Genildo: Nossa… a comissão de crise está completa! Que reunião linda! Vão foder na minha frente agora?
O grupo esperava aquilo, fazia parte.
Jemerson: Viemos falar mais sobre o que Naiara relatou, agora, talvez, com cabeça mais fria.
Genildo: Nossa, minha cabeça tá realmente gelada…olha, vocês tão todos aqui, lindos, arrependidos, querendo conversar… tô curioso…será que vão me convencer?Será que vão me convidar pro próximo bacanal?
Jamile: Tudo bem, você pode falar o que quiser… mas vamos falar o que for preciso. E não é pra você compreender, nem a gente se explicar. É retomar o que foi lhe dito, mas dessa vez, de modo coletivo. Cada um vai dar seu parecer, inclusive você.
Genildo: Nossa, onze contra um…vamos lá…que se comecem os joguinhos.
Genildo estava irônico, o que até o impressionava depois de tudo. Porém, quando Naiara contou tudo, parecia mesmo que havia algo de crível, por mais rocambolesco que fosse aquilo tudo. De alguma forma, ele teria que dar algum crédito. Não adiantava fugir e deixar essas coisas apenas com uma impressão própria. Não funcionaria depois de um tempo e ele poderia ser consumido em deixar de descobrir algo além daquilo tudo.
Scheila: Existe uma coisa que talvez tenha ficado incompleta, mesmo Naiara já deixando claro…quando pessoas passam por uma experiência muito traumática juntas, é comum criarem vínculos muito intensos. Não porque escolham isso, mas porque passaram pelo mesmo medo. Existe um vídeo falando sobre isso, e esperamos mostrar a você. E o que aconteceu naquela escuna começou com algo aterrador, um temporal que nos deixou perplexos e com muito medo. Difícil mesmo alguém ter noção do pânico que se instalou ali.
Jemerson: Naquele dia, todos acreditaram que poderiam não voltar para casa. Tudo foi acontecendo com a mente querendo apagar o pânico. Foi muito pavoroso. Olha…difícil ter noção da violência que foi aquela tempestade, nunca vi nada tão apavorante!!
Diego: Velho, depois de tudo, era difícil acreditar no que tinha ocorrido. Essas coisas assustam, mano, desnorteia todo mundo.
Bianca: Genildo, era uma situação surreal! Foi muito triste… a gente ter sobrevivido a uma tempestade a troco de todo mundo… se misturar daquele jeito.
Breno: Velho, como a psiquiatra falou num vídeo que espero que você aceite assistir. Existia sobriedade no que a gente fazia, mas como tudo era pra mente encobrir o pânico, não havia como parar pra ver se tínhamos alguma noção
Naiara: Genildo, não tínhamos essa noção. Juro! Tão logo depois que despertamos, todo mundo queria sumir dali. Foi terrível. É dramático quando você se vê numa situação daquelas depois de um momento quase trágico, que foi uma tempestade devastadora.
Cauê: Retornamos em silêncio, cada um processando o que houve. Tudo saiu de uma forma que era impossível prever. Tava todos muito baqueados.
Íris: E tinha outra questão… como expor o que havia ocorrido?Perceba… foi uma série de fatos que se acumulavam, chuva, pânico, sexo inesperado, confuso, vergonha, ética abalada, e agora uma necessidade básica de ocultar tudo isso. Foi muita coisa!
Tony: Não tinha outro jeito. Cada um tinha que lidar com aquilo. Eu pelo menos pensava que era uma questão pessoal. Na individualidade, aquilo seria ajustado.
Beatriz: Ali na escuna, no retorno, não havia planos de formação de grupo, nada. Foi Jemerson quem criou aquele grupo à noite.
Jamile: Fora o que todos aqui já falaram, eu e Naiara teríamos que encarar você… entenda… nosso coração já estava dilacerado por tantas coisas, que deixar você a par de tudo… assim…quase que sem conseguir explicar direito… seria mais uma tragédia… e eram tantas naquele dia… que ter que omitir isso de você, inventando coisas que não houve pra não fazer com que você desconfiasse… foi mais uma tragédia. Olha quantas coisas tive que passar nesse dia…
Jamile começou a chorar. Genildo ainda estava impassível, não sentiu pena, ainda estava impactado por tudo. Porém, uma parte dele começou a ter algum entendimento do que eles haviam passado.
Jemerson: Criei o grupo pra isso. Pra conversarmos sobre o que ocorrera, tentar entender, acalmar quem estava sofrendo mais, juntar os cacos de tantos traumas sucessivos que passamos naquele dia. Era uma forma de compartilhar dores, sofrimentos, e tentar reverter o clima ruim que foi o desastre daquele passeio.
Scheila: O grupo nasceu dessa necessidade…não era para esconder nada de você.Era um grupo para tentarmos entender o que havia acontecido conosco.
Bianca: Nos primeiros dias, quase todas as mensagens eram sobre medo,vergonha, confusão, insônia. ansiedade… não era algo que podia ser compartilhado para outras pessoas, Genildo, até porque nem tinhamos qualquer discernimento dentro do grupo, imagina pra quem não viveu aquilo tudo. As conversas eram “tá tudo bem aí”, "conseguiram dormir?","estão conseguindo trabalhar?, “ainda estão confusos?".Era uma tentativa de sobreviver emocionalmente. Era uma espécie de tentativa de terapia alternativa.
Beatriz: Praticamente. Mas necessária. A psiquiatra explica isso.
Diego: Era duro, pai. Guardar essas coisas numa gaveta da memória já era difícil, imagina ter que diariamente ver os outros que passaram pelo mesmo ainda sem encontrar saída. Rolou empatia, mano.
Breno: Ninguém sabia exatamente como conversar sobre aquilo com familiares ou amigos.Entre nós era diferente, todos tinham vivido a mesma situação.
Naiara: Depois apareceu aquela entrevista da psiquiatra, que não apagou o que aconteceu, mas ofereceu uma forma de compreender por que todos tinham reagido de maneira tão confusa diante de um evento extremo.
Cauê: Aquilo trouxe um alívio da zorra. Praticamente justificou tudo. Mostrou que reações humanas em situações limite podem ser muito mais complexas do que imaginamos.
Íris: Quando a culpa começou a diminuir,as conversas mudaram naturalmente. Passamos a falar da vida, trabalho, estudos, livros,música, política, comportamento, saúde., problemas cotidianos…
Tony: Como Naiara relatou, era uma rede de apoio. Percebemos que éramos um grupo diverso, não tínhamos quase nada em comum e nos demos conta que só um evento traumatizante pode juntar pessoas tão diferentes como nós éramos
Beatriz: E isso, pelo menos pra mim, era muito bonito. Comecei a falar sobre coisas que aconteceram na minha vida, e isso foi contaminando os outros. Acho que isso…foi crucial pra nos darmos conta de que aquilo tudo era fruto da necessidade que tínhamos de mostrar que éramos pessoas normais, com defeitos, qualidades, virtudes… isso cria afinidades, Genildo. E isso não estava atrapalhando nossa vida aqui fora. Se você percebeu isso de alguém aqui, por favor, se manifeste.
Genildo ficou calado. Fez uma careta como se dissesse “que eu saiba, não”. Realmente não tinha. Não havia nada que ele tivesse parado pra pensar. Ali, ele até podia imaginar que todos estavam ensaiando quando estavam com ele. Mas também, falavam com naturalidade e isso casava com a superação de algo que poderia detonar a vida de todo mundo de uma vez por todas.
Jamile: Filho… jamais podia imaginar que aquele grupo seria uma espécie de tábua de salvação. E percebia que era. Tudo era muito incomum, mas ao mesmo tempo, éramos pessoas que estavam conseguindo vencer uma série de revezes! Foi com ele… que recuperei a força pra lidar com tudo…
Scheila: Sem percebermos, aquelas conversas deixaram de existir apenas por causa do trauma. Existiam porque surgia uma comunidade incomum, de pessoas muito diferentes, mas que dividiam um evento que paramos de questionar, e passou a ser uma divisão de alegrias, tristezas, dúvidas, e opiniões. E como Beatriz falou, fora do grupo, tocavamos nossa vida, porque já estávamos nos refazendo.
Jemerson: O que aconteceu foi que aquele espaço virou um lugar seguro para pessoas que tinham passado pelo mesmo choque. Como tudo foi desnudado de forma acachapante, era preciso descortinar algo positivo daquilo tudo e fomos nos expondo e recebendo de volta compreensão, afeto, afinidade, e empatia.
Diego: Achava aquilo da hora, totalmente diferente do que eu tava acostumado com a galera que andava.
Genildo: E eu continuava do lado de fora desse lugar seguro…
Bianca: Perdão, Genildo, perceba que era uma central de compartilhamento que surgiu de algo vivido e sentido pelas mesmas pessoas, não era necessariamente uma sociedade secreta! Se atente ao inesperado que envolveu o florescimento do grupo, e não uma combinação de pessoas que resolveram armar uma comunidade sigilosa!
Breno: E naquele momento não queríamos expor algo que estava começando a desaparecer. Havia um fluxo ali. Não era simplesmente “bom, pessoal, agora que tudo ficou bem, que tal a gente falar ao Genildo o que houve e colocar ele aqui?” Não era essa a questão, brother! Era justamente começar a viver sem aquele trauma nos rondar. Não era conveniente você participar daquilo porque a presença de qualquer pessoa de fora, nos traria velhos fantasmas que teriam que ser novamente escrutinados!
Naiara: Genildo, havia uma vida aqui fora naquele momento…nunca deixei de te amar, aquilo não era uma substituição do real pelo virtual, não! Acredite… como voltar atrás e de repente sugerir o retorno de uma conversa que já foi difícil suplantar?
Genildo: Eu acho mais que vocês temeram encerrar essa amizade linda e maravilhosa, porque haveria o idiota aqui pra atrapalhar!
Cauê: Cara, o que ocorria ali se tornou natural, não era uma problematização do que seria se você estivesse lá atrapalhando,é que era um grupo que estava se ajudando a ultrapassar barreiras de vergonha dor, sofrimento, isso tava na trajetória do grupo! Não era algo que pensávamos em deixar você de fora propositalmente, já não bastava o que tivemos que deixar pra trás e você considera que havia jeito fácil de anexar você do nada?
Genildo: Assim eu não descobriria o que houve do jeito que foi, Cauê!
Betariz: Mas Genildo, quem aqui tá dizendo que sabíamos o que viria pela frente, homem??? isso tudo nasceu em torno de uma experiência que não conseguíamos colocar em palavras! Não havia meios de brecar e colocar você no meio. Tudo era fluído, espontâneo… Teve um momento que o grupo se tornou um vício, verdade, porque se tornou uma celebração de tudo que foi deixado pra trás. Daí veio uma tentativa de frear um pouco o contato, mas aí...
Tony: Ai veio sua ideia do segundo passeio e acho que ai houve um…desvio de rota.
Íris: Quando soubemos o que você propôs, temíamos que aquele drama todo ressurgisse, e já estávamos superando tudo.
Jamile: Recebemos aquilo com estranheza, admito. Mas ai que está: ai sim seria um bom momento pra compartilhar coisas boas em um novo passeio. Fazia sentido criar uma nova memória. Isso acabou soando positivo, quando conversamos e resolvemos aceitar. Ai teria um bom motivo pra você, quem sabe, se inteirar aos poucos do que houve.
Jemerson: Concordo, mas acho que teríamos que estar mais preparados pra isso… ficou claro que não era hora ainda. Mas queríamos o passeio, seria uma boa sim.
Scheila: Mas bastou voltarmos ao mesmo lugar para percebermos que ainda existiam lembranças muito fortes entre nós. A começar na marina, quando todo mundo se viu. Havia um sentimento, uma harmonia que cresceu no grupo e naquele momento se irradiava, de modo autêntico, puro.
Genildo: E que vocês esconderam de mim…
Diego: Não por maldade, velho. Nós mesmos não sabíamos que tudo se daria daquela forma. Era preciso entender aquilo ainda, não dava pra um pular em cima do outro. Tínhamos que parar e pensar “opa, tá acontecendo uma parada nova aí”.
Jemerson: Quando nos olhamos a cumplicidade que foi gerada pelas trocas de mensagens estava ali presente. Era mais uma coisa que teríamos que enfrentar.
Bianca: A gente se olhava e transmitia a lembrança do que havia ocorrido, mas que a amizade do grupo havia reelaborado. Sem dúvida, não estávamos ainda preparados para aquilo.
Genildo: E aí vocês fizeram questão de encenar tudo, como bons atores.
Cauê: Cara, você acha o que? Que a gente ia parar e revelar tudo? Dizer chega e falar “galera, vamos parar de ensaiar?”
Íris: Acho que nem foi isso, Cauê, mas tentarmos posteriormente entender aquilo direito e foi o que fizemos depois.
Breno: Não era uma questão de encenação, mas uma situação nova que nos apresentava. Ninguém tinha ideia de que as coisas chegariam ao ponto de ter recordações tão vivas… pelo menos no meu caso.
Naiara: Genildo, entenda… aquela seria sim uma maneira de dar um ponto final em tudo que tinha ocorrido e fazer com que todos curtissem ali. Estamos aqui pra tentar esclarecer as dificuldades que surgiam a cada estágio de recuperação! E ali se revelou um novo impasse!
Tony: Conversamos sobre o que lembrávamos. Pelo menos, alguns quiseram botar pra fora o que estavam recordando. Era um jeito de fazer uma limpeza mental daquilo tudo.
Beatriz: Eu fiz isso. Lembrava e contava… era pra isso que o grupo existia, pra gente poder falar as coisas sem ninguém fazer julgamentos. Era por isso que tínhamos sintonia, era um bem-estar poder despejar tudo que incomodava sem ninguém estar sentenciando, todo mundo ficava a vontade pra tudo, o que quisesse. Porque todos ali procuravam amenizar um sentimento.
Jamile: Filho… Era tudo muito ambíguo. Queríamos retomar um convívio sadio ao aceitar aquele passeio contigo, mas mais uma vez aquelas lembranças incômodas, uma tortura mental, com você ali próximo, sem estar ciente… era angustiante. A verdade é que não havia fórmula pra nada, a gente tinha que falar pro outro as sensações, as aflições de tolerar aquelas lembranças novamente…Então, não era adequado demonstrar fraquezas ali.
Genildo: Se esse negócio foi prazeroso, obviamente não devia ter tanta amargura!
Scheila: Genildo, o sexo havia sido uma consequência! O prazer existiu sim, não vamos negar, mas talvez você esteja considerando que ter… aproveitado… de maneira destrambelhada o que tinha ocorrido valia. Não! O ato foi advindo de uma situação tertível! E ninguém queria conviver com isso. O medo, o pânico, também vinha junto! A gente achou que ia morrer e quando você acha que vai morrer, seu cérebro faz coisas que você não controla! O sexo foi uma consequência, uma fuga.
Diego: Mas acho que a próxima parte é a mais difícil…quando todo mundo se encontrou sem ter marcado nada.
Jemerson: Até hoje nenhum de nós consegue explicar como todos apareceram praticamente no mesmo lugar, na mesma hora, sem combinar.
Bianca: A gente não combinou nada. A gente se encontrou por acaso. E naquele momento, a gente percebeu que a amizade que a gente tinha construído era real, não era só um grupo virtual. Era uma conexão de verdade.
Cauê: Ali eu percebi que tinha algo maior que nos interligava. E aí vou dizer, irmão, essa aí não tem como justificar não!
Íris: Foi nesse momento que entendemos que a amizade construída ao longo daqueles meses era concreta, verdadeira, genuína. Ficamos incrédulos como todos se encontraram ali, mas depois, só nos restava aproveitar o momento, já que tinha acontecido.
Genildo: Aí vocês tiraram a roupa e começaram a foder…
Breno: Aí a gente tentou nos apresentar ainda mais. Começamos a mostrar as qualidades que tínhamos. Não era mais online, era ali , ao vivo. Ninguém tava querendo sexo ali não, rapá.
Naiara: Genildo… um grupo passa por momentos difíceis juntos, ficam sem entender como acontece uma interação grupal desmedida, se encontra todo mundo nu, sem se dar conta direito como aquilo tudo começou, formam um grupo pra tentar entender, precisa omitir isso, pois é um ato repugnante até pra quem viveu, começa a estruturar uma comunidade inesperada, incomum, se encontram de novo revivendo aquilo com alguém que não esteve junto esse tempo todo, se reencontra sem esperar… é tudo uma sequência que desde o início ninguém administra!
Tony: A gente começou a se animar, já que estávamos ali, aproveitamos pra curtir, de início, sem nenhuma conotação sexual, sério mesmo.
Tont: Aí fomos nos aproximando do manguezal… aquele manguezal… e aí as coisas ficaram esquisitas, parecia que a gente queria ressignificar aquele lugar, aquele espaço de terror, dar fim definitivo à lembranças ruins
Beatriz: A Bianca tirou a roupa pra tomar banho e todo mundo acompanhou. Aquilo parecia fazer parte da diversão. Já havia… uma intensa intimidade. Havia despojo.
Jamile: Quero que entenda que quando um grupo se encontra nessas condições que Naiara descreveu, tudo o que passamos vem a tona… mas de maneira celebrativa. Praticamente… ressignificamos o sexo coletivo, como Tony falou. É duro dizer isso assim, filho, mas aquele era um momento real de satisfação, todos estávamos juntos, e era a primeira vez que não tinha sofrimento em um encontro físico!
Scheila: Tudo aconteceu de sobressalto, mais uma vez a coisa fluiu. Só que dessa vez não era a tempestade, o medo, o pânico. Era alegria de estarmos vivos! De podermos redefinir uma experiência cruel! Como se o universo, ou sei lá o que, estivesse empurrando pra isso! Veja…todos se encontraram no mesmo lugar SEM MARCAR NADA ANTECIPADAMENTE!!
Diego: Pô, velho, era um universo só nosso, era como se a gente tivesse criado uma redoma, uma bolha própria, não sei nem como expricar.
Jemerson: Desde que a gente se encontrou inesperadamente, tudo emanava alegria. Era uma correnteza de emoções, se você quiser nadar de volta, você não consegue, você é levado.
Bianca: Eram onze pessoas que estavam em um círculo fechado, e aí, eu posso dizer, pelo menos, que a partir dali as coisas começaram a escapar da gente.
Cauê: Mesmo assim, não tinha combinação, “e aí, galera? Onde vai ser a festança hoje?”, isso não.
Íris: Depois que tudo acontecia, ficávamos maravilhados, o que não simbolizava que nós éramos exatamente um grupo sexual, não acho que tivemos essa conclusão.
Breno: Porque o encontro da forma que foi ainda era um mistério.
Naiara: Acho que no fundo, do fundo, do fundo do nosso subconsciente, ainda havia resquícios de que algo do primeiro passeio continuava guardado.
Tony: Mas intencionalmente, ninguém queria vasculhar.
Beatriz: Mas a gente não podia ser hipócrita. A gente havia gostado do que rolou. Digo, desse encontro doido aí...
Jamile: Esse episódio acho que continua em aberto.
Scheila: Depois, recebi uma oportunidade de locar uma casa que procurei na época do meu pós-operatório e convidei todos para irem. Foi um telefonema que nem aguardava. Mais uma vez, algo que caiu de paraquedas, não procurei isso. Achei o preço ótimo, estava precisando ir, e chamei o pessoal. O grupo já fazia parte do meu convívio…
Naiara: Juro que não queria ir, mas ao mesmo tempo, eu tinha plena concepção de pertencimento àquele grupo. Começava pra mim a fase mais difícil.
Diego: Rolou tudo como na escuna, no encontro inesperado, mas dessa vez marcado, desse jeito aí que Scheila falou, a casa apareceu.
Jemerson: Depois recebi convites para uma festa eletrônica e pensei logo no grupo. Já era automático.
Bianca: O grupo de zap já não era suficiente. As barreiras haviam sido derrubadas.
Cauê: Era tudo instantâneo, era uma alegria exultante. Acabamos indo pra um motel… aí, velho, depois de tanto acontecimento inesperado, foi difícil onze pessoas assim se governarem. Parecíamos que era uma mente em onze corpos. É algo bem esquisito...
Íris: Mas Naiara estava sofrendo muito. Foi através dela, Genildo, que percebemos que nossa interação estava fazendo mal pra todos.
Breno: Ainda bem, nos demos conta disso. Naiara chorou muito, a gente nem notava o quanto isso era terrível pra ela. Pra Jamile também.
Naiara: Tudo era muito intrigante, e aquilo foi me tomando…tinha que dar um basta. Via que nosso namoro corria risco. Você pode acreditar que é balela o que vou falar, mas eu te amo, nunca quis me afastar de você. Vivia hesitante, sensível, vulnerável… na verdade… desde o acontecimento na escuna, eu nunca quis ficar sozinha pra encarar essas etapas que contamos, e isso me deixava sempre dividida.
Genildo não percebia. Pra ele, Naiara sempre fora leal e em nenhum momento ele sentiu que ela estaria dissimulando. O consentimento ainda estava lá. Mesmo assim, ele estava relutante em muitas coisas ali, embora reconhecesse que eles se esforçavam sim para elucidar aquilo tudo.
Tony: Foi então que revelamos o que passávamos. Dificuldades gerais no trabalho, na família… pra você ver que aquilo tudo…não estava sendo saudável, bicho.
Beatriz: Caímos na real. Tudo estava suscetível a ruir.
Jamile: Estava com dificuldades no trabalho, cometi um erro significativo. Sempre fui atenciosa e lá estava eu negligente…aquela onda de envolvimento mutuo estava cobrando seu preço.
Scheila: Conversamos e resolvemos colocar um ponto final, rever nossas vidas pessoais, escantear o que estava ocorrendo no grupo. Estávamos nos perdendo, essa era a verdade cruel. Isso tudo conduz ao episódio na tempestade, o grupo no zap, encontros inesperados…nossa cabeça sempre esteve envolvida com acontecimentos fortuitos.
Diego: O que você flagrou ontem era um ultimo ato, ou pelo menos uma tentativa de estabelecer uma nova etapa, agora com mais controle.
Jemerson: Talvez com perspectiva de mais abertura, não sabemos… porque você descobriu antes.
Bianca: Pode parecer esquisito… pode ser egoísta… pode ser covarde… mas você ter nos descoberto pode ter nos salvado.
Cauê: Acho que o que Bianca quer dizer é que do jeito que as coisas iam, só de modo penoso que tudo que a gente viveu fosse exposto.
Íris: E cá estamos aqui pra mostrar isso… e também lhe convidar pra mergulhar conosco em todo esse ecossistema que criamos.
Breno: Pra você ter acesso a tudo. Ser alguém de fora pra tentar ver o que não víamos mais.
Naiara: Genildo, você pode recusar, levantar daí, e jogar na nossa cara que só agora viemos com essa. Mas a maneira que tudo ocorreu só pode nos levar a isso. Juro a você que íamos sair do grupo ontem á noite, eu e dona Jamile, acabar de vez com isso, todos juntos só ia acabar em uma tragédia completa, já que tudo começou com uma quase tragédia.
Tony: Queríamos que fosse por meio de uma conversa, mas só sobrou a via do choque.
Beatriz: Não passe a tempestade sozinho, como falou.
Jamile: Genildo, preste atenção...Eu passei a vida inteira sendo uma mulher tediosa, sempre fiz o que era esperado de mim. Casei, tive você, cuidei da casa, fiz o que todas as mulheres da minha família fizeram. Sempre tive medo de demonstrar arrojo. Fui mãe, esposa, a mulher que fazia bolo em festas. E você mesmo muitas vezes reclamou que eu era muito quadrada, muito certinha, muito dentro das regras. Quando você não pôde ir no primeiro passeio, eu não queria ir, mas fui, por insistência. E lá, no meio daquela tempestade, depois de todo daquele pânico... acabei encontrando algo que eu não sabia que estava procurando… amizades absolutamente incomuns. Gente que eu nunca imaginaria que ia me tornar próxima. Como é que Diego, um rapaz de 18 anos, uma vida completamente diferente da minha, virou alguém tão próximo? Alguém com quem eu conversava sobre trabalho, família e esperança?Não importava a diferença de idade, de classe, de história. Importava que ele teve as mesmas sensações de terror, medo da morte, de não sair dali bem, com traumas e fobias. Importava que repartíamos aquele calvário.
Genildo ouvia atento.
Jamile: Eu senti um senso enorme de solidariedade, de compartilhamento comunitário que eu nunca tinha experimentado. Éramos pessoas que se fortaleceram juntas. E aí fui me surpreendendo… que isso tudo que passamos…me tornou mais viva, mais sagaz. Eu sei que você tá aqui, sofrendo, tentando entender, mas eu preciso te dizer… esse grupo, essa conexão, esses momentos relatados... Pessoas que provavelmente eu jamais conheceria se cada um tivesse seguido apenas a própria rotina, me deram um sentido diferente às coisas que eu acreditava, me mostraram que a vida é maior do que as regras. E que a amizade pode vir dos lugares mais improváveis. E isso não diminuiu o amor que sinto por você. Talvez até aumente. Você pode até achar que é falsidade despistar você, encontrar maneiras pra que você não soubesse...mas pense: pra que deixar a você a par de coisas que seriam um fardo descobrir e nos trazer de volta ao martírio que já havíamos ultrapassado?
Genildo ficou um tanto intrigado. Aquele pessoal falava coisas que o desestabilizava em ser a vítima daquilo tudo. Ele achava que era, óbvio, mas sem a mesma convicção de antes. Ele não tinha ideia do que eles haviam passado e o quanto aquele tanto de coisa pôde ser reciclado.
Scheila: Genildo, eu passei a vida inteira sendo a "professora exemplar”, a que dá aula, corrige prova, segue o manual. E quando aquela tempestade veio, eu descobri que eu também podia ser outra coisa. Que eu podia sentir medo, podia sentir prazer, podia sentir tudo ao mesmo tempo. E que isso não me fazia menos professora, menos mulher, menos nada. Isso me fazia mais humana. Quando a gente se encontrou naquele segundo passeio, eu vi nos olhos de cada um deles que a gente não era mais estranho. A gente era uma comunidade. Uma comunidade que aprendeu a transformar medo em conexão. E isso, Genildo, é mais poderoso do que qualquer manual. Depois da licença médica, eu achava que voltaria exatamente igual. O grupo me ensinou que vulnerabilidade não é fraqueza. Pela primeira vez em muitos anos, deixei de ser apenas a professora que precisava ter respostas para tudo, para ser alguém que também podia fazer perguntas.
Diego: Man, passei anos pensando que meu papel era só servir bebida, que minha vida era bar, a escuna, paredão... Mas o grupo me mostrou que eu podia ser mais que isso. Que podia ser um amigo, parceiro, alguém que apoia, que segura a onda com gente que eu só queria distância.
Bianca: Genildo, você sabe que eu sou sua prima e sempre fomos próximos. Mas eu nunca me senti tão inteira como me senti nesse grupo. Eu era rebelde, petulante... E esse grupo me deu fé, me mostrou que eu posso ser mais colaborativa.
Tony: Irmão, fui seu amigo antes de tudo isso. E eu vou ser seu amigo depois de tudo isso. O que eu aprendi com o grupo é que a gente pode se reinventar. Que a gente pode errar, pode cair, pode se perder... e ainda assim encontrar um jeito de se reencontrar. Eu quero estar aqui pra isso.
Beatriz: A gente também aprendeu que o prazer, a alegria, a união... tudo isso pode vir do caos.
Breno; E mesmo no caos, a gente pode encontrar algo que vale a pena.
Íris: O grupo mostrou que posso transformar pânico em propósito.
Jemerson: Eu passei anos atendendo clientes, conhecendo muita gente reclamona, crítica, mas amizade mesmo era pouca. Nesse grupo eu descobri que escutar os problemas dos outros também fazia bem para mim.
Cauê: Eu era o brincalhão da turma, achava que tudo se resolvia com humor. Mas descobri que, às vezes, a melhor piada é simplesmente conseguir arrancar um sorriso de alguém que está vivendo um momento difícil.
Naiara: Genildo, eu te amo, sempre te amei. Mas o grupo me ensinou uma coisa que eu não sabia: que o amor não tem que ser uma coisa só. Que a gente pode amar de várias formas, várias pessoas, várias maneiras e isso não diminui o amor que a gente sente por uma pessoa. Mas não basta gostar das pessoas, é preciso perceber quando uma situação começa a afetar a vida de todo mundo e isso foi a primeira motivação pra tudo aqui estar ocorrendo. Eu amo eles de um jeito diferente, que não cabe aqui nomear, mas que estou aqui pra poder recuperar algo que a gente tenha perdido, mesmo que não seja mais possível, pois acho que você já presenciou aqui que a desistência não é uma alternativa pra gente.
Genildo não esperava ouvir tanto daquelas pessoas. Achava que seria um faroeste verbal, ou que eles iam vir com cara de pau se ajoelhando e pedindo perdão como um rebanho de falsos, o que seria muito mais nojento. No entanto, era um grupo que estava ali pra argumentar e lhe fazer um convite pra adentrar o mundo deles. Era tarde? Provavelmente. Mas não custava saber o que tinha de tão profundo naquela turma. Pensou em ser um cavalo de tróia, pra estar ali como um convidado a contragosto, mas que seria o cara que ia gritar horrores quando o padre falasse “há alguém aqui contra esse casamento?”. Também aceitou porque ir embora carregando uma versão própria na sua cabeça não o faria bem. Ficar com um versão que ele próprio inventaria, também não cabia. Havia coisas que ele guardava para si que poderiam ser melhor exploradas com aquilo.
Genildo: Não sei o que vou ganhar com isso, mas quero saber o que realmente era tramado lá.
Jemerson: Sei que lhe parece que estará caindo numa teia, mas já estamos sem mascaras, não há nada a ser desmascarado. Mas existe mistério aqui. Quem sabe você não tenha a chave? Se somos os guardiões do portal, cabe a você trancá-lo.
O que mais deixava Genildo pensativo era um fator que eles pareciam não ligar tanto e ele queria verificar no grupo. Como onze pessoas se encontram sem marcar nada? Havia algo de enigmático naquilo tudo. E refletiu a fala de Jemerson “Existe mistério aqui”.
(continua...)