Com voz trêmula, mas firme, Naiara iniciou o relato
(Relato de Naiara)
“Tudo começou no dia do passeio que você não foi. Tudo estava se encaminhando normalmente, mas eis que o tempo virou muito rapidamente. Nuvens muito escuras se aproximaram, começou um vento muito forte, o mar começou a agitar, tudo assustadoramente acontecendo em frações de segundos, um negócio assim… veio o primeiro trovão. Depois a chuva começou a cair. Começamos a nos apavorar. Jemerson avistou um mangue e direcionou pra lá. Não contamos a você, mas… caiu uma tempestade aterrorizante. Os trovões eram medonhos, os relâmpagos horripilantes. Chegamos ao mangue, uma gritaria, gente pedindo socorro… foi terrível, Genildo, terrível! Você não tem noção do que a gente sentiu! De uma hora pra outra! Felizmente, Jemerson alcançou o mangue, chovia torrencialmente, muitos relâmpagos, muitos, trovões ensurdecedores. Tinha momentos que eram tantos relâmpagos, tantos... Nos agarramos, orando, chorando, a escuna estava coberta com lona, mas a chuva açoitava nossos corpos. Ficou todo mundo abraçado, esperando o pior (choro). Todo mundo abraçado, procurando conforto… as roupas pesavam no corpo, incomodavam, roçavam a pele causando mais arrepios. Daí, todos, desesperados e sem pensar, começaram a arrancar o que tinha no corpo, a fim de se livrar de qualquer incomodo. Os raios estalando pertinho, eu queria perder a consciência, apagar mesmo, pra não passar por aquilo. Foi então que, todo mundo agarrado, abraçados… começaram as caricias… no sentido de acalmar… mas… acabaram tendo outro efeito… comecei a sentir…um calor humano… que foi se transformando… em prazer… não era abuso…era necessidade de sentir alguma coisa que não fosse o pavor. Aquilo… foi crescendo… sentia as mãos percorrendo os corpos, de alguma maneira aquilo estava dando resultado, sentia palpitações pelo corpo… estava… bom… de repente… aquilo havia se transformado… em fonte de prazer… Ninguém tava raciocinando direito, Genildo, ninguém! Havia lucidez no que tava acontecendo, mas não dava pra parar! Aquilo contribuía pra acalmar os nervos, estávamos em frangalhos com aquilo tudo, então tudo acabou sendo… um desvio… pra tudo que a gente tinha acabado de passar… tivemos medo de morrer (choro)!”
O choro de Naiara era quase infantil, de quem estava recordando algo muito doloroso. Alguma fagulha de consternação parecia querer atingir Genildo.
“De repente… havia prazer ali… de alguma forma… aquelas caricias espontâneas estavam surtindo um efeito inesperado… e aquilo foi se sucedendo… e paulatinamente… começou uma sessão de beijos… caricias em… outros locais do corpo… de repente… aquilo foi se espalhando… e daí… Genildo… não sei ao certo como as coisas foram acontecendo… quando percebi… rolava… sexo… todos juntos… um descontrole… tudo… caótico! Aquilo parecia fazer sentido, porque… não tinha como pensar… era um mecanismo de sobrevivência ali… você vai entender logo...Fizemos coisas que a gente não planejou, não escolheu… tudo era pra escapar do pânico… o temporal foi cruel demais… e todo mundo queria apagar a sensação de terror… e foi rolando… tudo… ali… entre todos… meu Deus… é duro contar isso assim… (choro)”
Genildo já estava boquiaberto há muito. O braço que segurava a garrafa já estava frouxo e, se alguém pudesse, poderia desarmá-lo. Mas não havia impulso pra isso. Todos estavam congelados. Jemerson segurava a mão de Iris, que tremia. Scheila estava pálida, os olhos fixos em Naiara. Jamile chorava silenciosamente, com as mãos cobrindo o rosto.
“Quando acabou, a gente adormeceu, exaustos. Eu acho que fui a primeira a despertar. Aí veio o medo, a vergonha. Ninguém entendia nada. Não se tem explicação plausível depois de um ato desses… Começaram choros, acusações, coisas que não resolveriam nada. Vestimos nossas roupas, em silêncio, retornamos em frangalhos, por tudo, pelo estresse de uma tempestade, o pânico, o medo de morrer… o… sexo… coletivo… éramos um poço de desastres, pessoais, morais e psicológicos… o tempo já estava bom… quando chegamos na marina… aí vem a parte difícil… precisávamos de tempo pra entender aquilo… tempo pra nós… tempo pra se remontar fisicamente, mentalmente, moralmente… e não tinha como contar a você… como contar algo sem a profundidade de compreensão do que houve? Aquilo já era terrível pra nós, imagina espalhar isso pra alguém… seria uma crueldade… com todos… com quem… recebe uma informação dessas… não tinha como, Genildo, é duro dizer isso, mas… não tinha como passar isso pra você, pra ninguém! A gente não tava entendendo direito as coisas! Queríamos esquecer tudo, se enfiar por dias numa casa vazia, isolada do mundo e tentar superar esse tormento! (Choro convulsivo). Ninguém ia entender o que a gente passou, ninguém!!”
Mesmo sem falar nada, Naiara, levantou a mão como se pedisse pra ele esperar, embora ele não tivesse pronunciado nada. Era a vontade mesmo que ela tinha de despejar tudo, vomitar cada fato que só aquele grupo sabia até então.
“Não sei de onde tive forças, quando lhe vi na sua casa, querendo saber do que houve. Eu e dona Jamile ficamos o caminho todo imaginando como seria terrível esconder aquilo e principalmente, demonstrar que nada demais havia acontecido. Pode me chamar de falsa, o que for, mas quando falei pra você que houve uma chuva, e que esperamos passar e não teve nada, foi um ato pra lhe proteger! Muito mais isso, Genildo… seria sofrimento pra todos, mas um sofrimento pra você saber do que houve… e termos que passar por mais isso depois de tudo… não dava, Genildo, me perdoe! Não tinha como contar isso, relembrar o que consideramos abjeto pra outra pessoas assim… não sei de onde veio coragem pra… contar uma versão falsa, porque… o que já tínhamos passado, com a chuva, com… o que fizemos… era mais do que suficiente praquele dia… A gente se poupou com isso, eu e sua mãe… quando fui pra cassa, desabei…estava em frangalhos… você não tem ideia da tempestade, foi pior, muito pior do que a gente realmente contou… e a sensação foi que havíamos escapado de uma tragédia (choro)… logo mais, à noite, Recebi uma notificação no celular. Jemerson havia criado um grupo no whatsapp… pra podermos conversar sobre aquilo. Pra se ajudar, se apoiar… tentar… apaziguar tudo aquilo… éramos muitos, alguém estava sofrendo mais que outros… e podiam consolar, amparar, usar palavras que aliviassem… mas todo mundo tava assustado, sem saber direito como agir depois de tudo…enfim, o grupo era pra ninguém enfrentar aquilo sozinho…dividíamos as dores… de ter passado por aquilo tudo… de como era difícil ocultar de você… inventando histórias… passando um pro outro ter que suprimir isso de alguém que amávamos… foram dias assim…mas teve um alento…
Um vídeo, que Bianca descobriu. Uma psiquiatra. Ela explicava que pessoas submetidas a um medo extremo podem reagir de formas completamente inesperadas e depois sentirem culpa por atitudes tomadas durante aquele estado emocional. O que ela falou batia com o que tinha acontecido na escuna… o que fizemos… foi a mente nos libertando do pavor e do medo… temos o vídeo, você pode assistir e entender tudo! Aquilo trouxe um grande alívio pra nós. Tudo… foi uma fuga do pavor. Se tudo… não tivesse rolado… como rolou… desenvolveríamos fobias e traumas… então… aquilo tudo… acabou salvando nossa sanidade! Por incrível que pareça! Havia uma explicação científica praquilo! Me pergunto agora se isso não poderia ser um salvo conduto pra contar a você. Mas acontece que dias já haviam se passado… relembrar isso… não parecia uma saída… ainda faltava uma maior aceitação… a explicação dela ajudou a resguardar nossa ética… mas em nenhum momento cogitamos contar isso. Ainda parecia… que revelar isso… pareceria ainda chocante… o que poderia trazer de volta… tudo aquilo que sofremos… mesmo com justificativas, aquilo não era de fácil assimilação… nem pra gente… muito menos pra quem não presenciou… era uma situação complexa… muito complexa…pensei muito nisso, no medo das coisas não serem totalmente compreendidas. E assim, cada um podia levar a vida lidando da melhor forma possível com o que ocorrera. E o grupo deixaria de fazer sentido.
Acontece, que as mensagens não cessaram. Apareceram dúvidas e… o grupo foi virando…uma espécie de central. Começaram a surgir mensagens diversas com sugestões, reclamações, foi se criando um círculo de confiança… uma rede de apoio… nos dávamos conta que passar por uma situação complicada juntos acaba unificando sentimentos… ainda havia algumas crises, confusões mentais… algumas pessoas tinham pesadelo… e eu não me sentia sozinha… pra enfrentar isso…tinha o grupo… … portanto, passamos a estabelecer um vínculo… de pessoas que passaram por algo muito chocante juntos… e estavam restabelecendo seus valores juntos… acho que ninguém se deu conta de que… a troca de mensagens diárias aliviava possíveis ansiedades… e virou uma comunidade que passou a falar sobre tudo, abertamente… debates sobre trabalho, estudos, família, política, comportamento, saúde… trocávamos informações sobre música, filmes, lugares pra visitar, comidas, tudo que possa imaginar… de repente… virou também confessionário… contávamos sobre passagens difíceis da vida, questionamentos sobre amor, morte, perdas, tudo ligado a momentos que vivíamos, no passado, no presente… viramos… um grupo de amigos virtuais… tudo o que conversávamos era na maior paz. Eis que… veio sua ideia do segundo passeio…”
Genildo já notava que Naiara estava mais calma, se sentindo muito mais segura.
“Até então, jamais mencionamos qualquer vontade de nos encontrar pessoalmente, não havia essa necessidade, nem tinha o porque. O grupo bastava. Quando você falou conosco… rolou uma estranheza. Não víamos necessidade disso, mas como você achava que não tinha rolado nada na primeira viagem, que foi tudo… chato… sua ideia fazia sentido… então combinamos que você merecia aquilo, merecia ir, e nós também podíamos fazer algo que realmente desse certo. Poderíamos nos ver além dali, normal. Mas a verdade é que teríamos que disfarçar… que estávamos cotididianamente em contato… e isso não podia ser transparecido… Genildo… tudo que tínhamos era um grupo que estava conseguindo superar o que ocorrera, transformado tudo numa bonita amizade digital. Mas aquele passeio nos transformaria novamente… em pessoas que precisavam ocultar tudo… novamente…mas mesmo assim fomos, não queríamos que você ficasse chateado… ou desconfiado, pra falar a verdade… e também era uma forma de você interagir conosco… eu estava com boas esperanças disso… que a coisa ficasse mais conjunta, com você participando, sendo integrado…acabou que…quando nos encontramos…as lembranças do que houve vieram… fortes…os olhares entre nós dizia tudo… mas não revivíamos como algo ruim…mas como uma experiencia que já havia passado… e restado… o afeto que havíamos criado no grupo… então… tudo acabou sendo…esquisito…quando passamos pelo mangue, era só perceber que todos estavam lembrando do que ocorrera. Não como algo trágico. Mas como algo… histórico… que fazia parte de nossas vidas…e tinha sido ressignificado… E a gente percebeu que a integração entre a gente era mais forte do que a gente imaginava. Muito mais forte”
Naiara voltou a chorar. Genildo cerrou os punhos e apertou um pouco mais o pescoço de Beatriz, que estava imóvel, sentindo o peso daquele relato. Tudo era verdadeiro. O grupo se sentia abalado. Aquela verdade era algo que se pudessem, eles não precisariam relembrar. O segundo passeio… havia sido o desvio da rota de uma relação virtual amigável.
“Agora vem a parte mais difícil… como explicar isso… a você (choro). Evitamos falar desse segundo passeio, aliás, depois disso, ficamos até alguns dias sem nos falar direito. Até… que teve algo inexplicável… num dia que você viajou, levando sua avó pro interior… eu ia também, lembra? Mas uma tia sua resolveu de última hora e o carro ficou cheio… já estava na sua casa, e então sua mãe me chamou pra saímos e fazer umas compras… e aí…fomos encontrando cada um do grupo… um a um…sem marcarmos nada!! Tudo isso próximo da marina… Genildo, juro… por tudo que é mais sagrado…ninguém combinou absolutamente nada!! Todo mundo se encontrou no mesmo lugar! A gente se encontrou sem marcar nada. Foi um acaso, Genildo!A gente ficou abismado de se ver todos ali, no mesmo lugar. E rolou... rolou outro passeio na escuna. Do nada! Acabamos aproveitando, nos divertindo, víamos como estávamos integrados, interligados, havia um magnetismo… todo mundo a fim de se conhecer melhor, ali, naquele espaço…quando vimos… estávamos naquele mangue…onde tudo começou…e… rolou de novo (choro alto). Outra brincadeira… grupal!! Sem esperarmos. Tudo muito louco! Parecia uma conspiração do universo, não sei! É duro contar algo que não tem como soar como uma conversa fiada, uma grande lorota!Mas foi isso! Tá lá no grupo, tá tudo lá! Ninguém marcou nada!Era como uma força que ninguém controlava.”
Naiara chorava e agora, aquele local, que era pra estar àquela altura “bombando” era palco de lamúrias. Havia outros choros espalhados pelo ambiente. Genildo reagia como se tomado por um furacão particular.
“E aí, a coisa desandou… nosso papo passou a ficar mais íntimo ainda… E aí aconteceram outros encontros. Aquele encontro inesperado deixou todos perplexos, sem possibilidade de reflexão sobre o nexo daquilo.A conexão entre a gente era intensa demais, Genildo, era como uma droga, a gente não conseguia mais se afastar! Parecia que tínhamos entrado numa matrix, alguma coisa que nenhum de nós sabia explicar! Essas pessoas tinham se tornado importantes para mim...Um dia, quando estávamos juntos, eu explodi. Não aguentava mais aquilo. Eu pensava em você, como estava começando a achar que ia lhe perder! Queria me afastar completamente… Mas eu também sentia que pertencia àquele grupo. Que aquela conexão era real. E eu não sabia como conciliar as duas coisas...Eu pensei em terminar o namoro, Genildo, porque tava ficando insuportável… Mentir pra você, olhar nos seus olhos e esconder tudo o que a gente fazia. A culpa tava me consumindo! Mas não era só eu… vieram relatos… Cada um começou a contar os próprios problemas...Advertências no trabalho, dificuldades financeiras, atrasos na faculdade, conflitos em casa.... E aí a gente percebeu que a vida profissional, familiar e acadêmica de todo mundo tava sendo abalada. A gente tava tão focado nas coisas do grupo que a vida real tava desmoronando! Todos com problemas, uma loucura! Então a gente resolveu dar uma pausa, diminuir as conversas, dar um tempo nos encontros, voltar a cuidar da nossa própria vida… Marcamos esse encontro como uma despedida. Eu juro, falei com sua mãe ontem a noite…nós iríamos deixar o grupo hoje!! E aceitamos essa festa de despedida pra poder dar um tempo, talvez pra sempre, quem sabe... E era isso que você viu hoje, Genildo. A nossa despedida.”
Ao ouvir tudo aquilo, Genildo não sabia o que sentia, não tinha o que nominar o que sentia. Deixou a garrafa rolar no chão. Levantou-se, ainda agarrado com Beatriz. A empurrou, tanto com as mãos, quanto com os pés.
- Sai pra lá, desgraça!
Beatriz se agarrou a Breno e chorou copiosamente, tanto por estar salva, quanto pelo clima horrível que estava ali instalado, com um querido colega ouvindo coisas bárbaras sobre o grupo a qual conhecia a todos muito bem, mas estava excluído de tudo que acabara de ser relatado. Genildo ouvia o choro alto de Beatriz e depois falou olhando pra todos.
- Tá chorando tá? Que lindo… depois de fuder tanto, se divertir tanto, você ainda vem com choro… não só você… todos aqui, um bando de dissimulados! Pois então… não é só vocês que passaram por uma tempestade não… eu também tô passando agora… nuvens se formam em minha mente… relâmpagos iluminam meu cérebro… trovões me ensurdecem… estou com medo, pânico… medo de ter um piripaque aqui e morrer atingido por um raio de desgosto!! Mas sabe qual é a diferença? Eu estou só! Sozinho no meio desse mar!!! Não tem ninguém PRA TREPAR! Não tem ninguém PRA FUDER!! Estou passando por essa tempestade S-O-Z-I-N-H-O!!! Enquanto isso vocês FODEM… vão se foder… VÃO FODER… SEUS MONSTROS!!!!
Ao dizer isso, ele sentiu muita fraqueza. Parecia uma queda de pressão ou algo assim. Caiu de joelhos, se recostou na parede, levantou a mão pro grupo. Parecia pedir ajuda. Foi então que, empalidecidos por aquele discurso de alguém extremamente magoado, foram acudi-lo.
Jamile: Meu Deus! Genildo!! Socorro, ele tá passando mal! Meu filho!!!
Foi então que foram até ele. Começaram a abana-lo com uma camisa aberta
- Alguém chama uma ambulância, rápido!
Breno começou a digitar um numero pro socorro, mas suas mãos trêmulas fizeram o celular cair no chão. Após Muita gritaria e quase desmaios, Genildo começou a falar, já um pouco melhor
- Quero ir pra casa.. casa… quero ir pra casa…
Carregaram-no e levaram até o carro, o colocaram no fundo.
Tony: Me dá a chave, eu dirijo!
O carro arrancou. No banco da frente, Tony dirigindo e Bianca no carona. No fundo, Jamile e Naiara afagavam Genildo, a imagem de um robô em pane, as duas chorando copiosamente.
Jamile: Eu não vou me perdoar nunca, Genildo… nunca! Se algo acontecer com você…
Ao chegar em casa, o carregaram. Ele estava acordado, mas catatônico. Jamile veio com um remédio. Genildo era um zumbi sentado no sofá.
Jamile: Tome, Genildo. Vai lhe fazer bem.
Eram dois comprimidos de clonazepam. Genildo tomou, sem pestanejar. Tudo que ele queria era desativar a mente total.
Levaram ele pro quarto e esperaram ele apagar.
Mas o que não podia ser apagado foi o que acontecera nos fundos daquele bar. Uma longa amizade, surgida após uma intensa orgia acidentada, parecia se desmanchar diante da realidade. Agora era saber quem iria sobreviver a isso ou se realmente existia espaço pra qualquer sobrevivência.
(continua...)