“Genildo foi adicionado ao grupo ‘Turma da Escuna’”
Genildo agora estava lá, com o grupo que lhe rejeitara, não por vontade própria, mas por contigência, Logo de cara, lhe passaram todos os prints de tudo que conversaram, desde que o grupo foi criado. Ele leu, praticamente estudou tudo, com grande curiosidade. Não concluiu nada, mas pôde checar que o grupo surgiu para amenizar a acidental interação que tiveram. Parecia mesmo que o grupo tinha enfrentado uma tormenta descomunal. Foi observando o desenvolvimento, com mensagens difusas e trocas de informações sobre estado emocional. Assistiu a entrevista com a psiquiatra, onde ela descrevia que o prazer pode advir do pânico. Não satisfeito, leu artigos sobre isso e constatou que alguns grupos sobreviventes desenvolviam empatias entre os salvos. Genildo viu que o desenvolvimento das conversas era gradativo, à medida que superavam o incidente, sem qualquer conotação lasciva ou algo do tipo. Constatou o crescimento da afinidade, típica de grupos que vão criando identificação em torno de algo.
De cara, Genildo deu por satisfeito o fato de não ter ido. Ele passou a achar que realmente teve um livramento, não queria de jeito nenhum passar por qualquer terror a bordo de uma escuna, no meio de um dilúvio bíblico. Com isso, se sentiu distanciado daquele grupo. Não tinha como aquelas pessoas mensurarem abrir aquela exposição para ele ou outros. Relembrou várias coisas do passado que voltavam a assombrá-lo. Também tirou outras conclusões que o deixavam tão confuso quanto aquelas pessoas.
Percebeu, assim, que o grupo não existia contra ele, mas apesar dele. Sentiu incômodo muitas vezes, mas era perceptível que a troca de mensagens demonstravam que um afeto surgia desprovido de esquematização, era improvisado,aleatório. Confirmou que o tal encontro misterioso foi totalmente inesperado e o grupo em nenhum momento cogitou uma reunião fora do ambiente digital. Havia coisas que passava por sua cabeça, mas ele não queria se abrir.
Enquanto isso, o grupo conversava sobre amenidades, capitulo da novela do dia anterior, o jogo da seleção, um assalto que aconteceu na vizinhança de um deles, o lamento pela morte de um artista conhecido. Trocas de informações sobre livros, filmes, e séries.
Diego: Jemerson, como é o nome daquele grupo que você mostrou aqui, aquele que seu pai botava no rádio quando você era pequeno.
Jemerson: Kool and The Gang
Diego: Pô, vou pedir pro cara botar lá na rua.
Scheila: Eita que tem morador que não vai dormir hoje…
Cauê: Vou ligar pra polícia já agora, pra quando eles chegarem prender logo você, seu marginal!
Beatriz: kkkkkkkkkkkkk
Breno: Se lascou, pivete!
Diego: Porra, que onda desse cara
Jamile: Mas, Diego, essas festas de rua é pura barulheira!
Bianca: Nem me fale… já fui pra uma dessas. Fiquei com pena do povo lá
Eram essas conversas que Genildo só observava. Era como se o grupo não percebesse que ele estava lá. Ele não falava, nem ninguém cobrava.
Um dia, resolveu perguntar.
Genildo: Vocês não comentaram sobre isso no grupo, mas em alguma outra oportunidade, após o segundo passeio, vocês comentaram que desejariam que eu não estivesse naquela escuna?
O grupo não reagiu de imediato, afinal, era a primeira vez que um convidado especial estava presente perguntando alguma coisa. Mas quando as mensagens começaram a surgir, não faltou respostas.
Jemerson: Genildo, vou ser o mais honesto possível: não, nunca desejamos isso, não coletivamente
Beatriz: Quando a gente tava naquele barco, a gente tava tão confuso que mal sabia o que a gente sentia, mas a gente nunca desejou que você não estivesse ali. A gente só... não sabia como lidar com você ali.
Scheila: Genildo, vou te contar uma coisa que talvez seja difícil de ouvir... Naquele momento, a gente não tava pensando em desejar que você não estivesse, a gente tava pensando em como sobreviver àquela situação. O que a gente sentiu depois foi culpa, por não ter conseguido te integrar naquilo que a gente tava vivendo.
Bianca: Nunca a gente desejou que você não estivesse ali. A gente tava tão perdido que a gente não sabia como agir. Mas a gente nunca te excluiu da nossa cabeça. Pelo contrário. A gente tava pensando em como você iria reagir se soubesse.
Tony: Eu lembro de ter pensado, naquele momento: 'O que o Genildo faria?' E foi aí que eu percebi que você tava sempre presente, mesmo ausente. A gente não queria que você não estivesse. A gente queria que você entendesse.
Naiara: Nunca desejei isso, nunca! Quando a gente tava naquele barco, no segundo passeio, eu olhava pra você e pensava como as coisas que passavam na nossa cabeça não tinha como ser explicado. Mas nunca desejei que você não estivesse ali, o desejo era de você um dia entender.
Jamile: Filho, eu só desejei que a gente tivesse coragem de te contar.
Cauê: Genildo, não. Nunca. O que a gente sentiu foi um peso enorme porque a gente sabia que você não tava sabendo de nada. Mas a gente nunca desejou que você não estivesse. A gente só não sabia como incluir você naquilo.
Diego: Velho, quando a gente tava naquele barco, a gente sentia uma conexão tão forte que era quase assustadora. Mas a gente nunca pensou em você como alguém que atrapalhava. A gente pensou em você como alguém que a gente queria proteger.
Iris: A gente nunca desejou que você não estivesse. A gente desejou que você pudesse entender o que a gente tava sentindo. Mas naquele momento era algo impossível.
Breno: A gente tava tão preocupado em esconder que a gente não pensou em desejar que você não estivesse. A gente só pensou em como a gente ia lidar com aquilo depois..
Genildo: Mas vocês perceberam que minha presença mudava a dinâmica entre vocês.
Bianca: Sim, percebemos, claro.
Genildo: E isso não incomodou?
Bianca: Não era incômodo, era constrangimento. Nós percebíamos que existia uma parte da nossa história que você desconhecia. Isso deixou todo mundo inseguro.
Naiara: Eu passei boa parte daquele passeio preocupada com você, porque é duro estar envolto de pessoas que mantinham algo em sigilo. Isso era…impactante.
Jamile: Eu senti exatamente a mesma coisa. Eu queria que você aproveitasse o passeio, mas, ao mesmo tempo, tinha medo de minhas fraquezas
Diego: O problema era nós não saber lidar com o passado tando você presente.
Scheila: Se você tivesse estado naquele primeiro passeio, provavelmente teria participado das mesmas conversas depois, teria vivido a mesma experiência conosco. Não comentamos com você sobre isso na conversa que tivemos, mas se coloque como alguém que poderia estar naquela escuna, passando pelos mesmos dramas, mas sem Naiara presente. Seria muito saber se você tomaria as mesmas atitudes que tomamos?
Genildo tinha pensado exatamente isso antes. Scheila havia matado a charada.Ela continuou
Scheila: Nunca se coloque como alguém que achava que estava excluído, mas como um possível sobrevivente de um caos que só se encerrou após um infortúnio. Você ficou de fora da história, mas nunca por decisão nossa
Genildo não respondeu. Aquilo era pura retórica
Jemerson: Você tem todo o direito de continuar fazendo perguntas difíceis e nós temos a responsabilidade de respondê-las com sinceridade
Genildo: Mas uma coisa é certa…duvido que vocês tenham a mesma euforia com minha presença, aquela vontade de…”ressignificar” várias vezes o que vocês fizeram no manguezal durante a tempestade!
Scheila: Genildo, vou ser bem direta: a gente não realizar mais nada de prazeroso coletivamente, não será por sua causa. A gente já tinha percebido, antes mesmo de você saber, que aquilo não era sustentável. Tanto que propomos uma despedida!
Jamile: Justamente. A gente não queria mais nada disso. Tudo foi fruto de coisas inesperadas e decisões abaladas por um convívio que saiu do zap.
Tony: A conexão era forte, mas tava consumindo a gente. Sua chegada foi o empurrão que a gente precisava pra colocar um ponto final nisso
Naiara: Genildo…pense que você estar aqui é mais uma etapa de superação! Estar ocultando segredos e mergulhados num mundo próprio não faz mais sentido!
Beatriz: Tudo precisa amadurecer, Genildo. Tudo que está acontecendo são processos de maturação
Bianca: Pense que isso está dentro de uma realidade positiva, de nova interação, tudo é uma construção
Diego: É hora da amizade velho, reabilitar o que tínhamos antes. Você já viu antes que não éramos esse grupo orgástico
Cauê: Ninguém quer mais caos, por favor!
Jemerson: Tudo que a gente quer é equilíbrio. As intensidades ficaram pra trás
Íris: Isso não faz mais falta, na verdade, nunca foi uma necessidade. Éramos um grupo suscetível a enfrentar diversas situações sucessivas.
A conversa parou, mas a partir daí, Genildo passou a recordar situações que o deixaria sem jeito pra lidar com tudo aquilo.
Quando estava com um ano e quatro meses de namoro com Naiara, ele estava numa festa, na companhia de Cauê. Estavam apenas bebendo, quando uma garota se interessou pelo colega. Pra não ficar segurando vela, iria embora. Mas eis que uma prima dela apareceu para dar uma carona à garota. Vendo que ela tinha arrumado um parceiro, acabou ficando na festa conversando com Genildo. Após muito papo, passaram a flertar. O fim da noite terminou no apartamento dela, cada casal em seu quarto. Essa mulher chamava-se Dolores, e fazia curso em outro campus vizinho. Ao sairem de lá, conversaram sobre a noite passada.
Cauê: Caralho, man, que onda! A gente foi pra uma festa sem qualquer programação de pegar mulher…e olha aqui a gente saindo da casa das mina. Que madrugada, uhhhhhhhhhhhhh!!
Genildo: Pois é, velho, aconteceu, agora bico calado! Tô namorando firme, não quero fofocaiada!
Cauê: Ué, rapaz, você acha que vou sair espalhando alguma coisa, tá louco!?
Genildo: Sei lá, ninguém sabe quem são elas direito… Nem pra Breno você pode contar, vai que ele dá com a língua nos dentes pra Beatriz, e isso chega no ouvido de Naiara…
Cauê: Não, broder, que é isso! Isso morre aqui! Inclusive, peguei o contato dela, vou dizer logo que você tem dona…
Alguns dias depois, encontrou Dolores no bandejão da faculdade. Papo vai, papo vem, e mais uma vez Genildo tava traçando a gostosa. A mulher era putona, e ele mais uma vez conferia.
Mais alguns dias, ele tinha marcado de ir num aniversário de uma amiga de infância de Naiara. Só que após a aula ele encontrou Dolores. Ela tinha trancado o curso e ia fazer outra coisa.
Dolores: E aí, gatão? Vai fazer o que agora?
Genildo: Vou pra casa, tenho uma festinha logo mais
Dolores: Hum… não rola uma…despedida?Prometo não mais lhe ver
Genildo: Porra, hoje não dá… é…tenho namorada e…
Dolores: Nem se eu liberar uma coisinha pra você? Hoje tô afim de…abrir a porta dos fundos…
Era um dos sonhos de Genildo.
Genildo: Bom, tem que ser agora!
E lá estava, num motel, Genildo montado em Dolores, realizando um sonho. Antes, havia mandado uma mensagem pra Naiara dizendo que ia participar “de uma palestra”, coisa rápida. A “palestra” durou mais do que devia. Enquanto ele comia a putona, Naiara perguntava onde ele estava. Ele via na tela iluminada a mensagem “vai demorar? Vão cantar os parabéns” e Dolores quicando na rola dele. No momento que ele gozava na cara dela, chegou a ver no celular, minutos depois, com a porra na cara dela ainda visgando, uma foto de Naiara comendo bolo. Após sair do motel, já era tarde. Naiara estava brava, ele não a acompanhou na festinha. Enquanto isso ele comia também, mas não era bolo…
Após pedido de desculpas, e dois dias sem falar com ele, chateadíssima, Naiara relevou e pediu pra ele não fazer nada fora da programação que ela marcara e ele aceitara.
Fora esse caso, Genildo relembrou, com mais pesar, um episódio que acelerou o divórcio de seus pais. Seu Genildo - pai dele - jogava bola com uns amigos e passou a levar o filho, já quase homem. Nesse ínterim, Genildo descobriu que o pai tinha uma amante, e não era uma peguete qualquer, era quase uma segunda esposa. Pra ludibriar Genildo, o pai arrumou uma afilhada dela, com quem Genildo perdeu a virgindade. Ele passou a comer a menina, enquanto o pai curtia a amante. Por várias vezes, Genildo e o pai curtiam e Jamile mandava mensagens “onde estão?” “vão demorar?fiz sopa pra vocês”. Até que o pai fez uma viagem, contou a Jamile que era a trabalho. Logo depois, ficou sabendo através de uns amigos da peguete, que seu pai havia viajado com a amante. Não só isso: a mulher ficou grávida. E que depois “perdeu o bebê”. Genildo presumiu que a viagem foi realizada justamente pra mulher “perder o bebê”. Logo depois disso, o casamento, que já estava ruim, piorou. A separação veio e Jamile, que já era deixada de lado pelo marido, encalhou de vez. Era uma mulher de 70 anos num corpo de uma de quarenta e poucos. Daí Genildo incentivar a mãe a sair mais, curtir mais, até propor o passeio de escuna. Genildo tinha um sentimento de culpa de saber que era deixada de lado pra acompanhar o pai em peladas e churrascos, enquanto Jamile ficava entediada em casa assistindo Silvio Santos.
Genildo estava puto com todos, inclusive Jamile, mas ao relembrar tudo isso, pensou também que a mesma criou ele, o pegava na escola, o ensinou a ler, o levava pra médico, pagava seu plano de saúde… enquanto o pai, era mestre em incluí-lo nas benesses que o mundo masculino oferece de bom grado aos homens.
Era isso, também, que fazia Genildo não mandar o grupo ir pra porra e se mandar. Ele era do tipo que achava que se cometeu uma escorregada com alguém, melhor esse alguém não saber. Tanto com Dolores, quanto o pai com a amante que engravidou dele, Genildo achava que nem Naiara, nem Jamile, precisavam saber do que ocorrera. “Pra que carregarem uma amargura dessas sem necessidade”, era o que pensava. E também já havia pensado antes mesmo de Scheila tocar no assunto: se ele tivesse na escuna e Naiara não fosse, o que rolasse na escuna, ficaria na escuna. Então, ele se colocou no lugar deles: sim, ele adotaria a tática de não contar a ninguém o que tinha ocorrido, ainda mais escudado pela orgia ter sido gerada sem qualquer acordo ou vindo de bandalheira, e sim para espantar o medo. Sim… Genildo era do tipo que toparia que Naiara, nem qualquer outro comprometido faltoso ficasse sabendo disso. Pra que? Pra criar tumulto sem necessidade?
Ele até imaginou Naiara e a mãe chegando em casa e contando de supetão que rolou uma orgia
“Genildo, aconteceu algo horrível! Teve uma tempestade lá e acabou todo mundo na maior putaria, uma suruba dos infernos!”
A primeira coisa seria duvidar, mas quando visse as duas chorando, ia se sentir tão horrível quanto ficou no flagra, só que dessa vez, sem o impacto visual, mas sim da imaginação em ver todo mundo fudendo adoidado, curtindo, sem ele estar lá. Quem, recebendo uma notícia dessas, ia pensar em um monte de gente fugindo do medo? Que conversinha mais fiada…
Pensou também nas duas num dia qualquer, tranquilas, dizendo que queria mostrar um vídeo a ele, mostrando a entrevista da psiquiatra. Após o vídeo, e sem entender porque mostraram aquilo, as duas falam, calmamente
“É que rolou isso aí naquele dia na escuna… rolou uma tempestade, ficamos com medo, e transamos todos, em razão do pânico, assim como ela explicou. Então, relaxe. Foi só fuga do pânico mesmo. Inclusive, criamos até um grupo da galera da escuna. Quer participar?”
Qualquer tentativa de explicação pareceria mais uma comédia pastelão do que uma necessidade vital de abrir o jogo com ele, porque tinha que contar a ele porque sim e pronto! Genildo viu, pelo desenrolar das coisas, que a situação não era simples pra ninguém. E ele próprio, caso estivesse na escuna, viveria as mesmas sensações daquelas pessoas e obviamente, esconderia. De Naiara, de preferência. Aquilo o fez refletir de um modo novo, como se pudesse perceber que se ele fosse no primeiro passeio e alguém faltasse, ele estaria naquelas mesmas condições, enquanto um outro estaria alheio.
Mas tinha algo que encucava ele, isso mais que tudo. Como onze pessoas se encontram DO NADA, todas no mesmo lugar, sem qualquer agendamento antecipado?? Junte-se a isso o fato daquele grupo ser um tanto…insólito. Scheila com Diego, Jemerson, alunos?Jamile com esse mesmo grupo? Naquela amizade toda?Esquisito. Muito esquisito. Jamile, uma mulher que era a rainha da monotonia, uma figura apagada, mesmo passando por tanta coisa, não se daria assim… ali tinha coisa… mas o que?
Isso fazia com que ele ficasse dividido, sem saber que atitude tomar. Ele não queria absolver o grupo, nunca, mas também… se sentia falso em cobrar ética, já que ele escondeu muita coisa e estava coberto de razão em esconder. Não era que a traição a Naiara, e esconder a amante do pai, enquanto comia a afilhada da amante do velho, era bem menor que a do grupo, não pensava assim. A questão era o princípio: ninguém precisa saber. O grupo falava em proteger Genildo, ao manter entre os onze o que houvera, e ele pensava, por princípio, o mesmo: esconder Dolores de Naiara e a amante do pai pra Jamile era um ato de proteção a elas. Contar pra que? Ele também pensou que se ele soubesse no dia da viagem, o grupo não existiria, não ia haver rede de apoio, e provavelmente iriam fazer terapia, gastar com medicamentos contra ansiedade, depressão… Inclusive ele. Não ia ter vídeo de psiquiatra, sendo assim, não haveria explicação científica, ele ia ficar puto com todo mundo, ia cortar amizades, e ia se achar o rei da ética e da honestidade. Só que não...
Após várias reflexões, Genildo enxergava que, por trás daquele grupo, existiam pessoas tentando compreender as próprias transformações, e não apenas esconder um segredo. Percebeu também que o desconforto não havia surgido por causa da presença dele no segundo passeio, e sim pela dificuldade de explicar uma parte da própria história que, durante muito tempo, eles mesmos tiveram dificuldade de compreender.
Um dia, resolveu participar do papo no grupo, como quem não quer nada
Genildo: Alguém ai assistiu “Bridgerton”?
Diego: Ai, isso não é pra mim não
Naiara: Nós já assistimos! Nós, digo, eu e você.
Genildo: Recomendo, muito boa
Beatriz: O mais importante nessa série é que negros e brancos convivem como se a etnia não importasse. Amei!
Scheila: Eu vejo, mas ainda não assisti. É época vitoriana né?
Genildo: Isso, cinco temporadas já
Breno: Quando começa a série, de primeira, eu vejo. Quando transcorre muita temporada assim, eu fico mais resistente em assistir
Cauê: Eu acho que você falou um dia desses lá no bar
E assim eram os papos, comuns como eram antes dele propor o segundo passeio. Reclamavam do calor, enviavam receitas, compartilhavam notícia sobre educação.
Após semanas,marcaram um novo passeio de escuna, mais um, dessa vez Genildo queria observar algumas coisas... Ele chegou à marina com um misto de expectativa e cautela, não sabia exatamente o que esperar daquele novo passeio, mas estava determinado a observar, a entender, a decifrar o que havia naquela conexão que parecia tão forte, dessa vez presenciando in loco. Chegou desacompanhado de Jamile e Naiara, aliás, o namoro estava em suspenso, sem ainda ter discutido com ela qualquer rumo. Jemerson já estava a bordo, ajustando os cabos, enquanto Iris arrumava os petiscos e Diego colocava gelo no isopor. Os outros foram chegando aos poucos: Bianca e Tony de mãos dadas, Beatriz e Breno discutindo animadamente sobre a música que iam colocar, Cauê bocejando muito, Scheila com um livro debaixo do braço,Jamile chegou se olhando no espelho, e Naiara, que sorriu ao ver Genildo e correu para abraçá-lo.
Quando o grupo se cumprimentou, não havia formalidade entre eles. Abraços efusivos, brincadeirinhas, batidas de mãos... Tudo era espontâneo.
Jemerson: Sobe aí, pessoal, vamos zarpar já.
Durante todo o passeio, Genildo observou. Ele via como Bianca e Tony se sentaram juntos na proa, as cabeças inclinadas uma para a outra, rindo de algo que só eles ouviam; viu Beatriz e Breno dançarem ao som de uma música que alguém colocou, os passos sincronizados como se tivessem feito aquilo centenas de vezes; Cauê e Jemerson conversavam sobre um jogo que passou na TV.; Scheila e Jamile conversavam baixinho, os olhos brilhando com uma cumplicidade que só o tempo constrói. Viu Diego e Iris revezarem guiando a escuna; Naiara e Beatriz conversavam fazendo gestos, como se falassem de uma cena que viram na faculdade.
Genildo participava das conversas, bebia, ria das piadas, sempre foi sociável. Mas sua mente estava em outro lugar. Ele observava interações diversas. O que ele via não era um grupo de aventureiros sexuais, como ele imaginara. Eram amigos. Pessoas que se preocupavam umas com as outras, que se apoiavam, que compartilhavam a vida. Inicialmente, ele queria levar uma granada, pular na água no meio do mar, após soltar o pino, mergulhar e ouvir a explosão, como num filme de Stevem Seagal. No entanto, estava bastante curioso com o funcionamento daquelas pessoas. Ele estava um poço de confusão, hesitação, dúvida...não sabia bem o que pensar.
Quando a embarcação passou perto do manguezal, ninguém mudou de assunto nem demonstrou desconforto exagerado. Em um momento, Naiara sentou ao lado dele, num momento que ele bebia uma latinha vendo o mar.
- Tá tudo bem? Você tá bem calado, como não costuma ser
- Observando. Ainda não sei como isso funciona direito
- E o que já viu?
- Vocês tem conexão, realmente. E vejo que, durante todo esse tempo, nenhum deles tentou me afastar, nenhum deles me tratou diferente.
Naiara apertou a mão dele.
Naiara: Você também tem conexão! Não como foi gerado, pois rolou uma sintonia entre pessoas que passaram por dificuldades juntas, mas isso não quer dizer que sua participação não seja normalizada, porque é! Um estágio já foi deixado pra trás, pense nisso.
- Tô tentando entender como um flagra tão sofrido pode levar a isso, essa… . Eu deveria estar totalmente surtado, mandado todo mundo tomar no cu e ido embora.
- Genildo, aquele momento foi horrível pra todo mundo. Mas foi também o momento em que a gente finalmente teve que ser honesto. E ter sido aberta com você, mesmo que as coisas dessem muito errado, foi o melhor de tudo.
- E o mais estranho é que eu aceitei a conversa. Eu não sei explicar. Quando vocês começaram a falar, eu senti que as coisas tinham um contexto.
- A maioria das pessoas teria ido embora. Inclusive eu…
- Quando a professora Scheila falou pra eu me colocar no mesmo lugar de vocês, confesso que tinha pensado nisso assim que avaliei as conversas. Acho que foi o crucial pra eu ter um pouco de compreensão
- Não se preocupe com isso. Parece evidente. E outra… todo mundo se recuperou de um grande baque, ter sobrevivido a uma tempestade insana. Então, no fim das contas, todo mundo sobreviveu a algo muito desesperador.
Mas Genildo resolveu ser sarcástico
- Bom, pelo menos minha presença tá impedindo que todos conversassem juntos, tirassem a roupa e… aproveitassem a paisagem marítima.
- Genildo, pense que todos estamos juntando os cacos de algo que podia ser uma nova tragédia. Já falamos isso no grupo. E saiba que estávamos no meio de uma despedida, ou seja, tecnicamente isso não aconteceria porque nossa meta era evitar. Portanto, aja como se fosse algo que estaríamos experimentando após meses aprimorando um novo ritmo que seria imposto pos nós.
- Ainda é muito doloroso descobrir tudo daquele jeito.
- Eu sei… Você precisa construir sua própria impressão.
No retorno pro caís, despedidas e promessas de uma próxima. Genildo ajudou Jemerson, junto com Tony e Diego, a carregar algumas coisas até o carro de dele. Voltou pra casa com Jamile, conversando sobre o passeio, como fez com Naiara. Ele ainda estava tentando entender como ia aceitando tudo, mas ao mesmo tempo, aquele Genildo que escondeu coisas importantes tava se dando conta de que não valia agora ser hipócrita e cínico. O que gerou tudo não era sobre sexo, era sobre sobrevivência.
À noite, o grupo conversava sobre aquele dia. Sem saber muito bem o porquê, Genildo resolveu falar. Cabia a ele tentar amenizar alguma angústia que ele carregava, mas que não valia a pena ficar represado, já que ele, mais ou menos, tava começando a compreender o que o grupo havia passado.
Um dia, porém, aconteceu de novo algo bem fora da curva. Jamile estava no centro da cidade para uma consulta, quando se deparou com Scheila.
- Scheila! Nossa que coincidência!
- Oi, Jamile!Estou indo para a biblioteca aqui do lado e…
Não deu tempo. Avistaram Jemerson e Íris. Os dois ficaram pasmos
- Gente do céu! Vocês duas combinaram?
- Não, a nós…
- Que reunião é essa???
Breno e Beatriz apareceram
- Não, de novo não…
Bianca apareceu com Tony
- Meu Deus!!! Não pode ser possível!
Era. Naiara vinha subindo a rua e só viu aquelas pessoas juntas
- Não pode ser…
Cauê chegou e, por fim, Diego passou de moto. Um ficou olhando pra cara do outro, mais uma vez sem entenderem como aquilo acontecia novamente
- Gente, não tõ acreditando!
- De novo nós aqui
- Isso só pode ser uma piada universal
Se cumprimentaram, abismados ainda por aquela situação. Após alguns minutos na calçada, porém, Jamile olhou o relógio.
- Gente, foi bom ver vocês de novo, mas estou superatrasada, tenho consulta
Scheila: Eu também tenho que ir, senão a biblioteca fecha.
Jemerson: Temos que ir numa loja de artigos de festa. Vamos, Íris? Bom ver vocês
Ambos foram se despedindo e cada um foi pra um canto. Horas depois, Jemerson cria um grupo alternativo com eles, sem Genildo, e faz o questionamento que faltava
Jemerson: Pessoal, abri esse grupo apenas pra falar sobre nosso encontro hoje… mais uma vez, inexplicável. Porém, notaram como não houve aquele fogo, aquela alegria que surgia quando nos víamos? Mesmo querendo superar a euforia, foi estranho não termos tido uma reação mais inesperada
Bianca: Verdade! Nem me dei conta
Cauê: E o Genildo não apareceu
Jamile: Nossa, é mesmo! Que mistério
Diego: Mais um
Cauê: Temos uma coleção deles
Íris: Será porque não temos mais segredos?
Naiara: Se foi por isso, que bom!!
Tony: Sabe que pensei nele quando a gente estava já se despedindo?
Beatriz: Isso pode ser um sinal que a gente se acostumou com tudo isso e não é mais novidade?
Breno: Sendo o que for, achei positivo não estar eufórico
Jemerson: Não sei se foi o segredo que não mais existe, ou adaptação do grupo, mas uma coisa é certa… Genildo faz parte disso agora e não vê-lo é que me intriga
Bianca: Sim!
Cauê: É a pergunta a ser feita…por que ele não apareceu?
Jamile: Falei com ele quando sai do consultório. Ele já estava em casa
Íris: Foi estranho, a gente se encontrou de novo assim…mas confesso que depois que comentei com Jemerson que Genildo não apareceu, a coisa ficou mais esquisita
Naiara: Ele já faz parte disso e não estar presente, não sentimos o vínculo
Tony: Se foi isso, é uma grande novidade!
Beatriz: Iremos falar com ele sobre isso?
Breno: Fico com medo da reação dele, achando que fizemos coisas pelas suas costas
Jemerson: Não, porque as mensagens aqui são prova. E porque tive uma ideía sobre isso…
Genildo saiu da faculdade pra almoçar e estranhou não ter encontrado ninguém naquela manhã. Geralmente encontrava o pessoal no pátio, mas nenhum deles apareceu nem lá nem em nenhuma aula. Também não viu Sheila. O bar de Jemerson estava com apenas um funcionário, o irmão de Íris. Tava tudo muito estranho… De repente, uma notificação no celular. Quando abriu a tela…estavam lá. Os onze, sentados numa imensa mesa. Sorridentes, e embaixo uma mensagem de Jamile
- Filho, aparece aqui! Vou mandar a localização
Um frio passou por sua espinha. O que eles estavam tramando? Foi pra lá imediatamente, suando frio. Ao chegar no lugar, todos gritaram “ele chegou” e bateram palmas. Ele sem entender. Sentou na mesa e explicaram tudo: o encontro inesperado no centro, o grupo alternativo que só funcionou pra comentarem a reunião e a ausência dele. Foi então que Scheila falou:
- Achamos que o fato de você não estar indica que fez falta nessa ocasião. Tudo aponta para que sua integração no grupo tenha nos feito “curar” da euforia que sentíamos. Mas não totalmente. Marcamos aqui, fizemos um teste. Assim que sentamos, sentimos que faltava alguém. Falamos de você o tempo todo. Ficamos ansiosos lhe esperando. E a alegria tomou conta quando você entrou por aquela porta
Bianca: Você definitivamente é um dos nossos!
Cauê: Muito feliz, cara
Diego: Aê, Brô
Naiara: Esse é um dos dias mais felizes!
Jamile: Filho, você não sabe a felicidade que sinto em tudo isso estar caminhando bem!
Breno: Vamos pedir nosso rango! Tô azul de fome!
E assim, comeram e beberam naquela data de “inauguração” de Genildo. Ele não se sentia totalmente integrado, havia receios, mas sentiu boas vibrações do grupo. As conversas foram animadas, tudo dentro dos conformes. Saíram dali se despedindo e prometendo mais. Nem teve grupo naquela noite. O dia já tinha mostrado tudo.
Mas aí que está. Genildo refletiu sobre um novo encontro inesperado. “Esse pessoal não nota que isso é muito esquisito não?” Genildo era ” o cara de fora”, que podia enxergar coisas que não viam ou não refletiam… havia algo de enigmático sim!!!
E foi assim, dias depois, que rolou novo passeio de escuna. Dessa vez, mais divertido que o anterior. Parecia um grupo de farofeiros chegando numa praia pra ficar o dia inteiro farofando. Dessa vez, não havia tantas panelinhas como no primeiro. Estavam todos em rodas, batendo palmas, dançando, bebendo, falando alto, dando gargalhadas que faziam eco. Tomaram banho, deram caídas, almoçaram numa ilha… Genildo se divertiu, ele se sentia como se tivesse sendo puxado para aquele grupo. No retorno, Genildo pegou o violão, contou histórias de como aprendeu sozinho, de como o pai dele batia na porta do quarto pra parar um pouco. Tocou várias canções ao coro de todos os partícipes. Quando estavam já na marina, anoitecendo, Foi abraçar Naiara e trocaram um inesperado beijo. Era um ótimo sinal, pois o namoro deles estava em stand by, mal resolvido. À noite, todos felizes
Jemerson: O Passeio hoje foi nota dez!
Bianca: Onze
Cauê: Doze
Diego: Demais, pô
Scheila: Nossa, tô toda queimada de sol! Parecia que ele estava ali só pra nos alegrar
Tony: Diversão do começo ao fim
Beatriz: Nunca chegamos tão tarde na marina. Se alguém falasse pra gente dormir na escuna pra continuar amanhã, nem pensava duas vezes
Breno: Ainda tô maravilhado
Genildo: Ninguém sentiu vontade de ficar pelado e “fazer coisas”?
Íris: Nem passou pela minha cabeça
Cauê: Momento algum
Diego: Aí… na próxima a gente tira
Jamile: De jeito nenhum! Chega disso!
Naiara: Genildo… foi perfeito hoje. Quando tudo é feito dentro das normas, não há necessidade de tanta exaltação. Percebi hoje que os laços que criamos podem ser reinventados
Jemerson: Genildo, não pense que as relações permanecem as mesmas a vida toda. Tudo são ciclos e o que importa é que a felicidade hoje foi extrema, com uma nova harmonia
Genildo: Mas logo quando eu entro, pô!
Bianca: Se na próxima rolar o que você tá pensando, nem me chamem!
Jamile: Também tô fora…
Naiara: Só se for apenas nós dois numa ponta e os outros lá longe, ahahahahahahaha
Tony: Falando nisso… aquele beijo de vocês tem futuro
Scheila: Não força nada, Tony!
Diego: Também torço
Breno: Vou chamar vocês dois pra ir lá em casa, chamo a Bea também, deixo um quarto vazio…
Genildo: Calma, pessoal, vamos com calma
Íris: Concordo, tudo tem seu tempo
Jemerson: Deixem eles. O papo aqui é sobre todos
E assim as mensagens foram cessando. Genildo parou pra pensar que o grupo o estava respeitando não porque ele era um novo integrante, mas porque estavam respeitando ele que havia passado por uma tempestade particular e estava tecnicamente se recuperando. Ou seja, o grupo reconhecia que ele agora merecia saber das coisas, pois sabia o que era enfrentar uma tempestade e se ver em uma situação dolorosa.
Era uma sexta-feira, pós aula. Genildo foi almoçar e encontrou Naiara sozinha numa mesa, no restaurante universitário. Sentou-se com ela e conversaram sobre o curso. Depois, saíram caminhando e foram tomar um açaí. Lá, Genildo aproveitou para falar algo que já queria falar e aproveitou a oportunidade.
- Naiara, eu preciso te confessar uma coisa… Se fosse hoje, se eu pudesse voltar atrás e organizar aquele passeio de novo, eu só convidaria o pessoal da faculdade. Não chamaria a minha mãe, nem Scheila, Bianca ou Tony. Só a gente mesmo e alguns mais chegados.
- Hum, fiquei curiosa agora. Por quê?
- Porque na época, eu pensei num passeio com diferentes visões de roteiro. Queria juntar gente de fora, criar uma experiência diferente…mas a origem do convite do Jemerson era pra turma da faculdade se divertir e acabei complicando tudo.
- Sabe que eu e a Beatriz comentamos isso na época? A gente achou estranho ter outras pessoas fora do convívio acadêmico. Mas a gente entendeu seu raciocínio. Você queria incluir pessoas que eram importantes pra você.
- Pois é. E eu realmente não gostaria de ter passado os perrengues que vocês passaram na tempestade. Depois que fiquei sabendo disso tudo, eu achei que tinha tido um livramento. Ainda bem que eu não estava lá. Não queria estar naquela situação com a minha mãe, com a minha prima. Não queria ter passado por aquilo nunca.
- Genildo, no início, eu achei tudo muito esquisito, pesado, confuso… As conversas no grupo começaram a mudar tudo. Eu deixei de me sentir sozinha. Aquilo fazia muita diferença, saber que existiam outras pessoas tentando compreender as mesmas emoções, também estavam confusas, com vergonha...Com o tempo, o grupo deixou de ser apenas um lugar para falar daquele episódio.Virou um lugar onde a gente conversava sobre a vida. Isso… foi muito importante para mim.A conexão que surgiu entre a gente, a intensidade... eu não sabia o que fazer com aquilo. Mas as mensagens crescentes no grupo me deixaram confortável. Não me sentir sozinha naquele segredo me fazia sentir acolhida.
- Mas você curtiu de verdade tudo que aconteceu, né?
- Não minto… curti. Porque tinha o contexto de superação, de vida, liberdade após tanta coisa ruim... Mas vou te dizer uma coisa: se eu pudesse voltar atrás, eu teria preferido ficar com você no dia que ficou indisposto. Se você acha que teve um livramento, eu também não queria ter vivido aquela tempestade horrível, aquela sensação de ter sido abusada por um monte de gente, a necessidade de ocultar tudo, pois não sabíamos das reações dos outros, da nossa, se ficaríamos sãos depois de espalhar tudo… Preferia ter passado aquele dia com você, mesmo que fosse só pra ver TV e tomar sopa.
- Sério?
- Não é fácil passar por uma montanha russa de emoções e sentimentos ambíguos como eu passei. Eu me dividi, Genildo. Mas as coisas foram perdendo o nexo. Não desejo isso pra ninguém. Lembrando como foi nosso último passeio, é aquilo ali que faz sentido, lógica, é real entre as pessoas. Pense que éramos uma comunidade bem insólita! Eu, uma garota da classe média, com Diego, Jemerson, sua mãe, uma professora, seu amigo, sua prima… é muito fora do habitual. E também… exótico. Considero uma fase maluca, mas dependendo de uma escolha… eu também não queria ir naquele passeio. Aí que está: se seu pensamento de voltar no tempo se concretizasse, somente a turma da faculdade iria, passariam por aquilo, e acho que não comentariam com a gente. E o segredo ficaria somente entre eles. Vá saber…
Eles riram, com Genildo concordando. Naiara ficou mais séria e pegou na mão dele.
- Mas em nenhum momento deixei de te amar, Genildo. Eu adorava estar presente com você. E mesmo quando eu tava no grupo, mesmo quando eu tava com eles, depois daquela gandaia toda...eu pensava em você. Eu me perguntava o que você ia achar, como você ia reagir se soubesse. E isso me machucava. Houve momentos que o grupo se tornou viciante, porque apenas nós nos compreediamos. Mas… se você disser que percebeu que eu estava distante, fria com você… por favor, diga!
- Eu fiquei muito magoado com aquele flagrante, Naiara. Quando eu vi vocês ali, cantando, rindo, se divertindo... eu achei que tinha perdido tudo. Que vocês tinham me excluído completamente. E eu considerei improvável uma reaproximação.
- Nossa, eu também, todos ali… o mundo tinha acabado geral.
- Agora, depois de ouvir vocês, de entender o que aconteceu, de ver como vocês se comportam... O relato de vocês teve algo de convincente. Não parecia uma história pronta. Cada um lembrava de um detalhe… eu enxergava as coisas por um ângulo. E, curiosamente, tudo fazia sentido junto.E o mistério dos encontros inesperados, aquela sensação de que o universo tava conspirando... isso me fascina.
- Fascina?
- A ideia de que algo maior pode estar em jogo. Que a conexão de vocês não foi só sobre sexo, mas sobre algo mais profundo.E que… realmente pensei que não gostaria mesmo de estar ali.
- Lembra que a Scheila pediu pra você se colocar no lugar de alguém, meu lugar na verdade, e você emudeceu, reconhecendo que tomaria as mesmas atitudes? Pois então… Eu jamais gostaria de saber disso tudo. Nunca fui expansiva assim, então preferia ficar no meu canto… com você, de preferência. Reitero que nunca deixei de te amar.
- Eu não quero perder você, nunca quis. Existe mágoa, grande…quando se gosta de uma pessoa, mesmo com agravantes, as coisas não cessam assim. Pra ser honesto, nunca cessaram de fato.
- Você tem todo tempo do mundo.
- Eu sei…
Os rostos se aproximaram e um beijo aconteceu. Foi progredindo, até saírem dali. Foram pra casa de Genildo. Naiara estava entregue.. Genildo a sentiu intensa, arrojada. Treparam por muito tempo. Tudo o que passou serviu pra chama ser reacendida em intensas labaredas. A vontade de recomeçar, de juntar os trapos, e seguir a vida, machucados, mas ainda sobreviventes.
Naiara: Olha, Genildo… se você se sente dividido, sem saber que atitude tomar, se absolve ou culpa a todos, não entende nada direito, se sente próximo das pessoas, tomando atitudes que você não queria tomar, posso dizer… Bem vindo ao clube. Era assim que sempre me senti.
Genildo estava assim desde que resolveu checar tudo. Se ele não queria estar na escuna, não lhe cabia fazer julgamentos profundos de algo que não viveu. E com as coisas que ele escondeu dela e de Jamile, o fazia crer que o grupo tomou atitude semelhante a ele, como princípio. E os encontros inesperados o faziam sentir com pensamentos totalmente desorganizados. É como se fosse inútil lutar contra o indecifrável. Após recordações, erros cometidos por ele, proteção a quem não devia saber das coisas, ele estava mesmo era começando a aceitar tudo, pois ele não entendia era mais porra nenhuma.
(continua...)