Vamos conversar um pouquinho sobre o Emiliano? bater um papo rápido com vocês e esclarecer alguns pontos sobre a construção do Emiliano (e dar umas boas risadas com as teorias de vocês kkk).
Muitos leitores comentaram que sentiram uma "mudança drástica" na personalidade dele, mas a verdade é que ele nunca foi um recruta ingênuo (Apesar de nesse ep ele ter cometido um erro kkk) ou 'bonzinho'. Se a gente puxar a capivara dele desde o começo, o Emiliano sempre foi aquele cara ousado, que não tem medo de quebrar as regras da caserna:
* 🍕 A pizza escondida na guarita (Ep. 4);
* 📦 O roubo de mantimentos no rancho (Ep. 3);
* 🪖 A constante quebra de padrão no fardamento (Eps. 3 ao 8);
* 🤫 O romance proibido nas sombras com o Martins (Ep. 10);
* 💥 E, claro, a recente jogada das munições no estande.
A ideia inicial ao criar o Emiliano era trazer um perfil rebelde e imprevisível — o contraste perfeito para a personalidade do Michel, gerando aquela química de "opostos que se completam".
O que aconteceu na verdade foi que a paixão cega e a obsessão pelo Martins deram um "slow down" nele. A dependência emocional do Emiliano pelo Martins ofuscou o brilho, a frieza e a essência calculista que ele sempre teve. Sem o Martins no caminho, o Emiliano apenas voltou ao seu "padrão de fábrica": um sobrevivente pragmático que faz o que for preciso para não rodar.
Mas, super entendo a visão de vocês! Se em algum momento pareceu repulso ou confuso, a responsabilidade é minha como autor e aceito a crítica construtiva de braços abertos kkk.
✍️ Sobre o Futuro do Projeto...
Eu sou um escritor apaixonado por suspense, drama policial e tramas pesadas no estilo clássico do Wattpad. Eu sei que às vezes pode ser cansativo ver um conto se transformar em uma saga gigante, mas a minha promessa para vocês é entrega: fazer algo bem-feito, amarrado e que prenda do início ao fim.
Tentei dar o meu melhor para trazer uma experiência incrível para vocês aqui. Se vocês curtiram o rumo da história e quiserem ver o desenrolar dessa teia de chantagens, a Segunda Temporada já está engatilhada!
Muito obrigado a todo mundo que leu, comentou e viveu essa história comigo. O apoio de vocês é o que faz isso acontecer!
Deixem aí nos comentários o que acharam e se estão prontos para a 2ª Temporada! 🚀🔥
Continuando...
— ATENÇÃO, PELOTÃO! — o grito de Rocha cortou o vento. — Devido aos últimos acontecimentos e aos procedimentos internos que estão em andamento pela Administração, a instrução do final de semana está suspensa. TODOS ESTÃO DE FOLGA ATÉ SEGUNDA-FEIRA ÀS SEIS HORAS! Se algum de vocês aprontar na rua ou sujar o nome do Batalhão durante a folga, não vai precisar nem voltar. Fui claro?
— SIM, SARGENTO! — a tropa respondeu em coro.
— Dispensados!
Pela primeira vez em semanas, vesti minha roupa civil. O peso do fardamento saiu do meu corpo, mas a tensão continuava cravada nos meus ombros. Saí pelo portão das armas e caminhei duas quadras até uma padaria discreta, a pouca distância do quartel. Emiliano já me esperava em uma mesa no fundo, com uma xícara de café intocada na sua frente.
Eu me aproximei, percebi algo que nunca tinha visto nele. A postura ereta e o olhar inquebrável tinham dado lugar a uma inquietação visível. Ele batia o pé freneticamente no chão e mantinha os olhos fixos na mesa.
— Emi... você tá bem? — perguntei, me sentando na cadeira à sua frente.
Ele olhou para os lados antes de se inclinar na minha direção, baixando a voz.
— O Brito vai me chamar, Michel. É questão de tempo. Ele tá puxando os relatórios da Seção de Armamento.
— Mas você disse que tinha controlado tudo! O que tá te pegando? — sussurrei, sentindo o estômago contorcer.
— As digitais, porra — Emiliano passou a mão pelo rosto, a voz trêmula de ansiedade. — Se a perícia da Inteligência resolver passar poeira reagente no estojo das munições que o Cardoso estava carregando... ou no armário de onde elas saíram... a minha digital tá lá. Eu tava sem luva quando peguei aquilo.
Olhei para ele com uma mistura de choque e incredulidade. O cara que tinha planejado cada movimento com uma "frieza" assustadora tinha deixado o rastro mais básico de todos.
— Como você rouba munição do Batalhão sem pensar nisso, Emiliano?! — perguntei, a voz saindo em um chiado indignado. — Você pensou no Cardoso, pensou no Dagoberto, mas esqueceu do básico?!
— Eu tava com pressa, tá legal?! — ele rebateu, apertando os olhos, visivelmente abalado. — O Cardoso tava quase te pegando, o tempo tava esgotando. Eu só pensei em tirar aquela munição de lá e colocar na mochila dele. Se a perícia bater com o meu cadastro, eu tô frito.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, absorvendo a gravidade da situação.
Foi então que um som vindo da mesa do canto nos fez estancar. O rangido de uma cadeira de madeira sendo arrastada.
Um homem se levantou devagar.
Era um senhor de idade, vestindo uma camisa social gasta e calça jeans, segurando um gravador de voz digital na mão direita. Ele tinha cabelos brancos, óculos na ponta do nariz e uma expressão séria.
O velho deu um passo à frente, ajustou os óculos e apertou o botão de pausar no gravador. Um "bip" curto ecoou no silêncio mortal do ambiente.
— Incriminação do recruta Cardoso... roubo de munição 7,62... adulteração de provas no estande — o velho disse, a voz pausada e rasgada pelos anos, com um sorriso irônico nos lábios murchos. — O Tenente Brito vai adorar ouvir esse áudio. Vocês garotos realmente achavam que o Batalhão era o parque de diversões de vocês?
Meu sangue gelou instantaneamente. Olhei para Emiliano, que estava paralisado, de boca aberta, encarando o gravador na mão do velho.
O ar na padaria pareceu congelar. O som de "bip" do gravador ainda ressoava nos meus ouvidos como a contagem regressiva de uma bomba.
O velho não esperou a nossa reação. Com um movimento ágil que contradizia a sua idade, ele enfiou o gravador no bolso do paletó e, com a mesma mão, puxou da cintura um revólver escuro, mantendo-o abaixado, colado ao próprio corpo, mas apontado com firmeza para o meu abdômen.
— Sem escândalo, garotos — a voz dele veio baixa, num tom de ordem familiar que deixava claro seu passado na caserna. — Vocês vão andar calmamente até o meu carro no estacionamento. Um passo em falso, e o Tenente Brito vai receber o áudio e os corpos de dois recrutas traidores.
Emiliano congelou, os olhos arregalados divididos entre o cano da arma e o rosto impassível do homem. Eu senti o suor frio escorrer pelas minhas costas. Sem ter escolha, levantamos devagar, mantendo as mãos visíveis, e caminhamos a passos lentos em direção à saída lateral da padaria, sob a mira velada do idoso.
Estacionado na sombra de uma árvore, havia um Santana antigo, de vidros filmados.
— Para o banco de trás. Os dois — o velho ordenou, destravando as portas por dentro com a chave.
Entramos em pânico contido. O velho deu a volta rapidamente, sentou-se no banco do motorista e bateu a porta. Ele deu a partida com a mão esquerda no volante, enquanto a mão direita continuava empunhando a arma, apoiada sobre o encosto do banco do carona, apontada diretamente para o peito de Emiliano.
O carro saiu em disparada pelas ruas calmas da cidade, afastando-se do Batalhão.
— Quem é você?! O que você quer com a gente?! — engoli em seco, com a voz falhando enquanto olhava desesperadamente pelas janelas.
O velho encarou a gente pelo espelho retrovisor interno, com um sorriso de canto de boca que nos fez gelar o sangue.
— Eu sou quem vai definir se vocês passam os próximos dez anos no presídio militar ou se continuam vestindo a farda. Mas para isso... nós vamos dar um passeio.
O Santana antigo cortou as ruas asfaltadas e avançou por uma estrada de terra batida, levantando poeira no final de tarde. A vegetação ficava mais densa a cada quilômetro até o carro finalmente parar em frente a um galpão abandonado, com o teto de zinco retorcido e a estrutura tomada pelo mato.
O velho desligou o motor. A mão direita continuava firme, empunhando o revólver apontado para o banco de trás, enquanto ele virava o corpo devagar para nos encarar.
— Fora do carro. Sem pressa — ordenou, a voz gélida.
Descemos com as pernas bambas. O silêncio do lugar era ensurdecedor, quebrado apenas pelo estalar do motor quente do Santana. O homem nos conduziu para dentro do galpão sombrio e apontou a arma para dois caixotes de madeira.
— Sentem aí.
Emiliano, ainda visivelmente abalado, engoliu em seco e encarou o idoso com uma mistura de pavor e raiva acumulada.
— Quem é você, porra?! Se veio pra entregar a gente pro Brito, por que trouxe a gente até aqui?!
O velho deu uma risada baixa, um som rasgado que ecoou no teto de zinco. Ele puxou uma cadeira de praia dobrável do canto, sentou-se com calma e guardou o revólver no coldre sob o paletó, embora mantivesse a mão apoiada perto da cintura.
— Meu nome é Comandante Valente — disse ele, ajeitando os óculos no nariz. — Ou pelo menos era assim que me chamavam antes do Tenente Brito e daquele tribunal militar me tirarem a farda, a honra e a minha aposentadoria há dez anos.
Olhei para Emiliano, tentando absorver a informação.
— Você... era do Batalhão? — perguntei, a voz saindo quase como um sussurro.
— Fui o chefe da Seção de Armamento por quinze anos — Valente respondeu, os olhos faiscando com um ódio antigo. — Até que o Brito, na época um capitãozinho ambicioso, armou para que uma carga de munição desviada caísse na minha conta. Fui expulso como um cão. Hoje presto serviços de perícia por fora porque o sistema é podre e precisa do meu conhecimento, mas eles me jogam as migalhas.
O velho tirou o gravador do bolso e o girou entre os dedos, encarando-nos com um sorriso de canto de boca.
— Eu não quero entregar dois recrutas de m**** pra Justiça Militar. Isso não me dá nada — ele se inclinou para a frente. — O que eu quero é destruir o Brito. E vocês dois acabam de me dar a chave da gaveta dele.
— O que você quer que a gente faça? — Emiliano perguntou, a mente analítica finalmente voltando a funcionar, embora a voz ainda tremesse.
— O Brito guarda um cofre na sala dele com os registros originais das auditorias de dez anos atrás. Documentos que provam que ele desviava verba e jogava a culpa nos subordinados — Valente apontou o gravador diretamente para o peito de Emiliano. — Vocês têm acesso interno. Vão aproveitar a rotina do Batalhão para pegar a chave com o sentinela da secretaria e me entregar esses papéis.
— Isso é loucura! Se a gente for pego invadindo a sala do comando? E outra, depois do que aconteceu irá ter alguém lá 24hrs por dia para fazer a guarda daquele local.. — tentei argumentar, sentindo o estômago revirar.
— Se forem pegos, vão para o xadrez. Se não fizerem, este áudio vai para a mesa do Brito em vinte e quatro horas — Valente se levantou, a decisão cravada no rosto. — Vocês achavam que estavam jogando um jogo alto incriminando o....o...como é nome....lembrei....Cardoso? Não né?! Sejam bem-vindos à divisão principal, garotos. Vocês agora trabalham para mim...
O silêncio caiu como uma pedra sobre o galpão. O olhar de Emiliano cruzou o meu — e pela primeira vez, vi nele o terror absoluto de quem percebeu que não passava de mais uma peça em um tabuleiro muito maior e mais perigoso.
O retorno para a cidade no banco de trás do Santana foi feito em um silêncio sepulcral. O Comandante Valente nos deixou em uma rua escura, a três quadras do Batalhão, com uma única instrução ecoando em nossas mentes: setenta e duas horas para entregar os papéis do cofre do Brito.
Caminhamos lado a lado pela calçada sob a garoa fina de domingo. O peso da roupa civil parecia mais esmagador do que qualquer mochila de areia que o Rocha já tivesse colocado nas nossas costas.
Olhei para Emiliano, depois de ter articulado todo o plano com um parecer de inteligencia, agora andava com os ombros curvados, encarando o próprio coturno sujo de lama.
— Vamos embora para nossas casas, a gente perdeu umas 10 horas da nossa folga! — Disse Emiliano, com a cabeça baixa, um semblante de derrota.
Tirei o celular do bolso. Não havia nenhuma mensagem do Gustavo. A ausência dele me atingiu como um golpe físico no peito — ele estava fora, expulso, no mundo real, enquanto eu continuava preso em uma teia cada vez mais perigosa.
Encostei a cabeça na parede fria da estação. A folga do final de semana tinha acabado de virar uma contagem regressiva assustadora.
Eu tinha entrado naquele Batalhão achando que meu maior desafio seria aguentar o rito de passagem e esconder quem eu era. Agora, com o gravador do Valente apontado para a nossa cabeça e a segunda-feira se aproximando como um carrasco, percebi a verdade terrível:
A guerra dentro do Batalhão não tinha acabado com a saída do Gustavo. E no fim de semana, o perigo tinha acabado de nos encontrar na rua.
Deixei Emiliano na rodoviária. Ele preferiu o silêncio do seu canto, afundado no próprio pavor, enquanto eu peguei o primeiro ônibus em direção ao bairro de Gustavo. A chuva forte contra o vidro do coletivo parecia traduzir o turbilhão no meu peito.
Caminhei pelas ruas escuras até a porta da casa dele. Meus pés pesavam. Toquei a campainha duas vezes, encolhido sob o pequeno toldo da entrada.
Quando a porta se abriu, Gustavo apareceu. Ele vestia bermuda e uma camisa amassada. Os olhos, fundos e cansados, se arregalaram ao me ver ali.
— Michel...? O que você tá fazendo aqui? — ele sussurrou, olhando para os lados antes de me puxar para dentro e fechar a porta com rapidez.
Assustado e tremendo de frio e pavor, não consegui conter as lágrimas. A barreira que ergui durante todo o dia simplesmente ruía diante dele. Gustavo me segurou pelos ombros, surpreso, e me conduziu até o sofá da sala semi-escura.
— O que aconteceu? O Rocha fez alguma coisa com você? Fala! — a voz dele veio carregada daquela mesma proteção impulsiva de sempre.
Sentado ali, despejei tudo. Contei desde o momento em que saímos pelo portão de folga, a conversa na padaria com o Emiliano, o erro crasso das impressões digitais nas munições 7,62, o sequestro velado pelo Comandante Valente, o gravador de voz e a chantagem para invadir a sala do Tenente Brito.
A medida que eu falava, o rosto de Gustavo mudava de cor. A surpresa deu lugar a uma fúria incandescente. Ele se levantou do sofá, andando de um lado para o outro, passando as mãos pelo cabelo raspadinho.
— VOCÊ TÁ FICANDO LOUCO, MICHEL?! — ele esbravejou, mantendo o tom baixo para não acordar os vizinhos, mas com os dentes cravados de raiva. — Sempre vi essa sua amizade com aquele garoto do primeiro pelotão sendo um problema! Ele te meteu numa chantagem com um ex-militar pilantra! Vocês vão ser presos! Vocês vão pra uma prisão militar de verdade!
— Eu não tive escolha, Gustavo! — me levantei, enfrentando o olhar dele com os olhos banhados em lágrimas. — O velho tava com uma arma apontada pra minha barriga no carro! Se o áudio cai na mão do Brito na segunda-feira, o Emiliano roda, eu me fodo junto por cumplicidade e nada mais importa!
O silêncio caiu entre nós. O peito dele subia e descia descontroladamente. Olhei para ele, sentindo o abismo que se abria sob nossos pés.
— Eu só vim aqui... porque eu precisava te ver — murmurei, a voz falhando. — Eu achei que tinha te perdido de vez no estande de tiro.
Gustavo encarou o chão. O fogo da raiva foi se esgotando devagar, dando lugar à dor e à compaixão. Ele deu dois passos longos na minha direção e me puxou para um abraço apertado, sufocante. Sentir o cheiro dele e o calor do seu peito fez meu corpo relaxar pela primeira vez em horas.
— Caralho, Michel... — ele sussurrou no meu ouvido, segurando a minha nuca com firmeza. — Você não raciocina quando tá perto daquele garoto...Porque achou que seria tão simples assim?
— Eu estava perdido, Gustavo. Senti medo. — Minha voz falhou.
Gustavo não respondeu com palavras. Ele simplesmente aproximou o rosto do meu, fechando a distância que restava entre nós. O primeiro beijo foi carregado de angústia e urgência, um misto de saudade e o desespero de quem não sabe o que acontecerá amanhã. Ele me beijou como se quisesse apagar todo o trauma do dia, toda a pressão do Valente, do Brito e da farda que eu não conseguia tirar da cabeça.
Senti as mãos dele descerem pelas minhas costas, puxando-me para mais perto, até que não houvesse mais espaço entre nossos corpos. Ele me conduziu devagar em direção ao corredor, sem nunca interromper o contato, como se temesse que, se nos soltássemos, eu desaparecesse.
Entramos no quarto dele. A luz fraca da rua entrava pela fresta da cortina, pintando o ambiente com tons de cinza e sombra. Gustavo me empurrou gentilmente para a cama, e o colchão cedeu sob o peso dos nossos corpos. Ali, no escuro, o Batalhão, as munições, o Tenente Brito e o Comandante Valente pareciam pertencer a uma vida distante, a um pesadelo que não tinha permissão para entrar naquele quarto.
Ele me beijou novamente, com uma suavidade que contrastava com a brutalidade do nosso cotidiano, e eu me entreguei completamente.
Era uma noite de trégua. Uma noite em que não éramos recrutas, não éramos traidores, não éramos peões em um jogo mortal. Éramos apenas nós dois.
Enquanto a noite avançava, o barulho da chuva lá fora continuava a cair, mas, pela primeira vez em semanas, a tensão que cravava meus ombros pareceu diminuir, substituída pela segurança de estar ali, ao lado dele.
Eu sabia que, quando a segunda-feira amanhecesse às seis da manhã, eu teria que encarar o portão do Batalhão, o olhar desconfiado do sentinela e o perigo iminente de invadir a sala do Tenente Brito. Eu sabia que a guerra estava longe de acabar.
Mas, enquanto sentia a respiração de Gustavo contra a minha pele na penumbra do quarto, eu me permiti esquecer. Pelo menos até o sol nascer, a única coisa que importava era o calor do seu corpo e a promessa silenciosa de que, não importa o que acontecesse, eu não estaria sozinho na linha de frente.
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A segunda-feira chegou implacável. O peso de sair da casa do Gustavo e encarar a luz fria da manhã parecia uma condenação. Sem o carro do Emiliano para me dar carona, fiz o percurso até o Batalhão de ônibus, a passos lentos, sentindo cada centímetro da distância até o portão das armas.
Ao cruzar a entrada, o ambiente no pátio do Batalhão estava denso. Os recrutas se organizavam em forma, ainda cansados da folga curta, mas a sombra dos acontecimentos da semana anterior pairava sobre todos nós. Emiliano já estava na fila do seu pelotão.
Quando nossos olhares se cruzaram, vi a mesma palidez e a inquietação que quase nos custaram tudo na sexta-feira.
— ATENÇÃO, PELOTÃO! — a voz de trovão do Sargento Rocha retumbou pelo pátio. — Posição de Sentido!
Ficamos imóveis. O Rocha começou a passar as instruções do dia, detalhando as escalas de faina e a rotina de instrução militar, quando passos apressados no asfalto interromperam seu discurso.
O Capitão Mello aproximou-se do centro do pátio com uma postura ereta e uma folha oficial em mãos. O silêncio na tropa tornou-se absoluto. Rocha imediatamente prestou continência e abriu espaço.
— Tropa, descanso — ordenou Mello, ajustando a folha na altura dos olhos. — Tenho um comunicado oficial da Administração e da Seção de Inteligência a respeito dos episódios recentes envolvendo o furto de munição 7,62
Senti meu estômago despencar. Olhei de relance para Emiliano, que congelara no lugar.
— Após análises e relatórios periciais conclusivos prestados pelo consultor externo, o ex-Comandante Valente — continuou Mello —, ficou determinado que o ex-recruta Cardoso foi o único e principal responsável pelo desvio, armazenamento indevido e tentativa de ocultação do material bélico do Batalhão. O caso está oficialmente encerrado na esfera interna e encaminhado para a Justiça Militar.
O pátio permaneceu estático, mas por dentro eu estava em choque. Minha cabeça girava. Valente usou seu acesso como perito terceirizado para direcionar e blindar a perícia das digitais nas munições, limpando a barra do Emiliano e jogando a culpa 100% no Cardoso — exatamente como queria. Ele não só nos mantinha nas mãos com o gravador, como acabou de nos salvar da prisão militar antes mesmo de cobrarmos o favor.
Nossa dívida com aquele homem agora era real, profunda e perigosíssima.
Assim que fomos liberados para a primeira pausa de dez minutos antes da faina, corri para os fundos do galpão de ferramentas. Tirei o celular do bolso com as mãos trêmulas. Havia uma notificação de um número restrito na tela.
[Número Desconhecido]: Tomei uma decisão de ser bom com vocês, agora quero que façam o que eu pedi.
Engoli em seco e digitei de volta, com os dedos vacilando no teclado:
[Michel]: Porque fez algo por nós, se ainda não fizemos o que pediu? Se nem a gente sabe se vai dar conta de fazer.
A resposta veio quase instantânea, seca e gélida como o olhar do velho no galpão:
[Número Desconhecido]: Vocês vão sim. Fique atento aos meus chamados!
Olhei para o Tenente Brito que estava de braços cruzados em cima de um dos degraus da arquibancada do pátio, e senti um medo que jamais senti.
[ Continua - Segunda Temporada ]