Quinta-feira, e depois o sábado
O que quase acabou com a gente não foi a casa de swing.
Foi uma quinta-feira comum, sete e meia da noite, eu na cozinha mexendo o arroz, o celular dela vibrando na bancada de mármore ao meu lado.
Uma vez. Duas. Três.
Eu não sou de mexer no celular da minha esposa. Nunca fui. Mas a tela acendeu virada pra cima, e o nome não era um nome — era um emoji. Uma máscara. Daquelas de baile de máscaras.
E a prévia da mensagem dizia: *"pensei em vc a semana inteira"*.
Eu larguei a colher.
A conversa
Ela chegou vinte minutos depois. Eu tinha desligado o fogo, sentado na mesa e colocado o celular dela na minha frente, virado pra baixo. Não abri. Isso eu juro, e ela sabe que eu não abri, porque quando ela pegou a última mensagem lida ainda era de terça.
Sentei ela na cadeira da frente e falei:
— Quem é a máscara?
Ela ficou branca. Depois vermelha. Depois respirou.
— É o cara do labirinto.
Silêncio.
— Vocês trocaram telefone naquele dia — eu disse. Não era pergunta.
— Trocamos.
— E vocês falam.
— A gente fala. — Ela engoliu seco. — Nunca me encontrei com ele, Jorge. Nunca. Nem quis. Mas a gente fala.
Eu fiquei olhando pra ela por um tempo que deve ter sido uns dez segundos e pareceu meia hora. E aí veio a pergunta que eu não sabia que estava dentro de mim:
— Você fala com ele sobre mim?
Ela demorou.
— Eu falo com ele sobre nós.
E aí ela desabou. Chorou como eu não via ela chorar desde o enterro do pai dela. Falou tudo de uma vez, atropelado: que depois da feira ela tinha ficado com vergonha do tanto que gostou, que achou que eu ia olhar diferente pra ela, que não conseguia falar comigo sobre isso sem sentir que estava confessando um crime, e que um desconhecido era mais fácil porque um desconhecido não tinha treze anos de casamento pra perder.
— Eu não escondi um homem de você — ela disse. — Eu escondi de você o quanto eu gosto disso.
Aquilo doeu mais do que qualquer traição doeria.
Porque a culpa era minha também. Treze anos de "amor, tá bom assim". Treze anos em que ela nunca precisou me contar o que ela queria de verdade, porque eu nunca perguntei.
Eu peguei o celular, empurrei pra ela por cima da mesa e falei:
— Bloqueia. Não porque eu tô com ciúme dele. Porque eu quero ser eu.
Ela bloqueou na minha frente.
E aí eu falei a segunda coisa:
— E sábado a gente volta lá. Mas dessa vez sem esconder nada de mim. Nada. Você me fala o que você quer antes, durante e depois.
Ela limpou a cara com as costas da mão, ainda fungando, e riu.
— Você não sabe o que você tá pedindo.
O que ela pediu
Sexta à noite, na cama, com a luz apagada — porque ela só conseguia falar aquilo no escuro —, eu pedi de novo. E ela falou.
Levou quarenta minutos. Eu não interrompi uma vez.
Ela falou que gostou de ser desejada por gente que não tinha obrigação nenhuma de desejá-la. Que gostou de me ver olhando. Que na hora com o Rodrigo ela não estava com ele — estava comigo, através dele, e que a coisa mais forte da noite não foi ele, foi me achar no escuro e ver que eu estava ali.
E aí ela falou a parte que fez o meu sangue todo descer de uma vez:
— E eu quero fazer de novo. Mas eu quero que dessa vez você não fique olhando de longe. Eu quero você perto. Eu quero sua mão em mim enquanto acontece.
Eu não respondi nada.
Eu virei ela de costas e a gente transou daquele jeito que só acontece quando um casamento acabou de sobreviver a alguma coisa. Ela gozou duas vezes antes de eu chegar perto de gozar, mordendo o travesseiro pra não acordar o prédio inteiro, e na segunda vez ela falou o meu nome de um jeito que eu não escutava desde a lua de mel.
Sábado
Dessa vez não teve vinte minutos no estacionamento.
Ela desceu do carro antes de mim.
Vestido vermelho, nada por baixo — ela me contou isso no farol da Avenida Industrial e quase causou um acidente. Salto alto. O cabelo solto. E uma segurança no jeito de andar que eu nunca tinha visto na mulher com quem eu moro.
A recepcionista reconheceu a gente e sorriu. Rodrigo e Helena já estavam no bar.
A Helena veio direto pra Lúcia, segurou o rosto dela com as duas mãos e beijou ela ali mesmo, no meio do salão, na frente de todo mundo, antes de qualquer "boa noite".
O Rodrigo me olhou, deu de ombros e riu.
— Ela falou de você duas vezes essa semana. E da sua mulher, umas doze.
O quarto
Dessa vez a gente não ficou na sala coletiva.
Subimos o corredor vermelho inteiro e o Rodrigo abriu a última porta — um quarto de verdade, com cama grande, luz âmbar, um espelho enorme na parede lateral e a chave por dentro. Ele fechou a porta e devolveu a chave pra Lúcia.
— Você fecha, você abre. Quando quiser.
Ela colocou a chave na cômoda e não olhou mais pra ela a noite inteira.
A Helena tirou o vestido antes de qualquer um falar qualquer coisa. Sem cerimônia, sem striptease — puxou por cima da cabeça e jogou no chão, e ficou ali no meio do quarto, nua, morena inteira, esperando.
E a Lúcia foi até ela.
Eu sentei na beirada da cama e fiquei vendo minha esposa despir outra mulher com a boca.
Ela começou pelo pescoço. Depois a clavícula. Desceu devagar, sem pressa nenhuma, e cada vez que a Helena soltava o ar a Lúcia sorria contra a pele dela — eu via o sorriso, e o sorriso me matava. Não era timidez. Não era experiência. Era prazer de estar fazendo aquilo, puro, sem culpa nenhuma, pela primeira vez na vida dela.
A Helena deitou. Lúcia subiu por cima, o vestido vermelho ainda no corpo, e desceu a boca pelo meio dela — barriga, quadril, a parte interna da coxa — e ficou ali brincando, provocando, chegando perto e voltando, até a Helena arquear e agarrar o cabelo dela e implorar.
Aí ela cedeu.
E o barulho que a Helena fez encheu o quarto.
Eu não desviei o olho um segundo. O Rodrigo também não. A gente estava sentado nas duas pontas da cama, dois homens adultos completamente hipnotizados, e eu me lembro de pensar uma frase idiota naquele momento: *ela é boa nisso. Como é que ela é boa nisso na primeira vez?*
A Helena gozou de coxa fechada na cabeça dela, agarrada no lençol, com o corpo inteiro tremendo.
E quando terminou, Lúcia levantou o rosto, procurou a minha cara no meio do quarto e falou, ofegante, com a boca molhada:
— Vem aqui.
Perto
Eu fui.
Ela ficou de quatro no meio da cama e eu subi atrás dela. Levantei o vestido vermelho até a cintura — não tirei, ela não deixou tirar, ela queria com o vestido — e a primeira coisa que eu senti foi o quanto ela estava pronta. Escorrendo. Quente de um jeito que não era normal.
Eu entrei nela devagar e ela gemeu com a testa no colchão.
E aí ela virou a cabeça e chamou o Rodrigo.
Ele veio pela frente. Ela levantou o tronco, apoiou uma mão no peito dele e olhou pra mim por cima do ombro — de novo aquele olhar, pela quarta vez desde o labirinto, pedindo permissão e já sabendo.
— Com emoção, amor — eu falei.
E ela riu, e me apertou por dentro quando riu, e eu quase acabei ali mesmo.
O que aconteceu depois eu vou tentar descrever direito.
Foi lento. Isso foi o que mais me surpreendeu — não teve nada de frenético, nada de pornô. Foi lento e cadenciado e absurdamente íntimo. Eu atrás dela, com as duas mãos abertas na cintura dela, sentindo cada tremor subir pela coluna. Ele na frente, e a boca dela ocupada, e o barulho abafado que ela fazia toda vez que eu ia mais fundo.
A Helena deitou de lado, encostada nela, e passava a mão no rosto e no cabelo da Lúcia como quem acalma — e aquilo, sei lá por quê, foi a coisa mais quente do quarto inteiro. Uma mulher fazendo carinho no rosto da minha esposa enquanto dois homens usavam ela do jeito que ela pediu pra ser usada.
Eu olhei pro espelho da lateral e vi nós quatro ali.
E eu olhei pra minha mulher no reflexo — cabelo grudado no rosto, rímel escorrido, vestido vermelho enrolado na cintura, gemendo com um homem na frente e o marido atrás — e não senti ciúme, nem vergonha, nem arrependimento.
Eu senti que estava olhando pra ela de verdade pela primeira vez em treze anos.
A primeira vez que ela gozou naquela cama foi comigo dentro dela e a mão da Helena na garganta dela.
Ela apertou meu antebraço com as duas mãos e travou o corpo inteiro, sem som nenhum por uns três segundos, e depois soltou tudo de uma vez num gemido que não parecia dela.
Não parou.
Ela empurrou o Rodrigo pra deitar, subiu nele e me chamou pra ficar de frente pra ela, ajoelhado na cama, perto o suficiente pra ela me alcançar. E ficou ali, rebolando em cima de outro homem, com as duas mãos na minha nuca e a testa colada na minha, olhando dentro do meu olho, falando coisas no meu ouvido que eu não vou repetir aqui porque são nossas.
Uma eu repito.
— Tá vendo o que eu sou? — ela falou. — Você casou com isso aqui. Isso aqui sempre foi seu.
Eu gozei antes dela na segunda vez. Não teve como.
A terceira dela foi comigo de novo, no final, com ela deitada de costas, o quarto já em silêncio, o Rodrigo e a Helena abraçados na poltrona só olhando. Só nós dois no meio da cama. Devagar. Sem plateia importando.
Foi a transa mais bonita da minha vida, e aconteceu num quarto com outro casal dentro.
Três e vinte da manhã
A gente saiu de lá com o vestido vermelho amassado, o cabelo dela impossível de arrumar e uma calma esquisita entre nós dois.
No carro, ela deitou a cabeça no meu ombro no farol e ficou um tempo em silêncio. Aí falou:
— Obrigada por perguntar.
— Perguntar o quê?
— Na quinta. Você podia ter gritado. Podia ter me chamado de um monte de coisa. Você perguntou.
Eu não respondi. Só peguei a mão dela.
Ela apertou.
Uma vez.
Na semana seguinte a Helena mandou mensagem pra Lúcia. E dessa vez o celular ficou aberto em cima da mesa da cozinha, com as duas conversando na minha frente, rindo, planejando.
Só que a proposta dela não era pro The26.
Era pra um sítio em Ibiúna, um fim de semana inteiro, seis casais, e uma regra que eu não sabia que existia e que mudou tudo de novo.
Isso eu conto na Parte IV.
Casal Apimentados
