Eu tinha uma sobrinha com menos de um ano de idade, e eu era sua única parente de sangue viva. Aquilo realmente me pegou de surpresa.
A conselheira me contou que minha irmã teve uma filha, mas infelizmente faleceu sem poder conviver com ela por muito tempo. A criança ficou provisoriamente com a família que acolheu minha irmã. Tudo estava praticamente arranjado para que a guarda definitiva da criança ficasse com essa família. Porém, alguns dias atrás, a criança foi levada ao hospital com alguns pequenos machucados e uma torção no braço direito. Uma das enfermeiras sabia da história daquela criança, pois foi uma das que ajudou durante o parto, ficou com minha irmã no hospital quando ela foi internada para ter o bebê e quando faleceu. A enfermeira achou melhor chamar o conselho tutelar, pois suspeitava que a criança poderia ter sofrido maus-tratos. Mesmo com a mulher que a levou jurando que foi apenas um acidente e que a menina havia caído. Uma investigação foi aberta e o conselho tutelar decidiu retirar a menina da família até que tudo fosse esclarecido.
Ela continuou o relato, dizendo que, durante as investigações feitas com a ajuda da polícia civil, soube da história da minha irmã e resolveu procurar pela avó da criança. Descobriu que a avó havia falecido, mas que ela tinha outra filha. Chegar até mim não foi difícil, já que os registros dos pedidos da minha guarda feitos pela minha família estavam nos registros do conselho tutelar. Foi então que ela decidiu me procurar, esperando que eu pudesse ajudar a criança, que no momento estava no hospital sem ninguém para ficar com ela.
Perguntei sobre o pai da criança, e ela disse que ninguém sabia quem era. A criança só foi registrada em nome da mãe. Ela afirmou que não sabia o motivo exato, mas a família contou que minha irmã mencionou saber o primeiro nome do pai, mas apenas isso. Foi uma aventura de uma noite, e depois cada um seguiu seu caminho; minha irmã não fazia ideia de como localizá-lo.
Perguntei o que exatamente ela queria de mim e já expliquei minha situação antes mesmo de ela responder. Eu não tinha condições de cuidar de uma criança; na verdade, eu dependia da minha família para sobreviver. Tudo bem que eu trabalhava duro para merecer tudo que minha família me dava, mas mesmo assim, eu dependia deles. Sem eles, eu nem teria para onde ir. Talvez eles até aceitassem me ajudar, mas eu sabia que as condições financeiras da minha família não eram boas.
A conselheira disse que tinha esperança de que eu ficasse com a criança. Porém, ela me entendia; não era algo fácil e, pelo que eu havia dito, seria complicado para mim. Ela me perguntou se eu gostaria de conhecer minha sobrinha. Talvez, no futuro, eu pudesse ficar com ela ou, pelo menos, fazer parte da vida dela. Perguntei o que seria da criança se eu não ficasse com ela e se fosse comprovado que ela sofreu maus-tratos da família que estava com ela. A conselheira disse que ela ficaria sob a tutela do conselho tutelar e provavelmente viveria em um orfanato até encontrar uma família para adotá-la.
Naquele momento, lembrei de tudo que passei no abrigo e da sorte que tive de meus pais conseguirem me tirar dali. Eu não sabia o que fazer, mas não queria que aquela criança fosse para um orfanato. Esses pensamentos me levaram a uma decisão: eu iria pelo menos conhecer minha sobrinha e depois pedir ajuda aos meus pais. Se eles não pudessem me ajudar, eu tentaria, ao menos, arrumar um lugar seguro para a criança; talvez, no futuro, eu mesma pudesse criá-la. Eu não fazia ideia de como iria ajudá-la, mas, pelo menos, iria tentar.
Perguntei à conselheira se ela poderia me levar para ver a criança, e ela abriu um sorriso e disse que sim. Imediatamente, ela pegou sua bolsa e pediu para eu acompanhá-la. Saímos do prédio logo após ela avisar à atendente que não atenderia mais ninguém naquele dia e que qualquer problema deveria ser direcionado a outro conselheiro ou, em caso de emergência, que ligassem para ela.
Fomos no carro dela, e durante o trajeto, ela praticamente me interrogou. Eu respondi a tudo e contei um pouco da minha vida, claro que resumi bastante. Ela disse que eu era uma garota de muita sorte e que tinha uma cabeça boa, pois, mesmo passando por tudo que passei, não escolhi um caminho ruim, como muitos fazem. Eu disse que devia tudo à família que me acolheu; sem eles, talvez eu estivesse em uma situação horrível naquele momento.
Chegamos ao hospital e, após falar com a recepcionista, seguimos para o segundo andar do prédio. Passamos por um corredor e, assim que a conselheira diminuiu o passo perto de uma porta de um dos quartos, ouvi o choro de uma criança. Ela abriu a porta, e vi uma cama ao fundo, com uma enfermeira em frente a ela. A enfermeira se virou ao ouvir os passos, e eu pude ver uma mamadeira em suas mãos e parte do corpo pequeno de uma criança sobre a cama. Nós nos aproximamos, e a enfermeira cumprimentou a conselheira, dizendo que a criança não queria mamar e estava enjoadinha, chorando quase o tempo todo.
Me aproximei mais da cama e pude ver minha sobrinha. Ela era bem pequena, tinha cabelos pretos e estava chorando bem fraquinho naquele momento, provavelmente havia perdido as forças de tanto chorar. Notei que havia uma faixa em seu pulso; provavelmente era onde ela sofreu a torção. Estendi minha mão e segurei sua outra mãozinha, perguntando por que o bebê estava chorando. Assim que ela ouviu minha voz, fixou os olhos em mim e parou de chorar. Ela ficou me olhando como se estivesse tentando me reconhecer. A conselheira disse que seu nome era Manuela e que, se eu quisesse, poderia pegá-la, mas para eu tomar cuidado com o braço esquerdo.
Assim que levei minhas mãos para pegá-la, ela levantou os bracinhos. Seu olhar continuava fixo em mim. Peguei-a com cuidado e a coloquei em meus braços. Ela ficou sentada no meu braço direito, olhando fixo para meu rosto. Ela tinha olhos negros, lindos, parecendo duas jaboticabas. Eu me apresentei para ela, e quando ela ouviu minha voz novamente, um sorriso começou a surgir em seus lábios. De repente, ela jogou um dos braços em meu pescoço e apoiou a cabeça no meu ombro, como se estivesse me abraçando. Nesse momento, meu coração disparou; nem percebi quando algumas lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Eu não entendia como aquela criança se apegou a mim tão rápido. Talvez eu fosse parecida com minha irmã, só poderia ser isso.
Ela ficou abraçada a mim por alguns segundos, logo se afastando para me olhar novamente. O sorriso logo apareceu outra vez, e ela começou a balbuciar algo. Eu não entendia nada, mas comecei a dialogar com ela como se entendesse. A conselheira disse que ela gostou de mim. A enfermeira que estava ao lado confirmou, dizendo que a menina não quis ficar no colo de ninguém durante o tempo que esteve ali e que era a primeira vez que a viu sorrir.
Eu estava encantada com aquela criança e, ali com ela em meus braços, tomei uma decisão: eu não iria deixar de jeito nenhum que ela fosse para um orfanato. Eu queria cuidar dela, dar amor, carinho e fazer o possível para que ela tivesse um futuro bom. Mesmo que eu precisasse trabalhar o resto da vida, eu iria dar a ela as condições que não tive. Um dia, ela seria uma mulher formada e educada. Jurei para mim mesma que faria o que fosse necessário para que ela fosse feliz.
Os sorrisos de Manu duraram alguns minutos, mas logo ela começou a ficar inquieta e vi que estava fazendo carinha de choro. Suas mãos foram para os meus seios e tentava abrir minha camiseta, algo meio difícil, já que ela era fechada. Antes de eu dizer algo, a enfermeira já se aproximou e estendeu a mão, me entregando a mamadeira. Peguei-a e levei devagar até os lábios da Manu. Ela me olhou, fez um beicinho e segurou a mamadeira com as duas mãos. Abriu a boquinha, e assim que o bico da mamadeira passou pelos seus lábios, começou a mamar. Ela não estava com a carinha muito feliz, mas continuou sugando o líquido. Provavelmente não era o que ela queria, mas a fome falou mais alto.
Manu mamou quase todo o líquido da mamadeira, depois soltou-a, e assim que a tirei de sua frente, encostou seu corpo no meu e apoiou a cabeça no meu ombro. Comecei a balançar o corpo e, acho que ela apagou logo em seguida. Coloquei-a na cama com cuidado e, ao me virar, percebi que a conselheira não estava mais no quarto. A enfermeira disse que ela tinha saído para atender uma ligação. Eu nem percebi quando ela saiu.
Aproveitei para perguntar à enfermeira como estava a torção no pulso da Manu. Ela disse que provavelmente ela não sentia mais dores, pois já conseguia mexer o braço normalmente sem reclamar e até segurava alguns brinquedos. Ela segurou a mamadeira com as duas mãos, então já desconfiava que estava recuperada. Isso me deixou feliz e, ao mesmo tempo, preocupada; provavelmente ela já poderia sair do hospital, talvez nem precisasse estar mais ali e só ficou por causa da situação.
Minhas dúvidas se acabaram assim que questionei a enfermeira sobre isso. Ela disse que eu realmente estava certa; Manu só estava ali ainda porque a conselheira pediu pessoalmente ao diretor do hospital que a deixasse ali até a investigação terminar. Perguntei se alguém da família que estava com Manu veio vê-la. A enfermeira disse que eles não podiam visitar a Manu, pelo menos até tudo ser esclarecido. Porém, a menina que caiu com a Manu e sua mãe vinham todos os dias saber notícias dela. Perguntei se ela sabia o que aconteceu, e a enfermeira disse que não sabia os detalhes, mas que a mulher contou que Manu estava com a filha e elas caíram, mas não sabia exatamente como ocorreu. Apenas ouvi as outras enfermeiras comentando.
Conversando por mais tempo, ela me contou que era mãe de um menino de dois anos e, por isso, foi uma das escolhidas para ficar com a Manu. À noite, era outra enfermeira, que também era mãe e tinha jeito com crianças, mas Manu não se deu bem com elas. Vivia triste, chorava muito, quase não se alimentava direito e já tinha perdido peso por causa disso. Nada alarmante, mas seria bom tirar ela dali logo e levá-la para um ambiente mais confortável. Assim, provavelmente ela voltaria a se alimentar normalmente.
Logo, a conselheira voltou e disse que era uma delegada da polícia civil quem ligou para avisar que as investigações estavam praticamente terminadas. Não tinham como afirmar com certeza absoluta que foi um acidente, mas era o mais provável. Todos da família foram ouvidos, assim como pessoas que conviviam com a família e a Manu. Não havia nada que provasse qualquer tipo de comportamento agressivo ou maus-tratos. Pelo contrário, a família estava bem abalada pelo que aconteceu, e as outras pessoas que não eram da família só falavam coisas positivas sobre eles e sobre o trato com a Manu, principalmente da garota que estava com ela quando ocorreu o acidente.
Perguntei à conselheira o que ela pensava a respeito. Ela me disse que não acreditava que a família tinha cometido maus-tratos, pois os conheceram logo após o falecimento da minha irmã. Ela visitou-os várias vezes e acompanhou todo o processo do pedido da guarda provisória da Manu. Todos da família pareciam ser pessoas boas e decentes, e o desejo deles de cuidar da Manu parecia verdadeiro. Ela disse que provavelmente a investigação estaria encerrada no dia seguinte e, então, haveria um processo para decidir se Manu voltaria a morar com eles ou iria para um orfanato.
Perguntei quem iria decidir isso, e a conselheira disse que seria um juiz. Provavelmente, mesmo se o juiz decidir mandá-la para um orfanato, a família entraria com um processo para recuperar a guarda da Manu, já que eles têm dinheiro e não vão abrir mão sem lutar até o fim. Perguntei se caso eu quisesse, eu poderia pedir a guarda dela. A conselheira disse que sim, eu era parente sanguínea, mas isso não garantia que conseguiria se a família entrasse na briga pela guarda, já que eles têm boas condições financeiras e eu não. O juiz levaria em consideração o que é melhor para a criança.
Aquilo me preocupou; eu queria a Manu para mim, mas isso seria mais difícil do que eu imaginava. Na verdade, naquele momento, minhas chances eram bem pequenas. Talvez o melhor jeito fosse falar com meus pais; se eles topassem me ajudar, minhas chances aumentariam, mas mesmo assim talvez não fosse o suficiente, e eu nem sabia se eles topariam me ajudar. Minha cabeça estava a mil; aquela criança tinha bagunçado minha vida, mas eu queria muito que ela continuasse fazendo isso.
A conselheira me chamou para procurarmos algo para comer; eu nem tinha me dado conta da hora, e já era quase uma da tarde. Eu tinha algum dinheiro e aceitei seu convite. Dei uma última olhada na Manu e saímos.
Descemos para o segundo andar e seguimos pelo corredor que levava à saída. Passamos por algumas pessoas e, perto da saída, vi uma menina loira sentada em uma cadeira perto da recepção. A notei porque ela estava com o braço engessado e limpava o rosto com uma das mãos. Provavelmente estava chorando por algum motivo. A conselheira mexia no celular, provavelmente respondendo alguma mensagem. Quando nos aproximamos da garota, tive certeza de que ela estava mesmo chorando.
Assim que passamos por ela, a conselheira tirou os olhos do celular e me perguntou o que eu preferia comer, um lanche ou um prato de comida. Eu disse que preferia um lanche. Na verdade, meu dinheiro era pouco, provavelmente só daria para um salgado e um refrigerante. Mas nem finalizei meu pensamento e senti alguém segurar minha mão. Quando olhei, vi a garota que estava chorando me olhando com uma expressão meio assustada. Ela não disse nada, apenas ficou me observando com espanto estampado no seu rosto. Perguntei se ela precisava de algo e, para minha surpresa, ela se ajoelhou na minha frente.
Garota— Por favor, não leva a Manu para longe da gente. Eu juro que não queria machucá-la. Me perdoe, eu juro que foi sem querer. Não leva ela, moça, eu te imploro.
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
