[ Primeira temporada desse conto está chegando ao fim, será no ep 20, até o final muita coisa irá acontecer e preciso saber se vocês estão gostando, não deixem de comentar :)]
A segunda-feira começou cedo. Às cinco da manhã, o barulho característico de uma buzina fraca e engasgada soou na frente da minha casa.
Olhei pela janela do quarto e vi o carro antigo do Emiliano parado sob a luz do poste. Peguei minha mochila com os uniformes passados e desci rápido as escadas, despedindo-me dos meus pais, que ainda tentavam arrumar a bagunça dos meus tios e primos da viagem.
Joguei a mochila no banco de trás e entrei no carro. O cheiro de gasolina e aromatizante de carro antigo tomava conta do espaço.
Conforme o carro avançava pelas ruas ainda escuras da cidade em direção à rodovia do Batalhão, o clima descontraído foi dando lugar a um silêncio pensativo. Emiliano olhou de relance para mim pelo retrovisor central.
— Pensou no que a gente conversou no fim de semana, Michel? — ele perguntou com a voz mais séria, mantendo os olhos na pista. — Sobre o Gustavo...
— Pensei — respondi, encarando o asfalto. — Eu sei que você tá preocupado, Emi. Mas eu sei o que tô fazendo. Só preciso que você fique suave.
— Suave? Você está falando igual ele já, não lembro desse seu linguajar...''suave'' haha — Emiliano disse com um sorriso no rosto e balançando a cabeça negativamente em forma de ''não''
Quando chegamos...
Emiliano achou uma vaga e parou o carro no estacionamento dos visitantes e caminhamos paisanos até os portões do Batalhão. O movimento já era grande no pátio das viaturas. Assim que entramos no bloco do alojamento do Terceiro Pelotão, esbarramos com o Simões, que arrumava o coturno na quina do corredor.
— Chegaram cedo, 114 — Simões falou baixo, aproximando-se da gente com olhar cauteloso. — Fiquem espertos aí. O Dagoberto saiu do xadrez hoje de madrugada. O cara passou o fim de semana inteiro capinando com rastelo e trancado. Tá com um ódio do cão e cravando o olho em todo mundo do nosso pelotão.
— Valeu pelo aviso, Simões — respondi, sentindo o estômago dar um nó leve.
Antes do primeiro toque para a forma da manhã, fui ao banheiro do fundo do pavilhão para escovar os dentes e lavar o rosto.
O banheiro estava meio embaçado e úmido. Quando me aproximei das pias de cimento, vi pela imagem refletida no espelho que Dagoberto e Cardoso estavam encostados na mureta do fundo, conversando baixo.
Assim que a água da torneira começou a correr, a conversa deles parou.
Eu estava escovando meus dentes e senti o Cardoso me encarar, continuei cuspindo a pasta de dentes na pia e fechando a torneira. Olhei fixamente para o reflexo do Dagoberto no espelho, mantendo o rosto completamente neutro, sem dar a ele o gosto de me ver acuado.
Enxuguei a boca na toalha de rosto, guardei minhas coisas na mochila e saí do banheiro a passos calmos, deixando os dois sozinhos. Eu não ia dar munição para o Dagoberto no primeiro dia pós-xadrez.
Às nove da manhã, fomos reunidos no galpão de manutenção para uma instrução de desmontagem do fuzil FAL 7,62.
Enquanto o instrutor explicava o passo a passo da limpeza do percussor, percebi a movimentação do Dagoberto. Ele aproveitou a troca de turmas nas bancadas de madeira para se aproximar do Gustavo. Dagoberto deu um tapa amigável no ombro dele, puxando assunto baixo, tentando reatar a proximidade que os dois tinham no primeiro mês de incorporação.
Gustavo respondeu de forma seca, sem dar muita trela, focado em limpar o ferrolho do seu armamento. Mas o Dagoberto continuava ali, rodeando como um urubu.
Pouco antes do intervalo da instrução, enquanto a maioria dos recrutas buscava flanelas e graxa na bancada central, Gustavo se aproximou de mim e sinalizou com a cabeça em direção ao corredor escuro que dava para a reserva de armamento desativada. Ele queria matar a saudade e conversar sobre a folga.
Entrei no corredor e Gustavo veio logo atrás. Ele olhou para os dois lados rapidamente e me puxou com força para o vão atrás de uma pilha de caixotes de madeira. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, as mãos dele seguraram meu pescoço e ele me prensou contra a parede, me dando um beijo urgente e faminto. Sentir o corpo dele colado no meu fez minha guarda baixar por três segundos.
Até que uma voz cortou a penumbra do corredor como uma lâmina:
— Ô GUSTAVO! O cabo tá chamando pra pegar o óleo da bancada!
Meu coração simplesmente parou. O sangue fugiu direto da minha cabeça.
Nos descolamos no mesmo milésimo de segundo. Dei um empurrão no peito do Gustavo para ganhar distância.
Cardoso estava parado a três metros da gente, encostado no batente de ferro, com uma lata de graxa na mão. Ele não parecia nem um pouco surpreso. Trazia um sorriso torto, perverso e debochado no rosto, olhando alternadamente para a minha farda amassada e para a respiração desordenada do Gustavo.
— Vão ficar aí agarradinhos ou vão voltar pra instrução? — Cardoso soltou num tom sarcástico, dando as costas devagar e voltando para o galpão, como se tivesse acabado de ganhar o prêmio da vida dele.
Gustavo ficou paralisado por um segundo, a mandíbula travada, pronto para correr atrás do Cardoso e esmagar a cara dele ali mesmo.
— Não! — segurei o braço do Gustavo com força total, a voz trêmula de pavor. — Não faz nada agora, Gustavo! Por favor!
Voltei para a bancada de cabeça baixa, rezando para que a terra me engolisse.
Dois minutos depois, retomei meu lugar na mesa de montagem do armamento. Cardoso já estava do outro lado. Ele deu a volta pela bancada devagar, aproveitando que o Tenente Brito e o Sargento Mello conversavam longe na tenda do comando.
Ele colou no meu ombro por trás e encostou a boca bem no pé do meu ouvido, soltando a provocação com uma respiração quente e nojenta:
— Pego no pulo, né, 114? — Cardoso sussurrou, o tom pingando veneno. — Sei muito bem o que tava rolando ali no vão. Sei que o Gustavo tá comendo sua bundinha todo santo dia às escondidas no Batalhão...
As minhas mãos tremeram sobre as peças de aço do fuzil. A raiva e a humilhação me sufocaram de um jeito que quase não consegui respirar, mas antes que eu surtasse, passos pesados retumbaram na brita do galpão.
Sargento Rocha vinha caminhando devagar por trás da linha de instrução. Ele parou bem no meio do dispositivo, cruzando os braços nas costas.
— ATENÇÃO NO DISPOSITIVO! — a voz do Rocha ecoou, fazendo todo mundo congelar em Posição de Sentido no ato.
Rocha começou a marchar devagar entre as fileiras, encarando recruta por recruta com um desdém mortal.
— Eu tô observando vocês há vinte minutos... — Rocha começou, o tom calmo e cortante. — Os senhores voltam de dois dias de folga licenciada, descansados, com a roupinha cheirosa que a mamãe lavou, e acham que isso aqui é colônia de férias? Não vi um pingo de gratidão nessa tropa. É cochicho para um lado, piadinha para o outro! Acha que punição disciplinar não serve pra nada? Se quiserem, eu coloco o Batalhão inteiro no xadrez no próximo fim de semana pra ver se vocês aprendem a dar valor!
Rocha deu meia-volta e caminhou até parar exatamente na frente do Cardoso, que engoliu em seco.
— Em especial o Recruta Cardoso... — Rocha disse, abaixando a cabeça até ficar a centímetros do rosto do recruta. — Vi o senhor no ouvidinho do Recruta Michel agora pouco. Que palhaçada era aquela? Tava marcando um jantarzinho com ele, Cardoso? Tava dando em cima do seu companheiro de farda no meio da instrução?
Alguns recrutas abafaram um riso baixo, mas o olhar de fogo do Rocha fez o silêncio voltar no ato.
— Porque se vocês dois quiserem passar uma noite bem juntinhos, coladinhos, eu arrumo uma cela privativa no xadrez agora mesmo! — Rocha bradou para todo o galpão ouvir. — Vai ser um evento inédito neste Batalhão: um casal de viadinhos tendo uma noite romântica sob custódia da Infantaria! Querem isso, recrutas?!
— NÃO, SARGENTO! — Cardoso gritou com a voz trêmula, o rosto queimando de vergonha e raiva sob o olhar de todo mundo.
— ENTÃO CALEM A PORRA DA BOCA E FOQUEM NO ARMAMENTO! — Rocha berrou, dando as costas.
Ao final da instrução, por volta das dezoito horas, a tropa foi liberada.
Eu estava recolhendo minhas coisas atrás do galpão de suprimentos quando vi o Gustavo se aproximando a passos rápidos. Ele olhou para os dois lados, garantindo que a área estava limpa, e tentou se aproximar de mim com a expressão desesperada.
— Michel... — ele chamou baixo, estendendo a mão. — A gente precisa conversar sobre aquele fdp do Cardoso—
Dei dois passos largos para trás na hora, me esquivando do toque dele com extrema frieza.
Gustavo travou no lugar, surpreso com o meu recuo.
— Não encosta em mim, Gustavo — ordenei num tom baixo, ríspido e cortante, sem olhar diretamente para ele. — Não chega perto de mim. Não fala comigo...É o que vamos fazer daqui pra frente!
— Michel, o Cardoso viu a gente! — Gustavo sibilou, os punhos fechados ao lado do corpo, a veia do pescoço saltando. — A gente tem que dar um jeito nele antes que ele espalhe essa porra!
— A gente não vai fazer nada! — encarei fundo nos olhos dele, impondo autoridade. — O Cardoso tá só esperando você dar um empurrão nele pra entregar tudo pro Rocha e pro Coronel. Se você surtar agora, a gente tá expulso amanhã cedo, Gustavo. Acabou.
Gustavo encarou o chão, arfando pesado, o peito subindo e descendo com uma raiva incontrolável acumulada.
Girei sobre os calcanhares e saí caminhando sozinho em direção ao alojamento, sem olhar para trás.
Deixei o Gustavo sozinho na penumbra, destruído por dentro e com uma bomba relógio prestes a explodir no peito.
Quando a noite caiu sobre o Batalhão com um peso sufocante. A névoa fria começava a cobrir o pátio enquanto a tropa marchava em fila para o refeitório.
Peguei minha bandeja de metal e servi a comida mecanicamente. Minha cabeça parecia um tambor prestes a rachar de tanta pressão. Procurei a mesa mais isolada do fundo do rancho, longe do burburinho dos outros pelotões, e me sentei sozinho. Mal conseguia encarar o prato de arroz e feijão; o estômago estava completamente amarrado.
Alguns minutos depois, o barulho do banco de madeira se arrastando me fez erguer os olhos. Emiliano sentou-se na minha frente, pousando a bandeja dele com cuidado. Ele me encarou por dois segundos, lendo a minha cara de pavor no ato.
— Michel... você tá branco igual um papel — Emiliano murmurou baixo, inclinando o corpo sobre a mesa para não ser ouvido. — O que aconteceu? Aquele puxão de orelha do Rocha sobre você e o Cardoso foi por quê?
Respirei fundo, olhando ao redor para me certificar de que ninguém na mesa ao lado prestava atenção. Baixei o tom de voz até virar quase um sussurro trêmulo.
— O Cardoso pegou a gente, Emi.
Emiliano travou a colher no ar, o olhar paralisado no meu.
— Como é que é?
— Ele... ele viu eu e o Gustavo atrás do galpão de suprimentos antes da instrução — engoli em seco, sentindo a garganta queimar. — Ele flagrou a gente se abraçando, se beijando. Ele chamou o Gustavo na hora e saiu rindo. Aquela palhaçada no ouvido que o Rocha viu... o Cardoso tava me chantageando, dizendo com todas as letras o que tinha visto.
Emiliano soltou a colher na bandeja com um estalo que me fez pular. Ele passou as duas mãos pelo rosto, num gesto de pura frustração e desespero, soltando um suspiro pesado pelo nariz.
— Caralho, Michel! Eu te avisei! — Emiliano brigou entredentes, os olhos inflamados de preocupação. — Eu te avisei na padaria, te avisei no carro hoje cedo! O Batalhão não é lugar pra isso, cara! Você tá brincando com fogo do lado de um barril de pólvora chamado Gustavo! Agora aquele fofoqueiro desgraçado do Cardoso tem a sua cabeça e a de Gustavo numa bandeja!
— Tá... beleza. Respira — Emiliano disse, o tom mudando de bronca para pragmatismo puro. — Puxão de orelha não vai resolver nada agora. eu não vou deixar você ser escorraçado nesse Batalhão. A gente precisa contaminar esse boato antes que vire denúncia formal pro Mello ou pro Rocha. Se o Cardoso não tiver prova física, é a palavra de um recruta punido contra a sua. A gente vai dar um jeito de abafar essa porra.
Olhei para o Emiliano com um alívio imenso no peito. Saber que eu não estava sozinho naquela escuridão me deu um sopro de ar.
— Só cala a boca e come, 114. A gente resolve essa m—
Emiliano nem conseguiu terminar a frase.
Na mesa logo ao lado, duas gargalhadas estridentes e debochadas cortaram o barulho de talheres do refeitório.
Viramos a cabeça devagar. Dagoberto e Cardoso estavam sentados juntos, com as bandejas meio vazias. Cardoso estava inclinado para frente, com uma expressão de vitória diabólica, enquanto Dagoberto limpava os lábios com o dorso da mão e encarava a nossa mesa com puro deboche.
Dagoberto levantou a voz de propósito, num tom alto o suficiente para fazer metade do Terceiro Pelotão ao redor virar o pescoço:
— É, Cardoso... pelo visto a instrução de fuzil hoje tava animada! — Dagoberto soltou, dando uma risadinha ácida. — Tô achando que mais um enrustido do Batalhão tá prestes a sair do armário... ou ser chutado dele pela porta da frente!
Cardoso caiu na gargalhada, dando um tapa forte na mesa e me encarando de fita fixa, saboreando cada segundo da minha paralisia.
A mensagem estava mais do que clara: Cardoso já tinha contado tudo para o Dagoberto. E o veneno estava oficialmente espalhado.
Do outro lado do refeitório, vi o Gustavo congelar no seu lugar, a colher entortando na mão dele e os olhos queimando de pura fúria enquanto encarava a mesa do Dagoberto.