MENTIRAS PERFEITAS
Capítulo 1 – A Vida Perfeita
Parte 4 – Sombras sobre a verdade
Uma semana depois, o avião pousou pouco antes das sete da manhã. Assim que deixou o aeroporto, Fred seguiu para o primeiro compromisso do dia.
A agenda parecia comum: reuniões, visitas a potenciais clientes, negociações, almoços de negócios e assinaturas de memorandos de intenções que virariam contratos a serem assinados por Beatriz.
Era exatamente essa rotina que fazia muitos acreditarem que suas viagens eram apenas consequência natural do crescimento da Alves Participações. E, em parte, isso era verdade.
Embora cada deslocamento também atendesse a compromissos que ninguém fora daquele círculo restrito conhecia, Fred fazia questão de transformar cada viagem em uma oportunidade real para a empresa.
Visitava fornecedores, conhecia novas tecnologias, prospectava investidores e firmava parcerias.
A empresa crescera muito porque havia trabalho verdadeiro por trás da fachada.
A cobertura jamais poderia ser artificial.
Quanto mais legítimos fossem os negócios, mais sólida seria a imagem construída ao longo dos anos.
Para Fred, isso nunca foi apenas uma obrigação.
Era uma forma de honrar o legado deixado pelo pai. E, sejamos sinceros, carregar esse corre duplo de empresário e espião internacional dava um trabalho insano, mas era o preço para honrar o velho Fernando. Aquela vida dupla fora uma exigência para que continuasse a servir seu país quando, após pedir exoneração do serviço público, fora procurado por seus superiores e membros da comunidade internacional de inteligência.
O argumento deles não poderia ser mais forte: o trabalho seria feito em nome da justiça e em proveito da humanidade.
E considerando a tragédia pessoal de Fred e sua sede de fazer Justiça para ajudar o próximo (já que era apenas um bebê quando o assassino de sua mãe se livrou da cadeia e isso o atormentava), o pedido tocava o fundo de sua alma.
Enquanto isso, em Brasília, Beatriz conduzia mais uma reunião com a diretoria. Na enorme sala de vidro, gráficos eram projetados na parede.
Os números impressionavam.
Nos últimos cinco anos, a empresa crescera acima da média do setor: novas filiais, novos contratos e maior presença internacional.
Ao término da apresentação, um dos diretores comentou:
— É curioso como o doutor Fred consegue abrir portas em mercados onde ninguém imaginava entrar.
Beatriz sorriu.
— Ele sempre teve facilidade para construir relacionamentos.
Outro diretor completou:
— E a senhora consegue transformar esses contatos em resultados concretos.
Ela agradeceu com um discreto aceno de cabeça. Nunca buscara reconhecimento, mas sabia que aquela empresa era fruto do esforço conjunto dos dois.
Fred abria caminhos e ela consolidava cada conquista.
Naquela mesma tarde, Renato entrou casualmente na sala de Beatriz. Trazia duas xícaras de café.
— Achei que você precisava de uma pausa.
Ela sorriu por educação.
— Obrigada.
Ele entregou a bebida e caminhou até a janela.
— Fred ainda não voltou?
— Amanhã.
— Sempre viajando...
Ela respondeu sem tirar os olhos do computador.
— Faz parte do trabalho dele.
Renato permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois falou como quem apenas fazia um comentário casual.
— Você nunca teve curiosidade de saber exatamente o que ele faz em tantas viagens?
Renato deixou a pergunta cair com cuidado, como quem deposita veneno em uma taça sem alterar a cor do vinho.
Beatriz percebeu a intenção tarde demais; quando notou, a dúvida já havia tocado uma parte dela que preferia permanecer em silêncio.
Beatriz levantou os olhos.
— Claro que tenho.
— E nunca perguntou?
Ela respirou fundo.
— Perguntei algumas vezes.
— E?
— Ele sempre responde que existem alguns assuntos profissionais que não pode compartilhar. Os outros são discutidos por e-mail ou por telefone quase em tempo real comigo.
Renato abaixou a cabeça, fingindo compreensão.
— Deve ser difícil.
Beatriz demorou alguns segundos para responder.
— Às vezes é, mas eu vejo os resultados das viagens no crescimento da empresa.
Renato percebeu que havia encontrado uma pequena fissura. Ainda era mínima, mas bastava.
No continente europeu, a reunião tática de Fred havia acabado de ser encerrada em Berlim.
Enquanto Fred e Helena alinhavam os últimos detalhes burocráticos no escritório seguro da capital alemã, o foco operacional da força-tarefa deslocou-se imediatamente para a ensolarada e caótica cidade de Marselha, no sul da França.
O posto de observação avançado ficava em um apartamento de cobertura estratégico próximo ao famoso Porto Velho (Vieux-Port), com janelas amplas voltadas diretamente para o pátio interno de um antigo galpão industrial na movimentada rua de la République, apontado como um dos quartéis-generais de lavagem de dinheiro da máfia russa.
O vento forte do Mediterrâneo batia contra as vidraças, misturando o cheiro de maresia com o barulho distante do porto.
Dentro do posto de observação, a atmosfera estéril de monitoramento militar foi completamente quebrada pelo choque cultural entre os agentes designados para o turno de vigilância. Francesca "Chicca" Moretti, a impetuosa italiana cedida pelo ROS dos Carabinieri, ajustava a lente de longo alcance do telescópio enquanto soltava um suspiro irritado e limpava o suor da testa devido ao calor do sul francês. Ao lado dela, Alejandro Vargas, o capitão espanhol do MOE, exibia seu habitual sorriso de conquistador, encostado no portal da cozinha improvisada com uma caneca de café.
— Mamma mia, Alejandro! Dá para você focar no alvo e parar de me olhar como se eu fosse um prato de pasta? — resmungou Chicca, gesticulando dramaticamente com as mãos. — Você está me tirando a paciência com esse charme barato de toureiro de balada.
— Por favor, cariña... Não misture os temperos — devolveu Alejandro, aproximando-se com passos felinos, a voz mansa e carregada de sotaque. — Meu charme é de alta qualidade, certificado em Madri. E admita, esse clima de Marselha fica muito mais suportável quando você aceita que o calor espanhol é exatamente o que falta nessa sua vigilância fria.
— Você é um metido insuportável — disse ela, rindo de canto, falhando miseravelmente em manter a linha dura. Chicca virou-se para encará-lo, a blusa tática preta destacando suas curvas acentuadas. — O que os seus superiores diriam se soubessem que o grande capitão Vargas prefere caçar corações a monitorar mafiosos?
— Diriam que estou apenas fazendo um reconhecimento de território essencial — sussurrou ele, colando o corpo ao dela. Alejandro deixou a caneca de lado e segurou a nuca de Chicca, quebrando a resistência da italiana com um beijo devastador, misturando a urgência da adrenalina com o desejo que ambos sufocavam há semanas durante as missões internacionais.
Chicca soltou um gemido abafado contra a boca dele, agarrando os cabelos escuros do espanhol. O jogo de sedução converteu-se em uma urgência carnal incontrolável.
Ali mesmo, sobre a mesa tática de metal, ao lado dos monitores que transmitiam as imagens térmicas do alvo em Marselha, Alejandro a despiu com rapidez. A calcinha de renda vermelha dela foi jogada sobre o teclado do sistema. Chicca libertou o pênis rígido e imponente de Alejandro, que ostentava dezoito centímetros de comprimento com uma grossura considerável.
— Che dote magnífica... Você fala demais, espanhol, mas pelo menos tem como sustentar o orgulho — provocou Chicca, com os olhos incendiados de luxúria, descendo a boca pela haste venosa em um boquete rápido e agressivo que fez Alejandro cravar os dedos nos ombros dela.
Ele a suspendeu e a colocou de costas sobre a mesa. Sem preservativo ou delongas, empurrou o membro ereto até o talo dentro da buceta encharcada da italiana. Chicca soltou um grito agudo de puro êxtase, ecoando pelas paredes estéreis do apartamento. Alejandro iniciou estocadas violentas e secas descarregando todo o tesão de semanas observando aquela mulher maravilhosa próxima a ele, fazendo os equipamentos eletrônicos tremerem a cada impacto de seu quadril contra as nádegas dela.
Ela trancou as pernas ao redor da cintura dele, implorando em italiano por mais força, completamente entregue à crueza do ato. Chicca jamais confessaria, mas ansiava a semanas por aquela atitude por parte de Alejandro. Sabia que não era a hora e nem o lugar, mas o desejo falou mais forte.
Desejando mudar o ritmo, Alejandro a virou de quatro sobre a mesa, puxando-a pelos quadris. Ele desferiu tapas estalados na bunda grande de Chicca, criando um ritmo severo por trás. No clímax da transa, a porta do apartamento seguro abriu-se com um bipe eletrônico. Ilan Mizrahi, o major israelense da IDF, entrou na sala carregando uma pasta de dados operacionais recém-chegados da base.
Mizrahi parou estático no corredor, encarando a cena: Chicca de quatro com os olhos revirados, os seios balançando, e Alejandro desferindo uma estocada violenta por trás, com o traseiro exposto. O israelense ergueu uma das sobrancelhas, sem alterar a expressão gélida de militar veterano.
— O relatório de inteligência não mencionava que o ROS e o MOE haviam iniciado uma operação de penetração conjunta em solo francês — comentou Mizrahi, com a voz linear e sarcástica. — Sugiro que limpem o teclado. Eu preciso usar o terminal em cinco minutos.
— ¡Madre de Dios! — praguejou Alejandro, acelerando o movimento no susto, descarregando um jato massivo e quente de sêmen dentro da buceta de Chicca enquanto ela soltava um último urro de orgasmo simultâneo.
Desabaram rindo sobre a mesa, enquanto Chicca jogava um pano tático na direção do israelense:
— Vafanculo, Ilan! Aprenda a bater na porta da próxima vez!
Em outro aposento, mas em Berlim, alheio à distração de seus colegas na França, Fred encerrava os últimos trâmites de sua própria rota.
Os documentos foram recolhidos, os participantes deixaram a sala e apenas Helena permaneceu.
Ela observava a cidade através da janela.
— Você continua fazendo isso.
Fred fechou sua pasta.
— Fazendo o quê?
— Fingindo que não percebe quando alguém se preocupa com você.
Ele permaneceu em silêncio. Helena sorriu discretamente.
— Sempre achei essa sua característica irritante.
Fred aproximou-se da janela.
— Helena...
Ela levantou a mão.
— Não precisa dizer. Eu já sei.
Mesmo assim, ela continuou.
— Faz muitos anos. Não é uma paixão passageira. Nem uma fantasia. Apenas aconteceu.
Fred olhou para ela com respeito.
— Você é uma das pessoas em quem mais confio. E justamente por isso nunca quis alimentar qualquer expectativa.
— Porque ama sua esposa.
— Sim.
— Mesmo depois de tantos anos?
Fred sorriu.
— Principalmente depois de tantos anos.
Helena desviou o olhar. Havia tristeza, mas também admiração.
— Ela tem sorte.
Fred balançou a cabeça.
— Não. Eu é que tenho.
O silêncio que se seguiu não era constrangedor. Era o silêncio de duas pessoas maduras que compreendiam seus próprios limites. Helena respirou fundo.
— Prometo que isso nunca vai interferir no trabalho ou na sua relação com a sua família.
Fred sorriu.
— Eu sei. Por isso continuo confiando em você.
Algum tempo atrás Helena havia recebido uma missão específica.
Não relacionada diretamente a Fred, mas relacionada a Renato.
Relatórios produzidos por órgãos de inteligência brasileiros apontavam que Renato mantinha contato frequente com pessoas investigadas em operações da Polícia Federal.
Até aquele momento, não havia prova de participação em crimes, mas havia coincidências demais.
Sempre que determinados empresários passavam a ser investigados, Renato aparecia próximo deles: em reuniões, eventos, jantares e encontros aparentemente casuais.
A missão era simples: descobrir por quê.
Foi assim que Helena entrou na vida de Renato.
Não como amante ou cúmplice, mas como alguém cuidadosamente posicionada para compreender suas verdadeiras intenções.
Renato sabia que ela frequentava os mesmos congressos que o irmão e, vaidoso como era, acreditou rapidamente que exercia fascínio sobre ela.
Helena jamais confirmou ou negou.
Apenas deixou que ele acreditasse no que lhe era conveniente, uma vez que ele achava que através dela poderia obter informações e fazia de tudo para se tornar próximo.
Em Brasília, Renato encerrava mais uma ligação.
Sorriu ao olhar uma fotografia de Fred durante uma convenção empresarial em que Helena também aparecia, mas um pouco afastada.
— Para onde você vai de verdade, irmão?
A pergunta permaneceu no ar.
Renato tentara descobrir de diversas maneiras: funcionários, secretárias, motoristas e parceiros comerciais. Ninguém sabia responder. Quanto menos descobria, maior se tornava sua obsessão.
Ele tinha certeza de que existia um segredo. Só ainda não sabia qual.
Naquela noite, Helena registrou em seu relatório:
“O alvo continua demonstrando forte interesse em descobrir a verdadeira natureza das viagens de Frederico Alves. Até o momento, não há indícios de que conheça o motivo real. Sua insistência, entretanto, sugere que essa informação possui valor estratégico para ele.”
Helena digitou o relatório com a objetividade de quem treinara a vida inteira para não permitir que sentimentos contaminassem fatos. “O alvo demonstra interesse recorrente pelas rotas internacionais de Frederico Alves.” Parou. A frase seguinte surgiu antes que pudesse impedir: “A motivação parece ultrapassar rivalidade familiar.” Helena leu em silêncio. Depois apagou. Profissionais não escreviam instintos em relatórios. Profissionais descreviam movimentos, contatos, padrões. Mas eram os instintos que mantinham pessoas vivas.
Ela voltou a digitar:
“Recomenda-se monitoramento contínuo. O alvo demonstra paciência operacional e capacidade de aproximação indireta.”
Dessa vez, não apagou.
Antes de enviar, abriu outra janela no computador.
Nela havia uma fotografia capturada em um evento empresarial: Renato sorria ao lado de três homens investigados, todos com taças erguidas, todos fingindo casualidade.
Helena ampliou a imagem.
No canto esquerdo, quase fora do enquadramento, aparecia Beatriz cumprimentando um diretor.
— Você está chegando perto demais dela — murmurou. Não sabia se falava de Renato ou do perigo.
Helena releu a frase antes de enviar. Acrescentou uma linha, hesitou e apagou. O instinto lhe dizia que Renato não era apenas invejoso; era metódico, ressentido e paciente. Três qualidades que, juntas, transformavam uma fraqueza moral em ameaça real.
Ela fechou o computador.
Por um instante, deixou de ser a profissional.
Olhou uma fotografia antiga da equipe.
Fred aparecia sorrindo ao fundo.
Helena passou os dedos sobre a imagem, depois a guardou novamente. Sabia separar dever e sentimento, mas isso não o tornava menos verdadeiro.
Na manhã seguinte, Fred retornou ao Brasil. Ao atravessar a porta de casa, encontrou Beatriz preparando o café.
Ela levantou os olhos e sorriu. Durante alguns segundos, o mundo pareceu voltar ao lugar. Ele caminhou até ela.
— Consegui fechar dois contratos importantes.
Ela abriu um sorriso orgulhoso.
— Eu sabia que conseguiria.
Fred aproximou-se.
— E como foi por aqui?
— Como sempre. Muito trabalho. — Ela riu. — Mas conseguimos manter tudo funcionando.
Ele segurou delicadamente as mãos da esposa.
— Nunca digo isso o suficiente. Obrigado!
Ela o encarou sem entender.
— Pelo quê?
— Por cuidar daquilo que meu pai construiu... e daquilo que nós construímos juntos.
Beatriz sorriu e disse, soltando uma pequena gargalhada em seguida:
— Essa empresa nunca foi só sua. Pelo menos não depois que eu comecei a trabalhar lá.
Fred respondeu sem hesitar.
— Nunca. Sempre foi nossa.
Naquele instante, nenhum dos dois imaginava que alguém já começava a trabalhar para destruir exatamente aquilo que haviam levado vinte anos para construir.
Naquela manhã, enquanto Fred beijava a testa de Beatriz e ela sorria acreditando que a casa continuava intacta, Renato recebeu um e-mail sem assunto.
O remetente era uma sequência de letras e números sem sentido.
Ele quase apagou a mensagem, então viu o anexo: uma fotografia antiga.
Fred aparecia ao lado de Helena em um país onde jamais dissera ter estado. Não havia intimidade evidente na imagem, nada que pudesse ser usado de forma simples.
Mas havia contexto, havia data e havia um prédio oficial ao fundo.
Havia, sobretudo, a confirmação de que Fred estivera em lugares que a própria família desconhecia.
Renato abriu a foto em tela cheia.
Pela primeira vez em meses, não sorriu. Leu a legenda automática do arquivo:
“Praga — reunião reservada.”
— Agora sim — murmurou.
No outro lado da cidade, Beatriz servia café para o homem que amava.
— Açúcar? — perguntou ela.
Fred sorriu.
— Você sabe que não.
Ela riu, leve, familiar, confiante. E, sem saber, colocou a xícara diante dele no exato momento em que a primeira rachadura real se abria sob seus pés.