Caíque colocou o telefone no viva-voz e deixou o aparelho sobre a mesa, entre nós dois. Por alguns segundos, ninguém disse nada. Eu conseguia ouvir a própria respiração, curta e irregular, enquanto observava a tela iluminada com o nome da mãe dele. Aquele nome, tão comum, tão familiar de tantos anos atrás, parecia ter adquirido um peso completamente diferente naquela noite. Era como se todas as lembranças que eu tinha guardado daquela época estivessem comprimidas dentro daquele pequeno retângulo de vidro.
O telefone chamou uma vez.
Duas.
Três.
Na quarta, alguém atendeu.
— Meu filho?
A voz dela veio do outro lado da linha com uma doçura quase desconcertante. Era uma voz que eu conhecia. A voz da mulher que, durante anos, tinha me recebido naquela fazenda, colocado comida no meu prato, perguntado sobre a escola, reclamado quando eu e Caíque ficávamos até tarde acordados conversando. Por um instante, foi quase fácil acreditar que aquela era apenas mais uma ligação comum.
— Oi, mãe.
— Meu Deus, Caíque, onde você está? Eu estava tentando falar com você. Você desapareceu depois do casamento. Achei que estivesse com sua mulher.
Ele não respondeu imediatamente.
Eu olhei para ele.
Caíque estava sentado na minha frente, com o telefone sobre a mesa e os olhos fixos em algum ponto da parede. O rosto dele estava sério. Não havia mais nenhum vestígio daquele homem que, poucos minutos antes, tinha entrado na minha cozinha e me abraçado como o garoto que eu conheci dez anos atrás.
— Mãe... eu estou em casa.
Do outro lado, ela pareceu relaxar.
— Em casa? Então você voltou para o hotel?
Caíque respirou fundo.
— Não.
— Então onde você está?
Ele olhou para mim.
Nossos olhos se encontraram.
E naquele segundo eu soube que ele estava escolhendo não esconder mais nada.
— Eu estou na frente do Alec.
O silêncio do outro lado foi imediato.
Não foi um silêncio comum.
Foi aquele tipo de silêncio em que uma pessoa deixa de respirar porque acabou de ouvir exatamente aquilo que não queria ouvir.
A expressão de Caíque mudou lentamente enquanto ele escutava.
— Mãe?
Nada.
— Mãe, você tá aí?
Um ruído baixo veio pelo telefone. Talvez ela tivesse mudado o aparelho de uma mão para a outra. Talvez tivesse simplesmente ficado imóvel.
Então a voz voltou.
Mais baixa.
— O que você está fazendo com o seu primo?
Caíque fechou os olhos por um instante.
— Eu estou conversando com ele.
— Por que você não está com sua esposa?
— Porque eu precisava falar com ele.
— Caíque, você acabou de se casar.
— Eu sei.
— Então você precisa voltar para o hotel.
— Não.
A resposta veio tão firme que eu senti um arrepio.
— Eu não vou voltar agora.
Ela ficou em silêncio novamente.
Caíque apoiou os dois braços sobre a mesa e inclinou o corpo para frente.
— Eu descobri uma coisa hoje.
— Que coisa?
— Que há dez anos eu nunca mandei aquela mensagem para o Alec.
Meu coração apertou.
Do outro lado da linha, nada.
Caíque continuou.
— Ele guardou o celular antigo. A mensagem ainda está lá. Aquela mensagem dizendo que eu não queria mais ficar com ele. Dizendo que a distância não funcionaria. Dizendo que eu precisava focar na minha carreira.
A voz dele começou a tremer.
— Eu nunca mandei aquilo.
A respiração da mãe dele ficou audível pelo viva-voz.
— Caíque...
— Eu nunca mandei aquela mensagem, mãe.
Ela não respondeu.
— Eu descobri hoje que alguém pegou meu celular naquela época. Que alguém tinha acesso às minhas coisas. Que alguém impediu que eu e Alec tivéssemos contato. Que alguém fez ele acreditar que eu tinha abandonado ele.
Ele olhou para mim.
— E fez comigo a mesma coisa.
Eu senti os olhos arderem.
— Eu passei dez anos achando que ele tinha me deixado — continuou. — E ele passou dez anos achando que fui eu.
A voz da mãe dele saiu quase como um sussurro.
— Caíque...
— Foi você?
Meu coração parou.
Ela não respondeu.
Caíque ficou imóvel.
— Mãe.
Nada.
— Foi você?
Dessa vez, o silêncio durou tanto que eu comecei a ouvir o barulho distante da rua através da janela. Um carro passou. Algum cachorro latiu no prédio vizinho. A geladeira ligou na cozinha.
E então ela respirou fundo.
— Sim.
A palavra caiu no apartamento como alguma coisa pesada.
Eu senti meu corpo inteiro gelar.
Caíque não se mexeu.
— O quê?
— Fui eu.
Ele levantou lentamente da cadeira.
— Você...
A voz dele falhou.
— Você fez isso?
— Eu fiz.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Você mandou aquela mensagem?
— Sim.
— Você pegou meu telefone?
— Sim.
— Você bloqueou o Alec?
— Sim.
A voz dela começou a tremer.
— Eu fiz tudo.
Caíque ficou andando pela sala, como se o próprio corpo não soubesse onde ficar.
— Por quê?
Ela respirou fundo.
— Porque eu não aceitava.
— Não aceitava o quê?
— Vocês.
A palavra veio quase sem força.
Eu senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
Caíque parou.
— Você sabia que eu amava ele?
Do outro lado da linha, houve uma pausa.
— Eu descobri depois da viagem.
Caíque franziu a testa.
— Como?
A voz dela ficou mais baixa.
— Foi o Felipe.
Meu coração pareceu parar.
Caíque também ficou imóvel.
— O Felipe?
— Ele veio falar comigo depois que vocês voltaram. Disse que tinha percebido o que estava acontecendo entre vocês. Contou que vocês estavam juntos, que você estava apaixonado pelo Alec. Contou tudo.
Caíque levou a mão à cabeça.
— E você acreditou nele?
— Eu não queria acreditar. No começo, eu achei que ele estivesse exagerando. Mas ele me contou coisas que eu não conseguia ignorar. Disse que tinha visto vocês, que sabia do relacionamento, que você estava completamente envolvido.
Ela respirou fundo.
— E depois ele me disse que você estava pensando em ir embora para os Estados Unidos e que, se eu não fizesse alguma coisa, eu perderia meu filho para uma vida que eu não aceitava.
Caíque soltou uma risada amarga.
— Então foi aí.
— Foi.
— O Felipe ajudou você?
Silêncio.
— Sim.
A palavra pareceu cortar o ar.
— Ele me ajudou a fazer tudo.
Caíque fechou os olhos.
— Tudo o quê?
— O celular. A mensagem. O bloqueio. O contato.
Minha garganta apertou.
— Foi ele quem sugeriu?
Ela demorou para responder.
— Algumas coisas.
— Quais?
— Ele disse que, se vocês continuassem conversando, você jamais conseguiria seguir em frente. Disse que precisava cortar o contato completamente. Que você precisava acreditar que o Alec tinha desistido de você.
Caíque ficou olhando para o chão.
— E você fez isso.
— Fiz.
— Por quê?
A voz dele saiu baixa.
— Porque eu estava com medo.
— Medo de quê?
— De perder meu filho.
Caíque levantou os olhos.
— Você não me perdeu porque eu amava o Alec.
Ele respirou fundo.
— Você me perdeu porque decidiu que eu não podia escolher.
A mãe dele começou a chorar.
— Eu achei que, com o tempo, vocês esqueceriam.
Caíque balançou a cabeça.
— Dez anos, mãe.
Ele olhou para mim.
— Dez anos e nenhum de nós esqueceu.
O silêncio do outro lado foi absoluto.
Então Caíque perguntou:
— E o Felipe? O que ele ganhou com isso?
Ela não respondeu.
Foi aí que Caíque entendeu.
Seu rosto mudou.
— Ele queria o Alec.
Minha respiração falhou.
— Ele estava apaixonado por ele.
A mãe dele permaneceu em silêncio.
Caíque soltou uma risada incrédula.
— Meu Deus...
Caíque ficou alguns segundos sem conseguir falar.
Depois levantou o rosto.
— Vocês dois destruíram dez anos da nossa vida.
A voz dele estava baixa.
Não era mais um grito.
Era pior.
Era a voz de alguém que finalmente tinha entendido o tamanho daquilo que havia perdido.
— Dez anos, mãe.
Ele apertou minha mão.
— Dez anos que ninguém vai devolver.
E, naquele momento, eu finalmente entendi que a história que eu passei uma década tentando esquecer ainda não tinha terminado.
Ela apenas estava esperando que nós descobríssemos quem tinha escrito aquela parte por nós.
Caíque desligou o telefone com tanta força que pareceu que o aparelho tinha cometido algum crime. Deixou o celular sobre a mesa e ficou alguns segundos parado, olhando para a tela apagada. O silêncio que veio depois daquela ligação era diferente de todos os outros que havíamos compartilhado naquela noite. Não era o silêncio de duas pessoas tentando entender o passado. Era o silêncio de quem finalmente descobriu a verdade e percebeu que ela era muito pior do que qualquer hipótese que tivesse criado durante dez anos.
Eu também não conseguia ficar parado.
Comecei a andar pela sala, passando por entre os móveis que ainda estavam fora do lugar. Minha própria casa parecia pertencer a outra pessoa. Talvez porque, depois daquela noite, eu já não fosse exatamente a mesma pessoa que tinha entrado ali horas antes.
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo.
Felipe.
O nome começou a ocupar cada espaço vazio da minha cabeça.
Felipe tinha estado ali. Tinha visto. Tinha mentido. Tinha esperado dez anos enquanto eu acreditava que Caíque havia simplesmente escolhido outra vida. Enquanto eu chorava sozinho, enquanto tentava entender onde tinha errado, enquanto observava as redes sociais dele de longe até descobrir que ele estava com outra pessoa, Felipe sabia.
Sabia de tudo.
E a mãe de Caíque também.
Minha mão fechou em um punho.
— Não.
A palavra saiu baixa.
Caíque me observou.
Eu fui até o aparador, peguei a chave do carro e a apertei entre os dedos.
— Alec?
Não respondi.
Caminhei até a porta.
— Onde você vai?
Parei por um instante.
Olhei para ele por cima do ombro.
— Pela primeira vez na minha vida, eu vou quebrar a cara de alguém.
Caíque levantou imediatamente.
— Alec...
— E vai ser a do filho da puta do Felipe.
Abri a porta.
— Espera.
Saí para o corredor antes que ele conseguisse me impedir. Apertei o botão do elevador com força desnecessária e fiquei encarando os números enquanto subiam. Caíque apareceu logo atrás de mim.
— Você não vai fazer isso.
— Não vou fazer o quê?
— Ir atrás dele desse jeito.
— Então me diz o que eu deveria fazer.
Ele ficou calado.
— Eu passei dez anos achando que você tinha me abandonado — continuei. — Dez anos, Caíque. E ele sabia. Ele estava lá. Ele ajudou sua mãe a fazer isso.
As portas do elevador se abriram.
Entrei.
Caíque entrou logo depois.
Nenhum de nós disse mais nada durante a descida.
Quando as portas se abriram no térreo, saímos para a garagem. O ar da noite estava mais frio do que eu esperava. Caminhei rápido em direção ao carro, mas parei antes de abrir a porta.
Caíque veio atrás.
— Alec.
Não olhei para ele.
— O que vai ser de nós agora?
A pergunta me atingiu de um jeito que eu não esperava.
Fiquei imóvel.
O que seria de nós?
Eu não tinha resposta.
Durante dez anos, eu tinha imaginado aquele reencontro. Em algumas versões, nós nos abraçávamos e tudo ficava bem. Em outras, eu gritava com ele. Em outras, ele me explicava por que tinha ido embora. Nunca imaginei que descobriríamos que alguém tinha escrito nossa separação por nós.
Olhei para a chave na minha mão.
Depois para ele.
Sem dizer uma palavra, joguei a chave em sua direção.
Caíque pegou no ar.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Você quer que eu dirija?
Assenti.
— Quero.
Ele abriu a porta do motorista.
Entrei no banco do passageiro.
Caíque deu a volta no carro e entrou. O motor ganhou vida, iluminando a garagem com os faróis. Durante alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu.
Então ele engatou a marcha.
Saímos.
A cidade passava pelas janelas em manchas de luz. Prédios iluminados, semáforos, pessoas atravessando ruas, bares ainda cheios, ônibus passando ao longe. O Rio continuava vivendo normalmente enquanto, dentro daquele carro, parecia que o tempo tinha parado em algum lugar dez anos atrás.
Caíque dirigia em silêncio.
Eu olhava pela janela.
— Onde ele mora?
Não respondi.
— Alec.
Continuei olhando para fora.
— Você sabe onde ele mora?
— Sei.
— Então me fala.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Ainda não.
Caíque apertou o volante.
— Você não vai me dizer?
— Não sei o que eu quero fazer quando chegar lá.
Ele me olhou rapidamente.
— E você acha que eu sei?
Voltei o rosto para ele.
Os olhos dele estavam fixos na rua.
— Eu só sei que eu não vou deixar isso passar.
— Eu também não.
O carro continuou avançando.
Não havia destino definido.
Pelo menos não ainda.
Caíque passou por uma avenida, entrou em outra e seguiu dirigindo como se estivesse tentando encontrar alguma resposta nas ruas. Eu sabia que ele também estava perdido. Talvez até mais do que eu.
Porque agora ele tinha descoberto que a mulher que tinha acabado de se tornar sua esposa fazia parte de uma vida construída sobre uma mentira que sua própria mãe tinha ajudado a criar.
E eu tinha acabado de descobrir que o homem que eu conhecia desde a adolescência tinha sido manipulado para desaparecer da minha vida.
Dez anos.
Era impossível recuperar dez anos.
Mas talvez ainda fosse possível descobrir exatamente como eles tinham sido roubados.
Caíque reduziu a velocidade diante de um sinal vermelho e seguimos pela noite sem saber para onde estávamos indo, mas pela primeira vez em dez anos, estávamos indo juntos.
Eu não sei em que momento Caíque tomou a decisão. Talvez tenha sido quando olhou para mim e percebeu que eu já não tinha mais nenhuma resposta para oferecer. Talvez tenha sido quando entendeu que continuar dirigindo sem destino era apenas outra maneira de fugir. Ou talvez, depois de tudo que descobrimos naquela noite, alguma coisa dentro dele simplesmente tivesse cansado de pedir permissão.
Estávamos passando por uma avenida quase vazia quando, de repente, Caíque virou o volante.
O carro fez uma curva brusca, e meu corpo foi jogado levemente contra o banco. Segurei no painel por reflexo e virei o rosto para ele.
— Pra onde a gente tá indo?
Caíque não respondeu imediatamente. Continuou dirigindo, os olhos fixos na rua, as mãos firmes no volante. Havia alguma coisa diferente nele. Uma determinação que eu não tinha visto nem quando ele enfrentou a própria mãe naquela noite.
Então ele olhou rapidamente para mim.
— Aeroporto.
Eu franzi a testa.
— Aeroporto?
Ele assentiu.
— Você topa?
Eu fiquei olhando para ele, sem entender.
— Topo o quê?
Caíque soltou o ar devagar, como se estivesse prestes a dizer a coisa mais absurda que alguém poderia dizer naquela situação.
— Eu e você. Só nós dois. A gente deixa tudo isso pra trás.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Caíque...
— Eu tô falando sério.
Ele voltou os olhos para a estrada.
— A gente passou dez anos tentando entender o que aconteceu. Dez anos deixando outras pessoas decidirem por nós. Eu não quero mais.
Olhei para as mãos dele no volante.
— E essa aliança?
Caíque olhou para a própria mão e por um instante, ficou em silêncio.
Então sorriu.
Não aquele sorriso triste que ele vinha carregando desde que entrou no meu apartamento. Era quase o sorriso do garoto que eu conhecia. O mesmo garoto que ria quando fazia alguma coisa que sabia que não deveria.
Sem nem pensar duas vezes, Caique tirou a aliança do dedo e jogou pela janela do carro.
Eu arregalei os olhos.
— Você tá maluco?
Ele riu.
— Eu passei dez anos fazendo tudo do jeito que esperavam de mim. — Ele apertou o volante. — Dez anos fazendo o que parecia certo. Escolhendo o caminho certo. A faculdade certa. A carreira certa. O relacionamento certo. A vida certa.
Ele me olhou rapidamente e eu não consegui responder.
Não consegui porque eu sabia exatamente onde aquilo tinha nos trazido. A uma década depois, sentados dentro de um carro, tentando reconstruir uma história que alguém tinha quebrado quando éramos adolescentes.
— Agora eu quero fazer uma coisa errada — ele continuou. — Uma coisa completamente doida. Irracional. Quero fazer alguma coisa só porque eu quero.
Engoli em seco.
— Alguma parte de você ainda me odeia? — perguntei
Ele franziu a testa.
— Pelo quê?
— Por eu não ter ido embora com você.
A pergunta saiu mais baixa do que eu pretendia.
Caíque ficou em silêncio.
Por alguns segundos, só ouvimos o motor.
— Não.
Uma palavra.
Simples.
Definitiva.
— Nunca.
Olhei para ele.
— Mesmo?
— Mesmo.
Ele respirou fundo.
— Eu passei muito tempo tentando encontrar alguém para culpar. Você. Eu. O mundo. Mas hoje eu descobri que você também estava esperando por mim.
Baixei os olhos.
— E você ainda tem raiva de mim por não ter voltado?
— Acho que não mais. — respondi
Senti alguma coisa dentro de mim se desfazer.
Talvez fosse a última defesa.
A última coisa que me impedia de acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.
Olhei novamente para a estrada.
Depois para ele.
— Você tá falando sério?
— Tô.
— Você realmente faria isso?
— Faria.
Meu coração parecia grande demais para caber dentro do peito.
Olhei pela janela. O Rio passava diante de nós, cheio de luzes, prédios, pessoas que não faziam ideia de que duas pessoas estavam tentando decidir o próprio destino naquela madrugada.
— Então vai.
Caíque me olhou.
— O quê?
— Vai pro aeroporto.
Minha voz começou a falhar.
— Se você estiver falando sério... a gente vai.
Ele ficou imóvel por um instante.
— Eu e você. — disse ele
Respirei fundo.
— Pra qualquer lugar.
Eu não sabia de onde estavam vindo aquelas palavras. Talvez do menino de dezesseis anos que ainda existiam dentro de mim. Talvez daquele garoto que tinha acreditado que o primeiro amor poderia durar para sempre. Talvez de todos os anos em que tentei matar aquela esperança e nunca consegui.
— Eu não tenho mais nada aqui.
Olhei para Caíque.
— Quer dizer... eu tenho minha vida. Tenho meu trabalho. Minha casa. Tudo isso.
Passei a mão pelo rosto.
— Mas nada disso significa alguma coisa agora.
Caíque não dizia nada.
Então continuei.
— A única coisa que eu tenho pra me agarrar é isso.
Minha voz tremia.
— Essa coisa absurda que aconteceu. A gente se encontrar depois de dez anos. Descobrir que tudo aquilo foi uma mentira. Você aparecer justamente hoje. Justamente agora.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
— Talvez isso seja o destino, Caíque.
Ele me encarou.
— Talvez seja a vida dizendo que a gente ainda tem uma chance.
Respirei fundo.
— Que existe amor de verdade.
Minha voz saiu quase como uma confissão.
— Que existe aquele amor ridículo dos filmes. Aquele amor que parece impossível, que atravessa o tempo, que sobrevive quando todo mundo acha que acabou.
Caíque apertou o volante.
— Alec...
— Não.
Balancei a cabeça.
— Deixa eu terminar.
Olhei para ele.
— Eu passei dez anos achando que a nossa história tinha acabado. Passei dez anos tentando aceitar que você tinha escolhido outra pessoa. Hoje eu descobri que não foi você.
Minha mão tremia.
— Então eu não quero passar mais dez anos perguntando o que teria acontecido se a gente tivesse tentado.
Caíque estava chorando.
Eu também.
— A vida não pode ser só isso, Caíque. Trabalho, dinheiro, obrigação, casamento, família, fazer aquilo que esperam da gente...
Soltei uma risada pequena, nervosa, entre as lágrimas.
— A vida não pode ser tão banal assim.
Ele desviou os olhos por um instante.
— Eu tô falando sério. — ele disse
Minha voz baixou.
— Eu também — Estendi a mão e coloquei sobre a dele. — Tá nas suas mãos.
Caíque olhou para nossas mãos juntas.
Depois para mim.
E, pela primeira vez naquela noite, sorriu como se tivesse acabado de encontrar o caminho de volta para casa.
O carro continuou avançando.
Dessa vez, porém, nós sabíamos exatamente para onde estávamos indo.
O aeroporto.
E talvez, pela primeira vez em dez anos, o nosso futuro.
Fim.
Nota do autor: Hoje é meu aniversário e o presente é para vocês, esse capítulo final. Semana que vem eu lanço um epílogo para fechar algumas coisas 💙 muito obrigado todos vocês que acompanharam até aqui, até a próxima.