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Efeito Dominó

Um conto erótico de A Stranger on a Path
Categoria: Heterossexual
Contém 5833 palavras
Data: 18/08/2026 14:49:23
Última revisão: 18/08/2026 15:20:24

“If. A two-letter word for futility.”

― Sidney Sheldon, Master of the Game

Crescemos acreditando que, algum dia, o destino vai nos apresentar a Grande Escolha — aquela capaz de mudar o resto das nossas vidas. Porém, isso acontece para poucos. Para a maioria de nós, a transformação vem de outro jeito: uma decisão pequena leva a outra, depois a outra, até que, quando nos damos conta, estamos vivendo uma vida que jamais imaginamos. Esse caminho que percorremos para chegar até lá só pode ser compreendido em retrospecto. Ao receber aqueles áudios do Titcha, não havia como saber que estava diante do início de uma cadeia de eventos. Mas, se alguém me pedisse para contar a minha história e explicar como fui parar onde estou hoje, é por essas mensagens que eu começaria.

Titcha não era seu nome de batismo. Para ser sincero, acho que ele nem mesmo foi batizado. O nome que os pais lhe deram foi Zonga Ilunga. "Titcha" veio depois. Os meninos do bairro passaram a chamá-lo de "T'Challa da ZN". Para eles, bastava ser filho de imigrantes africanos para virar o Pantera Negra. Com o tempo, "T'Challa" foi sendo mastigado pela língua de todo mundo até virar: Titcha. E foi assim que ele ficou conhecido. Nasceu na República Democrática do Congo e chegou ao Brasil quando tinha oito anos. A adaptação ao idioma e à cultura do nosso país não foi fácil — prova disso foi ter repetido dois anos na escola. E assim acabamos na mesma turma.

Eu era um alvo fácil para as brincadeiras dos outros meninos. Devido à minha aparência, “bujão enferrujado” era uma das formas como se referiam a mim. Na primeira vez em que Titcha presenciou um grupo de garotos me chamando assim, defendeu-me primeiro com argumentos e, em seguida, com uma demonstração brutal de força, avançando sobre o maior e mais vocal dos zombadores, mesmo ainda sendo menor que ele na época. O bullying acabou da noite para o dia. A partir dali, nos tornamos amigos inseparáveis.

A gente não poderia ser mais diferente. Ainda assim, ele assumiu o papel de irmão mais velho que nunca tive. Odiava a escola não por dificuldade, mas porque queria o mundo lá fora. Mesmo assim, mantinha frequência quase impecável só para me acompanhar. Eu via nos estudos um dever, com regras claras e expectativas definidas. Ajudava-o com as tarefas; ele me arrastava para as aventuras ao ar livre, sempre sem me colocar em perigo real. Ele era a força que queria alçar voo. Eu era a raiz que o mantinha ligado à terra.

Com o passar dos anos, nossas diferenças deixaram de ser apenas de temperamento e se tornaram modos de viver. Eu me refugiava cada vez mais no silêncio, nos livros, nos jogos e no mundo que cabia dentro de uma tela. Titcha fazia o caminho oposto: estava sempre em movimento. Praticava esportes, viajava, conhecia gente nova e parecia encontrar energia justamente onde eu a perdia — no meio de uma conversa, de uma viagem improvisada ou de uma casa cheia de amigos.

Foi exatamente por isso que ele me mandou as mensagens naquele dia. Era um convite para um churrasco. Seria um feriado prolongado. Os pais dele desceriam para a praia, e na casa ficariam apenas ele e o tio, Malik, que, a despeito do grau de parentesco, era apenas oito ou nove anos mais velho que Titcha. Enquanto ouvia os áudios, já entediado antes mesmo de terminar, pensava em uma desculpa para não ir. Cheguei a abrir a conversa e comecei a digitar uma resposta qualquer. Então ele começou a listar quem estaria lá. Foi quando ouvi o nome dela:

Isabela.

Eu não tinha muitos conhecidos cuja amizade não tivesse acontecido por intermédio do Titcha. Isabela era uma dessas poucas exceções. A gente tinha frequentado catequese junto. Ela falava pouco e, quando falava, as outras meninas pareciam de repente barulhentas demais. Tinha um jeito de inclinar a cabeça quando escutava que fazia a pessoa se sentir ouvida de verdade. Eu reparava nisso. Reparava também que nunca levantava a voz para competir, nunca ria das piadas fáceis, nunca se exibia. Enquanto as outras se empurravam para o centro, ela permanecia na borda — e, isso me parecia mais raro e mais valioso do que qualquer coisa que elas pudessem oferecer. Só sei que, a partir do nono ano, eu já não conseguia olhar para ela do mesmo jeito. Mas nunca contei a ninguém. Nem ao Titcha.

Hesitei por um breve momento antes de responder. Depois mandei uma mensagem perguntando o que precisaria levar.

Passei o resto daquela noite incapaz de pensar em qualquer outra coisa. Pela primeira vez em meses, parecia existir uma chance concreta de finalmente ficar sozinho com ela. As possibilidades que se abriam para mim com aquele convite acenderam algo dentro do meu corpo. Peguei o laptop que estava do meu lado na cama e, em um site específico, procurei por vídeos de garotas solo em atos de autoamor, logo achei uma com a aparência que procurava: branca, jovem, magra e de cabelos pretos. Essa categoria de vídeo era a minha preferida para essas horas. Na verdade, era o único tipo de pornografia que eu assistia. Para mim, era uma troca mais honesta. Elas se davam prazer, e eu fazia o mesmo. Toquei-me até o clímax. No último instante, fechei os olhos e pensei na Isabela. A mulher na tela lembrava ela. Sorrindo, adormeci.

Fiquei o resto da semana imaginando como seria o churrasco. Construí estratégias, ensaiei frases, tentei prever todas as respostas possíveis para o meu roteiro. Na minha cabeça, eu nunca mais teria outra chance. Meu pai tinha aceitado uma proposta de trabalho em Curitiba e, em breve, mudaríamos para lá. Esse era outro segredo que carregava sozinho. Eu odiava despedidas, e dar a notícia para o Titcha não seria nada fácil. Naquele encontro, estava decidido a me livrar de pelo menos um dos dois pesos que trazia escondidos no peito.

Na data do churrasco, controlei minha ansiedade e enrolei um pouco antes de sair de casa. Preferia entrar com as conversas já em andamento do que passar pelo constrangimento de cumprimentar um por um. Também achei que teria o efeito teatral de entrada do par romântico em um filme. A casa do Titcha estava lotada. Contei, por alto, umas vinte pessoas. Alguns já estavam na piscina, outros sentados à sombra bebericando algo e conversando. Reconheci vários rostos. Entre eles estavam Amanda, minha prima, sua melhor amiga Michelle, e, alguns passos adiante, conversando com Titcha, estava Isabela. Linda como sempre. Quando passou a mão no cabelo, puxando-o para trás da orelha enquanto ria de algo que ele tinha dito, um raio de luz a iluminou de maneira diferente. Meu coração pulou alegre ao perceber que ela tinha ido desacompanhada.

Não demorou muito para me lembrar de por que evitava esse tipo de evento. Michelle e Amanda colocaram um funk que estourava os alto-falantes e começaram a dançar no meio do quintal. Amanda tinha um namorado na época que, por qualquer motivo, não estava ali. Essa ausência parecia deixar o caminho livre para os homens presentes apreciarem cada movimento dela. Em poucos minutos, outras garotas se juntaram a elas, transformando o gramado em uma pista improvisada. Desviei o olhar com uma ponta de desprezo e, com o copo de refrigerante na mão, busquei refúgio à sombra. O que me deu algum alívio foi ver que Isabela não tinha se misturado àquilo. Ela permanecia na borda da piscina, serena, conversando com Titcha e outras pessoas, mantendo a distância sensata daquele espetáculo.

Aproximei-me deles, esperando encontrar uma brecha para entrar no assunto. Com tanta gente por perto, não dava para dizer o que eu gostaria, mas estar próximo a ela já era o suficiente para aquele momento. O grupo começou a se desfazer. Quando restava apenas mais uma pessoa além de nós dois, Isabela disse que ia buscar alguma coisa para comer. Sorri sem graça para a garota que ficou. Esperei dois minutos, inventei uma desculpa qualquer e me levantei também. O resto da tarde virou uma sequência de quase-encontros. Toda vez que parecia que ficaríamos a sós, alguma coisa acontecia e a oportunidade sempre me escapava por entre os dedos.

Titcha arrastava os grupos de conversa, e invariavelmente eu encontrava Isabela orbitando ele. Nas últimas duas vezes, me antecipei, buscando meu amigo antes dela, sabendo que logo ela também se juntaria a nós. Essa tática não me ajudou muito a ficar mais próximo do meu objetivo. Mas teve uma ocasião em que eu estava em pé ao lado dela e nossas mãos se esbarraram, e a ponta do meu dedo indicador tocou de leve a palma da mão dela, como se fosse o princípio do gesto de dar as mãos. Nenhum de nós recuou de imediato. Minha intenção era prolongar o toque o máximo que pudesse. A vontade era envolver a pele macia dela com a minha mão. Durou poucos segundos, porém a sensação gostosa que ficou foi prolongada. Saí daquele instante com o sentimento de que um importante passo tinha sido dado.

O sol já estava se pondo quando o quintal começou a esvaziar. O céu escureceu de vez. As luzes do quintal foram acesas, e as quase vinte pessoas havia se reduzido a um grupo minúsculo: Malik; conversando com ele: Amanda e Michelle, jogadas em um par de cadeiras de praia; Isabela enrolada em uma blusa que Titcha havia lhe fornecido quando ela reclamou que estava esfriando; Titcha; e eu. O grupo acabou se reunindo em volta de uma mesa. Titcha trouxe uma garrafa de vodca, enquanto Malik acendia um baseado. Apenas Isabela e eu recusamos as duas coisas. Depois de algumas sugestões ruins de jogos, Michelle puxou um baralho daqueles feitos para arrancar confissões. No começo, as perguntas eram inofensivas, mas não demorou para que o grupo passasse a pular as cartas comportadas, buscando apenas as de teor sexual.

— Essa não vale, muda! — reclamou Amanda, arrancando a carta da mão do Titcha antes que ele terminasse de ler.

Ela mesma puxou a seguinte, leu em silêncio e soltou uma gargalhada antes de enunciar a pergunta sobre qual parte do próprio corpo mais gostava.

— Meu namorado prefere minhas coxas… — olhou para as pernas, depois virou de costas para a mesa, apertando a bunda — …mas olha esse bundão. — Voltou-se de frente e usou as duas mãos para juntar e empurrar os seios para cima. — mas os gêmeos são imbatíveis. Todo mundo fala.

Malik assobiou alto, sem disfarçar o interesse, e respondeu algo em francês que arrancou risadas do Titcha. A carta seguinte caiu para o Malik, que deveria contar sobre sua primeira vez. Ele tentou desconversar, mas Amanda e Michelle começaram a bater os copos na mesa exigindo a história. Ele cedeu à pressão, mas fez uma curva na regra: em vez da estreia absoluta, optou por detalhar a primeira vez em que transou com uma brasileira — uma passageira de um iate em que ele tinha trabalhado. Enquanto narrava com sotaque arrastado, adicionava comentários debochados sobre o marido da mulher, que estava no mesmo barco e “preferia ficar no convés olhando o mar”. Disse que o homem só descobriu no dia seguinte, e que a expressão dele valeu mais do que qualquer gorjeta. Riu e completou, quase para si:

— Alguns brancos gostam de emprestar. Os outros emprestam sem saber. C’est la vie, ein?

As meninas reclamaram que a resposta não valeu e ele pegou outra carta. Dessa vez, a pergunta era se ele ficaria com algum outro participante do jogo. Ele correu os olhos devagar por cada uma das garotas, demorando um pouco mais na Amanda, que se ajeitou na cadeira e fez pose, e disse:

— Tirando o Titcha? O resto… ça passe. Dá pro gasto…

— Dá pro gasto? — Amanda fingiu estar ofendida.

— Enchanté. Gasto é meu nome do meio. — acrescentou ele.

A mesa veio abaixo em gargalhadas. Eu sorria de canto de boca, fazendo o possível para me enturmar, mas estava mais interessado em prestar atenção em cada reação da Isabela. Uma pergunta sobre o lugar mais inusitado que já tinham feito sexo caiu para ela. Leu a carta e, balançando a cabeça, empurrou o baralho na direção do Titcha com um sorriso.

— Quero que o Ti responda essa.

A mesa toda protestou. Eu também. Titcha recusou com a cabeça e ofereceu a carta de volta. Isabela não pegou.

— Ahh, que fofo. Não tem o que contar? — Amanda gargalhou — Tá se guardando?

Isabela não piscou. Não vi constrangimento. Só sorriu de canto de boca. Passou a língua devagar pelo lábio inferior, sustentando o olhar da Amanda. Voltou a atenção ao próprio copo. Fez menção de dizer algo, mas o Titcha antecipou:

— E se tiver? Cada um no seu tempo, Mandy.

— Tá bom, papai. Desculpa. Foi só brincadeira.

Isabela pousou a mão sobre a dele e agradeceu só com os lábios. Fiquei feliz com a defesa que o Titcha fez, mas alguma coisa em mim desejava que tivesse sido eu. Malik encheu o copo das meninas. Michelle ajudou a desviar o assunto:

— Já chupei o porteiro do prédio da Mandy. O Seu Geraldo.

Amanda quase engasgou.

— Sua puta! Ele tem idade pra ser teu vô!

— E daí? Ele é um fofo. A guarita tava cheia, ele todo perdido… Quase não gozou, mas agradeceu depois. — Reclinou-se na cadeira e olhou para os homens da mesa. — A gente só vive uma vez.

Os outros já tinham seguido a conversa, mas, para mim, o ponto alto da noite tinha sido há poucos minutos. Eu também era virgem. Naquele instante, ela me pareceu perfeita.

Em algum momento, percebi que Malik já não estava mais à mesa. Amanda também tinha desaparecido, embora eu não soubesse dizer exatamente quando. Imaginei que ela tivesse ido embora sem avisar. Michelle ainda ficou alguns minutos conversando com Isabela, até bocejar e anunciar que ia ao banheiro. Titcha levantou para buscar gelo. E não voltou.

Agora éramos apenas nós dois.

Passei a semana inteira esperando aquela oportunidade. E, quando ela chegou, esqueci tudo que planejei.

— O tempo… esfriou bastante, né? — falei, inclinando o corpo na direção dela.

Isabela concordou com a cabeça, olhando em volta.

— Cadê o Ti?

— Acho que agora somos só nós dois…

— Ele foi buscar gelo faz um tempão. — Ela mirava a porta da cozinha, iluminada e silenciosa. — Será que ele… ele e os outros estão bem?

— Isabela…

— Du… melhor a gente ver o que aconteceu.

Engoli minhas palavras e me levantei. Caminhamos até a cozinha vazia. A casa, antes tão cheia de vida, agora parecia abandonada. Ouvimos um ruído vindo do segundo andar. Subimos os degraus devagar, um a um. Isabela vinha logo atrás de mim; a cada degrau, o tecido da blusa que ela vestia roçava meu braço. No topo da escada, o barulho ficou mais claro: uma batida abafada, ritmada, seca, vinda do quarto dos pais do Titcha, no fundo do corredor. A luz do quarto escapava por uma fresta entreaberta. Olhei para Isabela por cima do ombro. Ela não parecia assustada; tinha os lábios ligeiramente entreabertos e uma expressão de curiosidade.

Paramos diante da porta entreaberta. Por um instante, pensei em bater. Parecia a atitude mais sensata. Antes que eu levantasse a mão, porém, Isabela inclinou a cabeça na direção da abertura, tentando enxergar o interior. Segui por impulso.

Bastou um olhar.

A escola não me ensinou nenhuma palavra culta que pudesse descrever o que eu vi. Mas a lembrança de cada detalhe continua tão vívida hoje quanto naquela noite.

Michelle está deitada na cama, Titcha em cima dela, os dois nus. A cabeceira bate na parede no ritmo seco das estocadas. No chão, Amanda de joelhos, a boca cheia do pau do Malik, sons molhados e engasgados escapando a cada avanço do quadril dele.

O estômago virou. Me afastei da porta. Isabela permaneceu. Olhei para ela esperando que se afastasse também. Mas os seus olhos continuavam vidrados no que acontecia dentro do quarto. Instintivamente, toquei o braço dela, fazendo um gesto discreto para que fôssemos embora. Ela levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio. Em seguida, sinalizou com as mãos para eu esperar e abriu um pouco mais a fresta da porta.

Lá dentro, o ritmo sobe. Michelle arqueja fundo, unhas cravadas nas costas escuras de Titcha, o corpo inteiro tremendo sob ele. Malik segura a cabeça de Amanda com as duas mãos… fodendo a boca dela com força. Ela se agarra na cintura dele. O som que sai da garganta é um “ahhh” longo, molhado, quase um afogamento.

— Isabela, vamos... — sussurrei perto do ouvido dela, a voz trêmula. — Eles vão ver a gente aqui!

Ela fita o chão. Solta um suspiro profundo. Olha para mim. A expressão dela é indecifrável. Seguro-a pelo pulso. Faço um gesto desesperado para sairmos dali. Ela se livra de mim. Coloca a mão espalmada na porta, dá um passo à frente, e a escancara de vez. O som da madeira batendo na parede interrompe a ação do quarto. Titcha e Michelle viram a cabeça ao mesmo tempo.

— Posso entrar? — a voz de Isabela saiu firme.

Malik soltou uma risada curta pelo nariz, sem tirar o pau da boca da Amanda. Titcha olhou para Michelle. Ela deu de ombros, ainda ofegante.

— Tem certeza? — perguntou Titcha, a respiração pesada.

Isabela dá o primeiro passo para dentro do quarto, sem olhar para trás nem uma única vez. Continuei parado na sombra do corredor. Talvez, naquele momento, eu devesse ter virado as costas, descido as escadas, saído pelo portão e fingido que nada daquilo tinha acontecido. Mas não fiz. Entrei no quarto também. O cheiro de suor, vodca, maconha e sexo forma uma mistura inebriante. Titcha já está em pé perto da cama, o pau ainda duro e brilhando.

— Du?! — A surpresa dele era genuína.

— N-não vou ficar sozinho lá fora…

— C’est ça… o gordinho também veio. — Malik me mede de cima a baixo, sem pressa.

Amanda ri com a boca ainda cheia. Michelle solta uma gargalhada curta contra o colchão. Isabela já chegou até Titcha. Não hesita com o suor, com o cheiro, com o pau dele encostando nela. Cola o corpo no dele e o beija. Língua com língua. Sedenta. Titcha segura a cintura dela com força e retribui. Michelle ergue a cabeça, solta outra risada, dessa vez mais baixa. Seus olhos encontram os meus. A expressão de surpresa é a mesma que a minha.

Senti minhas pernas fraquejarem. Puxei uma cadeira de madeira perto da penteadeira e me sentei.

As mãos de Isabela descem pelo peito dele, passam pela barriga e encontram o pau. Os dedos finos e claros mal conseguem fechar em volta. Ela aperta, sente o peso, e começa a subir e descer devagar. Acho que escuto um gemido baixo. Não saberia dizer se é dela ou dele. Ela quebra o beijo, encosta os lábios na orelha dele e sussurra algo. Ele senta na cama. Isabela dá um passo para trás e tira a roupa. Vejo pela primeira vez o corpo que eu tinha inventado tantas vezes no escuro do meu quarto. Os peitos pequenos, firmes, com a marca clara do biquíni e os mamilos escuros no centro. A cintura estreita. A curva suave da barriga. A bunda redonda e alta. Tudo exatamente como eu imaginava. Titcha a pega pelo pulso e a puxa ao seu encontro.

Eu assisto a Isabela se ajoelhar no chão do quarto.

A garota da catequese. Aquela que eu julgava perfeita. Agora sem nenhuma elegância. Nenhum gesto medido. Ela abre a boca e abocanha a cabeça do pau dele. Os lábios se fecham sobre a circunferência. Sem esforço, ela o engole inteiro. A garganta dilata. Ela segura ali, o nariz colado nos pelos dele, e só depois puxa, um fio grosso de saliva acompanhando. Ri. Um riso curto, satisfeito, orgulhoso. Com a mão espalha saliva no pau e engole de novo, mais fundo, mais rápido. Os sons engasgados se misturam com risadinhas cada vez que ela consegue engoli-lo todo.

A minha cabeça girava em flashes.

“Se eu tivesse falado com ela na piscina…”

“Se eu não tivesse respondido à mensagem do Titcha…”

“Se eu tivesse sido diferente!”

“Se eu…”

Mas não havia outro "se" senão a realidade crua: a mulher que eu amava ajoelhada, engolindo o pau do meu melhor amigo, e rindo enquanto o fazia.

No chão, Michelle já está de quatro. Malik se posiciona atrás dela sem pressa. Amanda se ajoelha ao lado, uma mão brincando com o peito da amiga, a outra entre as próprias pernas. Aprecia a cena com um sorriso e masturba o clitóris com urgência. Malik enfia de uma vez. Michelle solta um gemido longo, mordendo o lábio. Amanda ri baixinho e dá um tapa leve na bunda da amiga, incentivando.

— Isso, fode gostoso essa puta. Ela adora pau grosso.

Levantei. A necessidade estúpida de não ser o único de fora me empurrou. Tirei a roupa sem jeito. Minha pele branca, a barriga saliente, o pinto mole pelo choque. Tudo parecia ridículo sob a luz amarela do quarto. Aproximei-me da Michelle. Ela abre os olhos, mede meu corpo, volta ao meu rosto e solta um arfar quando Malik dá outra estocada funda.

— Foi mal… be… bê… — disse ela, com a voz interrompida pelo ritmo do homem atrás dela — Não… Não vai rolar.

Malik puxa o cabelo de Michelle para trás, sem desviar os olhos dela.

— Geme, putain. Pede pra eu te encher a buceta de porra.

Antes que ela responda, o tapa estrala alto na bunda dela. Michelle solta um gemido longo, fecha os olhos e empurra o quadril para trás, pedindo mais. Fiquei parado ali, vendo a carne dela chacoalhar. Olhei para Amanda. Pensei nela por meio segundo. O nojo veio na hora. O desespero não chegava a tanto. Minha prima se levanta e esfrega a buceta na cara da Michelle. A amiga abre a boca e chupa com vontade.

Voltei para a cadeira da penteadeira e me sentei.

O frio do assento contra minha bunda contrastava com o calor intenso do meu rosto. Invejei o Titcha com o pau que brilhava, grosso e escuro, lambuzado pela boca da Isabela. Invejei o pau do Malik que sumia e reaparecia de dentro da Michelle. Eu era um erro naquele cenário. Um amontoado de pele mole num lugar dominado por corpos viris. Esfreguei as mãos no rosto, querendo desaparecer. Senti uma vontade quase infantil de chorar, mas o choro travou na garganta. Olhei de relance para o espelho da penteadeira e me vi refletido no canto da moldura: o menino ruivo, pequeno, o "bujão enferrujado". Com a ponta dos dedos, levantei o meu pinto que insistia em ficar encolhido entre as pernas. Inútil. Nenhuma resposta.

Na cama, Isabela e Titcha agora estão deitados.

— Achei que você tava se guardando… — escutei Titcha dizer, a voz grave.

— Eu tô…

De lado, ela abre as carnes da bunda. Move o cu exposto em direção a ele. Titcha encosta a cabeça do pau, ainda molhado de saliva, na entrada apertada dela e empurra. Isabela solta um ganido agudo, metade dor, metade prazer. Ele segura o pescoço dela com uma mão e enterra o mais fundo. Ela treme por inteiro. O pau dele nem tinha entrado todo ainda. Titcha começa a fazer movimentos longos e firmes de vai e vem com os quadris.

— Assim… quando metem tudo. Eu gosto.

Ele enterra o pau no cu dela. Isabela relaxa as pernas, totalmente entregue ao Titcha, que aumenta a velocidade das estocadas. Um dos pés fica pendurado para fora do colchão, balançando no ar. A sola ainda suja de terra do quintal. O pé pendurado é a única parte do corpo dela que está ao meu alcance. Me chama. Saio da cadeira. As pernas não me aguentam. Engatinho até a beira do colchão. Seguro o calcanhar dela. Ela não sente. Pego o dedão do pé e coloco na boca. Suor, terra, sal. Chupo. Engulo a sujeira enquanto Titcha fode o cu dela com força cada vez maior. Os gemidos dela viram gritos curtos, descontrolados.

Uma onda quente desce pelo meu ventre tão rápido que me assusta.

Olho para baixo.

Estou duro.

Duro de doer.

Só eu vejo. Ninguém mais se importa.

Juntei a roupa, vesti às pressas no escuro do corredor. Desci a escada tropeçando nos meus próprios pés. Na rua, puxei o ar para os meus pulmões como se tivesse saído de um lugar sem oxigênio.

Caminhei sem direção durante alguns minutos. Sentia calafrios. Queria vomitar. Esfregava a cabeça como se pudesse apagar a última meia hora da memória. Entre as pernas, a ereção continuava ali, dura, latejando contra o tecido da calça, indiferente ao nojo que sentia de mim mesmo. Cada passo fazia o tecido roçar nela. Eu andava mais rápido, como se pudesse deixar o próprio corpo para trás.

Passei o fim de semana trancado no quarto. Fingi gripe para os meus pais. Virei para a parede e fiquei ali. Cada vez que fechava os olhos, a cena voltava em pedaços: o som seco da cabeceira, o gosto de terra e suor no pé dela, eu nu e desajeitado no chão, o pinto mole, depois duro, e ninguém olhando para mim. Não conseguia chorar direito. Só ficava deitado, esperando que a mente cansasse o suficiente para dormir.

Na segunda-feira, Titcha apareceu. Não esperava que ele fingisse que nada tinha acontecido. E ele não fingiu. Estava preocupado de verdade. Perguntou por que eu tinha sumido, por que não respondia. Fiquei em silêncio o tempo que aguentei. Depois rasguei o peito. Contei tudo. A paixão antiga pela Isabela. Os anos guardando aquilo. O jeito que eu tinha ensaiado a conversa. A mudança para Curitiba em breve. Só omiti o pé. O resto jorrou aos borbotões da minha boca.

Ele escutou sem interromper. Quando terminei, me puxou para um abraço apertado, enquanto eu molhava a camiseta dele com minhas lágrimas. Meu corpo balançava com os soluços. Ficamos assim por alguns minutos. Acalmei-me, e só então ele falou, escolhendo as palavras com cuidado. Disse que, se soubesse dos meus sentimentos, não teria deixado a Isabela chegar perto. Nunca tinha imaginado que eu gostasse dela daquele jeito.

Ouvi preocupação na voz dele. Mas por baixo dela escutava outra coisa: eu não era um homem que tinha perdido uma mulher para outro homem. Eu era o mesmo menino frágil de anos atrás que precisava de proteção e compaixão.

A mudança de cidade, que semanas antes me parecia um castigo, de repente virou alívio. Eu estaria longe. Longe daquele lugar, longe daquelas pessoas, longe daquela noite. O tempo cura tudo. Talvez fosse o bastante para começar de novo, sem carregar o cheiro daquele quarto.

O quarto veio junto.

Nos primeiros meses, quase não saía de casa. Qualquer lugar estreito em que entrava era como se estivesse atravessando de novo o corredor da casa do Titcha. Qualquer risada alta de mulher na rua fazia meu corpo travar. Uma vez, num ônibus lotado, vi de longe uma nuca e um cabelo preto preso de um jeito que me lembrou dela. O peito apertou com uma força estúpida. Quando a garota se virou, não era a Isabela. Claro que não era. Eu sabia que ela tinha ficado para trás, em outra cidade, em outra vida. Ainda assim, durante semanas depois daquilo, a lembrança dela me causava sobressaltos.

Demorei mais de um ano até conseguir olhar para outra mulher sem sentir pânico. E só aconteceu por iniciativa dela. Ela me procurou e me chamou para sairmos. Não esperei: no quarto encontro, me declarei. Começamos a namorar. Ela era mais velha que eu. Falava o que pensava, ria alto, não tinha a elegância contida que idolatrei na Isabela. Tinha algo da Amanda, talvez. E da Michelle, quem sabe?

Com ela tive os primeiros de verdade: passear de mãos dadas, beijar, transa — ou quase isso. Minha inexperiência parecia excitá-la no começo. Esforcei-me para ser o que achava que um homem deveria ser na cama. Assertivo. No controle. Protagonista. Não funcionou. As broxadas eram frequentes. Quando conseguia ficar duro, gozava rápido demais. As tentativas de demonstrar virilidade eram apenas arremedos. O que vinha depois era pior do que qualquer gozação. Ela não gozava. Nunca foi cruel comigo. Só ficava quieta. E a quietude me esmagava.

Às vezes, depois que ela dormia, eu ficava acordado encarando o teto e pensava — sem querer — se a Isabela ainda estava se “guardando” para o casamento, se continuava fazendo o mesmo barulho que fez com o Titcha, se o corpo dela ainda tremia do mesmo jeito. O pensamento fazia-me sentir sujo, e odiava a mim mesmo por ainda carregar aquilo.

Comecei a tentar compensar minhas faltas do melhor jeito que podia: cuidando dela como rainha. Queria estar presente de verdade na vida dela. Dava tudo de mim: dedicação, zelo e carinho. Mas não era tudo o que ela queria ou precisava. Percebia que alguma coisa ainda faltava para ela. E isso me impedia de estar satisfeito também.

A virada aconteceu numa noite em que estava sozinho em casa. Tranquei as portas, puxei as cortinas e deixei o quarto na escuridão. Fechei os olhos e revivi aquela noite de feriado. Não tentei apagar a vergonha; mergulhei nela. O cheiro do quarto, o olhar de desdém do Malik, a rejeição da Michelle, a pena do Titcha… e, sobretudo, o gosto de terra e suor na sola do pé da Isabela enquanto ela se entregava ao meu melhor amigo.

Quanto mais eu me aproximava dessa imagem, mais forte vinha o nojo. E, junto dele, vinha outra coisa. Uma descarga súbita, quase elétrica, que começava no estômago e terminava entre as pernas. A primeira vez que aconteceu, fiquei assustado. O prazer foi tão violento que me deixou trêmulo e sem ar. Na segunda, ansiava pelo mesmo êxtase. Depois disso, sempre que conseguia ficar sozinho, voltava àquela noite.

Quando soube que Titcha iria me visitar em Curitiba, uma imagem muito específica se fixou na minha mente. Só precisava achar um caminho até ela. Ensaiei um plano e coloquei-o em ação naquela semana. Conversei com minha namorada. Expliquei que havia algo que precisava tentar. Ela ficou em silêncio por um tempo, me observando com uma expressão difícil de ler. Ponderou por pouco tempo. No fim, aceitou. Encheu-me de perguntas sobre o que era minha fantasia. Contei todos os detalhes. Ela sorriu animada e disse que estaria contando os dias.

Com Titcha, hesitei um pouco mais. Esperei até a noite do terceiro dia. Bebemos. Conversamos sobre coisa nenhuma. Depois, com a voz mais calma do que achei que sairia, falei. Disse que queria que ele ficasse com a minha namorada. Que eu queria assistir. Que precisava disso.

Ele não aceitou de primeira. Ficou me olhando como se eu tivesse falado outra língua.

— Du… tem certeza? — passou a mão pela barba. — Não quero participar de nada que você vai se arrepender depois.

Eu respondi que sim, que tinha pensado muito sobre isso, e que mesmo se não quisesse repetir depois, precisaria dessa experiência para confirmar isso para mim. Ele fez a mesma pergunta para a minha namorada. Ela reiterou que não tinha dúvida alguma, e que satisfazer a minha fantasia seria um prazer para ela. Com a demora de Titcha em responder, ela perguntou se ele não a achava atraente. Se, numa balada, ele não daria em cima dela. Ele ficou em silêncio, olhou para mim, e respondeu:

— Sim. Daria. Se você estivesse solteira. Mas não está. E o Du é meu amigo.

Ela sorriu, pousou a mão na coxa dele e disse baixo:

— Você me dá tesão. Meu namorado tá de acordo. Não há por que a gente não se divertir.

No fim, ele concordou. Senti que era só para me agradar.

Naquela noite, fiquei sentado na cadeira no canto do quarto de motel barato. Imóvel, atento a cada detalhe. A hesitação do Titcha desapareceu junto com a última peça de roupa que cobria a completa nudez da minha namorada. Memória e presente estavam quase indissociáveis. Ouvi os mesmos sons. Vi o mesmo movimento de corpos. Minha namorada não se continha: gemia alto, sem vergonha de mostrar o quanto estava gostando, e isso fazia o Titcha ir mais fundo, mais rápido.

Só existia o que acontecia naquela cama. A única coisa real era o prazer que eles davam um ao outro.

A voz dela clamou pelo nome dele quando gozou pela primeira vez.

Depois, pela segunda.

E pela terceira.

Quando, finalmente, minha namorada se virou para o lado, satisfeita, Titcha veio até mim. Ainda nu, agachou-se diante da cadeira e ficou alguns segundos em silêncio.

— Você está bem?

Assenti.

Ele não pareceu convencido.

— Du, se foi desconfortável pra você, preciso saber.

Baixei os olhos. Não consegui responder.

Como poderia dizer a ele que gostei de cada segundo? Como poderia dizer que, naquele exato momento, estava excitado? Que não sabia que força havia me impedido de me masturbar enquanto ele ainda estava dentro dela?

Titcha levantou e pousou a mão no meu ombro. O cheiro dos fluidos ainda impregnados no corpo dele só tornava mais difícil pensar em outra coisa. Na primeira oportunidade, corri para o banheiro e observei meu tesão acumulado escorrer pelo ralo.

Dormimos os três naquele quarto. Ofereci que Titcha continuasse na cama com minha namorada; eu me viraria no sofá pequeno. Ele insistiu que não deveria ser ele dormindo na cama com ela. Nós dois protestamos, mas ele não cedeu. Por fim, concordamos que dormiríamos os três. Deitei em uma parte minúscula, minha namorada no meio, e ele no outro lado.

De madrugada, acordei com o barulho deles transando de novo.

Nosso namoro mudou. O apetite dela aumentou até o ponto em que o vão entre o que eu podia oferecer e o que ela desejava se tornou intransponível. Terminamos.

Com a namorada seguinte, o pensamento veio quase automático: “o que Titcha vai achar dela?”. Convidei-o para casa o mais cedo que pude. E outra vez ele fez minha companheira encher o quarto com gritos de prazer. Mas as visitas dele eram raras, e a espera começou a me corroer. Foi conversando com ela que percebi o óbvio: não precisava esperar pelo meu amigo. Havia outros homens dispostos — e ela não tinha objeção.

Depois disso vieram outras. Em todas, cedo ou tarde, eu encontrava um jeito de abrir a porta. Titcha continuava sendo a constante. Com o tempo, o que antes exigia confissão e coragem virou critério de seleção das primeiras semanas.

Hoje a mulher que divide a casa e o sobrenome comigo está no quarto do segundo andar com um homem cujo nome eu mal sei. Ela o conheceu há três dias. Ainda assim, sinto que o conheço há anos. A pele escura, a forma do corpo, o jeito de se mover. Todos eles, de algum modo, lembram o Titcha. Estou na cozinha, de avental, com o pinto engaiolado há semanas. O alho doura na frigideira. Lá em cima, a cabeceira bate na parede. Dou uma mexida no molho, reduzo o fogo e espero. Quando os dois descerem, o jantar estará pronto. Escolho os pratos que ela gosta e ponho a mesa.

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Comentários

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Esse corno tem que chupar muito pau e dar muito o rabo, pra deixar de ser tão idiota. Além de emprestar a mulher, ainda manda colocar uma gaiola no pontinho.

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