Kelly ficou sozinha no meio da sala. A bolsa escorregou do ombro e caiu no chão com um som abafado. As pernas finalmente cederam. Ela se sentou no chão, puxou os joelhos contra o peito e chocou-se com a própria respiração irregular. E o silêncio da casa desabou sobre ela.
Mas ela não chorou. Mas sofreu o que nunca imaginou que suportaria em sua vida.
Lá fora, o mundo continuava. Mas dentro dela, e deles, tudo tinha se quebrado de uma forma irreversível.
[CONTINUANDO]
Jerry dirigiu sem destino por quase uma hora.
O celular vibrava de vez em quando no banco do carona. Ele não olhava. Não precisava olhar para saber que era Kelly. Sabia também que, se atendesse naquele momento, qualquer palavra que saísse de sua boca seria definitiva demais, algo que ele não se sentia pronto. Não ainda. Então apenas dirigiu, com as duas mãos firmes no volante, os ombros rígidos e o maxilar tão travado que a dor já subia pelo pescoço e se alojava atrás das orelhas.
A cidade passava pela janela do veículo como um cenário desconectado. Semáforos, placas, pessoas vivendo suas vidas. “Vidas para elas.”, pensou Jerry, porque, para ele, nada parecia real. Seu drama era surreal demais.
Dentro do carro, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som baixo do motor, pela respiração controlada demais de Jerry e pelo celular que agora começava a tocar. Ele tentava organizar os pensamentos, mas eles voltavam sempre ao mesmo ponto: a imagem de Kelly na sala, o cabelo ligeiramente desalinhado, a blusa amassada de um jeito que ela não usaria, a boca ainda levemente inchada, mas foi o olhar e depois aquele aceno de cabeça que confirmaram o óbvio. Um único movimento de confirmação. Um sim. Ela tinha transado com Chuck.
Jerry engoliu em seco e começou a tremer. Parou imediatamente junto ao meio fio e respirou profundamente para se controlar. Ele não podia se acidentar. Ele tinha uma filha, alguém para cuidar. Alguém que certamente ele amava e por quem sabia que era amado. A raiva estava lá, sim, mas vinha misturada com uma humilhação fria e uma clareza quase cirúrgica. Ele havia tentado. Havia tentado ser o marido compreensivo. Havia tentado absorver o retorno de um homem que pensou ter a esposa superado.
Seu celular não parava e ele atendeu de imediato, cansado de fugir:
- Para de me ligar, Kelly! Eu... Eu não vou voltar para casa, porra!
Após um breve silêncio, uma voz calma e cautelosamente baixa insistiu:
- Dr. Jerry... é a Samantha. Eu... O Jonathan, contador, está aqui aguardando os documentos fiscais.
Samantha, a jovem e loira secretária de sua clínica, serviu como um chamado à realidade. Uma dura realidade, mas ainda assim realidade. Jerry suspirou profundamente:
- Samantha, eu... Desculpa! Eu esqueci completamente. Eu... – Ele suspirou novamente, balançando a cabeça negativamente para ninguém antes de continuar: - Diga ao Jonathan que eu levarei os documentos para ele até amanhã de manhã. Hoje, estou sem condições. Aliás, desmarque todos os meus compromissos. E os que forem urgentes, peça para o Phil atender por mim se ele tiver espaço em sua agenda.
- Sim senhor, doutor. Farei todo o necessário.
Desligaram. Mas a realidade agora criava formato a sua frente. A vida continuaria, com ou sem Kelly, ele precisaria continuar:
- Mas não agora... – Resmungou para si mesmo, enquanto voltava a dirigir.
Parou num hotel discreto a poucos quilômetros do consultório. Pediu um quarto simples, pagou com o cartão e subiu sem sustentar o olhar da recepcionista. O elevador cheirava a carpete recém higienizado e ar condicionado gelada um pouco demais para seu gosto. Quando a porta do quarto se fechou atrás dele, Jerry ficou parado no meio do ambiente pequeno e impessoal.
Tirou o paletó com movimentos lentos. Desabotoou os primeiros botões da camisa. Sentou-se na beirada da cama de um colchão firme demais e deu dois tapas nele, rindo de uma provável dor no nervo ciático que teria no dia seguinte. Não riu da dor em si, mas de saber que essa dor seria nada perto da que afligia seu coração. Por um longo tempo apenas ficou ali, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos cruzadas, olhando para o chão. A dor latejava, mas a cada minutos se tornava menos explosiva. Mas ficava seca, constante, como um machucado que não cicatriza de imediato.
Tirou o celular do bolso. Havia treze ligações perdidas, quatro de seu consultório e nove da Kelly, além de quatro mensagens não lidas. Não abriu nenhuma. Em vez disso, digitou uma frase curta, releu, e enviou:
“Preciso de um tempo. Cuida da Katie.”
Olhou uma última vez para o celular e viu as horas: 12:43PM. Depois desligou o aparelho por completo.
Deitou-se e embora não quisesse dormir, a tensão dos últimos dias cobrou seu preço, fazendo-o apagar. Quando acordou já passava das 5:30PM.
Novamente se levantou, olhou em volta para se localizar, para ter certeza que tudo não passava de um devaneio, de um pesadelo e ligou seu celular. Uma curiosidade mórbida tomou conta de si enquanto o aparelho inicializava. Quando ligou enfim, abriu o aplicativo de mensagens e procurou pelas da Kelly:
“Jerry, por favor atende. A gente precisa conversar. Eu sei que errei, mas não vai embora assim.”
“Errou!? Errou... Errou muito, Kelly. Mas agora é tarde.”, pensou:
“Eu estou desesperada. Por favor, volta. Ou pelo menos me liga. Não me deixa no escuro desse jeito.”
Ele apenas balançou a cabeça negativamente:
“Jerry, eu sei que você deve estar com muita raiva. Você tem todo o direito. Só… não me deixa sozinha com isso. Me responde quando puder.”
E a última:
“Foi um erro horrível. Eu já me arrependi. Mas sumir não vai resolver nada. A Katie vai perguntar por você. Por favor, me atende.”
- Katie. – Foi a única palavra que repetiu de todas que leu.
Ele sabia que não podia desaparecer da vida da filha. Levantou-se, vestiu-se e saiu para casa. Sua filha precisava de uma explicação, não da verdade. Mas de palavras de conforto e segurança. Foi pensando assim que ele entrou em seu carro e tomou o rumo de sua casa.
Em casa, Kelly ainda estava sentada no chão da sala quando a mensagem de Jerry chegou.
Leu as palavras várias vezes. Cada uma delas parecia um golpe diferente, batendo na alma, mas doendo no corpo:
“Preciso de um tempo.”
Não era uma ameaça. Não era um grito. Não era o fim. Era só uma retirada limpa e deliberada de um homem que tentou demais. Ela ficou olhando a tela até a luz apagar sozinha.
Levantou-se com dificuldade. As pernas ainda tremiam. Sentou-se à mesa da cozinha, mas não tinha fome. O estômago estava embrulhado, e só. Ali ficou pensando em tudo o que viveu até ali e tentando entender como ela pode fazer tamanha canalhice com seu marido. Quando se deu conta, já passava das 5:00PM e ela precisava sair para buscar Katie na escola.
Kelly foi até o banheiro e não reconheceu a mulher que estava ali no espelho. Ainda assim, fez o seu melhor e saiu apressada. Chegou com as primeiras crianças saindo da escola. Logo viu a filha e foi recebê-la:
- Ué!? Por que o papai não veio me buscar?
A pergunta era justa e certeira. Mas a verdade, essa nunca poderia ser revelada sob pena de punir a menina pelos erros dos adultos:
- Ele teve uma emergência, querida. Pediu para eu vir te buscar. É tão ruim assim?
- Não, mamãe. É que a gente ia passar na Tiana Desserts. Ele me prometeu um doce de chocolate do Brasil. Étal de... bridagueiro.
- Brigadeiro, querida.
- Isso! Eu só queria o meu doce...
- Tudo bem. A gente passa lá e compra um pra cada. Que tal?
A menina vibrou. Sua alegria, antes contagiante, agora doía. Kelly forçou um sorriso e rumou até a doceria. Lá compraram os doces prometidos e outros, que ela pensou ser uma forma de atenuar a ausência do pai à filha. E rumaram para casa.
Quando se aproximava, Kelly viu o carro de Jerry parado à frente da garagem de sua casa, em frente de onde ele sempre o guardava. Sorriu por um instante, mas logo se lembrou que não havia motivos para tal:
- Papai já chegou! ÊÊÊÊÊÊ... – Gritou Katie assim que o carro de Kelly parou ao lado do de Jerry.
- É. Parece que sim... – Concordou Kelly, sentindo um calafrio percorrer sua coluna.
Ela entraram. Katie correndo e fazendo sua algazarra de costume. Kelly, pé ante pé, olhando para todas as direções, sem saber como se portar. Não encontraram ninguém. O sofá estava do mesmo jeito, com as folhas espalhadas. Na mesinha de centro, o mesmo copo. Na copa e cozinha, também ninguém. Katie já havia sumido para a parte reservada da casa e de lá Kelly ouviu vozes, sem entender o que diziam.
Logo, voltaram os dois, Katie, fazendo sua algazarra, agora menos barulhenta. Jerry voltava com uma mala de roupas e uma maleta de couro, onde ele costumava guardar seus documentos:
- Eu vou voltar logo, querida. Não precisa ficar preocupada. – Disse Jerry.
- Mas por quê?
- Porque eu tenho que ir.
Katie olhou claramente chateada para Kelly e resmungou:
- O papai vai viajar e não quer me levar! – Finalizou com um bico de inconformismo.
- Viajar? – Repetiu Kelly, olhando para Jerry: - Mas... Mas... Assim!? Tão de repente?
- Pois é...
Ele colocou a mala no chão e se sentou no sofá sem encarar Kelly. Passou a recolher seus documentos e a colocá-los em sua maleta, sem organizar, ordenar, nada. Apenas, pegar e guardar. Kelly tomou a frente:
- Querida, por que não vai tomar seu banho. O papai espera você sair.
- Mas agora? – Perguntou Katie, estranhando a mudança em sua rotina.
- Sim, querida. Mamãe e papai precisam conversar e...
- Não! – Jerry a interrompeu, com um tom desnecessariamente alto, tanto que se controlou para continuar: - Não vamos conversar hoje. Eu estou com pressa.
Katie estranhou o clima. Qualquer um estranharia. Aproximou-se dos pais e os olhou detidamente por alguns segundos:
- Eu, hein... – Resmungou, enfim: - Nós compramos os bridagueiros, papai. Vem comer.
- Obrigado, querida. Mas o papai precisa mesmo ir.
- Mas a gente comprou um para cada, papai. É cheiroso!
- Coma o meu também, querida. Mas amanhã, ok? Nada de exagerar hoje.
- Posso mesmo? – Perguntou a menina com os olhos brilhando.
Jerry não se aguentou e a puxou para um abraço, segurando uma lágrima que parecia prestes a cair e se caísse, tornaria o clima que já estava estranho para um criança, mais estranho ainda:
- Pode sim. – Disse ele, enfim, dando um beijo na testa da menina: - Agora, eu preciso ir.
- Jerry... – Kelly tentou falar, mas as palavras sumiram.
- Não! Eu preciso mesmo resolver um problema. – Ele disse, agora olhando diretamente nos olhos da Kelly: - Ou você pode viajar e resolvê-lo no meu lugar, Kelly. Sem cobranças, sem interferências, mas de uma forma definitiva. Prefere assim?
Kelly entendeu o discurso subliminar, oculto naquelas poucas palavras. E não teve coragem de responder. Seus olhos marejaram, mas como o marido, ela se esforçou para não chorar na frente da filha. Jerry apenas sorriu, sem alegria, sem carinho, apenas resoluto. Deu outro beijo no rosto da filha e prometeu ligar para conversarem. Pegou sua mala, sua maleta e saiu, sem se despedir de Kelly. O som do carro foi o último que elas ouviriam, se não fosse Katie:
- Por que o papai saiu sem dar um beijo em você, mamãe?
Kelly se surpreendeu com a pergunta e uma lágrima fugiu ao seu controle. Ela virou o rosto no último segundo antes que a filha notasse e a limpou rapidamente com a mão. Respirou fundo e se virou para a filha:
- Quem quer comer brigadeiro?
A noite foi longa e fragmentada para Jerry. Ele deitou-se de terno ainda, depois se levantou, tirou a roupa, tomou um banho quente que não relaxou nada, e voltou para a cama. Ficou deitado de olhos abertos, ouvindo o barulho abafado de passos no corredor, o zumbido do ar condicionado e o próprio coração que parecia uma fanfarra:
- Calma, Jerry! Calma... – Falou para si mais de uma vez.
De vez em quando fechava os olhos e a cena da sala voltava com uma nitidez cruel. De vez em quando sentia um aperto no peito tão forte que precisava sentar na beirada da cama e respirar fundo, contando os segundos. Não chorou. A dor estava empedrada demais para lágrimas.
No dia seguinte, ele trabalhou como se nada tivesse acontecido.
Atendeu os pacientes com a mesma precisão de sempre. Explicou procedimentos, assinou receitas, cumprimentou a secretária com educação e novamente lhe pediu desculpas. Ninguém no consultório percebeu qualquer coisa além de um leve cansaço nos olhos. Por fora, ele continuava sendo o Dr. Lovett. Por dentro, sua alma estava em frangalhos.
No final da tarde, depois do último paciente, ele ficou sozinho na sala. Olhou ao redor: as fotos de Katie na mesa, o diploma na parede, a agenda aberta. Depois pegou o celular, ligou o aparelho e viu novas mensagens da Kelly. Leu todas. Nenhuma muito diferente das quatro que ele havia lido no dia anterior. Eram até confusas, desesperadas, cheias de pedidos para conversarem. Ele não respondeu. Em vez disso, mandou apenas mais uma frase:
“Vou passar em casa às 21:00PM para buscar algumas coisas. Prefiro que a Katie esteja dormindo.”
A resposta de Kelly veio em menos de um minuto:
“Ok. Você está bem?”
Jerry não respondeu. Apenas guardou o celular e se recostou em sua cadeira de couro. Preferiu ficar ali até o horário da conversa.
Às 20:50, Jerry estacionou na frente da garagem de sua casa.
A casa estava silenciosa. A luz da sala acesa. Ele entrou com a chave que ainda tinha, sem bater. Kelly estava junto à bancada da cozinha conjugada, os cotovelos apoiados sobre, as mãos na nuca. Usava uma saia longa preta, uma blusa de cetim vermelha, sem sutiã, e o cabelo solto. Jerry adorava aquela roupa, pois achava que valorizava o corpo da esposa. Kelly sabia disso.
Quando levantou o olhar, os dois se encaram em silêncio por longos segundos. Os olhos dela estavam vermelhos, mas ela não estava chorando. Pelo menos, não naquele momento:
- Oi. Como você está? – Perguntou ela, tentando quebrar o iceberg que existia entre eles.
- Vivendo.
- A... Katie já foi dormir há algum tempo. Estava bem cansada. Hoje foi dia de atividades físicas na escola. - Disse ela com uma voz baixa, quase inaudível.
Jerry apenas acenou com a cabeça. Passou por ela sem tocar e foi em direção a pia da cozinha, onde se serviu de um copo de água:
- Onde você está dormindo, Jerry? Eu... fico preocupada.
- Não fique. Estou bem acomodado num hotel.
- Qual?
- Isso não importa.
- Ah! E...você vai ficar por quanto tempo lá? - Perguntou Kelly, olhando-o por trás.
Jerry não se virou. Apenas apoiou as mãos sobre a pia e esticou o pescoço, como se tivesse um torcicolo. Então, suspirou:
- Ainda não sei.
- Jerry, a gente... a gente precisa conversar.
- Não sei se é uma boa ideia.
- Jerry…
Ele se virou para ela e, pela primeira vez desde que entrara, olhou de forma clara em seus olhos. O olhar era frio, mas não vazio. Havia uma certeza dolorosa ali:
- Você me traiu, transou com ele. Enquanto eu trabalhava, tentando manter alguma vida real para nossa família, você foi lá e transou com ele. - A voz saiu baixa, controlada, assustadoramente calma: - Eu não sei o que você quer tanto conversar, Kelly. Eu, pelo menos, não tenho nada para falar e... Sinceramente? Nem sei porque vim aqui.
Kelly abaixou o olhar, mas logo o encarou novamente. Então, com uma voz tímida, mas clara:
- Foi um erro. Um descontrole. Eu não planejei…
- Não!? Tem certeza? - Jerry se encostou na pia e cruzou os braços, encarando-a nos olhos: - Como pode saber? Você foi encontrá-lo, escondida de mim, de novo. Isso não é planejar? Mas, para mim, não importa se foi consciente ou por impulso, no calor do momento. Fato é que você foi e fez. Só que você esqueceu que enquanto gozava lá com ele, enterrava um punhal nas minhas costas. E agora eu preciso decidir o que fazer com isso.
Kelly permaneceu sentada e abaixou a sua cabeça, levando uma mão à frente da própria boca. Um silêncio dominou a casa, nem uma mosca era ouvida. Simplesmente nada! Ninguém! Eles se encaravam como se tentassem ler a mente um do outro. Kelly logo não aguentou:
- Você não está pensando em pedir o divórcio, está?
Jerry sorriu da preocupação dela. Não por maldade, mas pela ironia da pergunta após ela ter feito o que fez. E balançou a cabeça, negativamente. Então, a encarou por segundos que mais pareceram séculos. Só então respondeu:
- Eu ainda não sei. Talvez sim; talvez não. O que eu sei é que não consigo ficar aqui com você, nem hoje, nem amanhã. Eu... Eu preciso mesmo de um tempo, de espaço para pensar, sem olhar para a cama onde a gente dormia e imaginar você com ele.
Kelly fechou os olhos. As lágrimas voltaram, mas ela as continha com um esforço visível:
- Mas a gente não ficou aqui e eu... eu me arrependi.
- Não importa onde foi. Importa que foi. - Disse Jerry, pela primeira vez com um fio de emoção alterando seu tom de voz: - E quer saber? Também me arrependo. Me arrependo de ter bancado o cara legal e compreensivo. Me arrependo de ter acreditado que a gente ia conseguir resolver isso só com conversa e honestidade. E me arrependo de ter sido ingênuo o bastante para achar que o passado ia ficar no passado.
- O que eu preciso fazer para você me perdoar? Eu faço! Qualquer coisa!
- Hoje!? Nada! – Jerry suspirou profundamente, com os olhos fechados, mas logo voltou a encará-la: - Eu preciso pegar umas coisas no closet da suíte, posso?
- Jerry, por favor, a casa é sua. Mas eu preferia que você ficasse para a gente tentar resolver isso e...
- Desculpa, não vou ficar.
Ele se levantou e começou a andar na direção do quarto. Kelly o acompanhava em silêncio. Quando passavam pela porta do quarto de Katie, ele a encarou:
- Será que eu posso dar uma olhada na Katie?
- Mas... é claro que pode. Ela é sua filha.
Ele abriu a porta com um cuidado quase ritual. A menina dormia profundamente, de lado, abraçada ao urso de pelúcia que ele havia ganhado para ela numa gincana da escola. Kelly ficou parada no umbral, observando ele olhar com carinho e saudade o sono da filha. E a culpa veio para ela em ondas sucessivas, cada uma mais forte que a anterior. Ela sabia que ele tinha suas razões. Afinal, ela o havia magoado.
Ela não aguentou assistir o sofrimento calado do marido e voltou para a sala. No sofá ainda estava o cobertor jogado de qualquer jeito e o travesseiro amassado. Ela se sentou ali, puxou o tecido contra o rosto e inspirou o cheiro dele que ainda restava. E, pela primeira vez, desde que voltara daquele maldito hotel, chorou de verdade. Um choro baixo, engasgado, controlado o suficiente para não acordar a filha, mas profundo o bastante para deixar o peito dolorido.
O tempo passou o suficiente para Jerry retornar com uma mala na mão. E ele a viu chorando, agarrada ao cobertor. Mas ele tinha suas próprias dores, a maior delas causada por ela. E ela sabia disso. Ele foi até a porta da casa, mas antes de sair, olhou a esposa uma última vez:
- Eu vou ligar todos os dias para falar com a Katie. Vou continuar pagando as contas. Vou continuar sendo o pai dela para o que ela precisar. Mas entre eu e você… agora existe uma coisa que não existia ontem. E eu preciso entender o que fazer com ela antes de termos qualquer outra conversa.
Kelly se levantou e deu um passo na direção dele:
- Não vai embora assim. Por favor. Eu... Eu vou consertar isso. Eu posso. Só me dá uma chance.
Jerry olhou para ela por um longo segundo em silêncio. Havia exaustão no olhar, dele e dela. Ele quase cedeu a uma saudade que maltratava seu coração. Mas não seria justo com ele próprio. Havia, por baixo de tudo, uma tristeza profunda:
- Eu já fui embora ontem, Kelly. Hoje eu só vim buscar algumas coisas e visitar a minha filha.
Por fim, ele abriu a porta e saiu. O som da porta se fechando foi suavemente torturante. Segundos depois, surgiu o som do motor do carro dele que foi ficando cada vez mais baixo até sumir na escuridão da noite.
Kelly ficou parada no meio da sala, ouvindo o silêncio voltar a preencher a casa. Ela caminhou até o sofá e se sentou, o corpo inteiro pesado demais para continuar de pé.
A madrugada inteira foi um vai e vem entre o sofá e a cama do casal. Kelly não conseguia ficar mais de quinze minutos no mesmo lugar. De vez em quando ia até a janela da sala e olhava a rua deserta, como se o carro de Jerry pudesse aparecer a qualquer momento.
Não apareceu.
Lá fora, a noite já tinha caído por completo.
Dentro da casa, a única certeza era que a ausência de Jerry deixara de ser temporária. E esse era o maior dos medos de Kelly naquele momento.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
