Acordei devagar, ainda preso naquela sensação agradável de quem tinha conseguido dormir profundamente depois de um dia completamente absurdo. Estiquei o braço para o lado da cama, procurando inconscientemente algum sinal de Gillian. Minha mão encontrou apenas o lençol frio. Abri os olhos, o espaço ao meu lado estava vazio.
— Gillian? — me sentei na cama rapidamente.
Nenhuma resposta, olhei ao redor do quarto, embaixo da cama. Nada. Meu coração acelerou, ela disse que não podia ficar longe de mim. Na noite anterior, eu tinha visto na prática o que acontecia quando tentávamos nos afastar. Então, se ela havia desaparecido...
Será que alguma coisa tinha acontecido? Me levantei depressa e saí do quarto.
— Gillian?
Passei pela sala, cozinha, banheiro, nenhum sinal dela. Meu coração acelerou ainda mais.
— Gillian!
Voltei para a cozinha tentando organizar prováveis lugares onde ela poderia estar. Será que caiu da janela? Não, estavam todas trancadas. Será que estava escondida no guarda-roupas?
Foi então que ouvi um pequeno barulho vindo da cozinha. Olhei ao redor, Gillian estava sentada no chão, completamente distraída. Seu rosto estava sujo, as mãos também. Até a camiseta que havia vestido para dormir tinha algumas manchas brancas.
Nas mãos, segurava uma embalagem aberta de chocolate branco. Ao lado dela havia outra completamente vazia. Ela levantou os olhos para mim, percebendo minha presença.
— Você está aqui?
— Estou — ela respondeu ainda de boca cheia.
— Eu achei que você tivesse ido embora.
— Por que eu iria embora? — ela franziu a testa, quase ofendida.
— Porque você não estava na cama.
— Eu acordei com fome — ela ergueu a embalagem que segurava. — E encontrei isso.
— Você comeu tudo?
— Sim — ela acenou vigorosamente com a cabeça.
— Tudo?
— Tudo — ela parecia genuinamente satisfeita, levantou a barra na minha direção. — O que é isso?
— Chocolate branco.
— Por que isso é tão bom?
— Porque é chocolate.
Ela ficou me olhando esperando alguma explicação plausível.
— É difícil explicar — admiti.
— Os humanos conseguem fazer uma comida assim? — ela deu outra mordida.
— É, algumas coisas a humanidade fez direito.
— Por que vocês demoraram tanto para inventar isso? — ela mastigou devagar, cada mastigada ela revirava os olhos, como se estivesse tentando memorizar cada segundo daquela experiência. — Isso é uma das melhores coisas que já comi.
— Você ainda vai descobrir coisas melhores.
— Melhor que isso? — Gillian gargalhou baixo, ainda de boca cheia. — Impossível.
— Confia em mim, tem pelo menos mil coisas melhor que isso.
— Se você diz, eu vou confiar. Mas nada pode ser melhor que isso.
Ela voltou a comer, decidi não discutir. Discutir com uma bruxa milenar poderia levar algum tempo e eu não queria que ela me transformasse num sapo.
— Um sapo não, eu te transformaria num grilo — Gillian engoliu e mordeu mais um pedaço da barra.
Tomei a barra da mão dela e guardei o restante. Em meio a protestos e birras dela, consegui limpar suas mãos e boca, troquei sua camisa e a deixei sentada na mesa. Preparei nosso café da manhã enquanto Gillian permanecia sentada, observando cada movimento meu como se eu estivesse realizando algum ritual mágico. Coloquei pão, manteiga, queijo, café e açúcar sobre a mesa. Ela olhou para tudo.
— O que é isso?
— Café — entreguei uma xícara a ela.
Gillian segurou com as duas mãos e cheirou, pareceu gostar, um sorriso surgiu no rosto. Deu um gole e seu rosto mudou imediatamente.
— Isso é horrível — ela afastou a xícara.
— É só café — comecei a rir.
— Vocês bebem isso por vontade própria?
— Sim.
— Por quê?
— É bom para acordar.
— Ou para morrer — ela olhou para a xícara, desconfiada.
— Você acabou de descobrir uma das grandes discussões da humanidade.
Gillian ignorou meu comentário e olhou para o açúcar. Pegou um pouco com a ponta do dedo e colocou na boca.
— Ah — seus olhos arregalaram.
— Gostou?
Ela sorriu. Ela pegou o açucareiro e despejou uma quantidade generosa dentro do café. Misturou e provou novamente. Fez outra careta.
— Continua horrível.
— Você colocou açúcar demais.
— O açúcar não teve culpa, essa coisa preta parece titica de galinha.
Não consegui segurar o riso, ela me lançou um olhar indignado e decidiu abandonar o café. Em seguida, pegou a manteiga.
— E isso?
— Manteiga.
— Para quê?
— Para passar no pão.
— Vocês passam isso no pão? — ela olhou para mim como se eu tivesse acabado de propor algo completamente absurdo.
— Sim.
— Por quê?
— Porque fica bom.
Gillian passou um pouco no pão e deu uma mordida, ficou em silêncio.
— E então?
— É estranho — ela mastigou devagar.
— Estranho bom ou estranho ruim?
— Acho que gostei — ela olhou para o pão novamente. — Isso é muito mais macio do que eu lembrava.
— Você já comeu pão?
— Claro.
— Então por que está surpresa?
— O pão da minha época era muito mais duro — ela tocou discretamente a gengiva. — Às vezes chegava a machucar.
Fiquei alguns segundos em silêncio, era estranho pensar naquilo. Para mim, pão era uma coisa tão banal que raramente parava para pensar na existência dele. Para Gillian, até aquele alimento simples carregava uma lembrança de um mundo que já não existia. Ela voltou a comer.
Percebi como aquilo tudo devia ser estranho para ela. Uma mulher que havia vivido por séculos estava sentada na minha cozinha descobrindo café, açúcar, manteiga e pão. Para mim, era apenas café da manhã, para ela, parecia uma viagem no tempo.
— O que é uma viagem no tempo? — Gillian olhou para o teto, pensativa.
Enquanto terminávamos o café da manhã, comecei a organizar mentalmente o que precisávamos fazer. Gillian tinha aparecido na minha vida praticamente sem nada além das roupas que usava. Além disso, ela precisava de produtos de higiene, e a geladeira estava longe de ter comida suficiente para duas pessoas.
— Precisamos sair hoje — falei.
— Para onde?
— Primeiro, comprar algumas roupas para você. Depois, produtos de higiene e comida.
— Isso quer dizer... mais chocolate? — o olhar dela estava carregado de expectativa.
— Comida.
— Chocolate é comida.
— Você sabe o que eu quis dizer — terminei meu café e me levantei. — Vamos ao shopping.
— Shopping?
— Você vai descobrir.
— Gostei dessa frase — ela levantou de imediato. — Vou descobrir!
O shopping foi provavelmente a pior escolha possível para alguém que havia passado séculos presa em uma cabana. Assim que entramos, Gillian parou, seus olhos percorriam tudo ao redor, até a música ambiente parecia chamar sua atenção.
— Todas essas coisas pertencem a alguém? — Gillian perguntou, ainda maravilhada
— De certa forma.
— Vocês realmente construíram um mundo estranho.
— Você ainda não viu nada.
Entramos em uma loja de roupas, Gillian imediatamente começou a escolher peças. O problema era que ela escolhia tudo apenas pela aparência. Pegou um salto alto e calçou, deu dois passos, no terceiro, perdeu o equilíbrio e precisou agarrar meu braço.
— Como alguém consegue andar com isso?
— Costume.
— Isso foi criado para torturar.
Comecei a rir.
— Não ria.
— Desculpa.
— Você não está desculpado.
Ela tirou os sapatos e os abandonou no banco. Depois escolheu um vestido elegante. Quando saiu do provador, ficou diante do espelho.
— Gostei — ela deu uma volta.
— Ficou bonito.
Ela tentou dar um passo maior, parou. Tentou levantar a perna, não conseguiu. Olhou para mim.
— Por que eu não consigo me mexer?
— Porque o vestido é apertado.
— Então por que alguém usaria isso?
Dei de ombro, ela franziu a testa. Depois veio a calça jeans. Gillian conseguiu vestir, mas passou os primeiros segundos puxando o tecido.
— Isso é desconfortável.
— É uma calça.
— Parece uma armadura — ela puxou a cintura. — Por que toda roupa parece querer impedir minhas pernas de funcionarem?
No fim, escolheu roupas muito mais simples. Camisetas, blusas, calças confortáveis e roupas íntimas. Quando já estávamos quase saindo, ela viu um vestido preto. Ficou olhando para ele durante alguns segundos. Pegou o vestido e entrou no provador. Quando voltou, fiquei em silêncio por alguns instantes. O vestido lembrava muito aquele que ela usava na cabana. Só que agora não havia nada de sobrenatural nela.
Era apenas Gillian, odeio admitir, mas ela estava linda. Ela se olhou no espelho e abriu um pequeno sorriso.
— Gostei desse.
— Eu também.
— Você está olhando demais — ela me olhou através do reflexo e deu um sorriso de canto.
— Só estou dizendo que ficou bonito.
Saímos da loja e continuamos andando pelo corredor do shopping. Foi então que Gillian parou. O sorriso desapareceu de seu rosto.
— O que foi? — virei para trás, percebendo que ela não me acompanhava.
Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos e suspirou lentamente, sua respiração começou a ficar mais pesada.
— Tem alguém nos observando — ela se virou para trás.
— Quem?
— Não sei.
— Então como sabe que tem alguém nos observando? Quer dizer, é um shopping. Várias pessoas podem estar olhando para a gente agora.
— Eu consigo sentir — ela levou uma das mãos à cabeça.
— Sentir o quê?
— Minha cabeça está doendo — ela fechou os olhos novamente, apertando-os com força.
— Gillian?
— Eu estou com medo — ela se virou para mim, realmente havia um medo genuíno em seu olhar.
Gillian olhou de um lado para o outro, provavelmente tentando descobrir quem estava nos observando. Ela parecia realmente assustada. Passei a mão por seu ombro e a abracei, tentando acalmá-la.
Para minha surpresa, funcionou. A respiração pesada foi ficando mais lenta até se normalizar. Ela fechou os olhos e, por um instante, pude ver uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. Gillian rapidamente a enxugou, como se não quisesse que eu percebesse. E, por consequência, acabei sentindo o mesmo medo que ela. Fui tomado também por uma profunda tristeza, misturada a uma raiva que não parecia ser minha.
Mentes conectadas. Provavelmente, emoções também.
Olhei ao redor, extremamente desconfortável. Não havia nada de diferente. Pessoas caminhavam pelo corredor, algumas conversavam, outras carregavam sacolas. Tudo parecia absolutamente normal. Mas Gillian continuava olhando para os lados como uma presa sendo caçada numa floresta escura.
— A gente pode ir embora daqui? — ela disse baixinho.
— Ainda precisamos fazer as compras.
Ela me encarou por alguns segundos, claramente contrariada.
— Se alguém estiver nos observando, provavelmente já foi embora.
Gillian não pareceu convencida, mas assentiu. Segurou minha mão e continuamos andando. Ela suspirou aliviada como se o pior já tivesse passado. E realmente passou, não sentia mais aquele misto de emoções, tristeza, raiva e o medo.
Continuamos caminhando pelo shopping, ela não soltou minha mão em nenhum momento. Às vezes olhava para trás, mas o sorriso aos poucos foi voltando e, então, continuamos nossos afazeres.
O mercado foi outra experiência completamente nova para Gillian. O primeiro desastre veio das escadas rolantes, foi uma luta para convencer ela a subir nelas. Me arrependi no mesmo instante quando começamos a subir, e ela a gritar.
Fui alvo de severos questionamentos sobre o porquê das pessoas empurram carrinhos de metal no mercado. Começamos a andar pelos corredores, Gillian parava praticamente a cada poucos metros.
— Por que existem tantas marcas diferentes disso?
— Porque são empresas diferentes.
— Mas não é a mesma coisa?
— Nem sempre.
— Como assim?
— Um pode ter qualidade melhor que o outro.
— Então vocês criaram várias versões da mesma coisa para discutir qual é melhor?
— De certa forma.
Alguns minutos depois, descobriu o refrigerante, provou. Seus olhos se arregalaram. Depois que descobriu o sorvete, a reação foi ainda mais exagerada. Ela me olhou com uma expressão quase indignada me questionando o por que eu demorei tanto para libertá-la.
Minha única e sincera reação foi começar a rir.
Continuamos fazendo as compras. Em determinado momento, percebi que Gillian estava estranhamente silenciosa. Olhei para o carrinho, havia mais uma barra de chocolate branco ali. Olhei para ela, ela fingiu que não percebeu.
— Gillian.
— Sim?
— Você colocou isso aí?
— O quê?
Apontei para o chocolate, ela olhou.
— Ah.
— Ah?
— Deve ter aparecido.
— Sozinho?
— Talvez.
— Vou fingir que não vi.
Ela sorriu satisfeita. Quando chegamos aos caixas automáticos, Gillian ficou ainda mais intrigada.
— Quem está trabalhando aqui?
— Ninguém.
— Então quem cobra?
— A própria máquina.
— Como?
— Tecnologia.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você percebe que essa palavra está começando a parecer como a sua versão de magia? — ela olhou para mim.
— Você tem um ponto.
Saímos do mercado carregados de sacolas. Gillian caminhava ao meu lado, ainda distraída com tudo o que tinha visto.
— Ei!
Parei, reconheci a voz antes mesmo de me virar.
Annya, ex-namorada.
Meu corpo reagiu antes que eu pudesse controlar. Virei lentamente, ela estava alguns metros atrás de nós, caminhando em nossa direção. Foi nesse instante que percebi Gillian mudar. O sorriso desapareceu, ela ficou completamente séria.
— O que foi? — perguntei.
— Ela sente muitas coisas, muitas coisas ao mesmo tempo — seus olhos ficaram fixos em Annya. — Amor, mágoa, ciúme, ressentimento.
Annya continuava se aproximando.
— Você consegue sentir essas coisas? — fechei os olhos, mas rapidamente os abri de novo.
— Sim, mas somente quando é direcionado a você.
Antes que eu pudesse responder, Gillian segurou minha mão. Ela entrelaçou os dedos nos meus. Seu braço deslizou pelo meu e, alguns segundos depois, apoiou a cabeça no meu ombro.
— O que você está fazendo? — senti meu rosto arder.
— Nada — ela sorriu.
Annya finalmente chegou perto. Seu olhar passou de mim para Gillian, depois voltou para mim.
— Oi — Gillian e eu falamos de uma vez, ela com mais entusiasmo do que eu.
— Oi — Annya olhou para Gillian de cima a baixo e depois se voltou para mim. — Quem é ela?
— Ela é... — abri a boca para falar.
— Sou a namorada dele — Gillian respondeu.
— Minha... — virei o rosto para ela.
Ela apertou discretamente minha mão, o gesto era pequeno, mas a mensagem estava clara. Entre na brincadeira.
— Namorada? — Annya ergueu uma sobrancelha.
— É uma longa história — falei.
— Gillian — ela sorriu se apresentando. — Muito prazer.
— Annya.
As duas se encararam, por alguns segundos, nenhuma delas disse nada. Gillian continuava agarrada ao meu braço.
— Vocês estão juntos há quanto tempo?
— Não muito — respondi rápido.
Ela olhou para mim, havia algo diferente em seus olhos. Gillian tinha razão, não era apenas raiva. Havia mágoa ali, talvez até alguma coisa que eu não quisesse reconhecer.
— Bom... eu preciso ir — Annya deu alguns passos para trás. — Só queria te avisar que eu esqueci algumas coisas na sua casa, eu vou passar para buscar depois.
Antes de se virar, lançou outro olhar para Gillian. Acenei com a cabeça. E assim, ela foi embora. Fiquei observando até ela desaparecer entre as pessoas. Só então percebi que Gillian ainda segurava minha mão.
— Pode soltar agora.
— Posso — ela respondeu, não soltando a minha mão.
— Gillian.
— Ela não gostou de mim.
— Você acabou de se apresentar como minha namorada.
— E?
— Isso costuma causar algumas reações.
— Funcionou — ela deu de ombros. — Ela ficou com mais ciúmes.
— Você fez isso de propósito? — olhei para ela, incrédulo.
— Claro — Gillian abriu um sorriso satisfeito. — Foi divertido.
Voltamos para o apartamento em silêncio. Coloquei as sacolas sobre a bancada da cozinha e comecei a guardar algumas coisas. Gillian permaneceu encostada na bancada, me observando. Não disse nada, eu também não. Durante alguns minutos, apenas ouvimos o barulho das embalagens sendo guardadas.
— Você ainda gosta dela? — Gillian interrompeu nosso silêncio.
Parei.
— Não — merda, respondi rápido demais.
— Não? — ela continuou me encarando. — Então por que seu coração acelerou quando você a viu?
— Foi surpresa.
— Ah, não foi só surpresa.
— Não esperava encontrar ela.
— Seu coração não acelera desse jeito por causa de um encontro inesperado.
— Você virou especialista em corações agora?
— Não — ela sorriu. — Em você, sim.
Parei novamente, não encontrei nenhuma resposta convincente. Gillian percebeu, seu sorriso aumentou.
— Você é um péssimo mentiroso.
— Eu não estou mentindo.
— Está tentando — ela se aproximou. — E o pior nem é você tentar mentir para mim, é você tentar mentir para si mesmo.
Gillian ficou alguns segundos em silêncio, me observando com aquele sorriso que começava a me deixar desconfiado.
— Eu vi algumas das suas lembranças com Annya.
— Você estava bisbilhotando minha cabeça de novo?
— Eu já expliquei, não faço isso de propósito.
— Então para.
— Não consigo — ela deu de ombros, completamente tranquila. — Você é quem está pensando nela.
— Eu não estou pensando nela.
— Está sim.
— Foi só porque a encontramos hoje — desviei o olhar.
— Claro — o jeito que ela respondeu me fez perceber que não tinha acreditado nem por um segundo.
— Você está com ciúmes?
Ela fez uma expressão exageradamente triste. Os cantos da boca se curvaram para baixo e os olhos ficaram levemente marejados, numa atuação tão descarada que quase comecei a rir.
— Talvez.
— Gillian...
— Você não pode ver um rabo de saia que já quer partir para cima — ela parou, piscou algumas vezes. — Rabo de saia?
— É uma expressão — comecei a rir.
— Rabo de saia... — ela repetiu lentamente, como se estivesse tentando descobrir algum significado oculto naquelas palavras, então começou a rir. — Vocês realmente falam coisas estranhas nesta época.
— Você acabou de descobrir uma expressão popular.
— Eu gostei — ela continuou sorrindo enquanto se aproximava.
— Me responde uma coisa — a encarei, sério. — Desde quando somos namorados?
— Desde o momento em que você me libertou — ela respondeu igualmente séria. — Passei séculos sozinha, sem poder tocar o mundo, sentir o vento, experimentar uma comida, tomar um banho ou simplesmente caminhar descalça pela terra.
Ela baixou os olhos.
— Então você apareceu.
— Isso é estranho, você acha que me deve alguma coisa?
— Não, é justamente o contrário — ela balançou a cabeça, Gillian voltou os olhos para mim. — Eu não quero pagar uma dívida. Quero escolher o que fazer com a liberdade que você me deu, e eu escolho ficar com você.
Por alguns segundos, não consegui dizer nada.
— Ainda está pensando na Annya? — ela percebeu meu silêncio e se aproximou um pouco mais.
— Não.
O sorriso de Gillian ficou maior.
— Agora você não está mentindo — o sorriso dela ficou maior enquanto sua boca se aproximava da minha.
Gillian aproximou seu rosto do meu o suficiente e me beijou. Por alguns segundos, tudo pareceu normal. Então aquela sensação familiar começou a surgir. O mundo ao redor perdeu nitidez. Minha respiração ficou pesada e as bordas da minha visão começaram a escurecer, exatamente como acontecia sempre que estávamos prestes a fazer algo mais íntimo.
— Espera — a afastei rapidamente.
— O que foi? — ela me olhou, um pouco surpresa.
— O que você faz comigo quando me beija?
— Eu aguço seus sentidos — o sorriso desapareceu do rosto dela. — Posso fazer você sentir tudo com muito mais intensidade. Sons, cheiros, toques... qualquer sensação fica mais forte.
— Então é por isso que eu quase perco a sanidade? — passei a mão pelo rosto.
Ela assentiu lentamente. Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Não quero isso, não quero que você mexa nos meus sentidos.
— Por quê? — ela me encarou, séria.
— Porque eu quero sentir você como uma pessoa normal, quero saber o que é estar com você sem magia, sem poderes, sem você alterando o que eu sinto. Se eu gostar... quero que seja porque fui eu quem sentiu. Não porque você tornou tudo mais intenso.
O olhar dela mudou. Por alguns instantes, Gillian pareceu simplesmente não saber o que responder.
— Tudo bem — o sorriso surgiu novamente em seu rosto, ela se aproximou novamente, mas dessa vez parou antes de me tocar. — Então será do seu jeito.
— Do nosso jeito — sorri, passando a mão pela cintura dela e trazendo-a para mais perto.
— Do nosso jeito — ela respondeu, envolvendo os braços no meu pescoço.
Agora sim, estava entregue totalmente a ela, e ela a mim. A boca dela era voraz, a língua invadindo a minha com uma fome sensual. Agarrei o cabelo preto dela, um punhado escuro e sedoso, e inclinei a cabeça para aprofundar o beijo. Os meus dentes roçaram o lábio inferior dela enquanto minha outra mão apertava sua bunda, dando um tapa nada sutil. Gillian respondeu com um gemido abafado na minha boca, um som que vibrou do peito dela para o meu.
Me desgrudei de sua boca e meus lábios percorreram seu pescoço, deixando um pequeno rastro de saliva, deixando algumas marcas de mordidas, chupões e alguns beijos. Gillian tinha um aroma peculiar, muito similar ao da cabana, mas o queimado se tornava cada vez mais fraco conforme os dias iam passando.
Sem aviso, ela colocou as duas mãos no meu peito e me empurrou para se afastar. Sua respiração estava pesada, os olhos dela, aquele azul intenso, fixaram-se nos meus enquanto ela se agachava devagar. Quando percebi, minha bermuda já estava nos pés, meu pau pulou para fora batendo em seu rosto, latejou no ar antes dela agarrar com uma mão e a envolver as bolas com a língua.
Gillian, de joelhos à minha frente, não tirava os olhos dos meus. Sugava minhas bolas com tanta maestria que parecia que eu iria delirar. Era como se houvesse uma névoa, um efeito dela que deixava minha mente flutuando, um passageiro no meu próprio corpo. Curiosamente era como se ela tivesse aguçado os meus sentidos, ao mesmo tempo, estava completamente sóbrio. Cada sensação era nítida, crua, amplificada. Ver o desejo puro e não filtrado refletindo nos olhos dela, sentir o calor da sua respiração na minha pele, era intenso pra caralho. Era mil vezes mais intenso do que estar sob o efeito da droga dela.
Ela não perdeu mais tempo, com um movimento rápido, se afastou o suficiente para pegar um certo impulso e abocanhou meu pau inteiro. Se só sentindo a língua de Gillian nas minhas bolas eu já estava delirando, sentir sua boca quente e molhada no meu pau era a melhor sensação do mundo. A língua dela trabalhou, desenhando círculos, sugando com uma fome animal. Eu joguei a cabeça para trás e um grunhido profundo saiu da minha garganta. As minhas mãos encontraram novamente o cabelo dela, mas desta vez não para guiar, apenas para me agarrar a algo real enquanto o mundo parecia dissolver-se na boca dela. Ela chupava como se a vida dela dependesse disso, como se quisesse sugar a minha alma através da pele.
Não aguentava mais, precisava estar dentro dela. Com um esforço, a agarrei pelo braço e a puxei para cima. Ela ficou um pouco instável, e eu usei isso para virá-la de costas para mim. Empurrei ela suavemente, mas com firmeza, na direção da mesa em meio à cozinha. Enquanto a empurrava, ela desatou o botão do seu short curto e deixou-o cair aos pés, largando-o no chão nos nossos lentos passos. Depois, com um movimento rápido e prático, puxou o tecido da sua calcinha para o lado, deixando à mercê sua carne melada e inchada.
Mais um pouco e suas pernas bateram na madeira da mesa. Eu não esperei mais nenhum segundo, não podia. Precisava foder Gillian.
Alinhei o meu pau na entrada dela e meti de uma só vez, até o talo. O calor dela engoliu-me por inteiro, os lábios me receberam tão bem que eu parecia um convidado de honra em sua intimidade. Veio uma contração rápida apertando meu pau em resposta à invasão súbita. Gillian soltou um grito alto, misturando dor e prazer e talvez surpresa. Eu não dei tempo para se adaptar. Comecei a foder sua buceta, a me mover com um ritmo brutal, impulsionado por uma necessidade que eu não sabia que possuía. Cada estocada era profunda, forte. O som da minha pele batendo na pele dela ecoava na cozinha, misturado com os meus grunhidos e os gemidos dela.
Agarrei com força sua cintura e continuei metendo na mesma brutalidade. Gillian se inclinou um pouco, arrebitou seu rabo para mim e apoiou as mãos na mesa. Aquilo me possibilitava ir mais fundo nela, sentia cada um de seus músculos internos me apertando e então, o primeiro orgasmo dela veio. Tão rápido quanto a minha necessidade de fodê-la.
As pernas tremeram, o equilíbrio quase vacilou, só não caiu porque eu a mantinha em pé, a segurando pela cintura. Ela virou a cabeça para trás, por cima dos ombros e caçou a minha boca com a dela. Nos beijamos enquanto eu a fodia e enquanto ela ainda terminava de gozar. Continuei naquele ritmo selvagem até ser interrompido por ela.
Ela afastou-se de mim, se virou e sentou-se na borda da mesa, as pernas abertas em convite fizeram o mel escorrer de sua buceta até a madeira. Eu não precisava de mais. Avancei e entrei com tudo nela de novo, desta vez, frente a frente. Cacei a boca dela com a minha e a beijei, chupei sua língua, mordi seus lábios desajeitadamente enquanto ela gemia na minha boca. O ângulo era diferente, me possibilitava ir mais fundo. A cada estocada, o corpo dela recuava e a mesa pesada se movia alguns centímetros, rangendo em protesto no chão. Agarrei as pernas dela, envolvendo-as à minha cintura, puxando-a contra mim com cada metida. Ela agarrou-se aos meus ombros, as unhas a se enterraram na minha pele, os olhos fechados, a cabeça pendurada para trás, se desgrudando da minha boca.
O orgasmo dela veio de novo, e dessa vez posso jurar um pouco da minha pele saiu debaixo das suas unhas enquanto ela as cravava nos meus ombros.
— Seu animal — ela falava com a voz tremendo do orgasmo.
— O que foi? Não aguenta mais?
Ela endireitou a cabeça, o cabelo caindo por cima do rosto, me encarando, ofegante, ainda se recuperando do orgasmo.
— Claro que aguento — ela se aproximou, com as mãos em volta do meu pescoço e falou antes de me beijar novamente. — Posso fazer isso o dia inteiro se quiser, só não sei se você vai aguentar.
— Ok, vamos terminar na cama então.
Ela apenas assentiu, sem soltar o meu pescoço. Eu envolvi os meus braços em torno dela, a levantei do chão enquanto ela ainda estava enrolada em mim e carreguei-a para fora da cozinha. Cada passo era um esforço, meu pau ainda dentro dela dava aquela sensação apertada, sentia ela deslizando para mais fundo enquanto eu andava, era quase insuportável. Já no quarto, a joguei na cama, ela caiu de costas, quicou duas vezes, rindo, uma risada rouca e excitada. Logo, ela se virou, ficando de quatro, arrebitou a bunda, levou as mãos para trás abrindo as nádegas e deixando o rosto colado com o lençol, ao mesmo tempo, me lançando aquele olhar provocante que me deixava maluco.
Antes de meter, não podia deixar de provar aquele cuzinho todo exposto, seria um desperdício deixar essa oportunidade passar. Fiquei de joelhos atrás dela, minha língua foi direto no anel de couro, ela gemeu quando sentiu o quente e o molhado lubrificando o buraco. Senti as pregas me apertarem, deslizei para baixo até a entrada de sua buceta, já completamente arrombada, vermelha, ainda pulsando com o orgasmo e muito molhada.
Massageei o clitóris enquanto me ajeitei, aproximei a cabeça do meu pau na entrada do seu cuzinho, tentei penetrar, mas acho que ela ainda não estava pronta para essa experiência.
— Não, não e não — Gillian apertou meu pau pela base e apontou para a entrada de sua buceta. — O lugar certo é aqui.
— Tá com medo de fazer anal? — enfiei tudo de uma vez.
— Não... — ela soltou um gemido prolongado. — É imoral...
— E o que estamos fazendo aqui? Não é imoral? — passei a fodê-la com força, agarrando seus dois braços com as duas mãos e puxando contra mim a cada metida.
Acho que ela cansou de conversar, a única coisa que fazia era gemer e falar palavras desconexas. Ótimo, melhor assim. Estava criando uma paixão com a Gillian gemendo desse jeito no meu pau, ainda mais quando ela gozava...
E falando em Gillian gozando, lá vai ela mais uma vez. Amava como o interior dela me apertava, parecia sugar cada centímetro do meu pau para dentro de si, e o melhor ainda era quando ela esguichava enquanto a fodia com tanta violência.
E falando em esguicho, lá vai ela novamente. Molhando todo o lençol e a cama, respingando os próprios fluidos ao redor e principalmente, molhando tanto eu quanto ela. Eu não me importava em tomar aquele banho de prazer, mas só pensava que, durante a noite, iria ser um certo incômodo dormir no colchão molhado.
Mas foda-se, estava fodendo uma bruxa milenar. Uma bruxa que sabia transar. Uma bruxa que do nada, acabou virando minha namorada. E olha que nem teve pedido de namoro e nem nada do tipo.
Opa, me distraí tanto que cheguei no meu limite. Voltei a me concentrar nas estocadas, ainda dava para sentir o aperto dela do último orgasmo. E então, comecei a gozar, enchendo sua buceta e seu útero com a minha porra. Cada jato que depositava ali, era mais uma estocada que fazia um barulho estrondoso com a minha pele batendo na dela.
E no final, me afastei, me sentando enquanto Gillian se jogava para a frente, se deitando. Ambos estávamos tão ofegantes que não conseguimos falar nada de início. Me deitei ao lado dela, e a mão de Gillian rastejou no lençol até chegar no meu braço, me apertando.
— Você não me pediu em namoro ainda — ela intensificou um pouco mais o aperto no meu braço.
Olhei para ela. É, provavelmente ela sabia tudo o que eu estava pensando enquanto fodia de quatro. É muito difícil se acostumar com esse compartilhamento de mentes.
Estava pensando demais nisso de novo. E como não poderia me separar de Gillian, acho que esse seria o nosso destino, de um jeito ou de outro.
— Gillian, quer namorar comigo?
— Quero! — ela respondeu sem ao menos hesitar, abrindo um sorriso enorme.
