AVISO AOS LEITORES: Embora seja narrado por uma personagem nova, ela é a única personagem nomeada fora do elenco principal.
CRONOLOGIA: Os eventos narrados aqui vão de 02 de agosto de 2025 (sábado) a 04 de agosto de 2025 (segunda-feira).
Meu nome é Denise, tenho 28 anos e trabalho como psicóloga clínica, especializada em pessoas que saíam de relacionamentos capazes de deixar estragos por muito tempo. Eu passava o dia ouvindo histórias íntimas, identificando padrões e ajudando gente machucada a reorganizar a própria vida. Fora do consultório, eu também tinha uma vida íntima. Convém esclarecer isso logo, porque algumas irmãs da igreja pareciam acreditar que uma mulher solteira só podia existir em estado de espera.
Eu tenho um 1,67, pele clara e cabelo preto. Meus olhos são grandes e escuros, minhas bochechas ficam redondas quando eu sorrio e minha boca chama mais atenção do que eu gostava de admitir. Meu corpo é compacto, com a parte de cima mais delicada e bastante volume da cintura para baixo. Eu tenho seios médios, naturais e redondos. A cintura aparece bem, embora minha barriga guardasse uma maciez discreta na parte inferior. Minha bunda é larga, arredondada e cheia, acompanhada por coxas grossas que sempre fizeram calças justas parecerem uma decisão mais ousada do que realmente eram.
Eu sabia que era gostosa. Dizer isso em voz alta talvez fizesse alguma senhora da igreja engasgar com o café, porém falsa modéstia nunca foi uma virtude bíblica. Eu gostava do meu corpo, gostava de roupas que marcavam a minha bunda. Também gostava de sexo. Eu já tinha tido namorados escondidos, transado o suficiente para saber do que gostava e aprendido que culpa religiosa mal administrada era muito pior do que ser honesta consigo mesma.
Mas a minha fé continua sendo uma parte séria da minha vida. Eu era batista desde que me entendia por gente, frequento os cultos semanalmente e conheço praticamente todas as famílias antigas da congregação. Circulava bem entre as mulheres conservadoras, mesmo pertencendo a uma ala mais aberta. Eu acredito em Deus e levo o evangelho a sério, mas também acho que muita gente confunde devoção com controle sobre a vida alheia.
A Rebecca era minha amiga desde a alfabetização. Nós aprendemos a ler juntas, passamos por todo o crescimento na mesma igreja e sobrevivemos juntas à fase em que qualquer conversa entre moças virava motivo para uma líder perguntar se estávamos falando de rapazes. Ela jogava videogame escondida na minha casa e praticamos futsal juntas por seis anos antes do vestibular.
Eu conhecia o jeito doce dela, sua fé profunda e a confusão que surgia quando aquilo que ela sentia entrava em choque com tudo o que ensinaram que deveria sentir. Fui sua confidente quando ela conheceu o Maurício e sua madrinha de casamento. Estava lá por ela nos melhores e piores momentos. Assim como ela estava por mim.
E eu também conhecia os segredos dela. Apoiei a Rebecca durante a separação e continuei ao lado dela quando sua vida amorosa tomou rumos que fariam metade da congregação convocar uma vigília de emergência.
A minha rotina costuma ser organizada. Eu atendia das 8h às 17h, com intervalos para comer, respirar e recuperar a cabeça antes da próxima pessoa entrar. Traumas relacionais exigiam atenção porque quase ninguém chegava dizendo claramente o que tinha acontecido. As histórias vinham aos poucos, misturadas com vergonha e tentativas de justificar quem havia causado a dor. Meu trabalho era ajudar cada pessoa a enxergar a própria situação sem decidir por ela.
Duas vezes por semana, eu almoçava com amigos. Às vezes era uma refeição rápida perto do consultório. Em outros dias, a conversa se estendia e eu precisava vigiar o relógio. Esses almoços me faziam bem. Eu passava horas acompanhando sofrimento humano e precisava lembrar que o lado bom e leve da vida.
Estar solteira aos 28 parecia provocar uma preocupação curiosa em algumas mulheres da ala conservadora da minha igreja. Elas me olhavam como se meu prazo estivesse acabando e qualquer homem cristão com emprego fixo devesse ser tratado como uma oportunidade enviada por Deus. Eu não me importava. Cresci cercada por mulheres independentes e seguras dentro da própria igreja. A própria mãe da Rebecca era uma delas.
Eu acreditava que o homem certo apareceria quando tivesse de aparecer. Até lá, eu trabalharia, sairia com meus amigos e viveria minha fé sem transformar solteirice em tragédia. Também transaria quando julgasse que valia a pena, com responsabilidade e longe das fiscais informais da congregação. Deus conhecia meu coração. As irmãs do círculo de oração conheciam apenas os boatos.
Esta foi a história de como minha vida ficou um pouco mais louca depois que eu passei a conhecer mais pessoas do condomínio onde a Rebecca morava.
Na sexta, perto da hora do almoço, eu dirigia para um restaurante longe demais da clínica. A Rebecca escolhera o lugar por ser discreto. O que significava um restaurante onde a chance de encontrarmos alguém da igreja ou algum conhecido era pequena. Ela queria me apresentar oficialmente ao namorado, e isso justificava toda a cautela.
Enquanto esperava um carro decidir se entraria ou sairia de uma vaga, repassei as novidades da clínica. Duas remarcações, uma paciente que passaria pro atendimento on-line e um cliente novo. Miguel começaria na terça, 16h, presencial. Médico, 34 anos, trabalhava num hospital próximo.
Eu já sabia que ele era solteiro. Essa informação aparecera durante o primeiro contato, quando ele explicara resumidamente o motivo de procurar atendimento. Era um dado comum, pertinente ao contexto e perfeitamente neutro. A neutralidade tinha acabado quando salvei o número e o WhatsApp exibiu a foto dele.
O Miguel estava numa praia usando apenas uma bermuda escura. A foto mostrava um homem moreno-claro, alto e com corpo atlético. Os ombros eram largos, a barriga definida e o peito tinha pelos escuros. O rosto conseguia ser ainda melhor. Barba curta, olhos cor de mel e um sorriso lindo. Ampliei a foto pra conferir melhor a linha dos músculos descendo pela barriga dele. A bermuda começava baixa o bastante para minha imaginação completar o restante com uma falta de pudor surpreendente até para mim.
O Miguel era o cliente mais gostoso que já tive, o que criava um problema que nenhum manual precisava explicar. Eu deveria olhar para ele e enxergar uma pessoa buscando ajuda. Meu cérebro enxergava um homem de peito peludo e braços fortes.
Parte de mim considerou encaminhá-lo para outro profissional. A mesma parte, tomada por uma criatividade pecaminosa, sugeriu que eu o encaminhasse de manhã e o chamasse para jantar à noite. O jantar poderia terminar no apartamento de um dos dois. A fantasia avançou mais do que devia. Imaginei o peito dele por baixo do tecido, as mãos delicadas e firmes de um cirurgião e o tamanho do pau com base na dobra na bermuda de praia.
Tive de respirar fundo e voltar os olhos pra traseira de um utilitário branco.
Um minuto depois, minha mente já cogitava o Miguel como possível marido. Ele precisaria respeitar a minha fé, aceitar os meus compromissos com a igreja e, se possível, comparecer a alguns cultos sem agir como um condenado cumprindo pena. Um agnóstico educado serviria. Os meus pais olhariam pro médico bem-apessoado que eu levaria pro almoço de domingo e se esqueceriam de perguntar quantos livros da Bíblia ele conhecia.
Eu já o imaginava apertando a mão do meu pai e a minha mãe perguntaria sobre a família dele. Depois, em alguma viagem de casal, o Miguel me colocaria contra a parede do quarto e me faria cometer atos que exigiriam uma oração longa na manhã seguinte.
Balancei a cabeça com força.
— Pare com isso, Denise!
O Miguel seria meu cliente. E nada mais que isso. Nunca! A questão terminava ali. Eu tinha princípios e consciência dos limites envolvidos.
Quando cheguei, a Rebecca já estava numa mesa perto do fundo. Eu a reconheceria de longe mesmo em um salão lotado. Ela usava uma saia verde-escura e uma blusa clara de mangas curtas. O tecido acompanhava o corpo esguio, a cintura fina e os seios compactos. Sua bunda era firme e empinada. As pernas modeladas completavam o conjunto e faziam algumas roupas simples parecerem escolhas ousadas.
Ao lado dela, estava o Carlos. Eu já o tinha visto em fotografias. Aos 53, ele mostrava os efeitos de alguns meses de academia. Os ombros pareciam firmes, tinha menos entradas do que imaginava e estava bem vestido. Ele se levantou assim que me aproximei.
— Denise! — disse Rebecca, abraçando-me.
Carlos sorriu e estendeu a mão.
— A Rebecca fala muito de você.
— Espero que tenha falado só a parte boa.
— Ela disse que você é uma das pessoas em quem mais confia.
Nos sentamos. A Rebecca ficou ao lado dele e eu ocupei a cadeira em frente aos dois. A mão dela descansava perto da dele sobre a mesa. O Carlos se inclinava quando ela falava e parecia realmente prestar atenção. A Rebecca mantinha o corpo relaxado, sem o sorriso tenso que usara em metade do casamento com o Maurício.
Eu sabia do namoro havia algumas semanas. Também sabia do trisal com Eliana e das experiências sexuais que os três vinham tendo. A Rebecca me contara aos poucos, sempre corando e pedindo que eu deixasse qualquer julgamento para depois. Eu a apoiara desde o início. A minha amiga passara anos tentando encaixar a própria vida em expectativas religiosas que a deixavam confusa e infeliz. Agora descobria o que queria com duas pessoas que pareciam tratá-la com carinho.
Apoio incondicional incluía fazer perguntas difíceis quando surgia a necessidade. O Carlos era bem mais velho, tinha sidoprofessor de Eliana e tinha entrado na vida da Rebecca durante uma fase delicada. Eu queria ter certeza de que aquele homem não estava manipulando a insegurança dela. Também precisava observar se a relação seguia no ritmo que Rebecca desejava. Guardaria tudo isso para mim durante o almoço. Entrar no restaurante e perguntar se ele era um predador afetivo estragaria a vigilância.
Depois que pedimos as bebidas, conversamos sobre a ausência da Eliana e os dois me explicaram mais sobre como se conheceram e sobre todo o processo do começo do namoro. Eu ouvi tudo calada, prestando atenção nos micro gestos, se aquilo era uma história ensaiada ou real, quem falava o quê, se as versões eram compatíveis.
Os dois pareceram honestos. Eu percebia a ansiedade da Rebecca, mas era mais voltada ao medo da minha desaprovação que à presença dele. O Carlos também aceitava facilmente ser corrigido ou que a Rebecca tomasse a iniciativa. Parecia um cara maduro e, francamente, mais saudável que o Maurício pós-casamento.
Ainda faltava conhecer a dinâmica com a Eliana. Um trisal mudava completamente conforme as três pessoas se comportavam juntas. Eu sabia apenas o que Rebecca narrava.
Depois do prato principal, eles mencionaram que queriam contar pra algumas pessoas próximas. Eu entendia o receio, principalmente da Rebecca. Ela tinha medo de ser expulsa da igreja quando descobrissem que ela tinha um novo namorado.
A separação dela e do Maurício fora razoavelmente aceita em nossa congregação por causa das circunstâncias. Mas na vizinhança dela, a reação foi muito mais cruel. Evangélicos conservadores de outras igrejas a tratavam como culpada por ter saído de um casamento que já estava destruído. Liderados por uma tal de Marieta, eles ficaram ao lado do Maurício quase unanimemente. A Rebecca foi chamada de pecadora e influência ruim. Ela recebia as agressões com uma paciência que eu jamais teria. Eu teria partido pra voadora na segunda frase.
Nem imaginava como a Marieta tratava os membros da própria igreja. Se a mulher já tentava controlar a Rebecca e outros, que frequentavam outras congregações, tinha medo do que ela mandava e desmandava dentro do próprio território.
Quando a conta veio, o Carlos tentou pagar tudo. Eu recusei. Ele aceitou. Outro ponto favorável. Homens que transformavam a conta do almoço numa disputa costumavam cobrar isso como dívida depois.
Ele se levantou para ir ao banheiro. Esperamos que ele se afastasse e a Rebecca imediatamente se inclinou sobre a mesa.
— Então?
— Por enquanto, ele está aprovado.
— Por enquanto?
— Vou ficar de observação mais algum tempo. Eu gostei dele e como ele te trata. Ainda quero ver vocês com a Eliana.
Rebecca relaxou na cadeira.
— Eu sabia que você ia gostar.
— Não se empolgue. A aprovação pode ser revista.
— Você fala como se tivesse uma comissão.
— Tenho. A comissão sou eu.
Ela sorriu e olhou na direção do corredor por onde Carlos saíra.
— Ele estava nervoso.
— Percebi.
— Ele queria que você gostasse dele.
— Isso também ajudou. Predadores costumam querer parecer agradáveis, então ainda faltam algumas etapas.
A Rebecca me deu um tapa leve no braço. O Carlos retornou pouco depois, olhou de uma para outra, percebeu que tinha sido avaliado durante sua ausência e decidiu não perguntar. Isso também contou a favor dele.
Dias passaram e já era domingo de manhã. Naquela manhã, escolhi um vestido azul-escuro que terminava pouco abaixo dos joelhos. A peça tinha mangas curtas e um decote discreto, adequado para a igreja, enquanto a cintura marcada deixava o formato do meu corpo bem visível. Meus seios médios preenchiam a parte de cima e a saia acompanhava minha bunda arredondada antes de ganhar folga sobre as coxas. O vestido era comportado dentro dos padrões da igreja.
Cheguei cedo na igreja, conversei com algumas mulheres e vi a Rebecca chegar com o seu Raimundo.
O seu Raimundo era magro, calvo e usava um terno muito bem alinhado. Nos conhecíamos havia mais de um ano. Ele sempre tinha sido um gentleman comigo e com qualquer pessoa ao redor. Sabia conversar sobre quase qualquer assunto. Ele demonstrava o mesmo interesse falando com um senhor sobre futebol ou ouvindo uma das mulheres contar alguma novidade da família.
— Denise, que bom ver você — disse ele, abrindo um sorriso e oferecendo a mão.
Ignorei o cumprimento formal e o abracei com força.
— Que saudade, seu Raimundo.
— Também estava com saudade. Você está muito bonita.
— Obrigada. O senhor também está elegante.
— Uma camisa bem passada já faz metade do trabalho.
Ele riu e retribuiu o abraço com carinho. A Rebecca esperou os cumprimentos terminarem antes de me abraçar com força.
Ela usava um vestido verde do mesmo comprimento que o meu. O tecido acompanhava seu corpo esguio, destacava a cintura fina e descia rente à bunda empinada. Seus seios menores pareciam firmes sob a roupa, e a saia marcava o formato alto e compacto dos glúteos. O cabelo castanho-claro estava preso num rabo baixo. A Rebecca sempre transmitira delicadeza. Quem reparasse apenas no rosto oval, nos olhos castanho-claros e no sorriso gentil poderia demorar a perceber o quanto ela era atraente.
Ela parecia à vontade, embora mexesse na alça da bolsa com uma inquietação leve. O seu Raimundo percebeu que ela queria conversar comigo em particular e apontou pro outro lado do salão.
— Vou cumprimentar o pastor e o pessoal do coral.
Enquanto se afastava, cumprimentava cada pessoa no caminho. Perguntou pra uma irmã sobre como estava o pai dela. Conversou rapidamente com dois homens sobre um assunto que não ouvi e cumprimentou uma senhora que vinha pelo corredor.
Quando estávamos sós, a Rebecca ajeitou a alça da bolsa e olhou pro fundo do salão.
— Trouxe uma pessoa nova hoje. É o porteiro do meu condomínio, seu Geraldo.
Segui a direção do olhar dela. Um grupo de mulheres conversava perto da parede e no centro estava um senhor baixo e barrigudo, de pele morena e pouco cabelo. Ele usava camisa branca de mangas curtas, calça social marrom e uma gravata apertada demais pro pescoço grosso.
O seu Geraldo sorria enquanto falava. Mesmo de longe, dava para perceber que estava à vontade. Uma mulher tocou no braço dele durante uma risada e outra se inclinou para ouvir melhor. Uma irmã conhecida pela rigidez exibia um sorriso que eu raramente via.
— Ele chegou faz quanto tempo?
— Uns dez minutos.
— Ele deve ser a pessoa mais sociável que já vi.
— Você não faz ideia...
A voz da Rebecca saiu baixa e a atenção dela permaneceu presa ao homem no fundo do salão. A Rebecca tratava todos com carinho, mas o interesse dirigido ao homem no fundo da igreja tinha uma intimidade diferente.
Eu já tinha visto Rebecca daquele jeito uma vez. Tinha sido nos dias seguintes à primeira transa dela com o Maurício.
Falando em Maurício, deixa eu explicar a ausência dele. O Maurício já não frequentava nossa igreja desde o vazamento do vídeo em que agredia o seu Raimundo e quase batia na Rebecca. Quase toda a congregação tinha ficado ao lado dela, porque conhecia os dois e suas famílias há muitos anos.
Os pais da Rebecca eram muito respeitados aqui e ela sempre fora tratada como um exemplo. As mulheres mais conservadoras viviam dizendo que eu e as outras moças deveríamos “ser mais como a Rebecca”, como se ela fosse uma espécie de gabarito oficial da boa mulher batista. Anos atrás, os pais do Maurício tinham se mudado para outra cidade e se afastado daquela congregação. Isso deixou Maurício com menos pessoas dispostas a defendê-lo depois que o vídeo circulou.
Parte da ala conservadora continuava desaprovando o divórcio. Mas, diante do que o Maurício tinha feito, eles preferiam ignorar o assunto e tratar a Rebecca como solteira ou viúva, dependendo da versão mental mais confortável para cada uma.
Encerrado o aparte, voltemos aquele domingo de manhã.
— Vamos lá — disse ela.
Caminhamos até eles. O seu Geraldo viu a Rebecca antes de perceber minha presença. O sorriso dele ficou mais caloroso e ela respondeu com a mesma expressão. As bochechas da Rebecca ficaram rosadas na hora e ela tentou disfarçar mexendo na alça da bolsa.
Logo depois, os olhos dele vieram até mim. Encontraram o meu rosto e desceram pelo decote, acompanhando a cintura e a saia antes de voltar para cima. O exame durou pouco e foi bem executado. Um homem menos experiente seria pego olhando diretamente para meus seios ou para minha bunda. O seu Geraldo analisou o conjunto e retornou aos meus olhos com a tranquilidade de quem acreditava ter passado despercebido.
Eu passava meus dias ouvindo pessoas tentarem esconder pensamentos bem mais complicados. Um senhor barrigudo me despindo mentalmente estava dentro das minhas capacidades de observação.
— Seu Geraldo, essa é Denise, uma das minhas melhores amigas.
— Prazer enorme — disse ele, estendendo a mão.
A palma era áspera e quente. Ele segurou meus dedos com firmeza moderada.
— Você é uma amiga tipo a Anacleta? — perguntou.
— Não... Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não...
16 nãos. Eu conhecia a Rebecca o suficiente pra saber que ela só agia assim quando estava gritando aos surtos por dentro.
Mas isso não fazia sentido. Não tinha como o seu Geraldo ter se relacionado com a Rebecca. Ela estava com o Carlos e o amava.
Uma das mulheres perguntou de qual igreja seu Geraldo vinha.
— Não tenho frequentado igreja ultimamente. Vim pagar uma promessa antiga.
— Que promessa? — perguntei.
Ele contou uma longuíssima história cheia de idas e vindas que, se você prestasse muita atenção e não se perdesse, notaria que ele disse um monte de coisas sem responder à pergunta. Ele ganhou pontos por evitar mentir dentro da igreja, mas isso significava que a promessa era algo escandaloso.
— Promessa com Deus precisa ser cumprida — disse uma senhora.
— Por isso vim antes que a cobrança ganhasse juros.
Ela tentou manter a expressão séria e acabou sorrindo. Seu Geraldo pareceu satisfeito por ter vencido aquela resistência.
— O senhor é católico?
— Minha mãe era. Meu pai confiava mais no jogo do bicho.
Dessa vez, o grupo inteiro riu. Até a irmã mais conservadora abaixou a cabeça para esconder o sorriso. Em poucos minutos, ele já sabia quem tinha filho, quem sofria com dor no joelho e quem preparava o café da igreja.
Mas depois de uns dez minutos, notei que o seu Geraldo despia mentalmente todas as mulheres acima dos 25 anos. Não importava se eram solteiras, casadas e viúvas. Ele era exatamente o cara que temia que o Carlos fosse.
— O senhor é um dos homens mais admiráveis que já conhecemos — disse uma senhora da ala conservadora.
O culto ia começar. O seu Raimundo já estava numa fileira do meio e tinha guardado nossos assentos. Ele ficou numa ponta, com a Rebecca ao seu lado, o seu Geraldo no meio e eu na outra ponta.
A perna dele tocou na minha quando nos sentamos. O joelho encostou na lateral da minha coxa e o banco estreito explicava o contato. Seu Geraldo afastou a perna e pediu desculpas.
A Rebecca abriu o hinário. O seu Geraldo tentou acompanhar olhando para a página dela. Os ombros se encostaram e a lateral do seio da Rebecca pressionou o braço dele. O rosto dela ficou ainda mais vermelho.
Durante o cântico, a Rebecca cantava baixo. O seu Geraldo não conhecia a letra e movia os lábios quando conseguia acompanhar.
O pastor começou a pregação, que tratava de promessas, compromisso e honestidade. Seu Geraldo abaixou a cabeça com um sorriso e a Rebecca deu uma pequena cotovelada nele.
— Vim no domingo certo.
— Então escute.
Ele obedeceu. Já o seu Raimundo era diferente. Ele acompanhava a pregação com atenção. Em certo momento, ajudou uma senhora próxima a encontrar a passagem na Bíblia e depois voltou a ouvir o pastor.
Ao final da pregação, todos ficaram de pé pra oração. Fechei os olhos e baixei a cabeça, pedindo clareza pra minha vida e proteção pras pessoas que eu amava.
O culto terminou com abraços e conversas. A mesma senhora conservadora convidou o seu Geraldo para voltar no domingo seguinte. Ela tocou no antebraço dele e sorriu derretida por meio segundo.
O Seu Raimundo se aproximou segurando um copinho de café. Vinha acompanhado de dois homens da congregação e terminou uma conversa sobre a reforma de uma rua do bairro antes de voltar a atenção para nós.
— Geraldo, você conquistou a igreja inteira — disse seu Raimundo.
— O povo aqui recebe bem.
— Tem muita gente boa. A Rebecca escolheu um bom dia para te trazer.
A Rebecca fechou os olhos por um instante diante da resposta satisfeita. O seu Raimundo tomou o café com calma e depois se voltou para mim.
— Eu preciso ir. Prometi ajudar um vizinho em um problema na casa dele de tarde.
— E eu vou com os meus pais agora — apontei pra eles.
Seu Geraldo se despediu de mim com outro aperto de mão. Os dedos fecharam em torno dos meus com a mesma firmeza cuidadosa. Os três se afastaram. Rebecca e Raimundo estavam indo pro carro dela, o seu Geraldo parecia ir pro ponto de ônibus. E eu estava indo almoçar com os meus pais, como todo bom domingo.
De tarde, tinha ido ao cinema sozinha. Era uma mulher (talvez não tão) jovem e independente. E queria muito assistir a “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”. Tinha passado a semana evitando comentários na internet para me precaver de spoilers.
O shopping estava cheio. Havia casais parados no meio do corredor e famílias inteiras caminhando na velocidade de uma procissão. Entrei na fila para comprar água. Foi ali que vi o Enéias pela primeira vez.
Minha primeira reação foi olhar de novo. A segunda foi fingir que tinha olhado por acaso. A terceira foi lembrar que Deus conhecia meu coração e, portanto, já sabia que eu tinha achado aquele homem um absurdo.
Ele era alto, perto de 1,90, com o corpo definido sob uma camiseta cinza. A pele morena e bronzeada contrastava com os dentes claros quando ele sorriu pra alguma coisa no celular. O rosto parecia ter sido Photoshop. Cabelos escuros, barba curta e uma expressão confiante que ficaria arrogante em outro homem. Nele, parecia natural.
Eu virei para a frente e fiquei observando os sabores de pipoca anunciados no painel. Li os mesmos nomes tantas vezes que decorei os preços.
— Você está tentando decidir ou esperando aparecer um sabor novo? — ele perguntou atrás de mim.
Olhei por cima do ombro. O sorriso agora era para mim.
— Eu...
Ele levantou o balde grande que carregava. Senti vontade de rir e permiti apenas um sorriso curto.
— ... Sou facilmente corrompida por manteiga.
A fila andou. Ele se aproximou e perguntou qual filme eu veria. Quando respondi, abriu um sorriso maior.
— “Quarteto Fantástico”! Também vim para esse.
— Em IMAX — falei. — Qualquer filme com um gigante usando um balde roxo com anteninhas na cabeça merece a maior tela disponível.
Eu ri antes de decidir se devia. Ele também riu.
— Trabalho nisso todos os dias. Meu nome é Enéias.
— Denise.
Ele repetiu meu nome num tom baixo, como se quisesse guardar a pronúncia. A atendente chamou a minha vez. Comprei uma garrafa de água e recusei a pipoca. Quando saí da fila, ele veio atrás.
— Você vai entrar agora?
— Pretendo.
Caminhamos juntos até a entrada. Descobrimos que nossos lugares ficavam na mesma fileira. Mas o Enéias conversou com um casal e conseguiu trocar o assento. Eu poderia ter dito que preferia assistir sozinha. Em vez disso, afastei a bolsa da poltrona ao lado e esperei que ele se sentasse.
TÁ BOM! ME DESCULPEM, MAS EU JÁ QUERIA SENTAR NELE!
Durante os trailers, ele fez comentários baixos e espaçados. Algumas observações eram engraçadas. Outras coincidiam demais com o que eu pensava. Quando as luzes da tela mudaram e a história começou, ele ficou em silêncio.
Tentei prestar atenção. Consegui durante boa parte do tempo. Ainda assim, percebia o braço dele perto do meu, o cheiro limpo da pele e a perna longa dobrada com alguma dificuldade entre as fileiras. Em determinado momento, nossas mãos se tocaram no apoio central. Ele retirou a dele e pediu desculpas num sussurro.
Poucos minutos depois, aconteceu de novo. Dessa vez, ninguém se afastou depressa.
O contato ficou restrito às laterais das mãos. Uma coisa pequena, quase boba. Senti calor no rosto e mudei de posição. Ele continuou olhando pra tela, embora um sorriso aparecesse no canto da boca.
O filme terminou. Durante os créditos, ficamos sentados esperando o pós-créditos. Ele se inclinou na minha direção.
— Gostou?
— Muito.
— Eu gostei mais do que esperava. O final me pegou.
Ele mencionou uma cena específica e fez uma interpretação parecida com a minha. Conversamos enquanto saíamos da sala. O Enéias ouvia com atenção, fazia perguntas e parecia sinceramente interessado nas respostas. Eu me senti à vontade depressa. Talvez depressa demais.
Perto da escada rolante, ele apontou pro corredor dos restaurantes.
— Quer jantar comigo?
A pergunta veio com naturalidade. O meu coração bateu mais forte, e eu pensei em todas as razões para recusar. Eu o conhecia havia pouco mais de duas horas. Ele poderia ser casado, mentiroso, traficante, praticante de crossfit ou torcedor do time rival ao meu (não que eu seja fascinada por futebol, mas sendo filha única de um verdadeiro fanático me senti no dever de herdar o time do meu pai e repassá-lo aos meus filhos). Também poderia ser apenas um homem interessante querendo jantar comigo.
— Pode ser — respondi. — Desde que seja num lugar onde dê para conversar.
— Você escolhe.
Escolhi um restaurante movimentado, com mesas abertas pro corredor. Havia gente suficiente ao redor para eu me sentir segura.
A postura tranquila dele reforçou a impressão de que eu estava diante de um homem educado. Pedimos comida e refrigerante. O Enéias contou que era médico, morava sozinho e tinha uma rotina puxada. Eu falei sobre mim e esperei algum comentário estranho quando mencionei a igreja. Ele apoiou os braços na mesa e demonstrou interesse.
— Sua fé é importante para você?
— Muito.
— Acho saudável. Fé sem reflexão vira costume.
Ele continuou falando sobre respeito, liberdade e como admirava mulheres que conseguiam manter a espiritualidade sem se desligar do mundo. Disse que crescera perto de pessoas religiosas, embora hoje frequentasse pouco. Afirmou que sentia falta de uma comunidade.
Eu deveria ter feito mais perguntas. Mas acabei envolvida em contar mais das minhas experiências. Falei sobre as diferenças entre crença e controle, sobre como algumas pessoas usavam regras para esconder medo. Ele concordou com tudo. Quando eu criticava rigidez, ele criticava também. Quando eu defendia compromisso, ele dizia valorizar compromisso. Até as minhas dúvidas pareciam combinar com as respostas dele.
— Você é diferente do que eu imaginei quando te vi na fila.
— O que você imaginou?
— Que fosse mais fechada.
— E agora?
— Agora acho que você é observadora e perspicaz.
Senti um prazer silencioso com aquela descrição. Parecia profunda sem ser invasiva. Apenas no dia seguinte, percebi que servia para quase qualquer pessoa minimamente reservada.
O Enéias falou do meu sorriso e dos meus olhos. Evitava repetir o quanto me achava atraente, o que tornava cada elogio mais eficaz. Quando olhava para mim, fazia isso com discrição suficiente para me deixar desejada em vez de examinada.
Comemos e dividimos uma sobremesa. A conversa seguiu leve. Ele sabia mudar de assunto antes que qualquer tema ficasse cansativo. Eu ria com frequência e percebia outras mulheres olhando para ele. Aquilo alimentou minha vaidade. Entre todas, aquele homem tinha escolhido sentar comigo.
Quando terminamos, já passava das 21h. Enéias pagou a conta antes que eu conseguisse dividir. Insisti uma vez e aceitei em seguida. Perto da saída, ele tocou minha mão.
— Ainda está cedo para você?
Eu sabia o que havia naquela pergunta. O tesão cresceu junto com uma tensão antiga, formada por anos ouvindo o que uma mulher deveria fazer com o próprio corpo. Eu já tinha transado antes. Tive namorados secretos e experiências que jamais entrariam num testemunho de domingo.
— Depende do que você está sugerindo.
— Um lugar mais reservado. Podemos conversar, ficar juntos e ver o que acontece. Sem pressão.
A expressão me tranquilizou porque combinava com tudo que ele tinha mostrado durante a tarde. Eu o observei de perto. A camiseta acompanhava os ombros largos e o peito definido. A pele morena e bronzeada reforçava cada linha dos braços. Eu queria beijá-lo desde a fila da pipoca e já estava cansada de fingir que não.
— Tem um motel bom a poucos minutos daqui.
A sugestão parecia cuidadosa. Perguntei o nome do lugar, pesquisei no celular e compartilhei a minha localização com uma amiga sem explicar o motivo. Ele esperou sem demonstrar impaciência. Eu ainda me sentia no controle da situação.
Durante o trajeto, ele colocou uma música calma e deixou a mão sobre o console, perto da minha. Continuamos conversando sobre o filme e sobre uma exposição que ele disse querer conhecer.
O quarto era amplo e limpo. Havia uma cama grande, uma poltrona junto à parede e um banheiro parcialmente aberto. O primeiro beijo foi cuidadoso. A boca dele se moveu devagar sobre a minha, dando tempo para eu me acostumar. Coloquei as mãos nos ombros dele. Enéias segurou a minha cintura e me trouxe para perto. A força do corpo sob a camiseta ficou evidente quando meu peito encostou no dele.
O beijo ganhou intensidade conforme eu correspondia. Ele passava de uma calma calculada para uma pressa que me deixava sem ar. Quando sua mão desceu até a minha bunda, apertei os dedos contra os braços dele.
Puxei a camiseta do Enéias pela barra. Ele levantou os braços e deixou que eu a tirasse. O peito firme, a barriga definida e os braços fortes pareciam feitos para atrair olhares. Passei as mãos pela pele bronzeada. Ele acompanhou os meus movimentos com um sorriso satisfeito.
— Gostou?
— Você sabe que sim.
— Gosto de ouvir.
Não tinha percebido que ele era vaidoso assim até aquele instante. Mas estava excitada demais para dar atenção ao incômodo. Voltei a beijá-lo e o Enéias me virou de costas. Ele afastou o meu cabelo e beijou o meu pescoço enquanto procurava o zíper do vestido. O tecido desceu pelos meus ombros e ficou preso por um instante na parte mais larga da minha bunda. Ele puxou devagar até o vestido cair aos meus pés.
Fiquei de lingerie diante dele. Minha barriga era quase plana, com uma maciez discreta abaixo do umbigo. A calcinha marcava a curva da bunda e apertava um pouco a parte alta das coxas. Cruzei os braços por reflexo. Enéias segurou as minhas mãos e as afastou com suavidade.
— Quero olhar para você.
Deixei. A forma como ele me examinava provocava calor e constrangimento ao mesmo tempo. Seus olhos passaram pelos meus seios, desceram pela cintura e pararam nas minhas pernas. Ele me virou de lado e tocou a minha bunda com as duas mãos.
— Você é muito linda.
O Enéias abriu o fecho do meu sutiã e esperou que eu mesma retirasse as alças. Meus seios ficaram expostos, arredondados. Os mamilos já estavam duros. Ele cobriu um deles com a boca enquanto segurava o outro, e eu precisei apoiar uma mão em seu ombro.
Meu corpo respondia com facilidade. Ele percebeu isso e começou a testar o que me fazia respirar mais forte. Beijou o meu pescoço, apertou a minha bunda e passou os dedos pela parte interna das coxas. Cada reação minha parecia aumentar a confiança dele.
— Deita — O tom ainda era gentil. A frase veio como uma ordem.
Sentei na beira da cama. O Enéias permaneceu em pé diante de mim enquanto abria a calça. A cueca mal escondia o tamanho do pau duro. Quando ele a tirou, senti um choque que apareceu no meu rosto antes que conseguisse controlar.
Ele era grosso e comprido, com uns 23 cm. Tinha uma cabeça vermelha que parecia um cogumelo. Eu já tinha visto homens bem-dotados. O Enéias pertencia a outra categoria.
— Assustou? — perguntou, claramente satisfeito.
— Um pouco.
— Você vai se acostumar.
Passei a mão pelo pau dele com cautela, sentindo a rigidez. O Enéias segurou o meu punho e ajustou o movimento ao ritmo que queria. Começou devagar, depois acelerou a minha mão.
— Assim.
Eu o encarei. O sorriso dele tinha mudado. Quando retirei a mão, ele veio e me beijou. A boca desceu pelo meu pescoço e seguiu até os seios. Tirou a minha calcinha devagar, passando o tecido por minhas coxas cheias e pelos tornozelos.
Fiquei exposta diante dele. Eu aparava os pelos, deixando uma faixa curta acima da boceta. A minha pele clara fazia os pequenos lábios rosados parecerem mais vivos. O Enéias afastou as minhas pernas e ficou olhando.
— Você está encharcada.
Senti vergonha e tesão com a observação. Tentei fechar um pouco as coxas. Ele manteve as mãos sobre meus joelhos.
— Deixa eu ver.
Relaxei as pernas. O Enéias se ajoelhou diante da cama e beijou a parte interna de uma coxa. A barba curta arranhou a minha pele. Ele avançou sem pressa até tocar a minha boceta com a boca.
O prazer veio rápido. Segurei o lençol e levantei a bunda quando ele encontrou o ponto certo. O Enéias alternava movimentos lentos com outros mais firmes, observando a minha reação. Quando tentei controlar o ritmo com a mão em sua cabeça, ele segurou o meu pulso e o colocou ao lado do corpo.
— Deixa comigo.
Uma parte de mim gostou de entregar o controle. Ele introduziu um dedo e voltou a usar a boca. A minha boceta estava tão molhada que os movimentos saíam fáceis. Ele aumentou a pressão até o meu corpo inteiro ficar tenso.
— Isso. Goza para mim.
Ouvi e continuei me movendo, apertando as coxas ao redor dos seus ombros. O orgasmo chegou com força. Abafei um gemido contra o travesseiro e senti as minhas pernas tremerem.
Foi quando ele se levantou, passou a mão pela boca e ficou entre as minhas pernas.
— Agora você está pronta.
Eu ainda estava ofegante, mas o puxei pra um beijo e senti o meu gosto na boca dele. O Enéias me colocou mais perto da beira da cama e levantou as minhas pernas. Os meus seios se moviam a cada respiração e a minha bunda ficava parcialmente fora do colchão.
Ele encostou o pau na entrada da minha boceta. O tamanho pareceu ainda mais preocupante quando senti a pressão.
— Devagar — pedi.
— Vou cuidar de você.
O Enéias entrou aos poucos. Meu corpo ofereceu resistência, mesmo com toda a lubrificação. Segurei o braço dele e pedi que esperasse. Ele ficou parado durante alguns instantes, me apalpando enquanto eu me acostumava à grossura. Ele avançou mais. Soltei um gemido involuntário. Ele interpretou como aprovação e repetiu. Eu o parei com uma mão e ele esperou mais. Depois de alguns segundos e movi a bunda por conta própria. A pressão se transformou em prazer conforme meu corpo se adaptava.
O Enéias retomou os movimentos. Durante os primeiros minutos, prestou atenção ao meu rosto e diminuiu quando eu ficava tensa. Depois que a percebeu minha excitação, passou a impor o ritmo. Segurou as minhas coxas e entrou mais fundo. A cama começou a bater de leve contra a parede.
Eu gostava da força dele. Também percebia como sua atenção se deslocava. Enéias observava os meus seios balançarem e olhava pro próprio pau entrando em mim. Quando eu pedia um movimento diferente, ele atendia por pouco tempo e retornava ao que parecia agradá-lo mais.
O Enéias me puxou mais pra beira da cama e acelerou. O prazer cresceu outra vez, embora o ritmo começasse a ficar bem forte. Fechei os olhos e tentei acompanhar. A excitação ainda estava presente. Depois, ele mudou minha a posição, me colocando por cima.
A princípio, achei que teria mais controle. Ele segurou a minha cintura e começou a movimentar a minha bunda com as próprias mãos. O pau dele entrava fundo e as minhas coxas cheias começaram a cansar.
— Vai mais devagar.
— Você aguenta.
Ele soltou um pouco a minha cintura. Passei a escolher o ritmo e encontrei um ângulo que me dava mais prazer. O Enéias acompanhou durante pouco tempo. Em seguida, voltou a me puxar para baixo com força.
Quando o Enéias ficou perto de gozar, virou-me outra vez e acelerou. Foi só aí que percebi a burrada. Eu tava tão excitada que tinha esquecido da camisinha (e ele nem a mencionara).
— Tira antes.
Ele saiu de mim no último instante e gozou sobre a minha barriga. Parte atingiu a região abaixo dos seios. O Enéias fechou os olhos e permaneceu imóvel enquanto o prazer passava. Depois se afastou sem perguntar como eu estava.
Fiquei deitada, ofegante, olhando pro teto. Eu tinha gozado com a boca dele e chegado perto outra vez durante a penetração. Mas ele saiu me deixando num quase. O Enéias observou o próprio sêmen sobre minha pele com orgulho. Só depois disso, ele pegou uma toalha pequena no banheiro e limpou minha barriga. O gesto devolveu parte da atenção que eu conhecera durante o jantar.
— Foi intenso — falei.
— Você gostou.
O modo como afirmou me irritou um pouco. Mas ele voltou ao que era antes. Talvez tivesse sido meio egoísta na cama porque estivesse ansioso. Eu relevei porque parecia carinhoso.
Fomos tomar banho juntos. A água morna ajudou a aliviar o corpo. O Enéias ensaboou minhas costas e passou as mãos pela minha bunda. O toque começou carinhoso. Pouco depois, nós dois já estávamos excitados de novo.
— Você se recupera rápido — comentei.
— Com você assim na minha frente, fica fácil.
Ele me virou e beijou os meus seios. Parecia mais apressado. Suas mãos apertavam com força e procuravam meu corpo sem muito cuidado. Ele passou os dedos entre as minhas pernas. O toque produziu uma mistura de incômodo e prazer. Afastei um pouco a mão dele.
— Devagar.
— Confia em mim.
Ele encostou a testa na minha e voltou a me tocar com menos força, esperando o meu corpo responder. A excitação cresceu aos poucos. Apoiei as mãos na parede enquanto ele me beijava por trás. A minha cintura mais estreita ficava encaixada entre os braços dele e a minha bunda parecia pequena junto ao corpo alto. O Enéias acariciou a minha boceta até eu voltar a ficar molhada.
— Quer de novo? — perguntou.
— Quero. Devagar.
Ele entrou por trás, segurando a minha cintura. A posição tornou o tamanho ainda mais intenso. Arqueei as costas e pedi que parasse antes que entrasse por completo.
— Respira — disse perto do meu ouvido.
Fiz o que pediu. O Enéias permaneceu imóvel por alguns segundos. Quando avanço, o meu corpo recebeu o movimento com dificuldade e logo se ajustou. O prazer voltou, mais bruto que antes.
Ele segurou meus braços atrás das costas. A posição limitava os meus movimentos e deixava o controle com ele. Eu poderia ter pedido para soltar, mas a sensação de entrega me excitava.
— Assim — murmurou. — Quero ver você não gozar desta vez.
Ele soltou um dos meus braços e passou a mão pela minha boceta.
— Então goza.
A ordem veio acompanhada de movimentos mais rápidos. Ele tocava o ponto certo e o meu corpo reagia. Parte de mim começava a achar que o meu prazer só o interessava como demonstração do desempenho dele.
Mas eu queria chegar lá. Afastei mais as pernas e orientei a mão dele.
— Mais para cima. Assim.
Ele obedeceu e manteve o toque enquanto metia em mim. O orgasmo começou a crescer. As minhas pernas ficaram fracas e precisei apoiar o antebraço na parede.
— Vai — ele disse. — Goza no meu pau.
O prazer atravessou meu corpo, apertando minha boceta ao redor dele. O Enéias gemeu com satisfação e continuou entrando enquanto eu ainda tremia.
— Sabia que você ia conseguir.
Pedi que saíssemos do banheiro porque minhas pernas já não sustentavam a posição. Voltamos pra cama ainda molhados. O Enéias me deitou de lado e ergueu uma das minhas pernas. Entrou com mais facilidade. Ele passou um braço por baixo do meu pescoço e segurou um dos meus seios.
— Você fica muito gostosa nessa posição.
O Enéias acelerou. Segurava a minha coxa cheia no alto e observava a minha bunda se mover contra ele.
— Vou gozar.
— Fora.
— Eu sei. Não sou louco de arrumar um filho agora.
Dessa vez, ele gozou sobre as minhas costas. Ele caiu de costas na cama e ficou um pouco respirando com força.
Eu fui ao banheiro, lavei a pele e voltei enrolada numa toalha. O meu reflexo mostrava o cabelo úmido e as bochechas coradas.
O Enéias estava deitado, mexendo no celular. Quando me viu, largou o aparelho e abriu um braço para que eu me aproximasse. Deitei sobre seu peito. O corpo dele continuava quente, e o coração batia com calma. O quarto permaneceu silencioso durante alguns minutos. O Enéias afastou o lençol e pegou o celular de novo. Seu rosto perdeu a atenção calorosa que mantivera durante o jantar. Ele se levantou e começou a procurar a cueca pelo chão.
— Já vamos? — perguntei.
— A gente precisa liberar o quarto.
Olhei o relógio. Ainda havia tempo contratado, pelo que eu tinha entendido.
— Achei que podíamos ficar mais um pouco.
— Melhor irmos.
Sentei na cama e puxei o lençol sobre os seios. O Enéias vestiu a cueca e procurou a calça sem olhar para mim. A mudança parecia rápida demais. Toda a paciência usada para me levar até ali havia desaparecido.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Só estou cansado.
Levantei e comecei a procurar minhas roupas. Meu vestido estava perto da poltrona. O sutiã tinha ficado junto à cama, e encontrei a calcinha perto da porta do banheiro. Precisei me abaixar para pegá-la. Senti o olhar dele sobre a minha bunda por um instante.
— Você gostou? — perguntei enquanto vestia o sutiã.
Ele terminou de fechar a calça e me olhou pelo espelho.
— Quer a nota?
Parei com uma das alças na mão.
— Que nota?
— 6.7.
Esperei algum sorriso que mostrasse uma piada ruim. O rosto dele permaneceu sério.
— Você está falando de mim?
— Do sexo. Você é— Você dá nota para as mulheres com quem transa?
Vesti a outra alça e encarei o reflexo dele. O Enéias pegou a camiseta no chão e a colocou com calma.
— Com todo o respeito, você foi quase uma boneca inflável. Eu tive que fazer quase tudo sozinho. Estou até te dando uma nota generosa porque não é sempre que se come uma crente gostosa. Mas eu já comi dezenas de mulheres mais gostosas e muito melhores na cama.
Senti o calor desaparecer do meu corpo.
— Você não pode estar falando sério.
— Você perguntou.
— Eu não pedi para ser comparada com dezenas de mulheres.
— Eu gostei o suficiente para terminar. Só não foi nada especial.
Ele voltou pro celular. A indiferença doía mais que as palavras.
— Então tudo aquilo no jantar era o quê? — perguntei. — O interesse, as coisas que você falou sobre fé, liberdade e querer me conhecer melhor?
— Eu queria te comer.
A resposta saiu simples, sem vergonha ou hesitação. Ele guardou o celular no bolso e olhou pro relógio.
— Você é um babaca.
— Pode me xingar do que quiser.
Vesti o vestido com dificuldade. O zíper prendeu no tecido e minhas mãos tremiam. O Enéias percebeu minha dificuldade e puxou o zíper sem dizer nada. Afastei o corpo assim que ele terminou.
Fui ao banheiro, arrumei o cabelo com os dedos e lavei o rosto. O batom tinha sumido. Os meus olhos pareciam maiores, talvez pelo cansaço. Quando voltei, Enéias já estava perto da porta.
— Pronta?
— Sim.
O caminho até o carro foi silencioso. Entrei no banco do passageiro, coloquei o cinto e abri o aplicativo para verificar a distância até minha casa. Eu esperava que ele perguntasse meu endereço. Ele ligou o carro e saiu do motel.
— Você mora onde? — perguntou.
Eu disse o bairro.
— É fora do meu caminho. Vou te deixar num lugar fácil para chamar Uber.
Ele disse isso sem qualquer cuidado, mantendo os olhos na avenida. Fiquei olhando para o perfil que tinha achado tão bonito na fila do cinema. O rosto continuava o mesmo. Todo o resto parecia ter mudado.
— Você fala com todas desse jeito depois?
— Só as que não quero repeteco.
— Todas as que recebem 6.7 são deixadas na rua?
— Eu vou te deixar num lugar seguro. Não dramatiza.
Fiquei em silêncio durante o restante do caminho. Discutir exigiria uma energia que eu já não tinha. Meu corpo ainda carregava o cansaço do sexo, enquanto minha cabeça tentava entender como o homem do jantar conseguia conviver com aquele no volante.
O Enéias entrou no estacionamento de uma farmácia aberta durante 24h e parou perto da porta. Havia alguns carros e um segurança permanecia junto à entrada.
— Aqui serve — disse ele.
Soltei o cinto e peguei a bolsa. Era melhor sair de perto dele antes que piorasse ainda mais. Abri a porta e saí.
— Você passou a noite inteira fingindo ser alguém que não existe.
— Funcionou.
O Enéias sorriu de leve, satisfeito com a própria resposta. Depois, deixou o estacionamento. Entrei, caminhei até o corredor de produtos de higiene e peguei o celular. O aplicativo informava que havia poucos motoristas disponíveis e o preço da corrida estava alto. A farmácia tinha movimento, uma funcionária, dois clientes e um segurança. Eu estava segura. A constatação ajudava pouco contra a humilhação.
Saber o nome de uma manipulação jamais torna a experiência indolor. Eu conhecia as frases que diria a qualquer mulher sentada diante de mim, tentando se culpar pela crueldade de um homem. Diria que confiar não era falha moral. Diria que consentir com sexo não incluía consentir com desprezo. Diria que o comportamento dele falava sobre ele. Todas essas frases estavam corretas. Naquela hora, pareciam pequenas.
Entrei no Uber e o motorista me cumprimentou com educação, mas percebeu que eu não estava com vontade de conversar e seguiu em silêncio. Fechei os olhos e fiz uma oração curta. Pedi para chegar bem em casa e conseguir dormir. Evitei pedir qualquer coisa grandiosa, pois a minha fé naquela noite estava ocupada tentando me manter inteira.
Na segunda-feira, durante o almoço, eu estava com a testa apoiada na mesa de um restaurante a quilo. O tampo frio parecia o único lugar adequado para uma mulher que tinha cometido uma burrada, sido humilhada e ainda precisaria voltar ao trabalho em menos de uma hora.
A Rebecca sentou-se diante de mim com um prato que misturava salada, arroz e um pedaço generoso de frango. Ela usava calça preta e uma blusa vinho fechada até perto do pescoço. A roupa cobria bastante e ainda destacava sua cintura fina. Quando ela se levantara para buscar os talheres, a calça acompanhara a bunda empinada de um jeito que fez dois homens virarem a cabeça.
Eu usava um vestido azul simples. O tecido se ajustava às minhas coxas e à bunda, embora o comprimento chegasse aos joelhos. Meus seios ficavam bem acomodados na parte superior.
— O que você fez? — A Rebecca colocou os talheres ao lado do prato.
Mantive a testa na mesa.
— Uma burrada muito feia.
Ela ficou corada com uma rapidez suspeita.
— Duvido que tenha sido tão burra quanto a que eu fiz.
Levantei o rosto. A Rebecca desviou os olhos e começou a alinhar o guardanapo.
— Você também?
— Sim.
— Grave pela lei ou pela igreja?
— Denise.
— Estou tentando definir o nível de burrada.
Ela respirou fundo e apontou para minhas mãos.
— Par ou ímpar.
Aquilo era antigo entre nós. Quando as duas precisavam desabafar ao mesmo tempo, decidíamos quem começava no par ou ímpar. Funcionava para namoros secretos, brigas familiares e crises de fé.
Escolhi par. A Rebecca ganhou.
— Você começa — disse ela.
Voltei a apoiar a testa na mesa.
— Eu quero recorrer.
— Pedido negado.
— Você é uma amiga cruel.
— Conte logo.
Sentei direito e olhei ao redor. O restaurante estava cheio de gente comendo depressa. Ninguém parecia prestar atenção em nós. Ainda assim, baixei a voz. Contei tudo que aconteceu no dia anterior, entre a fila do cinema e a minha chegada em casa.
A Rebecca tinha uma qualidade de ouvir tudo sem interromper, mas ela precisou se controlar várias vezes desta vez. E largou o garfo quando terminei.
— Eu vou matar esse homem.
— Entre na fila. Eu sou o cocô do cavalo do bandido.
— Você não é.
— Ontem eu fui. Eu sou uma maldita 6.7!
A Rebecca empurrou o prato para o lado e se inclinou para perto.
— O nome dele era Enéias?
Confirmei. O rosto dela mudou. Surgiu um reconhecimento cheio de horror.
— Muito alto, moreno e bronzeado?
— Isso.
A Rebecca apertou os dedos contra a testa.
— Médico? Corpo sarado e rosto de modelo?
— Exatamente.
Ela hesitou antes da última pergunta.
— O... “membro masculino” dele era absurdamente enorme?
Olhei para ela em silêncio.
— Rebecca.
— Preciso confirmar.
— O maior que já vi na vida.
Ela se recostou na cadeira.
— Meu Deus, era ele. O Enéias babacão que eu mencionei.
Meu estômago afundou enquanto a Rebecca explicava devagar. Aquele era mesmo o Enéias que, no começo do ano, entrara na academia perto do condomínio dela e começara a dar em cima de todas as mulheres, casadas e solteiras. Algumas delas quase caíram na lábia dele e elas praticamente criaram um grupinho pra se proteger dos avanços dele e outros predadores.
Ele também passou meses mandando nudes não pedidos pra esposa do Rogério, um grande amigo da Rebecca. Por isso, ela sabia que o Enéias era um “jegue”. O Enéias não era muito econômico nos closes do membro. Na semana anterior, ele tinha começado uma guerra civil contra o Rogério e montado uma partida de futebol pra humilhar o amigo dela. Mas o Rogério, o Carlos e seus amigos e amigas se juntaram e venceram a partida quase na base do poder da amizade.
— Eu já te falei dele algumas vezes — disse Rebecca. — Como você não ligou o nome à pessoa?
— Enéias é um nome comum.
— Denise, quantos Enéias você conhece?
— Além desse, só o candidato a presidente em quem nossos avós votaram em 1989 e o protagonista de um poema épico pagão romano.
A Rebecca respirou fundo e retomou uma expressão séria.
— Você não tinha como saber que era ele. O Enéias foi simpático porque queria te levar pra cama.
— Eu devia ter percebido.
— A culpa foi dele por tratar você daquele jeito. Você confiou em alguém que parecia agradável.
Segurei a mão dela. A humilhação continuava ali, embora parecesse menor quando dita em voz alta.
— Eu me senti descartada.
— Eu sei.
— E 6.7 é uma nota muito específica. Se ele quisesse me ofender, podia ter dado 4. Se quisesse ser educado, podia ter ficado calado. A vírgula me machucou mais.
— Você está acima de 9.
— Obrigada pela amizade e pela nota inflada.
A Rebecca riu. Dessa vez, eu ri junto. A dor ainda incomodava, porém o absurdo começava a ocupar mais espaço. Peguei o garfo e mexi na comida que já esfriara.
— Nunca mais vou ser enrolada por homem nenhum. Acabou. Eu juro por esta comida esfriada que nunca mais homem nenhum vai me levar pra cama sem eu conhecer todos os antecedentes primeiro!
Pequeno spoiler: falhei completamente nisso.
Depois de alguns minutos, consegui comer parte do almoço. Quando percebeu que eu já conseguia olhar em volta sem querer me esconder sob a mesa, ela juntou as mãos sobre o colo.
— Agora é minha vez.
Eu ainda duvidava que a burrada dela fosse grave. A Rebecca sempre fora a mais sensata das duas. Até suas decisões mais ousadas vinham depois de longas conversas e um bom planejamento. Até o trisal com Carlos e Eliana estava sendo formado com cuidado. Ela pensava nas consequências antes de cada passo.
— Pode contar — falei.
A Rebecca ficou vermelha. O tom começou no pescoço e subiu até as orelhas.
— Eu transei com o seu Geraldo no sábado.
Ok. Eu odiava acertar certas coisas que podiam ser só minha paranoia.
— O porteiro?
— O Carlos e a Eliana sabem. — Ela puxou o guardanapo e começou a dobrá-lo entre os dedos. — Eu meio que participei quase acidentalmente do que chamam de “suruba” com o Carlos, o seu Geraldo, o zelador e uma outra crente do nosso prédio.
Por alguns instantes, meu cérebro se recusou a organizar a informação. Depois, comecei a pensar em como ajudar minha melhor amiga, percebendo que a minha burrada com Enéias agora parecia uma atividade recreativa de escola bíblica.
Me foquei bastante no trabalho aquela tarde. Quando meu último paciente saiu, fechei a porta do consultório e comecei a guardar as coisas. Eu gostava de deixar o consultório organizado antes de ir embora.
Peguei o celular profissional e notei que havia uma mensagem de WhatsApp nova de um número desconhecido. A foto do contato aparecia vazia. O nome exibido era somente o número.
[Maria Joaquina]: “Boa noite, doutora Denise. Meu nome é Maria Joaquina. Preciso fazer terapia e o meu namorado indicou seu contato.”
[Denise]: “Boa noite, Maria Joaquina. Seu namorado já faz terapia comigo? Porque seria inadequado atender vocês dois individualmente. As informações de um poderiam afetar minha compreensão do outro, mesmo com todo o cuidado. Também surgiriam conflitos de confiança e privacidade. Caso ele seja meu cliente, posso indicar outra pessoa para atender você.”
[Maria Joaquina]: “Ele recebeu seu contato de uma vizinha. Ela conhece você e também não faz terapia com você.”
[Denise]: “Nesse caso, podemos conversar. Existem formas diferentes de trabalhar em terapia e cada profissional tem seu jeito. Na primeira consulta, escuto o que está acontecendo e explico como costumo atender. Depois avaliamos se o meu trabalho combina com o que você precisa.”
[Maria Joaquina]: “Posso explicar minha situação antes? É meio complicada.”
[Denise]: “Pode. Escreva da forma que ficar mais confortável.”
Os três pontinhos surgiram na tela e permaneceram por bastante tempo. Terminei de organizar o consultório e peguei a bolsa enquanto esperava. Quando a mensagem chegou, ocupou praticamente toda a tela.
[Maria Joaquina]: “O meu ex-marido me traiu várias vezes. Quando descobri tudo e me divorciei, fiquei muito mal. Um dia enchi a cara e dei pro porteiro do meu prédio. Depois entrei num trisal com esse porteiro e uma mulher que ainda é casada no papel, mas na prática é solteira. Esse trisal terminou depois de uma briga enorme e depois entrei noutro trisal. Meu namorado foi meu professor na faculdade oito anos atrás. Ele continua casado, a esposa sabe de tudo e autorizou. Eu colei velcro com a esposa dele neste fim de semana. Também rolou uma coisa com duas amigas, mas não sei se conta. Agora, a minha tia está morando temporariamente na minha casa e eu preciso impedir que ela descubra que eu e uma prima minha, que não é filha dessa tia, já demos para o mesmo porteiro. A minha tia fareja mentiras e safadezas e a minha prima é biologicamente incapaz de mentir direito. Acho que estou surtando.”
— Senhor, tem misericórdia — murmurei.
Fiquei imóvel diante da tela. Li desde o começo e depois voltei para a primeira linha. Na segunda leitura, tentei separar os acontecimentos. Na terceira, percebi que a ordem cronológica era o menor dos problemas.
A mensagem apresentava material suficiente para muitos meses de sessões. Talvez ocupasse alguns anos. E ela realmente precisava de um espaço seguro para organizar a própria história. Havia traição, perdas, um possível conflito com a própria sexualidade e relacionamentos complexos, acompanhados por uma ansiedade intensa em torno de segredos familiares.
Eu precisava saber qual parte causava mais sofrimento e se o trisal atual era seguro para ela. Também seria importante entender a relação presente com o antigo professor e a forma como todos lidavam com os limites.
[Denise]: “Pelo que você descreveu, faz sentido procurar terapia. Podemos trabalhar juntas.”
[Maria Joaquina]: “Você não vai me julgar?”
[Denise]: “Minha função é ajudar você a entender o que está sentindo, o que está fazendo e quais escolhas combinam com a vida que quer ter. A quantidade de pessoas envolvidas não muda isso.”
[Maria Joaquina]: “Obrigada.”
[Denise]: “Tenho uma vaga na quarta-feira às 16h.”
[Maria Joaquina]: “Pode ser.”
[Denise]: “A primeira consulta dura 50 minutos e custa R$ 300. O atendimento pode ser presencial ou por vídeo.”
[Maria Joaquina]: “Presencial.”
[Denise]: “Certo. Vou reservar o horário e preciso do seu nome completo para fazer o cadastro.”
Os três pontinhos apareceram de novo. Desta vez, sumiram rapidamente.
[Maria Joaquina]: “Antes preciso contar uma coisa.”
[Maria Joaquina]: “Maria Joaquina não é meu nome.”
Claro que não era.
[Denise]: “Por que usou outro nome?”
[Maria Joaquina]: “Fiquei com medo de ser exposta.”
[Denise]: “Para o atendimento, preciso dos seus dados verdadeiros. O que você contar fica protegido. Existem algumas exceções ligadas a situações graves. Explico tudo na primeira consulta.”
O aplicativo atualizou a conversa naquele instante. Talvez ela tivesse alterado as configurações de privacidade ou acabado de salvar meu número. A foto do perfil surgiu no alto da tela. Toquei para ampliar.
Era uma mulher muito bonita, aparentemente perto dos 30. Tinha o rosto levemente oval e a pele clara com um bronzeado suave. Os cabelos pretos, longos e ondulados caíam sobre um dos ombros. Ela usava óculos de aro fino e sorria de leve, formando uma covinha discreta num dos lados do rosto. A foto parecia ter sido tirada numa varanda durante o dia. Os olhos castanho-escuros transmitiam inteligência.
[Maria Joaquina]: “Meu nome é Carolina.”
Ela enviou o nome completo e os outros dados necessários. Fiz o cadastro e confirmei o horário.
[Denise]: “Sua consulta ficou marcada para quarta-feira às 16h. Vou enviar o endereço e as orientações.”
Guardei o celular na bolsa e pensei na coincidência de ter dois novos clientes na mesma semana. Acho que não tinha como aquilo dar errado.
Pois bem, leitor: Este é um one-shot que usei pra dar uma limpeza nos pensamentos antes de continuar as histórias. Os eventos daqui serão apresentados ou justificados em “Minhas coleções de calcinhas, amantes e putinhas - Parte 15” e “Quem Vai Comer a Advogada Evangélica? - Capítulo 19”.
Outros vão continuar em “Eu, minha amiga gostosa e os vizinhos dela - Parte 06”, “Quem Vai Comer a Advogada Evangélica? - Capítulo 20” e “Passando a Vara nas Vizinhas. Ou Não. - Capítulo 21”.
As perguntas que tenho para fazer são:
1) O que vocês acharam da Denise?
Ela não vai ser mais PoV, mas deve aparecer aqui e ali nas tramas da Rebecca ou quando eu por uma cena de terapia do Miguel ou da Carolina (serão bem poucas).
2) O que vocês acharam da transa do Enéias? Querem ele comendo mais mulheres na novela?
3) O que vocês acharam da transa da Denise? Querem ela transando com algum homem em específico? Preferem que ela seja protegida dos vilões?
Mas deixo claro que há um irrevogável veto da Denise com a Rebecca (amizade pura e sincera), Carolina (ética profissional) e Miguel (ética profissional).
NOTA DO AUTOR: A minha ideia do one-shot da Denise veio da junção de uma vontade minha e duas demandas dos leitores.
A minha vontade era saber como seria apresentar uma das “vítimas” da lábia do Enéias de um jeito que poderia ter acontecido com as protagonistas no velho testamento, se eu não tivesse protegido elas demais.
As demandas dos leitores era que tivesse uma representação mais positiva de personagens evangélicos, pois tirando a Rebecca, a esmagadora maioria deles eram retratados como ultraconservadores vilanescos. No máximo, tínhamos a Anacleta, que podia ser vista como covarde ou hipócrita dependendo da boa vontade do leitor.
E que tivessem mais cenas de sexo com o Enéias. Eu tentei fazer ambas aqui.
Também aproveitei pra explicar umas perguntas sobre como a Rebecca conseguia jogava videogame e praticamente futsal quando mais nova se era tão rígida. Taí, era influência da melhor amiga.