🚫 Propagandas te atrapalhando? Assine o plano premium por menos de R$3/mês. Saiba mais →

A Origem da Mistress III - A Voz

Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →
Um conto erótico de Lady Kamilla
Categoria: Heterossexual
Contém 704 palavras
Data: 05/08/2026 16:32:47

Voltei para casa com uma frase a ecoar na minha cabeça.

"A viagem está apenas a começar."

Durante dias não consegui pensar noutra coisa.

O corset continuava cuidadosamente pendurado no guarda-fatos, protegido por uma capa de tecido. Já não o via como uma simples peça de roupa.

Era um símbolo.

Não do que eu queria parecer.

Mas do que começava, lentamente, a sentir.

Na segunda-feira, acordei mais cedo.

Ainda antes de preparar o pequeno-almoço, fui até ao quarto.

Abri o guarda-fatos.

Passei os dedos pela capa.

Sorri.

Mas não a abri.

Percebi que não precisava de vestir o corset para me sentir diferente.

Fechei novamente a porta.

Naquele momento compreendi uma coisa importante.

A mudança não estava na roupa.

Estava em mim.

No trabalho, pequenas coisas começaram a acontecer.

Numa reunião, um colega interrompeu-me, como fazia habitualmente.

Durante anos eu teria parado de falar.

Esperaria pela minha vez.

Talvez até desistisse da ideia.

Desta vez não.

Esperei calmamente que terminasse.

Olhei para ele durante alguns segundos.

Sem irritação.

Sem levantar a voz.

Quando o silêncio voltou à sala, continuei exatamente na palavra onde tinha sido interrompida.

Ninguém voltou a cortar-me.

No final da reunião, uma colega aproximou-se.

— Hoje estiveste diferente.

Sorri.

— Diferente como?

Ela pensou durante alguns instantes.

— Não sei explicar... parecias muito segura.

Essa frase acompanhou-me o resto do dia.

Segura.

Nunca ninguém me tinha descrito dessa forma.

Na sexta-feira, voltei à loja.

O sino anunciou novamente a minha chegada.

A funcionária levantou os olhos e sorriu.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

— Hoje vejo um brilho diferente nos seus olhos.

Ri-me.

— Está a imaginar.

— Talvez.

Ou talvez esteja apenas a aprender a observá-la.

Percorri a loja lentamente.

Desta vez reparei numa pequena estante que nunca tinha visto.

Estava cheia de livros.

Não romances.

Livros sobre comunicação.

Psicologia.

História.

Liderança.

Linguagem corporal.

Peguei num deles.

Folheei algumas páginas.

— Confesso que não esperava encontrar isto aqui.

Ela aproximou-se.

— A maioria das pessoas também não.

Fechei o livro.

— Pensei que encontrasse apenas acessórios.

Ela sorriu.

— Os acessórios compram-se.

A presença constrói-se.

Aquela frase fez-me ficar em silêncio.

Ela continuou.

— Muitas pessoas acreditam que autoridade é falar alto.

Outras pensam que é dar ordens.

Mas a verdadeira autoridade começa muito antes disso.

Começa quando aprendemos a conhecer-nos.

Olhei novamente para os livros.

— Foi assim que aprendeu?

Ela assentiu.

— Passei anos a estudar pessoas.

Muito antes de estudar qualquer outra coisa.

A curiosidade venceu-me.

— Porque me está a contar tudo isto?

Ela olhou-me diretamente nos olhos.

— Porque vejo em si alguém que faz perguntas.

E quem faz perguntas costuma estar preparado para aprender.

Sentámo-nos junto a uma pequena mesa de madeira ao fundo da loja.

Ela trouxe duas chávenas de chá.

A conversa prolongou-se durante quase duas horas.

Falámos de confiança.

De escuta.

Da diferença entre respeito e medo.

Da importância de cumprir a palavra dada.

Em momento algum senti que estava a receber uma lição.

Era uma conversa.

Mas cada resposta fazia nascer duas perguntas novas.

Antes de sair, perguntei-lhe:

— Posso fazer-lhe uma pergunta?

Ela sorriu.

— Claro.

Respirei fundo.

— Porque continua nesta loja ao fim de tantos anos?

Ela olhou demoradamente para as prateleiras.

Depois respondeu com uma serenidade desarmante.

— Porque, de vez em quando, entra alguém que ainda não sabe quem é.

Sorri.

— Como eu?

Ela inclinou ligeiramente a cabeça.

— Como eu fui um dia.

Aquela resposta emocionou-me mais do que esperava.

Percebi que, por detrás do balcão, não estava apenas uma funcionária.

Estava alguém que também tinha feito uma viagem.

Talvez diferente da minha.

Mas igualmente transformadora.

Quando cheguei a casa nessa noite, abri novamente o meu caderno.

Na página seguinte escrevi:

"Hoje compreendi que uma Mistress não nasce quando alguém lhe obedece."

Parei alguns segundos.

Sorri.

Continuei a escrever.

"Nasce quando aprende a dominar os próprios medos, a confiar na própria voz e a caminhar sem pedir licença para existir."

Fechei lentamente o caderno.

Olhei pela janela.

As luzes da cidade pareciam exatamente iguais às de sempre.

Mas dentro de mim havia uma calma nova.

Ainda não sabia onde aquele caminho me levaria.

Sabia apenas que já não tinha vontade de voltar atrás.

Pela primeira vez, o futuro deixava de me assustar.

Começava, finalmente, a despertar a mulher que durante tantos anos vivera em silêncio.

Curta uma leitura sem interrupções.
Conheça o plano sem propagandas (R$36/ano — menos de R$3/mês) →
Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 9 estrelas.
Incentive Reynolds a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Este comentário não está disponível
Foto de perfil de Reynolds

Olá. Este espaço é destinado aos comentários sobre o conto e à troca de opiniões entre leitores e autores. Peço, por favor, que não seja utilizado para publicidade ou divulgação de contactos. Obrigada pela compreensão.

1 0
Foto de perfil de Leon-Medrado

Reynolds, na frente (ou ao lado do nome do comentador tem um pequeno círculo com três pontinhos - Ali, se você clicar, estando logada no seu perfil, terá a opção de excluir o comentário ou bloquear esse comentador. Faça uso de suas ferramentas de poder. Não permita invasões ou usos espúrios do seu conto.

1 0
Foto de perfil de Reynolds

Leon, obrigada pelo aviso e pela atenção. 😊 Confesso que ainda estou a descobrir todas as ferramentas deste site, por isso a tua dica foi mesmo útil. E sim... uma Mistress também precisa de saber quando usar as suas ferramentas de poder. 😉 Obrigada por estares atento e por ajudares a manter o espaço saudável para quem quer ler e participar.

0 0
Foto de perfil de Leon-Medrado

Kamilla, a sua história é deveras interessante, pois, vai construindo, frase a frase, a narrativa reflexiva da protagonista que vai se descobrindo, como a borboleta que era apenas lagarta, mas após o vislumbre do "corset", saiu do casulo e se torna borboleta, e vai se sentir livre para voar. É literatura, da boa, e a sutileza do processo, não revela aos leitores, nessas primeiras partes, o fator erótico a que estão acostumados, e isso prejudica um pouco a adesão ao conto. Mas, consigo antever que já está em gestação uma nova personagem dentro da borboleta, que ainda pode ser tornar abelha e rainha. Gosto da sua forma enxuta e objetiva de escrever, e da forma subjetiva de abordar os acontecimentos ou fatos. Não desanime. Continue.

1 0
Foto de perfil de Reynolds

Leon, mais uma vez surpreendes-me com a tua leitura. 😊 Gostei muito da imagem da lagarta que sai do casulo e se transforma em borboleta, porque traduz exatamente aquilo que quero construir nesta história: não quero que a Mistress apareça pronta, quero que nasça aos poucos, através das pequenas descobertas da protagonista.

Também compreendo a tua observação sobre o fator erótico. Estou a tentar encontrar esse equilíbrio entre aquilo que o leitor espera encontrar num conto deste género e aquilo que considero importante para a transformação da personagem. Talvez esteja a deixar o fogo demasiado escondido... mas ele está lá. 😉

E agora fiquei presa à tua própria metáfora: primeiro borboleta e depois abelha e rainha? Talvez essa evolução ainda nos reserve algumas surpresas.

Obrigada por continuares a ler com tanta atenção e por me desafiares a olhar para a minha própria escrita de outra forma. Não vou desanimar. Pelo contrário... estou cada vez mais curiosa para descobrir onde esta Mistress me vai levar.

0 0

Listas em que este conto está presente

Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →