Capítulo 1: O homem atrás da máscara
Fernanda virava e revirava na cama sem conseguir pegar no sono.
Seu marido dormia ao lado.
Jorge era um homem bom. Tinha ambições triviais, uma companhia agradável e uma vida construída dentro dos limites do esperado. Quinze anos de casamento e todas as descobertas já haviam sido feitas. Tudo que era possível e palatável para ambos já havia sido experimentado.
Eles construíam suas vidas perfeitas dia após dia.
Perfeitamente monótonas.
Com o celular nas mãos, Fernanda rolava pelo interminável carrossel de amenidades das redes sociais quando recebeu uma notificação:
"Pierrot.666 começou a seguir você."
Fernanda trabalhava com produções teatrais e estava acostumada com todo tipo de figura excêntrica. Imaginou que fosse algum ator procurando audições ou alguém relacionado ao meio artístico.
Não poderia estar mais errada.
Quase três da madrugada.
Era nesse horário que Pierrot dava início ao seu plano cuidadosamente arquitetado.
A primeira mensagem chegou:
"Olá, Fernanda, bom dia. Eu sou seu admirador secreto. Sem a parte doentia e assustadora. Eu só quero que você saiba como eu me sinto e quero que você saiba o que eu penso de você."
Fernanda riu.
Uma risada sincera.
Era realmente algo inusitado, especialmente vindo para ela, uma mulher que passava seus dias cercada por pessoas, coordenando espetáculos e comandando equipes, mas que havia se acostumado a não ser vista como mulher.
Sua vida sexual com Jorge era quase inexistente.
Na verdade, não era nada.
Havia mais de seis meses que eles não se encontravam de verdade.
Pierrot continuou:
"Imagino que agora seus grandes olhos castanhos estejam brilhando. Eu sei como sua mente inquieta detesta incertezas. Como agora você deve estar animada em descobrir minha identidade."
Ele tinha razão.
Fernanda estava animada.
E inquieta.
Aquela mensagem era uma mudança abrupta de rota em uma vida que ela havia trabalhado incansavelmente para tornar previsível.
Movida pela vontade de bloquear aquele contato em respeito ao marido, respondeu:
"Achei a brincadeira engraçada, confesso. Vou bloquear você porque não desejo receber mais mensagens."
A resposta veio rapidamente.
"Entendo. Mas não é uma brincadeira. Antes de me bloquear, leia pelo menos o que eu tenho a dizer. Escolhi dizer sem revelar minha identidade porque nos conhecemos muito de perto e tudo que tenho para lhe dizer eu não teria coragem de revelar correndo o risco de precisar me afastar de você definitivamente."
A jogada inverteu tudo.
Agora Fernanda estava curiosa.
Admirador.
Confissões.
Paixões platônicas.
Até o nome daquele desconhecido era instigante.
Pierrot continuou:
"Quando digo que sou apaixonado por você, é verdade. Mesmo que eu nunca tenha tocado você além das vestes dos nossos figurinos sociais estabelecidos, dentro da minha cabeça eu já te consumei meu desejo milhares de vezes. Eu me divirto com suas risadas e poderia passar um dia inteiro apenas olhando para você."
Fernanda respirou fundo.
Ele escrevia como um romancista de banca de jornal.
A linguagem exagerada e melancólica poderia facilmente ser considerada patética.
Mas era divertida.
Então ela esperou.
E não bloqueou.
Pierrot não era apenas um homem interessado nela.
Ele era uma interrupção.
E Fernanda, apesar de toda sua disciplina, percebeu algo incômodo:
uma parte dela estava esperando pela próxima cena.
Eventualmente, Fernanda pegou no sono. Foram apenas breves cochilos, povoados por sonhos perturbadores com uma presença que a perseguia sem jamais se revelar. Até que o celular tocou. O despertador anunciava mais um dia de trabalho.
A estreia da peça se aproximava, e Fernanda estava às voltas com os últimos detalhes de figurino, iluminação e as intermináveis negociações com empresas terceirizadas. Era a parte mais atribulada de seu ofício. Apesar do caos, ela era apaixonada pelo êxtase da primeira apresentação, aquele instante em que meses de trabalho finalmente nasciam diante de uma plateia.
Naquela manhã, porém, havia algo diferente.
Abriu os olhos, desligou o despertador e, antes mesmo de sair da cama, procurou notificações nas redes sociais. Quase por impulso, abriu a conversa com Pierrot.
Nada.
Nenhuma mensagem.
Ela mesma não compreendia o que estava acontecendo. Fernanda detestava ser surpreendida, manipulada ou dirigida por quem quer que fosse. Ainda assim, encontrava-se exatamente onde Pierrot planejou esperando por ele.
Antes do almoço, já havia atendido mais de dez ligações, acompanhado o primeiro ensaio do dia, resolvido o orçamento pendente do cenário e apagado pequenos incêndios que pareciam surgir a cada hora. Era uma máquina de organizar pessoas, distribuir tarefas e dar ordens.
Mas, em segundo plano, seus olhos insistiam em voltar para a caixa de mensagens.
Decidiu almoçar em um lugar especial. Precisava de uma pequena pausa antes que a semana da estreia a engolisse por completo.
O restaurante ficava a poucos quarteirões do prédio onde a companhia mantinha o escritório e o galpão de ensaios. Era um lugar acolhedor, administrado por Dona Romana, que herdou o negócio da família e cuidava dele com um carinho quase maternal. A comida era excelente, mas o verdadeiro motivo de Fernanda voltar tantas vezes era a torta holandesa servida como sobremesa.
Assim que entrou, foi recebida por um abraço apertado.
— Ainda bem que você veio! Sua torta já está reservada.
Fernanda sorriu, sem entender.
Dona Romana explicou que, logo cedo, alguém da companhia havia telefonado, pago uma fatia da torta antecipadamente e pedido que reservasse a mesa próxima à varanda. Achando que fazia parte dos preparativos da estreia, ela não desconfiou de nada.
O coração de Fernanda acelerou por um instante.
Aquilo podia perfeitamente ter saído da cabeça de Pierrot.
Ela não deixou que a expressão denunciasse o desconforto. Sentou-se, agradeceu e, discretamente, percorreu o salão com os olhos. Depois olhou pela varanda do segundo andar, observando as pessoas que cruzavam a rua, como se qualquer uma delas pudesse esconder o homem por trás da máscara.
Almoçou devagar.
Comeu a torta.
Nenhuma mensagem.
Nenhum bilhete.
Quando já se preparava para ir embora, um garçom aproximou-se da mesa carregando uma pequena xícara.
— Um expresso. Cortesia da casa. Para dar boa sorte na estreia.
Fernanda agradeceu com um sorriso sincero.
Então uma ideia atravessou sua mente como um relâmpago.
E se o garçom fosse o administrador secreto?
Sem qualquer mensagem desde a madrugada, seria exatamente o tipo de gesto que Pierrot faria. Discreto. Elegante. Quase impossível de confirmar.
Ela ergueu os olhos para o rapaz.
Pela primeira vez desde que tudo começou, qualquer homem podia ser Pierrot.
***
Notas da autora:
*Eu tô testando um conto mais longo, quero ver como me sinto escrevendo algo que não culmine no clímax tão rápido, tenham paciência comigo, em breve fará sentido.