(Antes de mais nada, quero reiterar algo que sempre menciono sobre minhas histórias: não haverá cenas de sexo em todos os capítulos. Principalmente nos primeiros 😅
Trata-se de romances com foco na narrativa; sim, haverá cenas quentes, e nesta história, elas serão numerosas. Contudo, esse não é o foco principal. Dito isso, espero que gostem da história e leiam até o final.)
[ Quando a segurei em meus braços e ela olhou em meus olhos, sorrindo, soube que minha vida mudaria completamente. Eu poderia tê-la deixado ali mesmo, mas, após aquele olhar e aquele sorriso, essa opção se esvaiu.
Com ela em meus braços, vendo meu rosto refletindo em seus olhos negros e brilhantes, jurei a mim mesma que faria tudo por ela. Faria tudo que nunca fizeram por mim.
Mas antes de chegarmos a esse momento, é importante que eu conte como cheguei aqui e como tudo mudou após esse encontro inesperado. ]
{...}
Me chamo Camila e nasci na cidade maravilhosa, mas o lugar onde minha mãe morava não tinha nada de maravilhoso. Fui criada em uma favela no Rio de Janeiro. Até os oito anos, morei com minha mãe e só sobrevivi por causa da ajuda dos vizinhos. Não tenho muitas lembranças dessa época; talvez tenha uma memória ruim ou meu cérebro decidiu apagar essas recordações para me proteger.
Segundo minha família postiça, minha mãe e seu marido vieram do interior do Pará em busca de uma vida melhor no Rio. O marido dela era pedreiro e minha mãe, dona de casa. Eu tinha uma irmã, mas nunca a conheci. Ela fugiu de casa antes mesmo de eu nascer; contaram que ela ainda era uma pré-adolescente. O motivo? Provavelmente, medo de ser violentada pelos homens que minha mãe trazia para casa ou o cansaço de apanhar da mãe bêbada todos os dias. Um belo dia, ela fez uma trouxa e desapareceu da favela.
Voltando à minha mãe e seu marido, tudo ia bem, apesar da pobreza em que viviam. Eles eram um casal jovem, buscando melhorias, pelo menos uma vida decente para a família. Mas isso tudo desmoronou quando o marido da minha mãe morreu em uma briga de bar. Não sei a história completa, apenas sei que ele levou duas facadas e não sobreviveu. Meus pais adotivos disseram que ele morreu inocente, que a briga não era com ele, mas ele tentou apartar e acabou levando as facadas que não eram para ele. Pelo menos foram o que ficaram sabendo quando se mudaram para a favela.
Depois disso, minha mãe perdeu o rumo. Somente chorava, e para aliviar a sua dor, começou a beber. Com a bebida vieram os amigos de copo, logo vieram as drogas, e para sustentar o vício, vieram os programas. O barraco onde ela morava sempre estava cheio de pessoas bebendo e usando drogas o dia todo. A noite ela trazia homens para sua cama. Minha irmã deve ter passado por um inferno naquela época, por isso resolveu fugir. Achou melhor arriscar a vida nas ruas do que continuar ali.
Nasci algum tempo depois, provavelmente fruto de um dos programas da minha mãe. Não sei quem é meu pai, provavelmente nem minha mãe sabe. Disseram que, apesar dos abusos de álcool e drogas durante a gravidez, minha mãe tentou se manter limpa após meu nascimento, mas logo que comecei a andar, ela teve uma recaída, e retornou à vida anterior.
Meus pais postiços moravam em frente à minha casa. Tinham uma pequena mercearia, daquelas onde o cliente é atendido pela janela. Eles tinham uma filha da minha idade, e foi ela quem me ajudou a sobreviver. Seu nome é Eliana, meu anjo da guarda.
Eu vivia largada em casa, muitas vezes esquecida. Passava a maioria do tempo no quintal, brincando com o lixo que se acumulava ao redor do barraco de madeirite. Não havia muro, e Eliana me via da janela, onde normalmente estava com seus pais. Eu não sei o motivo, e nem ela, mas assim que me via, começava a dar birra para brincar comigo. Quando minha mãe estava dormindo ou desmaiada de tanto usar drogas, os pais de Eliana me buscavam para brincar com ela, e não era só isso. Eles me alimentavam, me davam banho e roupas decentes. Com o tempo, eu passava mais tempo na casa deles do que na minha. Se é que se podia chamar minha moradia de casa.
Essa situação durou dos meus dois anos até os oito. Às vezes, passava a semana toda na casa de Eliane; esses eram os momentos bons que eu tinha. Mas tudo mudou quando o corpo da minha mãe não suportou mais os venenos que ela consumia todos os dias. Encontraram-na morta em uma escada nas vielas da parte mais alta do morro, sofreu uma overdose fatal. Eu fiquei sozinha no mundo e fui levada para um abrigo para crianças sem família. Vivi ali por quase seis meses, sempre apanhando das crianças mais velhas. Eu praticamente passava meu tempo chorando, seja por apanhar ou por saudades de Eliana e seus pais.
Em um sábado chuvoso, uma das mulheres do abrigo me chamou. Eliana e seus pais estavam me esperando. Eles conseguiram minha guarda provisória e me levaram para casa. A partir desse dia, minha vida melhorou muito. Eu agora tinha uma família, mesmo postiça, mas uma família.
Comecei a estudar, mesmo que atrasada. O tempo passou, o barraco onde morei caiu e foi ocupado por outra família que construiu sua casa ali. Não sentia falta da minha mãe, na verdade, da mulher que me colocou no mundo. Os anos passaram, me tornei uma adolescente e passei a frequentar o colégio. Eu era magra, com olhos grandes e estranhos. Nasci com heterocromia central; meus olhos eram azuis, mas ao redor da íris havia uma faixa amarelada que se destacava. Muitas pessoas diziam que eles eram lindos e diferentes, mas, na adolescência, isso era motivo de piada. Meu apelido era "ET", magrela, alta e com olhos estranhos. Eu fingia que não ligava, mas no fundo, odiava ser chamada assim.
Nessa época, já sabia que gostava de meninas, mas ninguém sabia disso, nem mesmo Eliana, minha irmã postiça e melhor amiga. Estávamos sempre juntas; ela me ajudava em tudo. Seus pais, Inácia e Josué, eram como pais para mim. Com o tempo e a guarda definitiva nas mãos dos meus pais, sentia-me feliz e segura.
Terminei o colegial aos 19 anos, mas não fui para a faculdade, pois meus pais não tinham condições de pagar meus estudos. Já era um sacrifício pagar os da Eliana, que estava no seu primeiro ano da faculdade. Eu trabalhava na mercearia ajudando meus pais e, às vezes, ajudava uma vizinha a fazer faxina na casa de gente rica. Não passava dificuldades, mas só tinha o necessário para sobreviver. Para mim, estava ótimo!
Com o tempo, à favela mudou muito; agora, uma das facções mais poderosas do Rio dominava o lugar. Eu não aprovava o tráfico, mas, com eles ali, a favela tinha uma certa segurança. Eles estabeleceram leis e ninguém ousava desafiá-las; roubos, mortes e estupros praticamente não existiam mais. Os traficantes não se metiam com os moradores de bem, desde que esses, andassem na linha. Alguns amigos meus acabaram entrando para o tráfico; não cortei contato com eles, mas não tinha mais aquele vínculo de antes.
Nessa fase, contei a Eliana sobre minha sexualidade. Ela aceitou de boa, não mudou comigo e ainda me apresentou uma amiga lésbica, Eduarda. Saímos algumas vezes e chegamos a se relacionar por um tempo; ela foi minha primeira mulher, mas nosso relacionamento não durou muito. Seguimos amigas, e depois disso, saí com outras garotas. Contei para meus pais devido a uma leve pressão de Eliana, que achava melhor eles saberem por mim do que por fofoca de vizinho. Minha mãe ficou decepcionada, como se eu tivesse estragado algo que ela gostava; era visível em seus olhos. Meu pai não deu muita atenção ao assunto, parecia que eu tinha falado apenas em mudar o corte de cabelo. Com o tempo, minha mãe voltou ao normal comigo, provavelmente após uma conversa com Eliana. Isso me deixou aliviada; mesmo não sendo meus pais biológicos, eram meus pais de coração.
Eu já não era mais a menina magra do início do colegial. Meu corpo se desenvolveu aos poucos, com várias curvas surgindo, especialmente na cintura, pernas e bumbum. Meus seios não mudaram muito, mas tinham um tamanho satisfatório para meu corpo. Eliana sempre dizia que eu era muito linda e que, se tivesse chance, deveria investir na carreira de modelo. Eu ria disso; sim, eu sabia que era bonita, mas ser modelo não estava nos meus planos.
Ficava com algumas mulheres de vez em quando, mas era raro e nada sério. Eu não saía muito, preferindo ficar em casa ajudando meus pais. A mercearia agora tinha duas portas e um bom espaço. A antiga casa virou um pequeno prédio de dois andares. Meu pai comprou um carro usado, mas estava ótimo. O comércio melhorou muito depois que a favela cresceu e os roubos pararam. Aceitei que seria difícil estudar ou ter um futuro brilhante, e não ficava triste com isso. Depois do que passei na infância, só tinha que agradecer a Deus por ter colocado Eliana e seus pais no meu caminho. Independente do que o destino reservasse, eu já estava no lucro.
Porém, naquela época, eu não fazia ideia do que o destino tinha preparado para mim. Sinceramente, se alguém me contasse, eu não acreditaria.
Tudo começou em um dia comum de uma semana normal. Eu estava na mercearia limpando um dos corredores, quando meu pai me chamou e disse que alguém queria falar comigo. Larguei o rodo e fui até a frente ver quem era. Havia um homem mais velho, com cabelos grisalhos e uma pasta em uma das mãos. Assim que me aproximei, ele perguntou meu nome completo. Eu disse, e perguntei do que se tratava. Ele respondeu que eu tinha sido convidada a comparecer a um dos escritórios do conselho tutelar, e já foi entregando-me um papel. Eu não estava entendendo nada. No papel, constava o endereço, horário, meu nome e várias informações, menos o motivo do convite. Era praticamente uma intimação.
Perguntei ao homem se ele poderia me adiantar o assunto, mas ele disse que não sabia, que apenas foi incumbido de me entregar o documento. Perguntei se eu era obrigada a ir; ele afirmou que não era uma intimação judicial, mas um convite. Contudo, sugeriu que seria melhor eu ir, pois provavelmente o assunto me interessava. Ainda me alertou que se fosse algo muito sério, o conselho tutelar poderia acionar a justiça e aí sim, eu poderia ser intimada a comparecer em juízo.
Após isso, ele se despediu. Fiquei com o papel na mão, tentando entender o motivo do convite. A primeira coisa que pensei foi que algo estava errado com os papéis da minha guarda, mas eu já era maior de idade, tinha todos os meus documentos, e nunca houve problemas antes; não seria agora que isso aconteceria. Mesmo assim, achei que só podia ser algo relacionado a isso. Não conseguia pensar em outro motivo.
Meu pai perguntou o que o homem queria; expliquei e ele também ficou sem entender. Aconselhou-me a falar com minha mãe e irmã. Fiz isso, mas não chegamos a uma conclusão, exceto que seria melhor eu ir, já que não havia motivos para não fazê-lo. Com um pé atrás, decidi ir. Eliana queria me acompanhar, mas não pôde por causa das aulas. Minha mãe até se ofereceu para ir comigo, mas eu disse que não precisava. Afirmei que iria e depois contaria o motivo do convite. Mesmo contrariada, ela concordou. Minha mãe Inácia já tinha a idade avançada e seria um trajeto cansativo, já que eu teria que pegar dois ônibus para chegar ao destino.
Saí de casa cedo e, após enfrentar dois ônibus lotados, cheguei em frente ao prédio. Respirei fundo e entrei. O escritório ficava no terceiro andar; fui pela escada, pois detesto elevadores apertados. Assim que cheguei, falei com uma atendente, expliquei o motivo da minha presença e mostrei o papel. Ela me encaminhou para a sala da conselheira.
Fui atendida assim que cheguei, pois estava no horário e não havia mais ninguém ali no momento. Assim que entrei, a conselheira pediu que eu me sentasse e ofereceu água ou café. Aceitei um copo de água, já que estava calor e eu nervosa pela situação que ainda não compreendia. Após tomar um gole grande de água, perguntei o motivo da minha presença ali. A conselheira perguntou se eu sabia que eu tinha uma irmã mais velha. Confirmei, mas disse que nunca a conheci e não fazia ideia do seu paradeiro. Só sabia que ela tinha fugido de casa quando era jovem, e que o nome dela era Carla.
A conselheira disse que tinha uma notícia ruim para me dar. Ela me informou que, infelizmente, minha irmã falecera há três meses devido a um aneurisma cerebral grave. Naquele momento, não sabia o que sentir. Raramente lembrava que tinha uma irmã de sangue; talvez porque, ao evitar pensar no passado, acabei evitando pensar nela. Agora, recebia essa notícia do nada. Fiquei muda, e a conselheira percebeu que eu não sabia o que dizer. Então, me contou que tinha outra notícia, mas não sabia se era boa ou ruim; isso dependia de como eu encararia.
Se estivesse em meu estado normal, provavelmente imaginaria o que era, mas eu estava um pouco assustada com a notícia e não raciocinei direito. Perguntei qual era essa notícia. Ela respirou fundo e começou a explicar o verdadeiro motivo da minha presença ali. Eu acabara de perder uma irmã que não conhecia pessoalmente, mas o que ela me contou, realmente me deixou em choque. Do nada recebi uma notícia que eu sabia que poderia mudar totalmente minhas perspectivas de vida.
Depois de saber os detalhes, eu precisava tomar a decisão mais importante da minha vida e não tinha ideia de que decisão tomar.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
