Com ou Sem Emoção?
Existe uma pergunta que mudou o rumo do nosso casamento. Ela foi feita no escuro, por um desconhecido, e a resposta levou menos de três segundos.
Mas vamos com calma.
Somos leitores antigos daqui — acompanhamos os contos há anos — e este é o nosso primeiro texto publicado. Prazer, somos o Casal Apimentados. Vamos nos apresentar como Jorge e Lúcia, nomes fictícios, pelos motivos óbvios.
Esta é a história da nossa primeira vez no mundo liberal. E, sinceramente, ela começou sem nenhuma intenção de acabar do jeito que acabou.
O convite inocente
Ano de 2017. Na época, tínhamos a ideia de abrir uma loja virtual de produtos eróticos, e alguém nos disse que a Erotika Fair, em São Paulo, era o lugar certo para entender o mercado: lançamentos, fornecedores, novidades. Fomos com esse propósito. Bloco de anotações na cabeça, orçamento no bolso, zero segundas intenções.
Lúcia convidou três amigas do trabalho e fomos todos em um carro só.
Já que vamos passar um tempo juntos, deixem eu apresentar o elenco.
Eu, Jorge: negro, 33 anos na época, 1,85 m, corpo forte sem ser musculoso.
Lúcia, minha esposa, a mesma idade: 1,72 m, loira natural, olhos verdes, seios fartos e umas coxas grossas que — posso falar? — sempre foram meu ponto fraco.
As amigas dela eram bonitas, mas duas chamavam atenção de longe: uma loira e uma morena, ambas do tipo que faz o ambiente virar a cabeça quando passa. A terceira era mais discreta. Os nomes ficam de fora, e por um bom motivo: duas delas eram casadas e foram sem os maridos saberem.
A fila
Passamos a tarde circulando pelos estandes. Vimos de tudo — brinquedos, lingerie, cosméticos, coisas que a gente nem sabia que existiam. Estava sendo exatamente o que a gente esperava: uma tarde de trabalho disfarçada de passeio.
Até que notamos a movimentação.
Num canto do pavilhão havia uma fila enorme, muito maior que a de qualquer outro estande, e uma agitação diferente. As pessoas saíam de lá rindo, com o rosto vermelho, cochichando. Perguntamos do que se tratava e a resposta veio pela metade:
— É um labirinto escuro. Com interação.
Só isso. Ninguém explicava o resto, e era justamente isso que deixava todo mundo curioso. As amigas da Lúcia não deram chance de discussão: entraram na fila e nos puxaram junto.
Ficamos ali quase quarenta minutos, especulando. Ainda sem maldade nenhuma — juro. Achávamos que era uma casa de sustos temática, alguma brincadeira boba de feira.
E então chegou a nossa vez.
A brincadeira
O labirinto era exatamente isso: um corredor completamente escuro. E lá dentro havia gogo boys posicionados para as mulheres e go-go girls para os homens.
Uma das amigas entrou acompanhada de um rapaz aleatório que estava na fila. As outras duas entraram na sequência. Por fim, sobramos nós.
Na entrada, o rapaz que controlava o acesso perguntou se a gente já conhecia a brincadeira. Dissemos que não. Ele então olhou direto para a Lúcia e fez a pergunta:
— Com ou sem emoção?
Ela virou o rosto para mim. Aquele olhar de quem pede permissão e ao mesmo tempo já sabe a resposta que quer ouvir.
— Amor, a gente enfrentou essa fila inteira — eu disse. — Vamos aproveitar a brincadeira.
Ela voltou-se para o rapaz. Um negro sarado, que eu lembro até hoje.
— Com emoção.
A garota que ficaria comigo era negra, baixinha, tipo mignon, uma delícia. Eu só completei, rindo:
— A patroa falou, tá falado. Com emoção.
Dois minutos
Entramos.
O escuro era total. A cada passo, alguém aparecia — uma mão no ombro, um corpo roçando, um sussurro perto do ouvido. Os gogos vinham e tiravam uma casquinha. E eu, que não sou bobo, aproveitei também: tirei minha casquinha das meninas de lingerie ao longo do percurso.
Aí eu olhei para o lado.
Não acreditei no que vi. Dois gogos tinham feito um sanduíche da Lúcia. As mãos deles passeavam pelo corpo dela, os corpos se esfregando no dela, e um dos dois, mais ousado, tomou a boca dela num beijo de língua.
E ela retribuiu.
Eu fiquei parado ali, incrédulo. Nada daquilo tinha passado pela minha cabeça como possibilidade. As mãos dela viajavam pelos corpos dos dois, o cabelo dela já bagunçado, e eu esperava sentir ciúme — era o que qualquer marido esperaria sentir.
Não senti nada disso.
O que eu senti foi tesão. Um tesão que eu não conhecia, que eu não sabia que existia dentro de mim.
A brincadeira toda deve ter durado uns dois minutos. Lá dentro, vivendo aquilo, pareceu uma eternidade.
O papel no bolso
Ela saiu do labirinto vermelha, ofegante, com o cabelo e a roupa desarrumados. Eu saí de pau duro, tentando me recompor no meio de um ambiente público lotado.
Na saída, entregaram um panfleto. Propaganda de uma casa de swing, o Hot Club.
Guardei o papel no bolso sem pensar muito.
Lúcia, ainda recuperando o fôlego, só disse:
— Eu gostei.
As amigas estavam todas elétricas, falando por cima umas das outras. Deu nosso horário, entramos no carro e voltamos para casa.
Em casa, quando o silêncio chegou, eu tirei o panfleto do bolso. Fomos pesquisar juntos: onde ficava, como funcionava, quanto custava. Ninguém falou em ir. Só ficou aquela curiosidade no ar, pesada, ocupando espaço.
(Detalhe que eu só descobriria depois: ela e o gogo tinham trocado telefone.)
A noite
À noite, saímos só nós dois para um pagode.
E o que tinha acontecido de tarde não largava a Lúcia. Ela dançava colada em mim, e eu percebia — ela estava molhada a noite inteira, a cabeça ainda dentro daquele corredor escuro.
O pagode acabou cedo. No caminho de volta, ela olhou pela janela e disse, sem me encarar:
A noite tá gostosa. Você pode me levar aonde você quiser.
Eu peguei o celular no semáforo e fiz uma busca rápida. Foi assim que apareceu: uma casa de swing recém-inaugurada em Santo André, a The26 Club. Mais perto que o Hot Club.
Copiei o endereço. Coloquei no GPS. E virei o carro.
O que aconteceu lá dentro eu conto no próximo conto.2
Casal Apimentados
