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Primo, eu ainda te amo! | Capítulo 19: 10 anos de mentiras.

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Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 4215 palavras
Data: 02/08/2026 14:27:32

Acordei sem saber exatamente quanto tempo tinha dormido. Meu primeiro impulso foi esticar a mão para o lado da cama, procurando por ele. Encontrei apenas o lençol frio. Abri os olhos devagar, ainda sentindo o peso do vinho na cabeça e um gosto amargo na boca. Por alguns segundos, fiquei encarando o teto do quarto, tentando convencer meu cérebro de que tudo o que tinha acontecido na noite anterior tinha sido real. O hotel. O abraço. O beijo debaixo do chuveiro. A conversa. O jeito como Caíque me colocou na cama e passou a mão no meu cabelo até eu adormecer. Não tinha sido um sonho. Eu ainda conseguia sentir o perfume dele impregnado no travesseiro.

Levantei devagar, o corpo inteiro dolorido, não sabia se pelo álcool, pelo surto da noite anterior ou pelos dez anos de saudade que pareciam ter desabado sobre mim de uma vez só. A casa estava silenciosa. Um silêncio estranho. Pesado. Caminhei descalço pelo corredor, desviando dos cacos de vidro que ainda estavam espalhados pelo chão. A luz da manhã atravessava as janelas e iluminava a bagunça que eu mesmo tinha feito. O espelho quebrado continuava ali, com manchas secas do meu sangue misturadas aos estilhaços. A sala parecia cenário de guerra.

Passei pela cozinha e encontrei apenas o prato vazio que ele tinha lavado antes de ir embora. O cheiro do café que ele preparou ainda parecia preso no ambiente. Aquilo fez meu peito apertar de novo. Era curioso como uma pessoa conseguia estar presente mesmo depois de já ter ido embora.

Olhei para o relógio na parede.

Eram nove e vinte e três e ele já devia estar longe.

Peguei o celular automaticamente e não havia nenhuma mensagem, ligação e nem mesmobnotificação.

Desbloqueei a tela de novo alguns segundos depois, como se ela pudesse mudar de ideia sozinha.

Nada.

Voltei a guardar o celular no bolso.

Cinco passos depois, tirei outra vez.

Nada.

Era ridículo.

Eu sabia que era ridículo.

Mesmo assim continuei fazendo aquilo durante a manhã inteira.

Sentava no sofá.

Desbloqueava o celular.

Nada.

Levantava para beber água.

Desbloqueava o celular.

Nada.

Sentava outra vez.

Nada.

Meu cérebro tentava me convencer de que ele tinha prometido voltar. Caíque nunca tinha feito uma promessa olhando nos meus olhos daquele jeito. Só que outra parte de mim lembrava exatamente da última promessa.

"Eu volto."

E ele nunca voltou.

A lembrança veio sem pedir licença, o aeroporto, o abraço. A bolsa de estudos.

A promessa de que a distância seria só por um tempo.

Depois...

Silêncio.

Dias.

Semanas.

Meses.

Anos.

O bloqueio nas redes sociais.

As mensagens que nunca foram respondidas.

O convite de casamento.

Meu peito começou a apertar de um jeito conhecido. Não era tristeza. Era medo. O mesmo medo que passei dez anos tentando enterrar.

Levantei num impulso e fui até a janela da sala. Afastei um pouco a cortina. Lá embaixo, a cidade seguia funcionando como se o mundo não tivesse acabado. Gente caminhando na calçada. Carros passando. Uma senhora levando um cachorro para passear. Um entregador de bicicleta.

Como era possível o mundo continuar girando quando parecia que o meu tinha parado outra vez?

Peguei o celular.

Nada.

Olhei as horas.

Dez e quinze.

Respirei fundo.

"Ele deve estar resolvendo as coisas."

Foi o que tentei dizer para mim mesmo.

Talvez estivesse explicando para a esposa.

Talvez estivesse falando com a família.

Talvez estivesse voltando para o hotel.

Talvez...

Talvez...

Talvez.

Percebi que minha vida inteira tinha sido construída em cima dessa palavra.

Talvez ele volte.

Talvez ele me ame.

Talvez exista uma explicação.

Talvez amanhã seja diferente.

Sorri sozinho.

Um sorriso cansado.

Quase irônico.

Passei a mão no rosto e senti a barba começando a crescer. Fazia tempo que eu não me olhava direito. Caminhei até o banheiro para lavar o rosto e, por reflexo, meus olhos encontraram meu reflexo no pedaço de espelho que ainda tinha sobrevivido. Eu parecia um estranho. Os olhos inchados. A boca machucada. O curativo improvisado na mão. A camisa jogada sobre a cadeira ainda tinha manchas de sangue e vinho misturadas.

Era impossível acreditar que aquele homem era o mesmo garoto que, dez anos antes, acreditava que bastava amar alguém para que tudo desse certo.

As horas passaram devagar. O apartamento parecia aumentar de tamanho conforme o silêncio crescia. O relógio fazia um barulho irritante a cada segundo, e eu comecei a odiar aquele tic-tac, como se cada movimento dos ponteiros estivesse me afastando mais um pouco da promessa que Caíque tinha feito.

Onze horas.

Nada.

Meio-dia.

Nada.

Uma da tarde.

Nada.

Foi exatamente nesse momento que alguma coisa dentro de mim começou a quebrar.

A esperança foi dando lugar ao medo.

O medo virou desconfiança.

A desconfiança virou certeza.

Ele não vinha.

De novo.

Meu corpo inteiro ficou pesado. Não era cansaço físico. Era como se alguém tivesse colocado concreto dentro do meu peito. Levantei do sofá apenas para fechar as cortinas da sala. Não queria mais ver a luz entrando. Não queria ouvir a cidade. Não queria olhar para aquele apartamento destruído.

Queria desaparecer por algumas horas.

Ou alguns anos.

Voltei lentamente para o quarto. Nem me dei ao trabalho de trocar a roupa. Apenas sentei na beira da cama, olhando para o colchão amassado do lado onde ele tinha deitado. Passei a mão por cima do lençol, como se ainda pudesse encontrar algum vestígio do calor dele.

Fechei os olhos.

"Ele prometeu."

Só fiquei olhando para o teto, exatamente como fazia quando tinha XVI anos, esperando uma mensagem que nunca chegava. Era assustador perceber que, dez anos depois, eu continuava sendo aquele mesmo garoto. Talvez mais velho. Talvez mais cansado. Mas ainda esperando.

E, pela primeira vez desde que encontrei Caíque outra vez, comecei a sentir aquele velho fantasma voltando a caminhar dentro de mim.

O medo de que ele desaparecesse... mais uma vez.

Dormi sem perceber. Não foi aquele sono que descansa. Foi um apagão. Como se meu corpo simplesmente tivesse desistido de continuar acordado enquanto a minha cabeça insistia em repetir as mesmas perguntas. Não comi. Não tomei banho. Não respondi nenhuma mensagem. Não tive forças nem para me levantar da cama outra vez. Apenas fiquei ali, encarando a escuridão do quarto até que meus olhos pesaram sem que eu conseguisse impedir.

Não faço ideia de quanto tempo passou.

A primeira coisa que me despertou não foi um barulho.

Foi um cheiro.

Abri os olhos lentamente, ainda completamente desnorteado. Por um instante achei que estava sonhando. Aquele aroma era inconfundível. Feijão recém-cozido. Arroz. Alho dourando na panela. O cheiro de comida de casa. Daquelas comidas que abraçam a gente antes mesmo da primeira garfada.

Franzi a testa.

Meu apartamento nunca tinha aquele cheiro.

Muito menos depois da destruição da noite anterior.

Fiquei alguns segundos deitado, tentando entender onde estava. A cabeça ainda doía por causa da bebida, mas bem menos do que antes. Meu corpo parecia pesado, como se cada músculo estivesse coberto por uma camada de cimento.

Sentei devagar na cama.

Passei a mão pelo rosto.

Olhei em volta.

O quarto continuava escuro, mas agora a luz do fim da tarde atravessava uma pequena fresta da cortina. O silêncio que antes parecia sufocante tinha desaparecido. Agora existia um som distante de panela sendo mexida, de água fervendo e de talheres batendo suavemente sobre alguma bancada.

Meu coração acelerou.

Não.

Não podia ser.

Levantei quase tropeçando nos próprios pés e caminhei lentamente até a porta do quarto.

Assim que coloquei o pé no corredor, parei.

O corredor estava limpo.

Olhei para o chão.

Os cacos de vidro tinham desaparecido.

O espelho quebrado já não estava mais espalhado pelo piso. Alguém havia juntado cuidadosamente os pedaços maiores, deixando tudo organizado num canto para evitar que eu me machucasse. Até o sangue que havia secado perto da parede tinha sido limpo.

Meu peito apertou.

Continuei andando devagar.

A sala...

A sala já não parecia o cenário de guerra que eu tinha deixado para trás.

As almofadas voltaram para o sofá. A mesa de centro estava no lugar. As garrafas vazias tinham desaparecido. Os quadros que tinham caído estavam apoiados na parede, esperando apenas serem pendurados novamente. O apartamento ainda carregava marcas do que aconteceu, algumas coisas quebradas eram impossíveis de esconder, mas existia cuidado em cada detalhe.

Alguém tinha voltado.

Alguém tinha ficado.

Foi quando ouvi o som de uma colher batendo numa panela.

Virei lentamente o rosto em direção à cozinha.

E vi Caíque.

Ele estava de costas para mim, usando uma camiseta minha, cinza, um pouco larga nele, e uma bermuda de moletom que também devia ser minha. As mangas estavam dobradas até os cotovelos enquanto ele mexia uma panela de feijão no fogão. O vapor subia devagar, espalhando aquele cheiro pela casa inteira. Em outra boca do fogão havia arroz pronto. Sobre a bancada, uma salada já estava cortada e um bife descansava numa travessa.

Meu coração simplesmente esqueceu de bater.

Fiquei parado na entrada da cozinha.

Só olhando.

Como se qualquer movimento pudesse fazer aquela cena desaparecer.

Ele percebeu minha presença antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.

Virou o rosto devagar.

Nossos olhos se encontraram.

E, pela primeira vez naquele dia inteiro...

Eu consegui respirar.

Caíque sorriu de leve.

Não era um sorriso grande.

Era pequeno.

Calmo.

Aquele mesmo sorriso que eu conhecia desde criança.

— Dormiu bastante.

Minha garganta fechou.

Tentei responder, mas nenhuma palavra saiu.

Ele desligou o fogo com tranquilidade e caminhou até mim.

Parou bem na minha frente.

Os olhos dele passearam rapidamente pelo meu rosto, verificando se eu estava melhor, como quem conferia silenciosamente se alguém importante ainda estava inteiro.

Levantou a mão.

Afastou uma mecha do meu cabelo que caía sobre meus olhos.

— Como você está?

Balancei a cabeça devagar.

— Achei... achei que você não vinha.

Vi um peso atravessar o olhar dele.

— Eu prometi que voltava.

Só essa frase bastou para meus olhos encherem de lágrimas outra vez.

Ele suspirou baixinho.

— Vai tomar um banho.

Olhei para ele sem entender.

— Você tá o dia inteiro sem comer, sem beber água direito... ainda tá com cara de quem não dormiu faz uma semana.

Ele sorriu de novo, agora um pouco mais carinhoso.

— O jantar tá quase pronto. Depois a gente conversa.

A gente conversa.

Aquelas três palavras fizeram alguma coisa explodir dentro de mim.

Porque, durante dez anos, eu só tinha perguntas.

Naquela noite...

Talvez eu finalmente tivesse respostas.

Senti meu coração disparar de um jeito quase infantil. Era ridículo o quanto bastava a presença dele para tudo mudar de cor. Há poucas horas eu estava deitado numa cama escura, convencido de que tinha sido abandonado outra vez. Agora ele estava ali, usando minhas roupas, cozinhando no meu apartamento como se nunca tivesse ido embora.

Sem pensar, dei um passo para frente e o abracei.

Com força.

Escondi o rosto no pescoço dele.

Caíque demorou apenas um segundo para retribuir.

Os braços dele me envolveram completamente.

Uma das mãos acariciava minhas costas lentamente.

A outra fazia um carinho na minha nuca.

Nenhum de nós falou nada.

Não precisava.

Aquele abraço dizia muito mais do que qualquer pedido de desculpas.

Depois de alguns instantes, ele deu um leve beijo na minha testa.

— Vai.

Antes que a comida esfrie.

Assenti como uma criança obedecendo.

Subi novamente para o quarto.

Abri o armário.

Peguei uma roupa limpa.

Quando entrei no banheiro e liguei o chuveiro, a água quente escorreu pelo meu rosto levando embora o cheiro do álcool, do sangue seco e da noite anterior. Fechei os olhos por alguns segundos enquanto a água caía sobre minha cabeça.

Eu ainda não entendia absolutamente nada.

Não entendia por que ele tinha ido embora dez anos atrás.

Não entendia por que tinha voltado agora.

Não entendia por que tinha se casado.

Nem por que estava ali, cozinhando para mim.

Mas, pela primeira vez em muito tempo...

Eu não precisava entender tudo imediatamente.

Bastava saber que ele tinha voltado.

Quando terminei o banho, me olhei rapidamente no espelho do banheiro. Ainda havia olheiras profundas e meus olhos continuavam vermelhos de tanto chorar, mas alguma coisa tinha mudado.

Eu parecia... vivo.

Vesti uma camiseta preta e uma calça de moletom confortável. Respirei fundo algumas vezes antes de abrir a porta do quarto.

O cheiro da comida ficou ainda mais forte.

Desci o corredor.

Quando entrei na sala, encontrei Caíque terminando de colocar a mesa.

Ele havia encontrado dois pratos iguais no armário. Colocou os talheres alinhados com um cuidado quase exagerado. Serviu o arroz, depois o feijão ainda fumegante. Cortou o bife em pedaços menores antes mesmo de colocar no meu prato, exatamente como fazia quando eu reclamava de preguiça na adolescência. Depois aproximou um copo de água da minha cadeira e só então levantou os olhos para mim.

Sorriu discretamente.

— Senta.

Obedeci sem dizer uma palavra.

Enquanto eu me acomodava, ele puxou a cadeira ao meu lado, aproximando-a um pouco da mesa para que eu não precisasse fazer esforço com a mão machucada.

Só então percebi que ele também havia trocado o curativo improvisado que eu tinha colocado horas antes. Nem lembrava de quando aquilo tinha acontecido.

Ele reparou no meu olhar.

— Passei na farmácia antes de vir.

Olhei para o curativo.

Depois para ele.

Meu peito aqueceu de um jeito estranho.

Caíque sempre teve esse jeito silencioso de cuidar das pessoas.

Nunca foi de discursos.

Era de gestos.

Preparar uma refeição.

Trocar um curativo.

Organizar uma casa destruída.

E, naquele instante, enquanto ele empurrava delicadamente meu prato para mais perto de mim e esperava pacientemente que eu desse a primeira garfada, percebi que, mesmo depois de dez anos separados, meu coração ainda reconhecia aquele cuidado como se nunca tivesse deixado de ser a minha casa.

Continuei comendo em silêncio por alguns minutos, mas já não prestava atenção no que estava no prato. O arroz estava quente, o feijão tinha exatamente aquele gosto de comida caseira que Caíque sabia fazer, e, mesmo assim, minha cabeça estava longe dali. Eu observava os movimentos dele pelo canto dos olhos, tentando entender como aquela pessoa podia estar sentada na minha frente depois de dez anos. Era uma sensação quase absurda. Eu tinha passado tanto tempo imaginando aquele reencontro que, quando ele finalmente aconteceu, parecia que meu cérebro não conseguia acompanhar a realidade. Caíque mexeu distraidamente no próprio prato, depois apoiou os talheres e ficou alguns segundos olhando para mim. Havia alguma coisa diferente no olhar dele. Uma hesitação. Como se estivesse escolhendo cuidadosamente o que dizer.

— Alec... eu nunca esqueci você.

Minha mão parou sobre o prato.

Levantei os olhos devagar.

Ele continuou me encarando.

— Nunca. Não teve um único dia nos Estados Unidos em que eu não pensei em você.

Meu peito apertou, mas uma parte de mim imediatamente se revoltou.

— Não parece.

Caíque franziu a testa.

— Como assim?

Soltei uma risada curta, sem humor algum.

— Porque eu nunca esqueci a mensagem que você me mandou.

O rosto dele mudou.

Foi quase instantâneo.

— Que mensagem?

— A mensagem terminando comigo.

Ele ficou completamente imóvel.

— Eu nunca mandei mensagem nenhuma terminando com você.

Senti alguma coisa gelar dentro de mim.

— Mandou, sim.

— Não, Alec.

— Mandou.

— Eu nunca fiz isso.

A maneira como ele falou não parecia uma tentativa de negar alguma coisa. Parecia genuíno espanto. Um tipo de choque que atravessou o rosto inteiro dele. Eu fiquei olhando para ele sem saber o que pensar. Durante dez anos, aquela mensagem tinha sido uma das poucas coisas concretas que eu tinha guardado daquela época. Eu lembrava das palavras. Lembrava de onde estava quando li. Lembrava da sensação de vazio que tomou conta do meu corpo.

Levantei da cadeira tão rápido que ela arrastou no chão.

— Espera aqui.

— Alec...

Não respondi.

Fui até o quarto praticamente correndo. Abri a porta do armário, puxei uma caixa que estava guardada no fundo e comecei a procurar entre algumas coisas antigas. Fotografias. Bilhetes. Papéis que eu nunca tinha conseguido jogar fora. Até encontrar o aparelho.

Meu celular antigo.

Aquele que eu usava quando tinha XVI anos.

Segurei o aparelho nas mãos e fiquei alguns segundos olhando para ele. A carcaça estava marcada pelo tempo, a tela tinha pequenos riscos, e eu nem sabia se ainda funcionava. Coloquei para carregar por alguns minutos e, depois de insistir algumas vezes, a tela finalmente acendeu.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Voltei para a sala.

Caíque continuava sentado à mesa, mas agora parecia tão nervoso quanto eu.

Coloquei o celular diante dele.

— Olha.

Abri as mensagens antigas.

Encontrei a conversa.

Meu dedo tremia enquanto descia pela tela.

Então estendi o aparelho para ele.

— Foi isso que você me mandou.

Caíque pegou o celular.

Leu.

Uma vez.

Depois outra.

E uma terceira.

Eu acompanhei a mudança no rosto dele enquanto ele lia aquelas palavras que tinham destruído uma parte da minha adolescência.

"Alec, eu acho que realmente a gente não vai dar certo. Por mais que eu goste de você, a gente não tem como viver nada à distância, e acho melhor a gente terminar por aqui. Um dia, quem sabe, a gente volte a se falar. No momento, preciso focar na minha carreira."

Caíque levantou os olhos.

Parecia não conseguir respirar.

— Eu não escrevi isso. Alec, eu nunca escrevi isso.

Ele se levantou.

Começou a andar pela sala.

Uma mão foi parar no cabelo, enquanto a outra permanecia fechada ao lado do corpo.

— Não... não, não, não...

Eu continuei sentado, completamente perdido.

— Caíque...

— Eu nunca mandei isso.

Ele virou para mim.

Os olhos estavam vermelhos.

— Você precisa acreditar em mim.

— Eu estou tentando entender.

— Eu nunca quis terminar com você.

A voz dele falhou.

— Eu queria que você fosse comigo.

Fiquei em silêncio.

Ele passou as duas mãos pelo rosto.

— Eu nem queria ir embora daquele jeito. Você sabe disso. Eu só aceitei porque era uma oportunidade que eu provavelmente nunca teria de novo. Era uma chance enorme para minha carreira. Minha família ficou insistindo, dizendo que eu precisava pensar no futuro, que aquela bolsa podia mudar minha vida. E mudou. Mas eu queria você comigo.

Ele respirou fundo.

— A gente tinha combinado tudo.

Aquela frase me atingiu.

Porque tínhamos mesmo.

Eu lembrava.

Nós dois sentados conversando durante horas sobre como seria. Onde ele ficaria. Como continuaríamos conversando. Como eu poderia visitá-lo. Como, quando eu fizesse dezoito anos, talvez pudesse ir embora com ele. Parecia tão distante naquela época e, ao mesmo tempo, tão possível.

— Eu lembro — falei.

Caíque fechou os olhos.

Uma lágrima escorreu.

— No dia que eu fui embora, eu queria que você estivesse no aeroporto.

— Eu não podia ir.

— Eu sei.

— Caíque, você sabe que eu tinha aquela prova.

Ele assentiu.

— Eu sei.

— Era a prova do processo para jovem aprendiz. Era uma oportunidade enorme. Eu tinha estudado meses. Eu não podia simplesmente faltar.

— Eu sei, Alec.

Ele olhou ao redor do apartamento.

O computador sobre a mesa. Os livros. Os equipamentos. Os diplomas emoldurados na parede. Tudo aquilo que eu havia construído durante os anos.

— E olha onde você chegou.

Ele fez um pequeno gesto ao redor.

— Você conseguiu. Você entrou naquela multinacional. Se formou. Construiu sua carreira. Olha esse apartamento. Você não é mais aquele meninozinho do interior.

Sorri de maneira amarga.

— Mas eu teria trocado tudo isso por você.

Ele ficou em silêncio.

Eu abaixei os olhos.

— E se você não mandou aquela mensagem...

Minha voz falhou.

Levantei o olhar.

— Quem mandou?

Caíque não respondeu imediatamente.

Ele voltou a andar pela sala.

— Quando eu cheguei no aeroporto, minha mãe me deu um celular novo. Disse que já estava com o número dos Estados Unidos, tudo configurado. Ela ficou com meu celular antigo porque disse que eu não precisaria mais dele.

Meu estômago começou a revirar.

— Ela ficou com seu celular?

— Ficou.

Caíque parou.

— E ela disse que tinha avisado todo mundo sobre meu número novo. Disse que tinha passado para você, para os meus amigos, para todo mundo. Eu acreditei.

— Mas eu nunca recebi seu número.

— Eu sei disso agora.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Quando cheguei lá, eu mandei algumas mensagens para você. No começo, você não respondeu. Depois de um tempo, minha mãe falou que você estava muito mal com a minha viagem. Disse que você tinha voltado para a casa dos seus pais e que não queria falar comigo.

Meu coração começou a bater mais forte.

— Isso não faz sentido.

— Eu sei.

— E você acreditou?

— Eu tinha acabado de chegar em outro país, Alec. Eu estava treinando, estudando, tentando entender aquela vida. Eu ligava para minha mãe e ela dizia que você estava bem, que tinha decidido seguir sua vida, que tinha ficado magoado comigo por ter ido embora.

Ele parou diante de mim.

— Eu achei que você tivesse escrito aquilo depois de pensar bastante. Achei que você tivesse decidido terminar antes mesmo de eu conseguir chegar lá. E, quando eu tentei responder, meu coração se partiu tanto que eu não tive forças. Mas se realmente não foi você, porque não deu um jeito de falar comigo? Sei lá, as redes sociais...

— Eu tentei.

Aquilo me fez levantar os olhos.

— O quê?

— Eu tentei encontrar você.

Ele pegou o próprio celular.

— Só que meu perfil antigo foi desativado. Minha mãe tinha acesso a algumas coisas minhas enquanto eu estava fora. Depois criaram outro perfil para mim. Eu nem sabia direito como funcionava naquela época. Quando comecei a procurar você, não encontrava. O seu perfil também tinha mudado.

Meu coração apertou.

Era verdade. Naquela época eu tinha trocado de usuário depois de perder acesso à conta antiga. Passei a usar outra rede. Depois troquei novamente. Mudei de número. Minha vida tinha seguido em outra direção.

E, do outro lado, Caíque estava vivendo a mesma coisa.

Duas pessoas procurando uma pela outra em lugares diferentes, enquanto alguém alimentava os dois com versões diferentes da mesma mentira.

— E depois? — perguntei.

Caíque respirou fundo.

— Depois ficou mais difícil. Eu comecei a acreditar que você não queria mais saber de mim. Eu achei que aquele era o fim.

— Porque eu achava que você tinha terminado comigo.

Ele fechou os olhos.

— E eu achava que você tinha terminado comigo.

Ficamos olhando um para o outro.

Era quase ridículo.

Dez anos.

Dez anos inteiros.

E a verdade cabia em uma frase.

Nenhum dos dois tinha terminado.

Nenhum dos dois tinha escolhido ir embora.

Nenhum dos dois tinha deixado de amar.

Alguém tinha escolhido por nós.

Minha respiração ficou pesada.

— Caíque...

Ele levantou o rosto.

— O que foi?

Olhei novamente para a mensagem.

Depois para ele.

— Se você não mandou isso... então alguém pegou seu celular.

Caíque ficou imóvel.

A mesma conclusão pareceu atravessar a cabeça dele.

— Minha mãe.

O nome ficou suspenso no ar.

Não era uma acusação ainda.

Era apenas uma possibilidade.

Mas, naquele momento, uma quantidade absurda de pequenas lembranças começou a se encaixar dentro da minha cabeça. A forma como ela sempre me observava. As perguntas que fazia sobre nós. O jeito como insistia que Caíque precisava pensar na carreira. As vezes em que parecia desconfortável quando eu aparecia. O afastamento repentino. A mensagem.

Caíque permaneceu alguns segundos em silêncio, ainda segurando minha mão. Eu conseguia perceber que alguma coisa tinha mudado dentro dele. Até poucos minutos atrás, nós estávamos tentando entender o passado como duas pessoas que haviam sido atropeladas pelas próprias lembranças. Agora, pela primeira vez, parecia que ele tinha encontrado uma direção. Não era mais apenas tristeza. Havia uma espécie de determinação no olhar dele, uma firmeza que eu conhecia desde a adolescência, mas que agora vinha acompanhada de dez anos de perguntas sem resposta.

Ele soltou minha mão devagar e pegou o celular que estava sobre a mesa.

Fiquei observando enquanto desbloqueava a tela.

— O que você tá fazendo?

Caíque não respondeu.

Abriu a lista de contatos, deslizou o dedo pela tela e parou em algum lugar. Eu acompanhei o movimento sem entender, até perceber que ele estava procurando um nome específico.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Caíque?

Ele encontrou o contato.

Ficou olhando para a tela durante alguns segundos.

Então começou a discar.

— Você vai ligar pra quem?

Dessa vez, ele levantou os olhos para mim.

Não havia dúvida no rosto dele.

— Eu vou entender toda essa história de uma vez por todas.

Meu peito apertou.

— Como?

Ele olhou novamente para o celular.

O dedo pairou sobre o botão de chamada.

— Todo mundo que atrapalhou a nossa vida vai pagar por isso.

Senti um arrepio percorrer meu corpo.

— Caíque...

Ele respirou fundo.

— Eu tô ligando pra minha mãe.

O telefone começou a chamar.

E, naquele instante, percebi que dez anos de silêncio estavam prestes a acabar.

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Meus amores, que bom estar de volta. Após um tempo de busca por ajuda, estou conseguindo tratar um pouco melhor das minhas questões mentais. Ainda estou num processo de melhora mas precisava vir aqui finalizar essa história para vocês. Por isso, o próximo capítulo será tão grande se não maior que esse e finalizaremos o conto.

A princípio, eu tinha algumas ideias a mais para essa história, mas estou preferindo finalizar e deixarei um gancho no último capítulo para quem sabe um dia retornar a essa história de amor.

Agradeço a todos que me mandaram mensagem, e deixo também meu contato do telegram para quem quiser conversar e bater um papo: @Thpzs

Agradeço a compreensão e carinho de todos vocês 💙

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