara quando ele contava.
Eu realmente não esperava por aquilo; ele não tinha nenhum trejeito ou sinal que indicasse sua orientação. Ele me contou que Helena e a família sabiam, mas ele não gostava de contar a qualquer um, apenas a pessoas de confiança. Disse que não era por se esconder, mas para evitar problemas, como fofocas e conversas fiadas desnecessárias. Eu o entendia; algumas coisas era melhor evitar.
Após essa revelação, minha confiança em Pedro aumentou e nossa amizade se tornou mais forte.
Pedro também me contou sobre a convivência dele com minha irmã. Disse que a conheceu na rua e gostou dela de cara, assim como o seu irmão. Ele era bem pequeno, mas ainda lembrava da minha irmã cuidando dele e tinha ótimas lembracas dessa época, apesar das dificuldades que eles passavam. Disse que também se recordava de vê-la trocando beijos com o irmão dele pelos cantos da casa. Depois que a polícia os levou, ele só voltou a vê-la quando saiu do orfanato. Estava sozinho e a única pessoa que ele sabia que poderia ajudá-lo era minha irmã. O irmão dele tinha sido adotado e levado para outra cidade; na época, era bem complicado manter contato. Eles ficaram anos sem se ver e só se reencontraram quando o irmão já estava com a vida feita. Foi quando seu irmão voltou ao Rio e o procurou.
Ele disse que minha irmã foi um anjo em sua vida. Estendeu-lhe a mão quando ele precisou, assim como a família de dona Helena. Se não fosse por eles, ele provavelmente teria passado muitas dificuldades nas ruas.
Pedro me contou muitas coisas sobre a convivência com ela. Pelo que disse, ela era uma ótima pessoa, de coração grande, honesta e trabalhadora. Teve três namorados; o que durou mais foi por pouco mais de um ano. Quando engravidou, Pedro disse que ela estava solteira há uns três anos e, uma noite, saiu para se divertir. Conheceu um cara legal em uma boate e acabou esticando a noite em um motel. Foi uma aventura, e ela acabou engravidando. Pedro disse que ela não sabia como aconteceu, pois usaram proteção; provavelmente uma camisinha estourou e eles não viram, ou o homem viu e não falou nada. Ela até tentou reencontrar o rapaz para contar que ele seria pai, mas nunca o achou.
Saber sobre a vida da minha irmã preencheu lacunas que eu anda tinha sobre a vida dela. Saber que ela foi uma boa pessoa me trouxe certa tristeza. Hoje, arrependo-me de não ter tentado encontrá-la. Pedro disse que ela odiava minha mãe e que tinha cicatrizes no corpo das surras que levou. Provavelmente por isso nunca quis procurar minha mãe novamente. Sinceramente, eu a entendia muito bem.
Pedro contou que a morte dela foi um baque para todos. Ela estava bem e feliz por causa da filha, vivia sorrindo e mostrando a criança a todo mundo. Do nada, um belo dia no trabalho, ela sentiu uma dor de cabeça muito forte e desmaiou. Levaram-na às pressas para o hospital; fizeram todo o possível, mas, infelizmente, ela não resistiu. Os dias seguintes foram os mais tristes da vida dele. Ele sentia muita falta dela, e o pior era que a tristeza era geral. Ele cansou de ver Helena tentando consolar as filhas enquanto ela mesma chorava. A única coisa que sobrou foi a Manu, mas foi o suficiente para trazer a felicidade de volta; aos poucos, os sorrisos foram retornando ao rosto de cada um.
Conheci um pouco mais sobre Helena e seu Geraldo. Os dois se conheceram na universidade, namoraram e casaram-se assim que se formaram. A padaria era dos pais de Helena e, quando faleceram, ela herdou o local. Era menor, e a casa ficava nos fundos. Seu Geraldo arrumou trabalho em uma empresa e ficou lá até se aposentar. Com o tempo, eles foram melhorando o lugar até fazerem uma verdadeira reforma. A casa foi demolida, o cômodo da padaria foi aumentado, um segundo andar foi construído e o local tornou-se o que é hoje. Helena sempre trabalhou na padaria; mesmo formada em administração, não quis tentar a sorte em outro lugar. Seu Geraldo passou a ganhar um bom salário e a padaria tornou-se muito lucrativa. Foi assim que construíram a vida deles e, hoje, estão bem de vida e com a família criada.
Manu já estava com quase dois anos. Andava por todo canto, falava pelos cotovelos e todo mundo era "tia" ou "tio" dela. Acho que, por ser ensinada a me chamar de tia, chamar as mulheres da casa de tia, e seu Geraldo e Pedro de tio, ela colocou na cabeça que todo mundo era seu tio. Isso arrancava sorrisos dos clientes quando Tamires a levava à padaria.
Graças a Deus, ela tinha boa saúde e se desenvolveu muito bem, mesmo sem o leite materno a partir dos seis meses. Ela provavelmente não lembrava da mãe, mas eu fiz questão de mostrar fotos e explicar que aquela era a mamãe e que ela foi morar com os anjinhos. Decidimos, em comum acordo, falar a verdade desde cedo, mesmo sem ela entender. Isso evitaria explicações difíceis no futuro e talvez causasse menos tristeza. Ela continuava mais apegada a mim e a Tamires. Eu, provavelmente, pela voz que ela ouvia desde que estava na barriga; Tamires, achamos que é pelo mesmo motivo. Helena me contou que minha irmã colocava Tamires para conversar com Manu ainda durante a gestação. Ou talvez ela só goste mais de nós duas mesmo.
Eu continuava visitando meus pais todo final de semana, quando eles não vinham passar o domingo na minha casa. Meus sentimentos por eles nunca mudaram, principalmente o de gratidão. Tentei retribuir um pouco; como meus gastos eram mínimos e meu salário aumentou quando passei para a área de atendimento, meu dinheiro sobrava e tive a ideia de ajudá-los. Péssima ideia: meu pai não aceitou e ainda me deu um sermão. Ele disse que só concordou em me deixar sair de casa para eu ter a chance de conquistar minhas coisas. Para isso, era óbvio que eu precisava de dinheiro, então não fazia sentido eu sair e mandar o dinheiro para eles. Tentei argumentar, mas foi em vão, pois ele teve o apoio da minha mãe e da minha irmã. A última coisa que eu queria era brigar com minha família, então desisti, mas prometi que um dia retribuiria tudo o que fizeram por mim. Minha mãe disse que só de eu ser feliz já seria a maior retribuição. Não teve como segurar as lágrimas; naquele dia, chorei muito abraçada com ela.
Eliana continuava estudando, arrumou um trabalho de meio período em uma loja e estava namorando sério há seis meses. Ela sempre aparecia na minha casa e já tinha criado uma amizade com Tamires e Pedro . Sempre que podia, trazia algo para Manu; mesmo eu dizendo que não precisava, ela teimava. Em uma destas visitas, conheci o namorado dela, um pouco mais velho que nós. Era bem simpático e parecia gostar muito da minha irmã. Eu gostei dele. Seu nome era Matheus, trabalhava em uma farmácia e estava no último ano de medicina. Acho que minha irmã tirou a sorte grande.
Fiquei sabendo algumas coisas de Tânia também. Tamires me contou que a irmã dava muito valor ao dinheiro, odiava trabalhar na padaria e dizia que iria achar um homem muito rico para viver o resto da vida sem precisar trabalhar. Pelo que Tamires me disse, na casa havia uma regra: quem não ajuda, não recebe ajuda. Ou seja, quem não trabalhasse também não ganhava dinheiro para comprar suas coisas. Além da comida na mesa, os pais não ajudavam em nada. Como Tânia gostava de comprar roupas e calçados caros, ela tinha que trabalhar. Tamires também me disse que ela não levava nenhum amigo para casa; parecia ter vergonha da família. Achei aquilo sem pé nem cabeça, já que eles tinham uma ótima condição financeira. Porém, Tamires esclareceu que Tânia andava com um pessoal da alta sociedade e, para eles, uma vida como a da família era o mesmo que ser pobre.
Por falar em Tânia, foi por causa dela que meus primeiros problemas começaram. Ela se aproximava de mim cada vez mais. Seus olhares ficavam cada vez mais escancarados e famintos. Eu já tinha certeza de que ela era fascinada pelo meu corpo; isso era óbvio. Na minha cabeça, só havia uma explicação: ela era bi ou uma lésbica enrustida, mas eu acreditava na primeira opção.
Eu ainda fingia que não percebia seus olhares e fazia o possível para tratá-la bem, mas sem dar abertura para ela tentar algo. Eu não queria problemas, ainda mais com a família de Helena. Mas havia um problema: ela era muito bonita; rosto, corpo, cabelo. Tudo nela era perfeito e, como eu estava há muito tempo sem ninguém, às vezes era complicado manter distância.
Bom, eu estava com 21 anos, criava uma sobrinha de um ano e nove meses, tinha um trabalho e um local decente para morar. Praticamente tinha duas famílias; para uma órfã pobre da favela, eu não tinha do que reclamar. Mas o destino ainda tinha muitas surpresas. Umas boas, outras incríveis e outras nem tanto. Para ser exata, tudo se iniciou quando conheci Manu, mas acho que todas as coisas inesperadas que nunca imaginei viver foram iniciadas por Tânia. A pessoa que eu evitava cada vez se aproximava mais de mim, até chegar um momento em que ficou perto demais e, por carência ou desejo reprimido, eu não resisti.
Tudo começou em uma quarta-feira à noite, na minha casa. Uma visita inesperada, uma desculpa esfarrapada e ali se iniciou uma sucessão de acontecimentos que transformou meu mundo simples em algo totalmente fora da realidade que imaginei para mim.
Continua...
Criação; Forrest_Gump
Revisão; Whisper
