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Segurando Firme

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2198 palavras
Data: 14/08/2026 23:01:39
Assuntos: colega, Festa, Gay, Paixão, Romance

A chuva da manhã deixara o galpão com aquele cheiro de terra molhada misturado a diesel, ferrugem e borracha quente. Era um perfume feio e, talvez por isso mesmo, verdadeiro. Eu gostava daquele cheiro mais do que deveria admitir.

Toda vez que ele entrava pelas janelas abertas do escritório, eu tinha a impressão de que o mundo inteiro cabia ali dentro: caminhões quebrados, homens cansados, café requentado e uma rádio sertaneja insistindo que toda dor de amor podia ser curada com cachaça. Mentira. Algumas dores só aprendiam novos nomes.

Eu chegava no galpão depois do almoço, no meio período da tarde. Cristiano estava lá desde as oito. Quando o vi, não estava falando alto como fazia normalmente. Quando retornou do almoço, apenas ergueu dois dedos na minha direção, pegou uma caixa de ferramentas e começou a trabalhar em silêncio.

Demorei alguns minutos para perceber que aquele silêncio era diferente. Ele não estava bravo, estava preocupado. Os ombros permaneciam tensos mesmo quando não havia peso algum sobre eles, a mandíbula endurecia enquanto apertava parafusos que nem precisavam de tanta força. E, vez ou outra, ele parava por três ou quatro segundos olhando para lugar nenhum, como quem fazia contas invisíveis. Quando o movimento diminuiu, levei dois copos de café até a área externa.

— Pra você.

Ele aceitou sem olhar.

— Valeu.

Ficamos lado a lado, encostados na carroceria de um caminhão. O vapor do café subia devagar.

— Tá acontecendo alguma coisa?

— Não.

Sorri.

— Você mente muito mal.

Ele deu um riso curto.

— Cê acha?

— Acho.

Silêncio outra vez, foi ele quem o rompeu.

— Minha mãe ligou cedo.

Esperei. Aprendera, com Cristiano, que algumas pessoas contam a verdade como quem retira um espinho da própria pele, não adianta puxar.

— Cortaram a luz da casa dela.

Olhei para ele, continuava encarando o estacionamento.

— Eu paguei mês retrasado.

— E agora?

Ele deu de ombros.

— Agora vence outra.

Disse aquilo com uma naturalidade brutal. Como quem dissesse: "O céu amanheceu azul", ou "Acabou o café", ou "Faltou dinheiro" Tudo pertencendo à mesma categoria de fatos inevitáveis.

— Seu irmão continua morando lá com ela?

— Continua.

— Quantos anos ele tem?

— Onze.

Onze. Fiquei imaginando um menino de onze anos fazendo dever de casa à luz de vela. Cristiano percebeu meu silêncio.

— Não faz essa cara.

— Que cara?

— Cara de quem acha que eu sou um coitado.

— Não acho.

Ele me olhou finalmente.

— Jura?

— Juro.

— Porque eu detesto pena.

— Eu também.

Ele sorriu de lado.

— Mentira.

— Como assim?

— Você tem cara de quem salva cachorro na rua.

Ri.

— E você tem cara de quem atropela.

— Eu paro a moto.

— Depois de passar por cima.

Ele riu, daquela risada inteira. Por um instante voltou a ser o rapaz de dezenove anos que fazia piadas ruins e fingia que o mundo não pesava. Depois a expressão caiu novamente.

— Preciso pegar um serviço extra sábado.

— Achei que fosse descansar.

— Descansar não paga boleto.

A frase ficou entre nós, pequena, pesada. Eu nunca tinha pensado em descanso como privilégio. Para mim, sábado sempre significara uma pausa nos estudos, dormir até mais tarde, assistir televisão com meu pai, quem sabe até um desenho ou um filme bobo, ainda tomando um belo copo de Nescau.

Para Cristiano, sábado era apenas mais um espaço onde dinheiro podia ser produzido. Foi nesse instante que senti, talvez pela primeira vez, o tamanho exato da distância entre nós: não era o desejo, não era a cidade, nem o medo de sermos vistos. Era o calendário: eu vivia projetando daqui a cinco anos, dez anos; Cristiano vivia até o quinto dia útil.

Na saída do expediente, caminhamos lentamente até a moto.

— A faculdade começa quando?

— Ano que vem, se eu passar.

— Vai passar.

— Espero.

— Vai embora daqui.

Olhei para ele.

— Você fala isso como se fosse fácil.

— Pra você é.

— Não é.

Ele balançou a cabeça.

— É sim.

Apoiou o capacete no banco da moto antes de continuar.

— Você nasceu sabendo que tinha pra onde cair.

A frase entrou em mim como um vento frio.

— Não é verdade.

— É.

— Meu pai trabalha igual um condenado.

— Eu sei.

— Minha mãe também.

— Eu sei.

— Então...

Ele levantou a mão.

— Não tô dizendo que cês são ricos.

Respirou fundo.

— Tô dizendo que vocês têm chão.

A palavra ecoou: chão. Olhei para os próprios pés, concreto rachado, óleo, poeira. Ele continuou:

— Se der tudo errado, você volta pra casa.

Assenti, era verdade.

— Se der tudo errado pra mim...

Parou, sorriu daquele jeito enviesado.

— Não tem "volta". Só tem "de novo".

Naquela noite, deitado na cama, fiquei olhando para o teto durante horas. Até então, eu acreditava que nossos maiores inimigos fossem o preconceito, os comentários do galpão, a cidade pequena, os olhares atravessados.

Era confortável acreditar nisso. Porque preconceitos podem ser enfrentados, pessoas mudam de cidade, empregos acabam, fofoqueiros envelhecem. Mas como se enfrenta um trauma de infância? Um lar abusivo? Como convencer alguém a sonhar quando ele passou a vida inteira aprendendo apenas a sobreviver? Eu era mais novo do que Cristiano e, apesar de toda minha pretensa maturidade, não tinha bagagem emocional para lidar com tudo aquilo.

Eu falava de livros, Cristiano falava de boletos. Eu pensava na universidade, ele pensava no preço do gás. Eu imaginava a pessoa que seria aos trinta, ele só queria garantir que o irmão tivesse luz para fazer a lição de matemática.

Foi a primeira vez que me ocorreu uma hipótese assustadora: talvez o amor não fracassasse por falta de coragem, talvez fracassasse porque, às vezes, duas pessoas boas chegam uma à vida da outra carregando relógios diferentes.

Na manhã seguinte, encontrei Cristiano trocando a correia de um caminhão. Me aproximei devagar.

— Posso perguntar uma coisa?

— Depende.

— Você nunca pensa no futuro?

Ele continuou trabalhando.

— Penso.

Esperei.

— Até quando?

Ele apertou o último parafuso. Se levantou, limpou as mãos num pano encardido, olhou para mim com uma sinceridade quase dolorosa.

— Até o fim do mês.

Sorriu, como quem fazia uma piada, mas seus olhos não riam. E foi nesse momento que compreendi algo que nenhum livro tinha conseguido me ensinar: há pessoas que sonham porque acreditam no amanhã e há pessoas que só conseguem sobreviver porque não podem se dar ao luxo de pensar nele. Enquanto eu ainda tentava encontrar alguma resposta inteligente, Cristiano deu dois tapinhas leves no meu ombro.

— Para de fazer essa cara.

— Que cara?

— A de quem quer consertar o mundo inteiro.

— Não quero.

Ele inclinou a cabeça.

— Ainda bem.

— Por quê?

Cristiano caminhou alguns passos em direção ao caminhão, depois virou apenas o rosto.

— Porque eu não preciso de um herói, Mateus.

Fez uma pausa.

— Eu só precisava que alguém ficasse aqui cinco minutos comigo.

E, de repente, cinco minutos pareceram muito mais difíceis de prometer do que uma vida inteira.

__________

Na sexta-feira, eu decidi que Cristiano precisava de uma noite inútil. Não inútil no sentido ruim, inútil no sentido mais raro da palavra: uma noite que não precisasse produzir nada, pagar nada, resolver nada, consertar nada. Uma noite que pudesse simplesmente acontecer.

O encontrei no fim do expediente sentado no meio-fio, ainda com a roupa de trabalho, os cotovelos apoiados nos joelhos e uma garrafa de refrigerante morna entre as mãos. O sol já desaparecia atrás dos telhados baixos do bairro, deixando o galpão coberto por aquela luz amarelada que fazia até a ferrugem parecer bonita.

— Você vai fazer alguma coisa hoje?

Ele ergueu os olhos.

— Vou dormir.

— Excelente programa.

— Eu gosto.

— Mentira.

— Você não sabe do que eu gosto.

— Sei que você gosta de reclamar.

Ele soltou uma risada.

— Isso eu gosto mesmo.

Cruzei os braços.

— Então troca o programa.

— Por quê?

— Porque tem festa na praça.

Cristiano franziu a testa.

— Festa?

— Feira. Barracas, música, comida, gente bêbada dançando mal. O pacote completo.

— E você quer ir?

— Quero.

Ele me examinou por alguns segundos.

— Comigo?

— Não. Com o prefeito.

Cristiano riu, balançando a cabeça.

— Você é muito besta.

— E você está enrolando.

— Eu não tô vestido pra isso.

Olhei para ele da cabeça aos pés.

— Você está usando a mesma roupa que usaria para assaltar uma agência bancária.

— Então tá boa.

— Perfeita.

Ele se levantou.

— Tá. Mas se for uma merda, a culpa é sua.

— Aceito os termos.

A praça estava mais cheia do que eu esperava. Havia barracas de pastel, cachorro-quente, milho cozido, doces, artesanato, roupas penduradas em araras improvisadas e aquelas bugigangas que ninguém precisava, mas todo mundo acabava levando para casa.

Crianças corriam entre as mesas, adolescentes ocupavam os bancos da praça como se fossem donos deles e um conjunto instalado sobre um pequeno palco tocava sertanejo com entusiasmo suficiente para compensar a falta de talento. Cristiano parou ao meu lado.

— Isso aqui é uma festa?

— É.

— Parece que a cidade inteira resolveu sair de casa ao mesmo tempo.

— Esse é o conceito.

Ele olhou ao redor, desconfiado, depois sorriu.

— Até que é bom.

Foi estranho o ver assim. Sem o galpão, sem o cheiro de óleo, sem a expressão permanentemente preparada para uma briga. Cristiano parecia mais novo naquela noite, talvez porque estivesse rindo, talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, não parecesse estar esperando que alguma coisa ruim acontecesse. Compramos dois pastéis e dividimos uma garrafa de cerveja, ele roubou metade do meu sem pedir.

— Você acabou de pegar o meu.

— Você não estava comendo.

— Eu estava.

— Demorou.

— Você é um ladrão.

— E você é lerdo.

— Excelente combinação.

— Eu sei.

Ele sorriu e eu fiquei olhando um segundo além do necessário. Cristiano percebeu.

— Que foi?

— Nada.

— Tá olhando o quê?

— Seu pastel.

— Mentiroso.

Baixei os olhos.

— Come logo.

Ele riu. Mais tarde, fomos andar pela praça, paramos diante de uma barraca de tiro ao alvo e Cristiano insistiu que eu tentasse.

— Eu não sei fazer isso.

— É só mirar.

— Você fala como se fosse simples.

— É simples.

— Então faz você.

Ele pegou a espingarda de brinquedo, estreitou um dos olhos e disparou, errou. O rapaz da barraca segurou o riso, eu não.

— Você é péssimo.

— A arma é ruim.

— Claro.

— Tá torta.

— A arma?

— A arma.

Disparou outra vez, errou novamente. Comecei a rir tanto que precisei me apoiar no balcão.

— Para de rir, desgraçado.

— Você se acha o máximo.

— Eu sou o máximo.

— Você não acertou uma lata.

— Mas você gostou.

Parei de rir, ele também. Por um instante, a música da praça pareceu ficar distante, Cristiano desviou os olhos primeiro.

— Vamos embora daqui.

— Por quê?

— Porque esse cara tá roubando meu dinheiro.

— Você acabou de perder duas vezes.

— Exatamente.

A noite avançou sem que percebêssemos. Nos sentamos num banco mais afastado da praça quando a música ficou mais lenta. O movimento continuava ao nosso redor, mas já começava a diminuir. Algumas barracas fechavam as lonas, crianças eram arrastadas pelos pais e os bêbados mais persistentes começavam a repetir as mesmas histórias para as mesmas pessoas. Cristiano apoiou os braços no encosto.

— Eu não fazia isso.

— Isso o quê?

— Sair assim.

— Com alguém?

Ele me olhou.

— Com ninguém.

Fiquei quieto.

— Lá em casa não tinha muita coisa disso.

— Festa?

— Alegria.

A palavra saiu sem preparação, olhei para ele. Cristiano percebeu e tentou desfazer o peso da própria frase.

— Mas hoje foi bom.

— Foi?

— Foi.

— Mesmo comigo?

— Não exagera.

Ri, ele também. E então aconteceu. Sem aviso, sem música romântica, sem qualquer dessas delicadezas mentirosas que os filmes gostam de colocar quando querem anunciar que alguma coisa importante está prestes a acontecer.

Cristiano simplesmente deixou a mão cair sobre o banco, perto da minha. Os dedos dele tocaram os meus, primeiro por acidente, depois permaneceram. Olhei para a praça, ninguém parecia prestar atenção, ainda assim, meu corpo inteiro ficou alerta. Cristiano entrelaçou os dedos nos meus, escondidos entre nossos corpos, atrás do encosto do banco. A mão dele era quente e áspera, a minha parecia pequena dentro dela.

— Tá com medo? — perguntei.

— Não.

— Mentira.

— Talvez.

— De quê?

Ele demorou.

— De gostar disso.

Não respondi, apenas apertei sua mão. Ficamos assim, olhando para a praça como dois sujeitos completamente interessados na decoração municipal. Depois de alguns segundos, Cristiano disse:

— Você ainda acha que eu não penso no futuro?

Olhei para ele.

— Acho que você pensa. Só não sabe chamar pelo nome.

Ele sorriu.

— E você sabe?

— Não.

— Então estamos empatados.

Apertei novamente seus dedos.

— Talvez.

Ele baixou os olhos para nossas mãos.

— Mateus...

— Hum?

— Eu não prometo nada.

— Eu sei.

— Posso estragar tudo.

— Provavelmente.

Ele riu pelo nariz.

— Você é péssimo em tranquilizar alguém.

— Estou sendo honesto.

O sorriso dele desapareceu aos poucos.

— E se isso não der certo?

Olhei para a estrada além da praça, para as ruas que levavam para lugares que ainda não conhecíamos. Depois voltei para ele.

— Ei.

Cristiano me encarou.

— Eu sei que é tarde.

Passei o polegar devagar sobre a lateral da mão dele.

— Mas a gente pode conseguir se andarmos juntos.

Ele não disse nada. Apertei sua mão.

— Aguenta firme.

Ele respirou fundo.

— Segura firme.

Dessa vez, não precisei pedir. Cristiano apertou meus dedos e, por alguns segundos, no meio daquela praça cheia de gente que não fazia a menor ideia de quem éramos, nós dois conseguimos acreditar que talvez não fosse necessário saber exatamente para onde estávamos indo. Talvez bastasse não soltar a mão um do outro enquanto a noite ainda estivesse aberta.

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Comentários

Foto de perfil de Foresteer

Eu costumo ser o primeiro a dizer que isso não é site de romances, quando os caras escrevem merdas e acham que estão fugindo do lugar comum. Mas você e seu texto: ufa! Que delícia: sem intenção de nos levar a conclusões. Como é bom quando o autor não quer dar aula.

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Foto de perfil de Jota_

Às vezes dois relógios descompassados se ajustam pra ficar no mesmo ritmo...estou adorando o que está sendo criado entre os dois!

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Foto de perfil genérica

a analogia foi barbara, o destino as vezes coaduna com a esperança de conviver com a pessoa que te faz refletir e querer estar ao lado dela.

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