Eu vou contar isso do jeito que aconteceu, sem enfeitar, porque enfeitar seria mentir duas vezes — uma pro Phillip e outra pra mim. E eu já menti demais naquela semana.
Meu nome é Janice. Trinta e cinco anos, casada há sete com o Phillip, e se você me perguntasse, três dias antes daquela terça-feira, que tipo de mulher eu era, eu teria respondido na lata: uma mulher comportada. Dessas que ninguém desconfia. Eu fui a menina esquisita do colégio, a nerd magrela de óculos que os moleques não olhavam duas vezes, e virei — sem entender como nem quando — aquilo que eles teriam morrido pra namorar. 1,70m de cabelo castanho escuro batendo no meio das costas, olhos azuis, cintura fina com quadril de fazer curva na saia. Peitos grandes e fartos que eu escondia em camiseta larga durante anos porque tinha vergonha deles, até o dia em que entendi que vergonha não ia fazer eles diminuírem. Bunda redonda, empinada, dessas que param o trânsito — e eu sei porque eu já vi homem bater o carro olhando. Casei, engordei nos lugares certos, emagreci nos errados, e virei uma dona de casa gostosa que se arrumava sem ter pra quem.
Só que tarde demais. Casada com um homem que tinha parado de me olhar.
Porque é isso que ninguém te fala sobre ser uma esposa bonita e ignorada: não é a falta de sexo que mata. É a falta de fome no olhar do outro. O Phillip me tratava como um móvel bonito da casa. Eu passava de camisola curta na frente dele — dessas que não deixam dúvida nenhuma — e ele perguntava se eu tinha visto o carregador do celular. Eu tinha largado a enfermagem — a profissão que eu amava, o único lugar onde eu me sentia útil de verdade — porque ele quis. “Minha esposa não precisa trabalhar”, ele dizia, todo orgulhoso, sem entender que tinha me trancado numa casa grande e vazia com nada além do meu próprio tesão pra fazer companhia.
Sete anos com ele. A alguns me convencendo de que era o suficiente e aprendendo a chamar de “paz ” o que era só ausência. Eu me arrumava pra ele e ele não via. Eu comprava lingerie e de‐ volvia na semana seguinte, com a etiqueta ainda pendurada, porque pra que, pra quem. Eu tinha um corpo que homem nenhum na rua conseguia ignorar e o único homem que eu queria que olhasse atravessava a sala olhando pro celular. Você vai me entender melhor quando eu contar o resto: não é desculpa, é contexto. Ninguém cai de um prédio inteiro de uma vez. A gente cai um andar por dia, durante anos, e só percebe a altura quando alguém abre a janela.
Aí o pai dele caiu de uma escada tentando pendurar um relógio de parede. E, sem saber, abriu a minha janela.
Eu lembro da ligação porque eu estava fazendo café quando o telefone tocou. O Phillip atendeu de mau humor — ele sempre atendia de mau humor — e eu vi a cara dele mudar. Doutor Hartman, hospital, o Donald tinha machucado as costas. Nada grave. Mas ia precisar de alguém pra cuidar dele por alguns dias.
— E a sua viagem? — eu perguntei, secando as mãos no roupão. — Você não viaja amanhã?
O Phillip me olhou com aquele meio sorriso preguiçoso dele, o sorriso de quem já resolveu o problema usando a vida da outra pessoa.
— Bom… ainda bem que você é enfermeira.
Eu deveria ter dito não. Essa é a parte que dói, sabe? Eu tinha uma saída. Eu podia ter dito “Phillip, eu larguei isso faz anos, arruma uma cuidadora”. Mas eu não disse. Eu sorri, concordei, e uma parte de mim — uma parte que eu nem sabia que ainda respirava — se acendeu com a ideia de ter alguém em casa. Qualquer alguém. Alguém que talvez precisasse de mim.
Se eu soubesse do que eu ia precisar.
O Donald chegou no dia seguinte, entregue na porta pelo próprio filho como uma encomenda. Essa é a ironia que eu só fui entender depois: foi o Phillip que me trouxe ele. Foi o meu marido que me colocou naquela casa, sozinha, com aquele homem, e foi embora dirigindo sem olhar pra trás.
Eu tinha acabado de voltar da corrida. Suada, de moletom, cabelo preso, a pior versão possível de mim, e mesmo assim, quando eu abri a porta, o velho tirou os óculos escuros devagar, me mediu de cima a baixo e disse:
— Ô, minha linda. Preciso confessar: só de te ver eu já me sinto bem melhor.
Eu ri. Foi automático, um riso de menina, e eu me odiei um pouco por ter corado.
— Ai, seu velho safado — eu ri, dando um tapinha no braço dele. — O Phillip podia aprender umas coisas com você. — E gritei pro carro: — Não é, Phillip?
— Tô atrasado, Janice, depois te ligo. Se cuida.
E foi. Simples assim. Nem “cuida bem do meu pai”, nem “volto sábado”. Só “se cuida” e a poeira do carro sumindo na esquina.
O Donald ficou ali parado, apoiado na bengala, sessenta e tantos anos carregados como quem carrega um segredo, e me olhou de um jeito que o Phillip nunca — nunca — tinha me olhado. Como se eu fosse comida. Como se eu fosse a coisa mais interessante que ele tinha visto em anos.
— Bom — ele disse. — Vou subir pro meu quarto, então.
Eu fiquei na porta um tempo depois que ele entrou. Tentando entender por que meu coração estava batendo daquele jeito idiota. Ele era o pai do meu marido. Um homem acidentado. Eu era a enfermeira, a nora, a boa moça. Não tinha nada ali.
É o que a gente diz pra si mesma no primeiro degrau. Que não tem nada ali.
Passou do meio-dia e eu pensei que ele devia estar com fome. Fiz uma sopa, subi, bati na porta. Ele estava deitado, e me pediu, meio sem graça, um favor.
— Phillip me disse que você é enfermeira.
— Era. Antes de casar. Você conhece o seu filho — ele quis que eu fosse dona de casa.
— É que… — ele desviou o olhar, e juro que parecia envergonhado de verdade, e foi isso que me pegou. — Desde que me machuquei, tá difícil tomar banho sozinho. Você me ajudaria a lavar os braços e as pernas? Só isso. Me sinto um idiota pedindo.
Eu já tinha feito aquilo mil vezes. Literalmente mil. Banho no leito é o be-a-bá da enfermagem, a coisa mais dessexualizada do mundo, corpos velhos e doentes e a gente de luva. Foi exatamente esse o pensamento que me fez dizer sim. Eu sou profissional. Já fiz isso mil vezes. Não tem nada demais.
Esse é o truque que a mente prega na gente. Ela não te oferece o abismo de uma vez. Ela te oferece um degrau que parece firme, um degrau que tem até um nome respeitável — “favor”, “cuidado”, “profissionalismo” — e você pisa nele sem medo, porque quem teria medo de um degrau tão pequeno?
— Tá bom — eu disse. — Eu ajudo. — Obrigado, Janice. Você é um anjo.
Ele cochilou enquanto eu preparava a bacia com água morna. Fiquei olhando pra ele dormindo e — Deus me perdoe — pensei que ele era até bonitinho. Tinha um quê de tranquilo, de confiante, mesmo dormindo. “Melhor eu acabar logo com isso”, falei baixinho, mais pra me dar uma ordem do que outra coisa.
Comecei pelos braços. É o protocolo. Braço é zona segura, não tem nada de estranho em lavar o braço de ninguém. Mas quando o pano molhado passou pelo antebraço dele — grosso, com veias marcadas, pele morena de sol — eu senti os meus dedos demorarem mais do que precisavam. Subi pro ombro, contornei o bíceps, e lá dentro a enfermeira já tinha ido embora. A mulher que ficou estava prestando atenção em coisas que enfermeira nenhuma presta.
Desabotoei a camisa dele pra lavar o peito. E parei.
— Uau.
Não saiu como pensamento. Saiu como som. Porque debaixo daquela camisa de velho não tinha um velho. Tinha um peito largo, coberto de uma penugem grisalha que ia afinando até sumir numa linha no meio do abdômen, e eu passei o pano ali sentindo cada sulco com a ponta dos dedos. Os músculos respondiam ao toque, contraindo de leve, mesmo com ele dormindo. Ombros que aguentaram décadas de trabalho e não desistiram. Um corpo. Um corpo de homem de verdade, coisa que fazia tempo que eu não tinha embaixo das minhas mãos.
— Nossa, ele é bem em forma — eu sussurrei, refazendo o caminho do pano pelo abdômen sem nenhuma necessidade. — Pra idade dele, quer dizer.
Mentira. Não tinha “pra idade dele” nenhum. Era só em forma, ponto. E eu passei pra barriga, e a barriga era dura e quente, e quando o pano escorregou pra beira da bermuda eu hesitei com os dedos ali, no elástico, sentindo o calor subir da pele dele pra minha mão como se fosse corrente elétrica. Minha respiração já tinha mudado. Eu sabia. E continuei mesmo assim.
Aí chegou a hora das pernas.
— Beleza, agora as pernas. Só vou…
Puxei a bermuda dele pra baixo, olhando pro outro lado, como se não olhar tornasse a coisa profissional. Lavei a coxa, e a coxa era grossa e firme, e eu me peguei passando o pano na parte interna devagar, subindo, o tecido raspando cada vez mais perto.
E aí a coisa saltou.
E o mundo saiu do lugar.
Eu preciso parar aqui e ser honesta sobre o que eu vi, porque foi o instante em que a Janice comportada começou a morrer, e ela merece pelo menos um obituário decente.
Saltou. Não tem outra palavra. A coisa saltou pra fora da bermuda como se estivesse presa esperando aquele momento a vida inteira, e eu me joguei pra trás com um grito engasgado, a mão na boca.
Era enorme.
Eu tinha sido enfermeira. Eu tinha visto muitos. Mas nada — nada — como aquilo. Grosso na base de um jeito que os meus dedos não iam se encontrar em volta. Comprido de fazer a minha respiração falhar. A cabeça larga, pesada, com aquele desenho de veias que eu senti latejar só de olhar, mesmo com ele mole, mesmo dormindo. Escuro, quente, vivo. Descansado sobre a coxa dele com um peso que parecia ter opinião própria.
— Meu bom Deus. Essa coisa é gigante. Eu… eu nem… uau.
Eu não conseguia desviar o olhar. E o pior pensamento do mundo subiu na minha cabeça, um pensamento que não tinha nada a ver com enfermagem, com favor, com nada respeitável:
É tão… masculino.
Minha mão foi. Sozinha. Chegou a encostar — e eu recolhi num susto, o coração disparado.
— Não. Não, não, não.
Respirei fundo. Molhei o pano de novo. “Vou terminar isso e pronto.” Voltei a lavar, decidida, os olhos fixos em qualquer lugar menos ali — e foi quando eu vi que a coisa tinha começado a inchar. A crescer. Enquanto ele dormia, o corpo dele reagia a mim, e uma gota transparente brilhou na ponta.
— Ai meu Deus. Começou a vazar. — Minha voz estava rouca. — Isso não é problema. Eu só…
Eu passei o pano. Pra limpar. Só pra limpar. E o toque, mesmo através do tecido, me arrancou um calor entre as pernas que eu não sentia há tanto tempo que quase doeu.
— Caralho, isso é gostoso demais — eu sussurrei, e a palavra saiu suja, uma palavra que a boa esposa não usava. — Talvez eu devesse… limpar direito? É, eu devia. Quer dizer, eu preciso. Não posso deixar assim.
Olha o degrau. Olha como ele aparece. Não posso deixar assim. Como se limpar a rola melada do meu sogro fosse uma obrigação de enfermeira, uma questão de higiene, e não a coisa mais errada e mais excitante que eu tinha feito em anos.
Encostei a mão. De verdade dessa vez. E fechei os dedos — o que deu pra fechar — em volta daquele calor.
— Devagar e com jeito, é isso. — A minha própria voz me guiava, baixinha, como se eu precisasse de permissão de mim mesma. — Nossa. Ele tá duro que é uma pedra.
Ele cresceu na minha mão. Latejou. Uma nova gota escorreu, e eu não pensei mais. A boca do meu estômago apertou, alguma coisa antiga e faminta se soltou dentro de mim, e eu me inclinei.
— Agora eu… eu preciso dar um jeito nisso…
Me inclinei devagar. O coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ia acordá-lo só com o barulho. Cheguei perto o suficiente pra sentir o calor irradiando daquele pau na minha boca antes de encostar. Parei ali, respirando, os lábios a meio centímetro da cabeça, olhando pra cima pra confirmar que ele ainda dormia. Dormia. A boca entreaberta, a respiração pesada. Eu podia parar ali. Eu devia parar ali.
Coloquei a língua pra fora e toquei só a ponta. Só a ponta. E o gosto me atravessou como um choque elétrico — salgado, quente, macho, um gosto que entrou pelo meu paladar e desceu direto pro meio das minhas pernas. Aquela gota que eu tinha “limpado” não era nada; o que veio a seguir foi um fio lento e quente escorrendo pela minha língua enquanto eu passava ela em volta da cabeça, devagar, mapeando cada centímetro daquela rola com a boca. A largura me fez abrir mais do que eu esperava. A mandíbula estalou baixinho e eu gemi contra a pele dele.
Entrou. A cabeça inteira, pesada na minha língua, e eu fechei os lábios em volta e suguei de leve, e a coisa pulsou dentro da minha boca como se tivesse coração próprio. Eu comecei a descer, lenta, sentindo cada centímetro deslizar pela minha língua — a textura das veias, o gosto ficando mais forte, mais sujo, mais viciante. Quando bateu na garganta eu engasguei e voltei, um fio de saliva conectando a minha boca ao pau dele, e a visão daquilo — eu, a nora, a mulher que fazia sopa, com a boca babada ligada à rola do pai do meu marido — deveria ter me dado vergonha. Mas o que me deu foi fome. Voltei. Mais fundo dessa vez. E de novo. E de novo. Os olhos lacrimejando, a saliva escorrendo pelo queixo, as mãos apertando as coxas dele, e eu já não estava fazendo aquilo por obrigação nenhuma. A única coisa que passava na minha cabeça era: mais.
Ele acordou no meio, claro. Homens sempre acordam pra essa parte.
— Uau, Janice — ele disse, a voz sonolenta e satisfeita, a mão descendo no meu cabelo sem pressa nenhuma, como quem já sabia que ia chegar ali. — Você tem uma boca e tanto, hein?
Eu deveria ter parado. Deveria ter morrido de vergonha, pedido desculpa, corrido pro meu quarto. Mas ele não me deixou com raiva nem com nojo. Ele me fez sentir… descoberta. Como se ele tivesse visto, antes de mim, a mulher que morava embaixo da dona de casa, e estivesse só esperando ela aparecer.
Eu me levantei de um pulo, a mão na boca, e saí quase correndo. Fui pro chuveiro. Precisava lavar aquilo de mim, lavar o que eu tinha feito, voltar a ser quem eu era.
Mas debaixo da água quente, o que veio não foi arrependimento.
— Eu não acredito que eu fiz isso — eu falava sozinha, a água escorrendo pelo meu rosto. — Foi tão errado! Mas caralho… o Phillip com certeza não puxou isso do pai.
Eu ria e queria chorar ao mesmo tempo. E a imagem não saía da minha cabeça. Grudada. Aquele pau duro, pulsando, a cabeça larga na minha língua.
— Some daí, Janice. É só uma rola. Você foi enfermeira, pelo amor de Deus…
Mas era a maior, a mais grossa, a mais linda de babar que eu já tinha visto na vida, e a minha mão já tinha descido sozinha entre as minhas pernas. Eu me encostei no azulejo frio, abri as pernas debaixo do jato quente, e me toquei pensando nele. Nos meus dedos escorregando fácil, de tão molhada que eu estava. Na boca imaginando o peso dele de novo.
— Ai meu Deus… essa água quente descendo… ah…
Eu gozei rápido e forte, mordendo o lábio pra não gritar, o corpo inteiro tremendo contra a parede do box, e por um segundo — um segundo horrível e maravilhoso — eu não senti culpa nenhuma. Só alívio. Só fome.
Aí a água esfriou, e a culpa voltou, e eu lavei o cabelo com as mãos tremendo, dizendo pra mim mesma que aquilo tinha sido o fim. Um deslize. Não ia acontecer de novo.
— Ufa — eu disse, pro nada. — Acabou. Não tinha acabado. Tinha só começado.
Continua...