Jerry olhou para ela por um segundo. Havia muita coisa nesse olhar, coisas que ambos pareciam dispostos a enfrentar, ao mesmo tempo que temerosos. Depois acenou apenas uma vez e foi até a porta.
Antes de sair, parou com a mão na maçaneta:
- Cuida dela e me liga para qualquer coisa.
- Eu cuido.
A porta se fechou com o mesmo clique suave de sempre.
Kelly ficou parada no meio da sala, ouvindo o carro de Jerry se afastar. Depois caminhou até o quarto da filha, abriu a porta com cuidado e ficou olhando Katie dormir, o rostinho relaxado, alheio à complexidade dos adultos. E pela primeira vez em muitos dias, um sopro de esperança surgia.
[CONTINUANDO]
Daquele dia em diante, e por uma semana, uma frágil rotina foi improvisada.
Jerry passou a buscar Katie na escola todos os dias. Chegava alguns minutos mais cedo, esperava perto do portão e recebia a filha com um abraço que durava sempre menos do que ele gostaria. Depois a levava para casa, ficava com ela até o início da noite. Às vezes, jantava junto com ela e Kelly, e só ia embora depois que a menina dormia. Nunca passava a noite. Nunca se sentava tempo demais no sofá. E sempre mantinha uma distância educada, quase cerimonial, em relação a Kelly.
Kelly, por sua vez, não forçava. Cumpria o que a terapeuta tinha sugerido: espaço, clareza, constância. Falava o necessário. Evitava pedidos emocionais. Observava, em silêncio, o jeito como Jerry se transformava perto da filha e como endurecia assim que Katie saía do cômodo. Mas mesmo a constância da água é capaz de rachar a mais dura rocha.
Aos poucos, Jerry começou a interagir mais com Kelly. Contava algo inusitado que havia acontecido no consultório. Ele e ela interagiam divertindo-se com as histórias da filha. A própria Kelly começou a pintar, mostrando seus esboços para o marido e comentando animada como isso vinha lhe fazendo bem. Enfim, parecia que eles haviam encontrado um caminho.
Só parecia.
Foi numa quinta-feira, no final da tarde, que a frágil engrenagem emperrou.
Jerry estava na sala ajudando Katie a montar um quebra-cabeça quando o interfone tocou. Kelly atendeu. A voz do porteiro anunciou um visitante:
- O senhor Noland pede para ser anunciado.
O nome bateu em Kelly como uma luva de pelica. Jerry ergueu os olhos do quebra-cabeça e a encarou, surpreso com sua reação. Katie, alheia, continuava tentando encaixar uma peça. Kelly ficou alguns segundos em silêncio, a mão ainda no interfone:
- Tudo bem, senhor Johnson. Está autorizado.
Jerry se levantou devagar e foi até Kelly que seguia branca como se tivesse falado com um Poltergeist. Não disse nada, nem precisou. Ouviu um barulho de carro estacionando à frente da casa e foi até a janela, vendo que o Jeep de Chuck parava. Ele encarou Kelly, constrangido:
- Eu não sabia. Não marcamos. Juro. Eu só não pude mandá-lo embora.
Jerry balançou a cabeça negativamente e continuou virado para a janela. Quando a campainha tocou, Kelly abriu a porta. Chuck estava ali, de camisa social clara, o mesmo colete, o relógio, calça social azul marinho, sapatos pretos brilhando e o mesmo ar de quem não sabia exatamente se tinha o direito de estar naquele lugar. Os olhos dele passaram rapidamente por Kelly, Katie e pararam nas costas de Jerry:
- Eu… não sabia que ele estaria aqui. - disse Chuck, baixo.
- É a casa dele, Chuck. Entra - respondeu Kelly.
Chuck entrou. Kelly fechou a porta atrás dele. Katie levantou o olhar do quebra-cabeça, curiosa e piscou duas vezes ao ver o rosto conhecido:
- Tio Chuck!
A menina se levantou e foi até ele com naturalidade. Chuck hesitou um segundo, depois se abaixou e correspondeu ao abraço curto. Jerry se virou nesse momento. O olhar que lançou para a cena foi breve, mas pesado:
- Katie... - Chamou ele, com uma voz controlada: - Papai precisa ir embora mais cedo. Tio Chuck e mamãe precisam conversar.
A menina olhou um por um, começando no pai e terminando em Chuck. Ao final, foi mais do que objetiva:
- Não! Se é por causa do tio Chuck, ele que vai. Tchau, tio. – Disse Katie, apontando a porta da sala.
- Katie!? – Disse Kelly, surpresa.
Jerry se ajoelhou à altura da filha e a chamou com um movimento de mão. Assim que ela se aproximou, ele foi didático:
- Querida, não é assim que se trata as visitas. Nem papai, nem mamãe, te ensinaram isso.
- Eu não quero que você vá... – Então, ela apontou para o quebra cabeças: - Ainda tem muita peça perdida. Eu não vou conseguir sozinha.
Foi a melhor definição de como a vida deles estava naquele momento que Jerry ouvira até hoje. Muitas peças soltas, várias perdidas, e eles perdidos tentando montar uma realidade que parecia não existir mais.
Jerry sorriu para a filha, afagou sua cabeça e pediu:
- Então, papai vai com você lá no quarto até a mamãe e o tio Chuck resolverem o que tem para resolver, certo?
- EEEEEEba!
- Não! – Praticamente gritou Kelly, terminando aquela tenra comemoração e chamando a atenção de todos: - Você precisa participar. Não quero mais nada escondido, de ninguém.
- Ué!? Então, eu fico. – Disse Katie, sentando-se no colo do pai.
Após um breve silêncio, Jerry pediu:
- Me espera lá no quarto? Deixa eu falar com o tio Chuck e a mamãe. Vai ser rapidinho.
- Ah, papai. Nãããão...
- Se você fizer esse favor para o papai, faremos algo diferente e muito legal hoje. Vamos acampar no seu quarto e eu vou dormir com você.
- Sério!?
- Sério.
A menina fez festa de imediato, obedeceu aos pulos de alegria. Mas antes de sair, olhou de um para o outro, como se sentisse a tensão no ar, e fechou a porta do corredor atrás de si.
Os três ficaram sozinhos na sala.
Os três ficaram mudos na sala.
O silêncio inicial foi longo. Demais. Jerry foi o primeiro a quebrá-lo:
- Eu não sabia que você viria, Chuck. Se soubesse, eu não teria vindo atrapalhar o encontro de vocês...
- Não tem encontro algum, Jerry! Para! – Resmungou Kelly, contrariada.
- Mas então... Que motivo você tem para aparecer aqui hoje?
Chuck ficou de pé, perto do sofá, sem se sentar:
- Eu precisava falar com a Kelly. Não sabia que você estaria aqui.
- Pois é... Agora sabe. Então?
Kelly interveio, a voz tensa:
- Jerry…
Chuck respirou fundo. Os ombros pareciam mais pesados do que o normal:
- Eu vim pedir desculpas de novo. E dizer que pretendo me mudar. Continuar aparecendo na vida de vocês está destruindo o que ainda resta da Kelly. Eu...
Jerry cruzou os braços:
- Você já pediu desculpas naquele dia no meu consultório. Assumiu a culpa. Disse que foi tudo sua responsabilidade.
- Sim. Eu sei o que disse. Eu sei o que causei. Sei que o que eu e a Kelly fizemos foi... E sei que você não merecia passar por isso.
Kelly estava pálida, os braços colados ao corpo:
- Chuck, talvez hoje não seja o melhor dia…
- Deixa ele falar. - Disse Jerry, a voz baixa, sarcástica, perigosa: - Agora eu quero ouvir. O que foi que aconteceu naquele dia, Chuck? Só sei que aconteceu, mas ninguém nunca me contou os detalhes.
Chuck olhou para Kelly por um segundo. Ela estava branca, sentada no braço do sofá. Os lábios estavam brancos. Chuck respirou por um segundo e, depois, voltou a encarar Jerry:
- O que aconteceu, só nos diz respeito, Jerry. Desculpa. Se um dia a Kelly quiser te contar, ela contará. Eu só vim dizer que, se o melhor para a Katie e para vocês dois for eu desaparecer de vez, vou fazer isso. De verdade desta vez. Sem mensagens. Sem aparições. Sem condições. Sem nada.
Jerry soltou uma risada curta, sem humor:
- E tudo está resolvido, não é? Depois de ter comido a minha mulher, feito sabe-se lá Deus o quê com ela, ou ela com você...
- Jerry, por favor! – Kelly, constrangida, se aproximou de Jerry e tocou seu peito, com a voz embargada: - Você não é assim.
Jerry olhou para a mão dela sobre seu peito e sua primeira atitude foi pegá-la para tirá-la dali. Não conseguiu. O toque de sua mão, tão saudoso para sua alma, lhe fez suspirar. Ele apertou a mão dela e a olhou por um instante. Então, suspirou e baixou a cabeça:
- Não. Não sou. Eu já nem sei quem eu sou mais. – Respondeu Jerry, olhando agora para Chuck: - Desculpa, Chuck. E desculpa também, Kelly. Eu...
Jerry se calou sem terminar a frase. Seus olhos estavam marejados naquele momento. Kelly tocou sua face e sorriu por ver que um sentimento tão forte, tão intenso, parecia prestes a aflorar, talvez um que abrisse uma porta para um novo começo. Chuck, consciente ou inconscientemente, atrapalhou o momento:
- Eu sei como soa, Jerry. Mas é o que eu tenho para oferecer hoje.
Kelly o encarou, sem uma expressão definida:
- Ninguém está pedindo que você desapareça, Chuck.
- Talvez alguém devesse, Kelly. - Retrucou Jerry, chamando a atenção dela: - Ou talvez a gente devesse parar de fingir que existe uma solução limpa para isso, porque não há!
Eles sabiam que suas palavras eram justas, verdadeiras e dolorosas. Do corredor, um barulho leve chamou a atenção de Jerry e Kelly. Katie estava assistindo tudo por uma fresta da porta. Os três baixaram instintivamente o tom. Jerry passou a mão pelo rosto, cansado:
- Eu não sei o que fazer com você, Chuck. E também não sei o que fazer com a gente, Kelly. O que eu sei é que isso está afetando a Katie. E com isso eu não concordo.
Kelly falou, a voz embargada:
- Então o que você quer?
Jerry demorou a responder. Quando falou, as palavras saíram lentas, pesadas:
- Eu quero que você suma, Chuck. Se a Kelly não teve coragem de falar, eu falo. Desapareça! Talvez não seja justo, mas é o correto. Pelo bem da minha filha.
Kelly permaneceu em silêncio, as mãos tremendo levemente sob a mão de Jerry. Chuck baixou a cabeça e a aguardou alguma intervenção da Kelly. Aguardou... Aguardou... Aguardou...
Mas ela não ofereceu solução alguma. Após longos segundos, Chuck simplesmente saiu, consternado, machucado, mas decidido.
Katie, enfim, saiu de seu posto de observação e se aproximou dos adultos. Na sua inocência, ela apenas olhou para a porta da sala e fez um “Humpf!”. Depois encarou os pais, especificamente Jerry e falou:
- Vamos?
E se foram para o quarto, onde brincaram até Katie se fartar e dormiram juntos após até a coluna de Jerry doer no colchonete fino.
Nas semanas seguintes, uma rotina se instaurou. Jerry levava e buscava a filha na escola. Depois, brincava com ela, às vezes jantavam juntos e a colocava para dormir. Em outras vezes, pernoitou no quarto da filha. Apenas no da filha. Com Kelly, a situação ainda continuava incerta, porque, embora Chuck tivesse desaparecido, o sentimento ainda não parecia ter feito o mesmo no peito dela.
Foi numa das sessões com a terapeuta que Kelly recebeu um conselho diferente:
- Mas vocês estão se entendendo?
- É uma palavra forte... entendendo... Mas a gente está construindo algo.
- Intimidade?
- Ah não. Ainda não. Isso, não temos nenhuma.
- Certo. Kelly, você já parou para pensar que talvez falte uma decisão sua para que ele volte a te enxergar como esposa dele novamente?
- Como assim?
- Pelo que você me falou, as decisões, neste momento, foram tomadas pelo Jerry e pelo Chuck. Talvez, falte você demonstrar para o Jerry que concorda com a decisão dele.
- Me afastar do Chuck, em definitivo?
- Sim. Você falar isso para ele, em voz alta, de modo que Jerry ouça. Mas tem que ser com o coração, de verdade, para convencê-lo que você decidiu por ele. Entendeu?
- Mas... e se o Chuck cair numa depressão? Ou se ele fizer alguma besteira?
- Kelly, Chuck é um sobrevivente. Não acredito que ele vá agir assim.
E foi numa quarta-feira à noite que Kelly tomou a decisão. Jerry havia levado Katie para tomar banho. Ela esperou que o sons de seus passos se aproximasse para fazer uma ligação para Chuck. No momento, que achou o correto, ela discou:
- Alô! Kelly?
- Oi, Chuck. Como está?
- Estou... bem. E você? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Eu... – Kelly suspirou, sentindo má, mas não parou: - Eu só queria te dizer que vou fazer de tudo para reconstruir com o Jerry. Eu o amo e a minha família. Peço desculpas pelo que aconteceu entre a gente. Foi bom... muito, mas foi errado. Espero que compreenda e que se afaste.
- Se é o que você quer.
- É sim! Eu te amo... te amei! Mas isso acabou...
Kelly nem esperou que Chuck respondesse. Encerrou a chamada. Suspirou profundamente e se virou para poder falar ao marido que aquilo havia acabado. Entretanto, quem a olhava com olhos arregalados e sem entender direito o que acabara de presenciar era Katie, usando os sapatos de Jerry. Foram delas os sons de passadas que Kelly ouvira:
- Katie!? Cadê o seu pai?
A menina encarou a mãe e franziu a testa sem desviar o olhar. Então, na sua capacidade, murmurou apenas algumas palavras:
- O sapato do papai... Ele me emprestou.
Não foram as palavras, mas o olhar. A forma como Katie encarou Kelly até se virar e voltar ao quarto doeram mais do que qualquer xingamento. Mas ela é uma criança, nova, inexperiente, inocente, certamente não entendeu o contexto da conversa. Seria só dar tempo ao tempo.
Seria mesmo!?
No dia seguinte, durante o dia, enquanto Katie ainda estava na escola, Kelly recebeu uma chamada da diretora, pedindo que fosse buscar sua filha que não se sentia bem.
Kelly foi e trouxe Katie consigo achando tratar-se apenas de um mal-estar. Ledo engano. O mal-estar evoluiu para uma febre que remédio algum parecia cortar. Quando Jerry chegou na casa no final daquele dia, vindo da escola onde soube do imprevisto, encontrou Kelly preocupada com a situação. Jerry cuidou da filha e foi a sua atenção que fez com que a febre cedesse.
No dia seguinte, ele mesmo a levou à escola. Mas novamente, pouco depois do almoço, Kelly recebeu outra chamada da diretora, novamente relatando a mesma situação. Kelly ligou para Jerry que foi com ela buscar a filha e juntos a levaram até sua pediatra, doutora Victoria.
Após os exames de praxe, a doutora Victoria não encontrou nada que justificassem o mal-estar e a febre recorrente. Mas uma pergunta acendeu o sinal de alerta em Kelly:
- Os exames nada indicaram. Talvez seja de fundo emocional. Aconteceu alguma coisa na rotina da Katie que possa tê-la assustado?
Kelly soube de imediato o que poderia estar causando aqueles episódios. Estabilizada, Katie voltou com os pais para casa. E novamente Jerry fez e desfez para que a filha ficasse bem.
Após ela dormir, foi até a cozinha, onde Kelly estava sentada à ilha, os cotovelos no mármore frio, a expressão preocupada. Seu instinto protetor falou mais alto:
- Fica calma, Kelly. É só um mal-estar. Ela já está ficando melhor.
- Eu acho que sei o que está causando isso...
- Sabe!?
Kelly contou do dia em que fora flagrado pela filha e falou tudo o que disse a Chuck naquela ligação. Jerry ouviu a tudo atentamente, sem interromper. Ao final, perguntou:
- Nunca mais falou com ele?
- Nunca mais...
- Tá... – Jerry tamborilou sobre o mármore: - Talvez então seja interessante eu passar uns dias aqui. Pela Katie...
- Você faria isso?
- Eu faria qualquer coisa por ela.
Kelly sorriu de imediato da mais lídima gratidão. Sabia que o motivo do retorno do marido não era ela, mas já era um começo. Antes que ela dissesse algo, o próprio Jerry continuou:
- E faria qualquer coisa por você também, se você realmente se comprometesse.
Kelly arregalou os olhos. Pela primeira vez em meses, alguém parecia ter ouvido suas preces. Ela não esperou mais e se jogou nos braços de Jerry, beijando-o com sofreguidão. Não queria sexo. Não ainda. Queria apenas deixar claro que ela aproveitaria essa chance como se fosse a última de sua vida. Então, uma voz se destacou:
- ECA! Acho que eu vou voltar para o meu quarto...
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