Capítulo XXVIII – Cavalo rebelde
Naqueles dias em que não tinha a menor ideia de como funcionava o Templo de Ártemis e era — como só os muito ignorantes podem ser — confiante demais em minha capacidade de ler o que me cercava, pensava que, mais cedo ou mais tarde, Epona abriria minha cocheira e diria, da maneira mais pomposa possível: “Potro, você conseguiu, já sabe ser Cavalo Gentil! Está um passo mais próximo de sua Deusa!”.
Minha Senhora, então, daria um jeito de me humilhar; talvez dissesse que outro conseguira primeiro, talvez estivesse morrendo de ciúmes do meu destino divino de encontrar-me com Ártemis... Passaria, então, a dar minhas notas, explicar-me as disciplinas, apontar minhas falhas e também onde eu poderia melhorar... Epona seria aquela típica professora implicante, mas relutantemente justa — mais por seu próprio método e ego do que por qualquer outra coisa —, e me daria notas suficientes para passar, mas humilhantes de se ostentar... Porém, pensava, ostentar para quem? Achava que, no Templo de Ártemis, ao lado de minha Deusa, não haveria façanha possível de se sustentar... a não ser, é claro, a façanha de estar a seu lado.
Imaginava que Epona, a qualquer momento, poderia abrir a porta dizendo: “vamos para a próxima Doma”, e eu, então, deixaria de ser o novato do Estábulo... Talvez a própria Epona viesse a me usar para humilhar outro Potro mais novo? Talvez eu dançasse com ela enquanto outro me olharia invejoso... mas eu o ajudaria, colocaria o pé de Epona na boca para lhe ensinar o caminho, contaria as peculiaridades de minha Senhora e prepararia meu calouro para o que — até aquele ponto — me parecia a parte mais difícil: a tortura psicológica ou física que me levou a uma circuncisão e levou o Outro Potro à enfermaria por dias... Em tão pequena comunidade, não havia como não me destacar perante um novo ingressante. Talvez não falássemos a mesma língua, o que era um risco, mas eu sabia inglês e, convivendo com Epona, e sendo português e espanhol línguas irmãs, na prática, eu dominava três idiomas...
Eram pensamentos delirantes, eram pensamentos inocentes, mas me ajudavam a passar pelos dias de treinamento. Aliviavam a ânsia de saber quando sairiam minhas notas e me faziam tolerar as maldades de Epona — incluindo a maldade que mais me incomodava naquele momento, que era justamente a sua recusa em me entregar os resultados. Se a cirurgia não fora o teste derradeiro para Cavalo gentil, o dia em que me humilhei perante ela e o Outro Potro, com o máximo de tesão que pude, deveria ser a prova final... Fazia sentido, não? Em uma prova, a Cavaleira gozava; na outra, o Cavalo.
Havia uma ansiedade que, entretanto, nunca parecia passar e, a cada vez que ouvia o tilintar dos botões sendo apertados, o ranger da pesada porta de ferro, sonhava que Ártemis entraria no Estábulo... Traria boas-novas, abençoar-me-ia novamente, distribuiria sopapos em Epona e... e... não, não, era apenas minha Senhora, era apenas um funcionário do Templo vindo trazer mantimentos e equipamentos, e, às vezes, era alguém que não podia identificar. Confinado parte do tempo em minha cocheira, apenas sabia que não era Ártemis... se fosse Ártemis, eu sentiria imediatamente...
Houve, todavia, um dia em que uma voz indiscreta parou Epona em sua saída do Estábulo. Ela havia acabado de me levar à cocheira, e essa pessoa deve tê-la encontrado no minuto em que a porta se abriu para sua saída:
— Ei, Epona, o que tanto escuto você falando no Estábulo?
Devia ser alguém próximo; falava a mesma língua de minha Senhora:
— É o Potro novo. Ártemis pediu que eu o estimulasse a falar...
Como sorri nesse dia! Sorri, na verdade, por dias. Bastava rememorar a fala de minha Senhora... Ártemis queria que eu falasse, queria que eu me manifestasse? Ela teria visto em mim algum outro talento que não apenas o meu “pau”? Ou talvez ela me quisesse de confessor, como uma pessoa próxima para ouvi-la e elogiá-la? Talvez ambos, por que não? Maldita Epona, que guardava de mim minhas notas, devia guardar de mim também as perguntas da Deusa sobre a minha Doma!
Colocava-me a dormir jurando que não passaria do próximo treino: cobraria que Epona me explicasse o que podia fazer para melhorar minha nota... Só podia ser isso; afinal, ainda não havia atingido a média suficiente. Por outro lado, sabendo como a Senhora do Estábulo era ranzinza, como ela preferia o Outro Potro, eu imaginava que sua fala simples dizia muito mais do que ela gostaria que transparecesse... Conseguia vê-la suprimindo um: “Ártemis pediu que eu estimulasse o seu dom com as palavras!”.
*
(...)
*
— ¿Tengo monos en la cara?
Fui pego de surpresa; não entendia o significado da expressão "monos"...
— Perdão, Senhora, não entendi o...
— Potro, já tem um tempo que, nas pausas, você fica me olhando com uma cara estranha... Tá com alguma dor?
Balancei a cabeça negativamente.
— Então para de pensar e termina aí de comer... já lhe disse que eu penso por você!
Epona havia quebrado o gelo por mim... Tinha que avançar... mas como?
— ... Eu sei, Senhora... é que eu queria saber como você pensa...
Ela estava próxima a mim. Agachou-se e, com uma espécie de carinho em minha crina que, ao mesmo tempo, serviu como um leve empurrão da minha cara em direção ao pote de ração, respondeu:
— Você não quer saber, você quer comer...
Ela tinha minhas notas. Não as havia entregue, mas podia mudá-las para me punir se eu continuasse questionando-a... Aceitei o gesto, voltei a comer. Ela se levantou, deu-me as costas e, após alguns passos, parou... Olhou para cima, para o chão e, voltando o rosto para mim, soltou:
— ... Desculpa, Potro... as ordens de Ártemis são claras... mas claras apenas para ela... — Riu, um riso íntimo, daqueles de quando se alivia o peito ao colocar um problema para fora... para outros.
Ela arrastou o banquinho que usava para dar-me banho e tratar minhas feridas, e sentou-se à minha frente.
— O que quer saber?
Olhei-a como um cão que, há dias sem passear, nota que a Dona chama por seu nome com a coleira em mãos:
— ... Ártemis...?
E, como um cão, entrei em um estado eufórico que me convidava a correr desvairado, e não a dialogar...
Epona, que havia estabelecido uma linha de contato com meus olhos, virou o rosto e desviou o olhar. Seu rosto, no entanto, ruborizou-se, como se estivesse envergonhada... ou enciumada.
— Você é um chato... quando penso que posso me abrir, você traz logo a chefa para a nossa fofoca...
Tentei me conter; minha Senhora precisava de mim:
— Perdão, Senhora... sou seu Potro, minha preocupação deveria ser apenas com você...
Ela voltou a aproximar o rosto:
— Tem razão, Potrinho... mas eu te entendo. Ártemis tem um jeito de se instalar em nossas cabeças...
Ensaiei abrir os lábios para validá-la. Não sei se não consegui porque sua fala me eletrizara novamente, ou se ela só foi mais rápida mesmo...
— ... Há anos Ártemis me avisa quando vai sair, avisa-me dos seus planos, das nossas missões... e, dessa vez, ela teve a audácia de não me falar nada...
Sentia o despeito de Epona. Minha empatia canina aumentava ainda mais...
— ... Sinto como se estivesse decepcionando-a... assim como sinto que estou decepcionando você, Potro...
Podia antecipar suas lágrimas... dessa vez, consegui agir antes:
— De maneira alguma, Senhora... eu é que posso ser o motivo de decepção para você! Por favor, se houver algo que eu possa fazer...
Fiz uma boa jogada? Parecia que sim. Convertia possíveis lamentos em um sorriso caloroso.
— Olha, Potro, acho que sim, viu... — respondeu ela. — Eu não sei exatamente o motivo de Ártemis estar assim comigo, mas, como ela me deu a tarefa de treiná-lo para virar seu Cavalo, acho que, se eu entregar um bom memorando sobre como você vem crescendo, isso pode me ajudar.
Eu balançava a cabeça para cima e para baixo, freneticamente, enquanto falava:
— Claro, Senhora, vou fazer tudo o que você pedir...
Epona parecia me entregar tudo o que eu queria e, ao mesmo tempo, eu começava a me questionar se tudo o que havia pensado e projetado até então não era apenas fruto de algum terrível mal-entendido... Seria eu, na verdade, o verdadeiro vilão?
