Capítulo XXX – Cavalo rebelde
Parte I
— Potro, para de fazer corpo mole e pega logo a próxima caixa!
Algumas semanas haviam se passado. Ártemis voltara de sua aventura com alguns caminhões cheios de caixas... Pequenas e não muito pesadas, algumas possuíam um sistema elétrico de refrigeração, outras apenas funcionavam como um cooler comum... Epona tinha que abrir cada uma, investigar seus conteúdos e, depois, entregá-los a mim para que eu os fechasse e empilhasse em um carrinho que, de tempos em tempos, era levado por um guarda de volta aos caminhões... Durante aqueles dias, ela substituíra nosso treinamento na Antessala por essa tarefa.
— Perdão, Senhora... é que eu fiquei pensando...
— Claro que ficou, né? Hahahaha.
Ri junto. Havia me aproximado de Epona desde o dia em que me abraçou... Em parte, ela havia se distanciado de novo, mas parecia ser uma distância menor...
— Vou me arrepender disso, mas, como sei que você não vai se concentrar sem botar para fora o seu pensamento, fala aí o que está pensando — apontou-me o dedo sem parar de investigar um tubo com sangue (?) que ela estava chacoalhando, apenas mais uma das coisas estranhas que estavam nas caixas.
— ... Vendo a Senhora fazer tantas anotações, tantas medições, fiquei pensando...
Interrompeu-me:
— Avisei a você antes de começar que não iria falar nada sobre o que estamos fazendo aqui...
Precipitei as desculpas:
— Perdão, Senhora... mas não é sobre isso, não... Ver a Senhora anotando e trabalhando tanto me despertou a curiosidade de saber por que as coisas no Templo têm o nome que têm.
Epona estava concentrada em seu serviço, o que me poupou um choque...
— Primeiro, nunca fale em cima do que eu estou falando... Segundo, que papo é esse, Potro? Do que você está falando? Digo, o que quer saber?
Fechei mais uma caixa com a amostra que Epona havia colocado de volta...
— Perdão, não vai se repetir... Então... por que me chamar de Potro?
Epona agora investigava o que pareciam ser algumas ampolas com líquidos levemente amarelados:
— Isso depende... Acho que Ártemis estabeleceu esse nome quando desenhou a planta do Estábulo... Agora, se quer saber por que chamamos vocês de Potros... é porque vocês são escravos sexuais em treinamento. Já lhe disse isso... esqueceu?
Fiquei com receio de questioná-la...
— Pode perguntar, Potro. Você falando e fazendo é melhor que não falando e não fazendo...
— Perdão, Senhora... eu lembro que você disse isso... eu só não sabia que o motivo era o Estábulo...
Epona abria mais uma caixa cuidadosamente...
— Agora, o porquê de Ártemis ter feito o Estábulo do jeito que fez, e, melhor, feito um Estábulo para preparar os escravos... aí eu não sei ao certo... Ela era rica como uma princesa, talvez tivesse um Estábulo em sua propriedade...
Fechei mais uma caixa...
— Mas você nunca teve vontade de saber o motivo? Imagino que podia ter perguntado...
Epona observava um conjunto de ossos... não sei se humanos...
— Olha, Potro, eu sei por que ela chamou as coisas... digo, eu sei a função do porquê ela as chamou assim... do mesmo jeito que sei que esses ossos não pertencem ao mesmo espécime...
Escapou-me uma risada... Epona parou a leitura que fazia do que parecia ser um prontuário (pergunto-me até hoje se Ártemis tinha roubado um hospital?) e virou sua cadeira giratória:
— Está rindo de quê, Potro?
Percebi um desconforto diferente...
— Nada, Senhora... é que a Senhora é sempre tão profissional... é claro que veria no nome apenas uma função...
Epona me olhou com uma cara de decepção, virando-se de volta para a mesa de trabalho.
— É, acho que sim, Potro... não entendo por que isso é engraçado, mas das suas maluquices, essa é a mais tolerável, eu suponho...
Achei que a conversa tinha se encerrado com esse corte de Epona...
— Aposto que você acha, Potrinho, que tem um grande significado por trás de Ártemis ter nomeado o Estábulo desse jeito, né?
Sim, tinha certeza de que tinha, mas ainda não sabia... respondi como pude:
— Tem que haver. Ártemis é muito esperta e elegante, tudo deve ter um motivo...
— ... E você, Potrinho, está querendo implicar que eu não seria tão esperta nem tão elegante quanto ela?
Não sabia o que falar... Fui pego tão de surpresa que quase derrubei a caixa que levava para o carrinho...
— Não vou te morder, Potro... talvez vá, mas não por isso... Pode dizer, já até sei sua resposta.
— Bom, Senhora, você é muito esperta também, muito mais esperta que eu, é claro... só de saber operar tudo isso... mas são espertezas diferentes. Você é mais dura, mais prática...
Foi ela quem riu agora, afastando a máscara da boca e aproveitando a pausa para se levantar e ir até uma banqueta onde sua xícara de café estava... enchendo-a com o líquido quente e escuro.
— Você falou praticamente a mesma coisa que minha avó falou quando me pegou empalhando os animais mortos da fazenda... disse que era coisa de menino, ficou horrorizada... Desde esse dia, ouvi várias versões da sua fala até chegar aqui no Templo.
Epona abriu uma gaveta, retirou um pacote de bolachinhas, abriu-o e apontou para mim:
— Faz uma pausa, toma um café, bebe água e come um pouco... faz tempo que você está fazendo isso e eu vi que quase derrubou a caixa...
Fiz como ordenado.
— Sua curiosidade também me lembrou quando entrei no Templo... Ártemis queria que eu adotasse um novo nome, o nome de uma divindade, e eu teria que explicar para ela o porquê desse nome...
Era difícil acreditar que estava fazendo um pequeno intervalo com Epona... Aquela cena, se eu não estivesse pelado, poderia ter se repetido no meu antigo estágio...
— ... Pensei em Epona pois, pela tarefa que havia me antecipado, parecia uma escolha óbvia... afinal, os temas dessa divindade estampam tantas coisas na área da saúde...
Não havia pensado até esse ponto sobre o nome das deusas... Na verdade, para o Potro dessa época, Epona era apenas o nome da égua de Link.
— ... Ártemis odiou minha explicação, hahahaha... mas aí eu improvisei, não podia perder a oportunidade que estava me dando. Lembrei que Epona era uma deusa de origem céltica. Porém, diferentemente de boa parte desta cultura durante a expansão romana, o culto a Epona permanecera vivo... — parou para mastigar e engolir. — Os animais e, notoriamente, os cavalos, eram tão valiosos e importantes que, por sua função, o culto a Epona sobreviveu dentro da cultura que se achava mais culta e evoluída...
Interessei-me mais sobre o assunto... se soubesse como Ártemis escolhera Epona, poderia entender melhor por que ela havia me escolhido... embora as escolhas fossem para coisas tão diferentes...
— Mas por que Ártemis lhe fez essa oferta de entrar no Templo?
Epona terminava de beber o café.
— Olha, Potro, essa história é longa demais para um cafezinho... contudo, para você não ficar com muita curiosidade, a coisa foi relativamente simples... Para continuar minha pesquisa, eu tinha que ficar, constantemente, indo para vários lugares, e, nessas idas e vindas, por vezes eu perdia mais que tempo, perdia dados e resultados... Ártemis apareceu em minha vida oferecendo um lugar, este laboratório, onde eu teria que fazer algumas tarefas, mas, em troca, ela me daria tranquilidade e, principalmente, material para eu continuar minhas pesquisas... Vejo decepção no seu rosto. Achava que éramos um grupo de psicopatas sanguinárias, né? Hahahaha!
Engoli meu café para que terminasse junto de minha Senhora e voltamos ao trabalho... Em minha mente, uma estranha síntese começava a operar: não vivia um mito, mas estava no lugar onde mitos são fabricados...
Parte 2
Entramos na segunda metade do trabalho: agora, em vez de vasculhar caixas, fechá-las e devolvê-las, tínhamos que acomodar potes de medicamento (era assim que Epona chamava esses frascos plásticos sem rótulo ou qualquer outra sinalização) em caixas diferentes, baseando-nos no peso e também no barulho que eles faziam ao chacoalhar, cuidadosamente, o recipiente. Era um trabalho mais chato e mais lento, pois apenas Epona tinha autorização para abrir o lacre dos frascos, e isso deveria ser feito só em último caso, quando nenhum dos métodos anteriores parecesse funcionar. Nas caixas amarelas iam os mais leves, nas caixas vermelhas os mais pesados, e as caixas azuis e verdes eram reservadas para sons diferentes: se fizesse som e houvesse espaço para as cápsulas se mexerem, era caixa azul; senão, era caixa verde.
Quando tinha acesso a uma sequência dos amarelos e dos vermelhos, sentia um alívio no peito; era colocar na balança e as variações, via de regra, eram mínimas, de modo que, em uma faixa de peso — do padrão do amarelo ao padrão do vermelho —, quase não havia espaço para erro. Digo quase porque havia alguns que estavam exatamente, ou quase exatamente, no meio da reta. Tinha que chamar Epona para abrir, e ela estava muito estressada... furiosa. Era visível. Abrir os frascos e conferir seu conteúdo seria um ato perigoso? Caro? Ou ter de abrir o frasco, ter de recorrer à confirmação visual, feria de algum modo o ego de minha Senhora?
Quando não paravam de vir os azuis e verdes, sentia meu estômago se revirar... Na hora em que Epona me mostrou, pareceu tão fácil... ela chacoalhava e o azul fazia barulho, o verde não... mas agora que eu tinha que chacoalhar, agora que o frasco estava em minha mão, todos os frascos pareciam fazer barulho... "Será que balancei forte demais?" "Será que aproximei demais do ouvido?" "Será que devia chamar Epona?" Mas, por vezes, havia acabado de chamá-la... Eu estava no laboratório, mas Epona não ficava apenas lá; precisava auxiliar todos os cavalos e guardas que estavam dedicados a essa mesma tarefa em outros pontos do Templo... Cada vez que minha Senhora vinha a mim, vinha mais revoltada... Entre esses pensamentos, eu me perdia... Com o frasco em mãos, esquecia se tinha feito ou não feito barulho... Barulho todos faziam, mas ele havia feito pouco ou muito barulho?
A essa camada de problemas somava-se outra: quando tive minha primeira dúvida, fiz como me tinha sido instruído. Cliquei no botão do tablet e aguardei Epona vir. Quando ela chegou e me viu parado, segurando o frasco nas mãos, ela o tomou de mim e pisou no meu pé com tanta força que, por muito pouco, não quebrou meus dedos... apenas incharam. Depois disso, ela resolveu o problema como se fosse a coisa mais simples do mundo e, por alguns instantes, pareceu a mim, após a nova demonstração, que de fato seria a coisa mais simples. Pegou uma caixa de papelão vazia e falou que, se eu tivesse dúvida, era para colocar o remédio na caixa, chamá-la e continuar separando o resto até ela chegar...
Passei a fazer como recomendado, mas, ao me deixar, os malditos azuis e verdes começaram a encher a "caixa de dúvidas" rapidamente. Quando retornou, a caixa estava mais que lotada, havia remédios empilhados uns em cima dos outros... Isso a fez ficar ainda mais furiosa, chamando-me de burro e outras coisas mais... Tomei outra carimbada, agora no outro pé.
Como deveria operar, então? Se eu soubesse quando ela apareceria em minha porta, poderia medir minha velocidade e diminuir no ponto exato. Sem saber... qual seria o "ponto ótimo" que Epona gostaria de ver na caixa de dúvidas? Com essas incertezas, as diferenças sonoras tornavam-se ainda menos distinguíveis e, pior, distraído tentando resolver o enigma da caixa de dúvidas, por vezes, ao pesar, encostava na balança ou até mesmo pesava sem soltar o pote, o que me tomava algum tempo até entender por que o peso não aparecia ou, ainda, por que ele parecia tão superior aos limites do vermelho. Em uma dessas vezes...
— Potro, por que você tá parado olhando para a balança enquanto não larga o pote? Olha, eu torço para você estar tendo um AVC... porque senão...
Soltei o pote, percebendo meu erro... o mesmo erro pela segunda ou terceira vez... Virei para Epona lentamente, imaginando em qual lugar apanharia agora...
— Vim aqui para a gente bater um papo. Ontem e anteontem, vocês me tiraram tão do eixo que esqueci completamente que você precisa falar, e falar, e falar... Então vai, Potro, estou aqui para a gente conversar enquanto você trabalha... E esse pote que você estava medindo, pelo peso, não é nem amarelo nem vermelho... não sei e nem quero saber por que você o estava pesando...
Não sabia o que fazer... Se sozinho eu estava errando, com Epona me encarando e, pior, falando comigo... quanto mais eu não erraria?
— Vamos, Potro, não é para parar. Esse aí vai para a caixa azul... Agora me fala, tá gostando desses dias de laboratório?
Como Epona percebera que era azul só de eu levantar o pote da balança? Eu nem o havia chacoalhado como ela tinha mostrado... Seu ouvido era tão preciso assim? Enquanto aguardava a minha resposta, Epona destrinchava, numa velocidade assustadora, a caixa de dúvidas... Eu me sentia cada vez mais e mais medíocre...
— ... Estou gostando... mas é estranho... digo, um pouco estranho... perdão, Senhora!
Sem olhar para mim, quase terminando a caixa de dúvidas, insistiu:
— Estranho como? Perdão por quê?
— ... Estranho porque não sou muito bom... Queria ser mais útil para você, minha Senhora, e também para o Templo... acho que, com tantos erros, vai demorar para sairmos do "Cavalo Gentil"...
Epona terminou a caixa de dúvidas e começou a me ajudar na minha parte...
— Olha, Potro, como sempre, você tem só parte da razão... Você não é bom, definitivamente, mas também não é ruim... Ruim são os que estão fazendo isso de novo e seguem iguais ou piores do que você...
Epona podia até estar tentando me fazer um elogio... ou talvez estivesse, ao menos, tentando corrigir alguns excessos das punições que havia aplicado... porém, eu já antecipava sua conclusão, e ela me doía mais que meus pés inchados...
— Você é ordinário, medíocre... esse ponto da reta entre o amarelo e o vermelho que não se destaca e dá trabalho, hahahaha...
Medíocre... afora um detalhe...
— ... Vai, não é completamente ordinário, seu pau é mais grosso que o comum...
O impulso de chorar estava grande... tentava segurar.
— ... Aqui, Potro... está distraído de novo? Olha aqui! Está vendo esse detalhe no plástico? ... Aqui aconteceu uma falha na fabricação do pote. Se você não forçar muito e seu dedo afundar, é certeza que é vermelho...
Tentei procurar um pote semelhante, tentando me distrair do meu impulso...
— ... É, mas não são todos, entende? ... Ai, Potro, não entendo qual o problema de dizer que você é ordinário... você é uma presa, seu fardo é esse...
As lágrimas começaram a sair...
— ... Mas... mas... mas... se eu for só medíocre, eu não vou conseguir sair do lugar, Epona... eu pensei que no Templo, no Estábulo, eu poderia me destacar, entende?
Epona suspirou... puxou-me pelo braço com alguma violência e me fez sentar em um banco alto:
— Como você é complicado, Potro... você não foi "escolhido" por ser excepcional...
Epona deu-me as costas e voltou à tarefa, substituindo-me:
— ... Você veio como presa, não como predador...
Entre soluços, eu engasgava em meu catarro:
— ... Quando eu disse que aqui era estranho... eu... eu... acho que... eu acho que queria dizer que eu não me sinto bem aqui... aqui me lembra demais minha antiga vida... meus antigos fracassos...
Epona, sem parar o trabalho, apontou para a gaveta de um armário que estava próximo a mim.
— Tem papel lá para você assoar seu nariz e secar suas lágrimas... você está no Templo de Ártemis, Potro, para de se deixar moldar pelo passado...
Assoei o nariz, mas o choro não parava:
— ... Quero voltar para o Estábulo e para a Antessala, Epona... não estou preparado para isso... ainda...
Epona riu...
— Que bebezão, hein! Quer que eu massageie seu ego? Lembra de você vencendo o outro Potro na corrida?
Balancei a cabeça afirmativamente, sem me tocar de que ela não via.
— ... Já lhe disse que tem que responder quando eu falar com você, Potro... — suspirou. — Lá você foi melhor que ele. Não só melhor que ele, você foi acima da média para sua idade, peso e sexo. Cinquenta e cinco segundos... seria visto como vitorioso em qualquer dos meios em que você vivia antes...
Epona podia estar tentando me humilhar... certamente deveria estar tentando... mas não posso negar, sua fala teve efeito sobre mim: as lágrimas começaram a parar, os soluços a espaçar... pude ver seu sorriso...
— Nem preciso me virar para ver que seu pau tá batendo na grade... olha a perversidade que fizeram com você, Potro... convenceram você de que você era homem, quando você é apenas um Potro...
Eu tinha algumas qualidades e algumas capacidades escondidas... assim como Epona tinha, e o Templo de Ártemis foi o lugar que permitiu a ela ser a potência que era... Talvez, se eu me entregasse ao Templo, conseguiria encontrar meu brilho, mesmo que um brilho menor do que o de minha Senhora e mundano, diferente de Ártemis.
— Obrigado... Epona... acho que tô melhor!
A Senhora do Estábulo parou o que estava fazendo e me fitou, virando sua cabeça como um cão que tenta decifrar seu dono.
— Obrigado por quê, Potro?
Ela estava tentando me humilhar mesmo... mas teve o efeito oposto... O que eu responderia? Achei melhor me abrir...
— Sabe quando você me contou sobre sua vinda ao Templo? Então, acho que foi o seu maior acerto, aqui você pode ser quem você realmente é!
Epona me devolveu com sarcasmo:
— ... e, de algum modo, você acha que o Templo vai lhe dar a chance de ser o seu verdadeiro "eu", meio homem, meio bichinha? Hahaha, pior que acredita nisso, né? Vai se descobrir como homem que dá a bunda? Hahahaha!
Mas não percebi o sarcasmo. Para mim, naquele momento, Epona parecia estar dando a lição de moral ao final de uma fábula: "Procure viver em um lugar que possa fazer você ser quem você é e será feliz!".
— Talvez, minha Senhora... gosto quando me deda... mas nunca me imaginei dando a bunda para outro homem...
Epona deveria estar gargalhando por dentro; podia ver seus pelos se eriçarem quando se aproximou de mim...
— Mas veja, Potro... eu não posso simplesmente dizer que esse frasco, que pertence à caixa azul, vai na verde... não sem me frustrar... eu só poderia fazer isso se recomeçasse e mudasse a classificação das caixas, invertendo-as, por exemplo...
Continuou em um tom professoral... que encobria que essa explicação era o prenúncio do que estava por vir...
— ... Agora, ainda que eu tenha Vontade de recomeçar do zero, não posso mudar o conteúdo dos potes... percebe? Existem limites naturais de até onde a vontade pode ir... — disfarçou a maldade com um sorriso. — Volta ao trabalho, que preciso ver os outros!
Parte III
Após muito tempo e serviço, chegava-se ao fim dessa aventura de Ártemis. Restava apenas triturar papéis, quebrar caixas e separar o que seria queimado na fornalha e o que seria derretido em ácido.
Infelizmente, o trabalho se estendia, pois era necessário esperar o funcionamento da usina começar para que as fornalhas do Templo pudessem ser acesas e a operação passasse, como fumaças entrelaçadas, insuspeita. A parte fácil do trabalho era preparar as coisas que seriam queimadas; a parte difícil era sincronizar a queima com o ponto exato da usina.
De toda forma, o maior perigo parecia ter passado e o Templo de Ártemis parecia pronto para abraçar esse começo de outono em seu resgate à normalidade.
Minha Senhora estava visivelmente orgulhosa. Hoje, já tendo visto outras operações, consigo entender bem o motivo: foi um dos maiores trabalhos que o Templo já teve e um dos poucos dessa magnitude que não trouxe problemas externos.
A distância que eu havia sentido se ampliar no auge das tarefas agora parecia se encurtar novamente. Epona estava mais gentil, mais sorridente...
Nos primeiros dias dessa reta final, ela me ensinara a quebrar as caixas com os pés... depois, cansava-se e pedia para que eu, com "minhas pernas fortes", fizesse em seu lugar... mentia, provavelmente, mas me sentia lisonjeado mesmo assim... Outra tarefa que nos aproximava era a de queimar os resíduos no ácido... Epona vestia-me como se eu estivesse sendo agasalhado por minha mãe ou avó. Conferia cada detalhe, por uma, duas e, às vezes, três vezes... Se não fosse pelo cheiro pútrido do que estava sendo destruído, a tarefa seria das mais agradáveis. Minha Senhora amava suas mãos e morria de medo de que algo as comprometesse... pensando assim, Epona parecia uma mulher indefesa que avista uma barata ou um rato e grita para que alguém venha socorrê-la... Matar um bicho tão escroto não é agradável, mas a recompensa de salvar a donzela em perigo era reconfortante.
Conforme o trabalho se encerrava, Epona voltou a piscar para mim, voltou a me morder e, principalmente, estava muito mais aberta à conversa... Parecia gostar de conversar comigo... Contou-me como demorou para escolher um curso, iniciando um para logo desistir e ir a outro, terminando por preferir seguir sozinha seus estudos — achava limitantes as barreiras institucionais no que chamava de "o todo da biologia". Contou-me como foi seu primeiro beijo e também seu primeiro beijo lésbico. Contou-me tudo sobre taxidermia e como, só de raiva por ter ficado quase três anos sem empalhar animais por conta da avó, terminou por empalhar a própria.
Lembro-me de um dia em que descobrimos, em um canto, uma pilha grande de caixas que ainda não haviam sido preparadas para a fornalha. Epona chamou-me furiosa, mas não furiosa comigo; parecia furiosa com a própria Fortuna, que agora, após quase a vitória total, tentava pregar uma última peça... Quebramos muitas caixas nesse dia... Em dado momento, a vi tendo dificuldade... não sabia se fingia só para me provocar ou se realmente estava com dificuldades... de repente, ao tentar quebrar uma com uma pisadela, ela acabou por escorregar, e eu, mais que depressa, a segurei... Inicialmente, xingou-me... disse que não ia cair e que eu a havia segurado forte demais... mas, ao final do dia, quando levamos os destroços para a fornalha, ela me agradeceu, dando-me um beijo na bochecha.
E então veio a última queima da fornalha. Assim que a usina começasse a funcionar e sua fumaça subisse, a operação estaria concluída... Epona voltou ao seu traje de Estábulo; após vários dias a vendo de jaleco, agora ela estava de jockey. Tive um dia normal: bacia de água na boca, banho prolongado com toques gentis e uma lista de exercícios para que eu resgatasse meu ritmo. Quando regressei para o Estábulo, caminhando de quatro para que Epona me desse a ração... a encontrei vibrante:
— Potrinho!!! Terminamos, fizemos a última queima!!!
Estava radiante, efusiva, deu até pequenos pulinhos... via-me em Epona... como eu pulei no dia do meu melhor tempo... quis pular junto... mas não sabia se podia.
— Nossa, Potro, como você é baixo-astral! Pode levantar, comemora comigo!
Deu-me as mãos e fizemos entre nós pequenas cirandas... ao fim, com os braços entrelaçados, ela acomodou suas costas em meu peitoral... e enquanto estávamos abraçados...
— Sabe, Potro... queria falar algo com você... algo sério...
Ela nunca me falara algo sério tão próxima de mim...
— ... Sabe aquele dia no laboratório?
Intoxicado pelo seu cheiro, pelo seu corpo quente... não conseguia imaginar a que se referia.
— Foram tantos, Senhora...
Falou fingindo braveza, mas abraçou-me mais forte.
— ... Aquele dia em que você chorou como um bobo... e que não foi só bobo, como sempre...
— ... Lembro, Senhora! Consigo sentir meus pés pulsando...
— Hehehe... pisei neles, né... mas você mereceu...
Era verdade, eu havia merecido...
— ... Então, nesse dia eu estava estressada e você chorando não colaborava... mas você disse algo legal, algo que me fez pensar...
Era a primeira vez que Epona dizia que algo que falei havia sido "legal"...
— ... acho que, talvez, eu possa ser uma mulher... que faz taxidermia, né?
Respondi prontamente, aproveitando a rara ocasião em que Epona me chamava para validar sua opinião:
— Claro, Senhora, você pode ser quem você quiser aqui no Templo...
Ela soltou-se de mim:
— Ai, lá vem ele falar “porque Ártemis lhe deu essa chance!”, que chatice! — bateu a botinha no chão.
Achei que pudesse estar enciumada.
— Não, Senhora, eu não sei bem o que fizemos... mas foi bastante coisa e, de todo modo, Ártemis pode ter vindo com todas essas caixas, mas, desde que elas chegaram ao Templo, todo o mérito da operação foi seu!
Ela sorriu:
— Sabe, Potro... acho que você, às vezes, e apenas às vezes, pode ser um fofo!
Sorri com mais um elogio.
— Olha vai... só não me faça me arrepender disso, hein! Não vou lhe dar sua ração hoje, porque hoje você não merece comer ração!
Era o retorno dos exercícios e, ainda que leve, eu estava com fome.
— Por favor, Senhora! Desculpa se falei algo errado ou me intrometi onde não devia, mas estou faminto!
Ela riu.
— Ai, seu bobo, não estou brava, você não vai comer sua ração porque vai jantar comigo no laboratório daqui a pouco... vamos abrir um vinho que ganhei de Noga e brindar pelo nosso sucesso!
Sem reação com o que ela propunha, fiquei parado. Epona percebeu minha hesitação e aproximou-se do meu ouvido.
— E dessa vez, Potrinho, somos só eu e você...
Apalpou-me a bunda e após um tapa, disse:
— Agora vai de quatro para sua cocheira... vou deixar você sem cinto e sem coleira porque vamos nos sujar, hahaha!
(Caligrafia diferente, não bate com a de ninguém)
“Na metade da jornada a bruxa percebeu que, com seu primeiro método, poderia atrasar o viajante, mas não o matar. Foi então que usou seus poderes não para agravar o inverno, e sim para diminuí-lo paulatinamente. No primeiro dia, o homem caminhou da manhã até a tarde com a pele de urso; depois da tarde até a noite, levou a pesada pele nas costas. No segundo dia, quase não vestiu a pele de urso e percebeu que ela o atrasava bastante. No amanhecer do terceiro dia, acreditando que, se abandonasse a pele, poderia chegar ao seu destino na metade do tempo, ele largou a pele para trás. Naquela noite, quando ele adormeceu, a bruxa parou de suprimir o inverno e, logo, a nevasca avançou na montanha... no raiar do quarto dia, o homem, com um sorriso no rosto, estava congelado.”
