Os quatro estavam instalados na sala. O silêncio era tanto que podia ser escutado.
Jamile: Esse remédio que dei a ele, eu adquiri após o primeiro passeio. Tomava pra poder dormir e só parei à medida que o grupo se harmonizava. E agora…disponibilizei ao Genildo…depois desse…desse…meu Deus...
Naiara: Olha o que deixamos acontecer…
Jamile: Eu deixei. Eu sou a mãe aqui. Eu sou a responsável.
Tony: Jamile, não…
Jamile: Cale-se! Não é hora pra consolações inúteis.
Bianca: Todos participamos disso!
Naiara: Gente, por favor… não é hora pra discutir quem tem culpa, quantos culpados existem… O importante é que há alguém naquele quarto que não sabemos como vai acordar de todo esse pesadelo medonho!
Tony: Você tem razão. A culpa não vai servir pra acudir um sujeito ferido… de todos os modos.
Mas uma vez o silêncio. A verdade era que aquelas pessoas não tinham respostas. E a falta de respostas deixava o ambiente ainda mais apreensivo. Verdade seja dita, todo mundo queria tomar o mesmo calmante e apagar por dias.
Jamile: No começo, era uma tentativa de ajudar uns aos outros… depois virou rotina. Como numa relação. Onze pessoas se casaram e esqueceram de convidar o resto. Porque criamos uma redoma onde ninguém podia entrar. E quando entraram… não sobrou nada inteiro…as palavras dele…sobre estar sozinho numa tempestade…
Jamile começou a chorar copiosamente. Um choro doído, de quem havia perdido parentes num acidente automobilístico.
Bianca: Aquilo acabou com todos…
Tony: Não era só ódio. Era dor. Muita dor…
Naiara: Nem sei como consegui trazer ele pra cá… depois de ouvir aquilo… eu preferia ter morrido ali… eu merecia…
E Caiu no choro. As palavras dele tinham sido não só duras, mas dilacerantes.
Foi então que os celulares passaram a fazer barulho. Eram notificações. Era o grupo. Aquele dia era mil vezes pior do que o dia que o grupo foi criado. Aquela tempestade meteorológica parecia mais leve que o temporal psicológico que caia sobre o grupo naquele momento.
Beatriz: Gente, eu não consigo parar de tremer. O que a gente fez?
Breno: Beatriz, eu também. Eu olho pra mim e não me reconheço.
Scheila: Eu tô sentada aqui, tentando entender como a gente chegou nesse ponto.
Cauê: A gente se perdeu. A gente perdeu completamente o controle.
Diego: Porra, mano, meu corpo todo dói.
Iris: Eu nunca me senti tão culpada na minha vida. Cometemos um assassinato!
Jemerson: Vamos pensar um pouco mais em Genildo e menos na gente!
Scheila: Jemerson tem razão. A gente errou junto e agora a gente precisa lidar com isso junto, ver o que podemos fazer com ele.
Beatriz: Mas como? O Genildo tá destruído. A gente destruiu ele!
Bianca:Ele disse que era o único que ficou sozinho. Nunca ouvi nada mais forte em toda minha vida…
Naiara: Aquilo me desmoronou…
Scheila: A metáfora da tempestade foi muito forte. Ele conseguiu explicar exatamente como estava se sentindo. A tempestade que enfrentamos na escuna… é fichinha pro que ele sentiu hoje… justamente pela ignorância de tudo e sentimento de exclusão
Diego: Caralho, velho, aquilo foi foda…
Tony: Quando ele falou que as nuvens estavam se formando na cabeça dele… senti um arrepio enorme.
Beatriz: Nunca paramos para imaginar como aquilo seria visto pelos olhos dele.
Íris: Foi como se ele dissesse que estava vivendo, sozinho, aquilo que nós enfrentamos juntos. Triste demais...
Breno: Eu não sei se a gente consegue consertar isso.
Tony: Nunca houve a intenção de afastá-lo… mas a intenção não apaga a consequência.
Cauê: Olhávamos a história de dentro e hoje fomos obrigados a enxerga-la de fora.
Naiara: Quando ele disse que não tinha ninguém com ele pra… pra… eu senti como se ele tivesse me esbofeteado... Porque ele tava dizendo que a gente se usou, que a gente se aproveitou do medo e transformou isso em prazer. Isso foi tão… meu Deus, ele está tão destroçado!
Scheila: Naiara, ele não disse que a gente se usou. Ele disse que a gente se encontrou. E que ele ficou de fora. Isso é pior. Vai ser muito difícil uma compreensão disso tudo por ele, eu… não sei como isso pode ser consertado…
Diego: Ele chamou a gente de monstros…
Íris: Acho que isso foi fruto do baque, as palavras não podiam ser aliviadas por ele ali, faz parte, temos que aceitar.
Beatriz: Eu fiquei com muito medo quando ele me agarrou e colocou aquela garrafa em meu pescoço… mas, sinceramente? Isso é o de menos. As reações dele foram de alguém muito machucado
Bianca: Nossa, foi tudo tão terrível...
Jamile: Gente... eu preciso falar uma coisa… Eu tô sentada aqui, no sofá, Genildo está dormindo pesadamente. Dei dois fortes calmantes a ele. Uma fuga covarde, reconheço! Mas um jeito dele adormecer a mágoa que nós geramos. Eu não reconheço mais a mim mesma. Fui egoísta. Pensei em mim, no meu prazer, na minha felicidade. E esqueci que o Genildo tava lá fora, confiando em mim. Eu não sei se dá pra consertar isso… mas eu sei que eu não posso mais continuar nesse grupo. Não agora. Porque o coração de mãe tá falando mais alto. E ele tá gritando que eu errei. Que eu errei feio. E que eu preciso me afastar pra poder pensar.
Scheila: Jamile... não faz isso. É agora que precisamos provar porque existimos! Nós passamos por uma tormenta juntos e agora tem outro numa situação ainda pior! Não pode encarar isso sozinha!
Jamile: A mãe aqui sou eu! Eu tenho que reconstruir com ele o que houve! Tô pouco me lixando pra união, ou qualquer baboseira! Se não for possível isso, assumo tudo e seja o que Deus quiser!
O grupo nada falou.
Jamile: Vocês viram o que ele falou sobre a tempestade? Viu como deixamos ele sozinho? Agora eu assumo!
Jemerson: Nossa responsabilidade agora não é convencer o Genildo de nada. É dar a ele o tempo, o respeito e o apoio necessários para que possa decidir, por conta própria, se um dia conseguirá reconstruir a confiança em cada um de nós.
Diego: Porra, acho isso bem complicado. Recuperar confiança depois disso é missão impossível!
Jemerson então enviou um áudio, um longo áudio, carregado de emoção, mas também firmeza, como se fosse um técnico no vestiário animando o seus comandados depois de terminar o primeiro tempo levando 4 a 0.
Jemerson: Jamile, não se afasta do grupo agora. Eu sei que a dor é grande, sei que a culpa é enorme. Mas se a gente se desunir agora, tudo o que a gente viveu, tudo o que a gente construiu, vai ter sido em vão.Você falou que o Genildo tá passando por uma tempestade sozinho e eu concordo! Mas isso não significa que a gente tem que deixar ele sozinho. Isso significa que a gente precisa estar mais perto dele do que nunca. Não como um bando de safados que fuderam a confiança dele, mas como pessoas que querem reconstruir o que foi quebrado. Quando a gente criou o grupo, a gente prometeu se ajudar. Prometeu estar junto, pro que der e vier. E agora, mais do que nunca, a gente precisa cumprir essa promessa. Não só entre a gente. Mas com o Genildo. Porque ele não merece ficar sozinho nessa. Ele merece que a gente mostre quando começamos a errar, mas que a gente quer consertar. O que pode parecer impossível, jamais deve ser descartado.O Genildo falou que a gente passou por uma tempestade juntos e se agarrou. E que ele tá passando por uma tempestade sozinho. A gente não pode deixar ele sozinho, Jamile. A gente precisa integrar ele, precisa mostrar que a gente tá disposto a lutar por ele. Mesmo que seja difícil, mesmo que doa. A gente pode ter cometido vários erros, mas a gente não pode se desunir agora. A força do grupo, a força que a gente construiu junto, a gente tem que usar pra ajudar ele. Porque se a gente se afastar, a gente vai estar confirmando tudo o que ele disse. Que a gente só pensa em nós mesmos.A gente dividiu o medo, a culpa, a vergonha… Agora apareceu um peso novo. O grupo não tem mais a obrigação de proteger um segredo. Agora ele tem outra responsabilidade: ajudar quem ficou ferido por ele. Talvez o Genildo nunca queira olhar na nossa cara, talvez ele demore muito para confiar novamente, talvez algumas relações nunca sejam as mesmas… Mas ele merece saber que ninguém quer abandoná-lo. Se este grupo serviu para reconstruir onze pessoas… agora ele precisa tentar ajudar a reconstruir uma décima segunda. Sem esconder ninguém!
O grupo ficou impressionado com as palavras de Jemerson, um verdadeiro líder daquele bardo.
Diego: Porra, é isso aí
Tony: Demais, Jemerson
Bianca; Sensacional!
Beatriz: O mais difícil começou hoje
Naiara: Não sei como será daqui pra frente… mas prometo… o Genildo jamais vai enfrentar nada sozinho!
Jamile: Jemerson…obrigada… obrigada por mostrar nossa real função, aquela que jamais deveria ser abandonada… a amizade que nasceu aqui… pura,… uma luta por reconstrução… não sei o que virá…mas contando com vocês…serei mais forte.
Breno: Uma nova tempestade virá… e dessa vez, ele estará junto. Se todo mundo morrer, morreremos com ele.
Cauê: Foi a melhor coisa que podiamos ouvir hoje
Íris: Se somos guerreiros, a prova final é agora.
Scheila: Vamos juntos, juntos, todos juntos enfrentar a batalha de frente, pra recuperar um querido, que agora está ferido!
Jemerson: Todos juntos!
Diego: Junto, porra!
Tony: Unidos
Bianca: Sempre
Beatriz: Força. Amigos!
Naiara: Vamos à luta!
Breno: Unidade!
Cauê: Consideração!
Íris: Vamos nos reerguer e recuperar nosso amigo!
Scheila: Avante, grupo!
Jamile: Estou reforçada! Não lhe abandonarei nunca, meu filho!
O grupo encontrou o seu foco, sua razão de existir. O único compromisso ali assumido era o mais difícil: encontrar uma maneira de reconstruir a confiança de alguém que havia descoberto, da forma mais dolorosa possível, que uma parte importante da vida das pessoas que amava existia completamente sem ele.
Genildo acordou, meio atordoado. O corpo estava moído. Demorou um pouco pra ele se restabelecer, não só o corpo, mas o pesadelo do dia anterior. Ele tinha ficado praticamente inerte por quase 24 horas. Ficou pensando um monte, até besteiras. Ele pensou em arrumar as roupas e cair fora dali. Pensou em atirar pedras em cada um; pensou em incendiar o bar de Jemerson e a escuna. Sentiu uma imensa sede. Ele então abriu a porta para se dirigir à cozinha. Se encontrasse Jamile se vitimizando com “meu filho deixa eu explicar” não seria bom. Ele podia até cometer um grande ato de agressão. No entanto, quando ele abriu a porta do quarto, ouviu burburinhos, vozes. Eram muitas pessoas. Será que… não, ele pensou. Não é possível que aquele rebanho de traíras estava na sua casa - que brevemente não seria mais dele, é o que pensava. Foi então que saiu, ainda se sentindo frágil e se deparou com a cena: onze pessoas reunidas na sala. “Que lacaios!”
Ao vê-lo, o grupo não reagiu. Ficou fitando-o meio que com dó. Ele parou. Parecia um filme de bang-bang. Durango Genildo kid contra o bando de Jesse James. Só faltava saber quem sacaria primeiro.
(continua...)