Kelly começou a gaguejar, olhando para Jerry. Antes que ela proferisse palavras que poderiam magoá-la e a si próprio, Chuck se levantou:
- Eu estou indo. Não quero mais causar problemas. Não mais...
Quando a porta se fechou atrás de Chuck, Jerry sabia que aquilo não era o fim. Só não sabia que era o começo de algo que ele nunca imaginara viver em sua vida...
[CONTINUANDO]
Chuck cumpriu a palavra. Parcialmente...
Nos dias que se seguiram àquela noite, ele não apareceu, não telefonou, não mandou mensagem. Sumiu como se tivesse retornado àquela maldita ilha que o ceifou da sua vida antiga, mas agora com ele preferindo permanecer nela.
Jerry esperava sentir alívio com isso. Esperava que o aperto constante no peito diminuísse, que o ar voltasse a circular com mais facilidade dentro de casa, que as manhãs voltassem a ter a leveza de antes. Em vez disso, encontrou outra coisa: um silêncio diferente. Mais denso. Mais perigoso. Um silêncio que não era ausência, mas presença invisível.
Kelly não sabia exatamente o que se passava no peito do marido, mas sabia que a presença de Chuck o magoava. Decidiu se deixar levar pela correnteza e não falar mais sobre ele. Evitava o nome como quem evita tocar numa ferida ainda aberta e infeccionada. Mas o corpo dela denunciava outra coisa. Ela passou a acordar de madrugada, quase sempre entre as três e as quatro, e ficava tempo demais parada na janela da cozinha, olhando a rua vazia como se esperasse faróis que nunca vinham. Mexia no celular com uma frequência que não tinha antes, desbloqueando a tela só para conferir se havia alguma notificação e depois bloqueando de novo, frustrada consigo mesma. Ria menos das brincadeiras de Katie. E, quando achava que ninguém via, passava a mão no bolso do robe como se procurasse alguma coisa que não estava mais lá. Talvez um relógio antigo? Talvez. Ou apenas a memória de um gesto.
Jerry observava tudo em silêncio. Ela não notava, mas ele estava atento a tudo. Às vezes, se pegava contando os dias. Contando os atos. Contando os fatos...
Na terça-feira, notou que ela havia queimado o café da manhã pelo segundo dia consecutivo. Na quarta, a viu parada em frente ao espelho do banheiro por quase cinco minutos, sem fazer nada além de olhar o próprio rosto como se não o reconhecesse. Na quinta, quando Katie perguntou, inocente, se o “tio Chuck” viria jantar, Kelly respondeu rápido demais:
- Não, filha. Ele… Ele não vem. Ele... – Sua voz embargou: - Ele está ocupado.
Jerry sentiu o estômago revirar.
Na sexta-feira à tarde, enquanto Katie tirava a soneca, ele encontrou Kelly sentada na beira da cama, com as mãos entrelaçadas no colo e o olhar perdido numa parede branca. Não precisou perguntar. Ela mesma falou, a voz baixa:
- Eu acho que preciso de ajuda.
Ele se sentou ao lado dela:
- Que tipo de ajuda? Dele, do Chuck!?
- Não, Jerry. Profissional. - Kelly respirou fundo e o olhou: - Eu não estou conseguindo me entender. Amo você. Amo a nossa filha. Amo a vida que construímos. E, ao mesmo tempo, tem uma parte de mim que ainda… que ainda precisa de algo que parece que só ele pode me dar. Eu não sei o que fazer com isso. Tenho medo de estragar tudo.
Jerry ficou em silêncio por um momento, olhando perdidamente para a esposa. Depois assentiu:
- Eu também tenho medo. Mas se você acha que precisa de ajuda, a gente encontra alguém.
Na segunda-feira seguinte, Kelly estava sentada na sala de espera de uma clínica discreta no centro da cidade. A terapeuta se chamava Dra. Laura Mitchell. Mulher de meia-idade, cabelos curtos grisalhos, voz calma e olhos atentos que pareciam não se surpreender com nada. O consultório era simples: duas poltronas, uma mesa baixa com um vaso de lavanda, uma janela que dava para uma árvore:
- Me conte o que a trouxe aqui, Kelly. – Pediu Laura, depois das apresentações.
Kelly demorou a começar. Quando falou, as palavras saíram em blocos desiguais, como se ela mesma as estivesse organizando pela primeira vez:
- Eu sou casada. Amo meu marido. Temos uma filha de três anos. Há alguns meses, um homem que eu amei profundamente, e que eu acreditava estar morto há anos, voltou. A senhora deve ter ouvido falar dele no noticiário? Chuck. Chuck Noland.
A terapeuta a encarou por sobre os óculos por um segundo e balançou a cabeça afirmativamente, já antevendo que traumas muito mais sérios e profundos poderiam estar surgindo:
- O náufrago... – Dra. Laura falou baixo: - Eu o assisti num programa há alguns dias.
- Sim. Ele mesmo. Ele sobreviveu a um acidente de avião e ficou isolado numa ilha. – Kelly apertou as próprias mãos: - Quatro anos! Ficou lá sozinho por quatro anos... Eu... Ele... A gente estava noivos, apaixonados, sonhávamos em nos casar. E ele sumiu por quatro anos... Agora, quando retornou, eu já tinha reconstruído minha vida. Casei. Tive uma filha. E agora… agora ele está de volta, e eu descubro que uma parte de mim nunca o deixou ir de verdade.
Laura olhava a mulher com compaixão, já imaginando o que se passava dentro de sua alma. Anotou alguma coisa num caderno, sem pressa:
- E o que essa parte sente, Kelly?
- Como assim!?
- Você disse que uma parte nunca o deixou ir de verdade...
Kelly a encarou, sua face ficando ruborizada de algo que ela não conseguia confessar a si mesma. A terapeuta insistiu:
- O primeiro passo para superar uma situação, é reconhecê-la de fato.
Kelly suspirou profundamente:
- Saudade, eu acho... Talvez culpa, medo... Tudo ao mesmo tempo. - Kelly apertou as mãos no colo novamente: - Desejo... Eu olho para o meu marido e vejo o homem que me segurou quando eu estava despedaçada. O homem que me deu estabilidade, carinho, uma família. Eu o amo. De verdade. Mas quando penso em Chuck… é como se uma porta antiga se abrisse de novo. Uma porta que eu achava ter trancado para sempre.
- O que você sente pelo seu marido... – Disse a terapeuta, rabiscando algo sem encarar Kelly: - Você não estaria confundido gratidão com amor? Afinal, ele te ajudou no seu momento mais difícil...
- Não! Claro que não... Talvez no começo. Mas eu aprendi a amar o Jerry. Ele é um homem bom e justo.
- Justo... – Resmungou a terapeuta: - E se o Jerry não existisse. Você teria voltado com o Chuck?
- Acho que sim. – Kelly respondeu rápido demais e se corrigiu: - Ou não. Afinal, é tudo tão diferente.
- Você sente que precisa viver esse amor com o Chuck, Kelly? - Perguntou a terapeuta, encarando-a diretamente.
Kelly demorou a responder. Quando o fez, a voz saiu quase em confissão:
- Não sei se viver seria a palavra correta. Mas eu preciso resolvê-lo. Eu não sei o que é exatamente. Se é toca-lo... Se é apenas olhar nos olhos dele uma última vez e dizer tudo o que não foi dito. Mas a sensação de incompletude está me corroendo. E quanto mais eu tento ignorar, mais forte ela fica.
Laura inclinou-se levemente para a frente:
- Muitas pessoas acreditam que o amor verdadeiro é exclusivo. Que se amamos um, não podemos amar outro. Mas o coração humano é muito mais complexo do que isso. É possível amar duas pessoas de formas diferentes, em intensidades diferentes, por razões diferentes. O dilema não está em sentir. Está em decidir o que fazer com o que se sente, sem destruir o que já existe.
Kelly engoliu em seco:
- Está me dizendo que eu devo viver esse amor, ou seja lá o que for, pelo Chuck?
- Essa é uma decisão que somente você poderá tomar.
- E se eu não souber decidir?
- Então, a gente trabalha para que você descubra o que realmente precisa e tome uma decisão madura. Não uma decisão que a sociedade espera, nem o que o medo dita. Mas sim aquilo que você precisa para não se perder de si mesma.
A sessão durou cinquenta minutos. Kelly saiu da clínica com os olhos vermelhos, mas com uma sensação estranha de alívio. Combinaram dela retornar na próxima semana, o que se repetiria por muitas e muitas vezes ainda. Pela primeira vez em semanas, alguém havia colocado em palavras o caos que ela sentia que carregava dentro de si.
Nas sessões seguintes, o trabalho foi mais profundo. Laura a fez falar sobre o dia em que recebeu a notícia do acidente, sobre os meses de luto ambíguo, sobre a luta para se manter viva, sobre a ajuda dada por Jerry, sobre o momento em que aceitou o pedido de casamento dele. E foi aqui que ela revelou algo, que não o fizera só por amor, mas também por necessidade de se agarrar a algo sólido:
- Então, você não amava o Jerry quando decidiram se casar?
- Eu gostava muito dele. De verdade! Hoje, eu o amo. Não tenho dúvidas. E sei que ele está sofrendo também.
Laura, inadvertidamente, a fez admitir o desejo que ainda sentia por Chuck. Kelly, sem querer, revelou uma fantasia ocasional em que ela, Chuck e Jerry interagiam intimamente, bem como a culpa que vinha logo depois. E, principalmente, a fez encarar o medo maior: o de que, ao tentar proteger o casamento, ela estivesse se traindo de um jeito silencioso e irreversível:
- Eu acho que é isso também. Tenho medo de acordar daqui a dez anos e descobrir que enterrei uma parte de mim só para manter tudo intacto. E tenho medo, ao mesmo tempo, de destruir a única coisa boa que construí depois de quase me perder.
Laura respondeu com calma:
- Proteção e traição de si mesma às vezes usam a mesma roupa. O trabalho é aprender a distinguir uma da outra.
Enquanto isso, em casa, Jerry observava as mudanças sutis. Kelly voltava das sessões mais quieta, às vezes mais presente, às vezes mais distante. Uma noite, depois de colocar Katie para dormir, ele a encontrou sentada no sofá da sala, com uma taça de vinho na mão, as luzes apagadas e apenas a televisão ligada no mudo. As luzes do aparelho traçavam um estranho balé em seu rosto, às vezes mostrando tranquilidade, às vezes mostrando tensão.
Ele se sentou do outro lado do sofá, sem falar, perguntar... Nada! Só estava ali, presente. E ela notou, forçando-se a dar um sorriso que nada representava o caos que vivia por dentro:
- Como foi hoje? – Ele perguntou, baixo.
Kelly não desviou o olhar dele imediatamente:
- Complicado. Mas necessário.
- Quer me contar?
Ela respirou fundo, como quem se preparava para um golpe que já não podia ser evitado:
- A Laura disse que é possível amar duas pessoas. Que o problema não é sentir. É o que a gente faz com o sentimento.
Jerry sentiu o peito apertar:
- Você o ama? É isso que quer me dizer?
- Não é simples, Jerry.
Ele suspirou, olhando para a televisão. Continuou:
- E o que você quer fazer?
Kelly novamente virou o rosto para ele. Havia lágrimas nos olhos, mas ela não deixou que caíssem de imediato:
- Eu... acho que ainda sinto algo por ele, Jerry. Não do mesmo jeito de antes. Não com a mesma inocência. Mas o amo. E isso me assusta mais do que qualquer coisa que já senti. Ao mesmo tempo, eu também te amo e de uma forma que eu nunca amei o Chuck antes. É... um jeito diferente, mais adulto, mais real... Você me segurou quando eu estava quebrada, me mostrou que a vida não havia acabado, e construiu algo novo comigo, me deu uma filha, uma família, um motivo para continuar. Eu nunca vou deixar de te amar.
Jerry a encarou e fechou o semblante por um instante. Kelly engoliu em seco:
- Você me ama, ou está comigo por comodidade, Kelly? Ou pior ainda, por gratidão?
Agora era Kelly quem se surpreendia, os olhos arregalando-se levemente. Ela se levantou e foi se sentar ao lado dele, pousando uma mão sobre a dele:
- É claro que eu te amo. Não tenho dúvida alguma quanto a isso. E, por favor, não duvide de meus sentimentos.
Jerry sorriu brevemente. Afinal, há tempos não ouvia aquela doce confissão. Então, perguntou:
- Mas... Então... Por que parece que parte de você ainda está esperando por ele?
- Porque talvez eu esteja... - Respondeu ela, sem rodeios: - Uma parte pequena, teimosa, egoísta… ainda esperava ele voltar daquele maldito voo. Mas não que ele volte para me levar. Isso já passou! E eu não seria capaz de destruir o que criamos. Mas como alguém que espera a devolução de algo que foi roubado, entende? Ou talvez, falte algum tipo de despedida que nunca aconteceu. Ou… algo que eu ainda não entendi. Eu não sei. A terapia está me ajudando a entender algo que eu não sei.
Jerry passou a mão pelo rosto, cansado:
- Eu tenho medo, Kelly. Medo de perder você. Medo de acordar um dia e descobrir que a mulher que está ao meu lado já não é mais a mesma. Medo de que Katie sinta, mesmo sem entender, que tem algo quebrado aqui dentro. Medo de que eu não seja suficiente.
Kelly tocou o rosto dele:
- Então, talvez você também precise entender que eu não sou mais a mesma. Mas estou fazendo de tudo para não te magoar nesse processo, Jerry.
- Eu tenho medo... – Jerry insistiu, sem outros argumentos.
- Eu também. Medo de descobrir que o amor que sinto por ele é maior do que eu quero admitir. E medo de que, se eu o mandar embora de vez, uma parte de mim vá junto e me deixe perdida. Eu já sofri demais. Não sei se aguento sofrer mais essa.
Jerry ficou em silêncio. A televisão apresentava um programa de auditório qualquer, alheio ao drama do casal. Lá fora, um carro passou devagar pela rua:
- Eu queria odiar ele... - Confessou Jerry, a voz rouca: - Queria mesmo. Seria mais fácil. Mas toda vez que penso naquele homem, vejo alguém que perdeu quase tudo. Alguém que sobreviveu ao impossível. E eu não consigo odiar alguém assim. Isso me deixa ainda mais perdido. Porque se eu pudesse odiá-lo, talvez conseguisse protegê-la melhor.
Kelly entrelaçou seus dedos nos dedos das mãos dele, e sorriu aquela confissão:
- Isso só prova que você é um bom homem, o suficiente para me deixar essa dúvida viva. Só espero que você não perca a esperança de que isso passe.
Jerry apertou levemente os dedos nos dela:
- Eu tenho esperança de que a gente encontre um caminho justo. Mas não qualquer caminho, não um que seja torto, nem que doa. Eu só… não quero que a Katie sofra, nem quero perder você no processo. Muito menos a mim mesmo.
Finalmente, uma lágrima desceu pela face de Kelly. Discretamente, ela limpou a face e encarou Jerry novamente:
- Eu também não quero te perder, nem a nossa família. A Laura disse uma coisa hoje… Disse que, às vezes, a gente precisa atravessar o fogo para descobrir o que realmente é feito de cinza e o que ainda pode queimar sem se destruir.
Jerry olhou para ela. No escuro, os olhos dele brilhavam com algo que não era só medo. Havia também uma exaustão profunda e, por baixo dela, uma faísca de determinação. Kelly parecia ver outra coisa:
- E se a gente precisar dele de algum jeito? - Perguntou Kelly, a voz quase temerosa: - Não como uma ameaça. Mas como parte do que ainda precisa ser resolvido. Como alguém que carrega um pedaço da minha história que eu não consigo carregar sozinha.
Jerry olhou para a televisão e se calou. Demorou a responder. Quando falou, a voz saiu baixa, cuidadosa:
- Eu não sei como resolver isso. Só não quero mentiras entre a gente. E qualquer coisa que aconteça, ou que você decida... Eu peço que me avise. Eu preciso saber que estamos os dois do mesmo lado. E se não estivermos, mesmo que doa, eu prefiro a verdade.
Kelly assentiu com um lento movimento de cabeça. Outra lágrima escapou e escorreu pelo seu rosto. Agora foi Jerry que a enxugou com o polegar.
Eles ficaram assim por um tempo longo, de mãos dadas no escuro, a televisão iluminando os rostos cansados. Não havia uma solução. Não havia um pedido de desculpas, nem um perdão completo. Nada. Nem mesmo um plano. Era apenas a primeira verdade dita sem máscaras, depois de semanas de silêncios e medos acumulados.
Lá fora, o vento balançava as árvores. Dentro da casa, o silêncio agora era outro, menos hostil, mas muito mais perigoso. Porque pela primeira vez os dois haviam admitido, sem rodeios, que o mar não havia levado tudo. E o que maré havia trazido, ainda precisaria ser enfrentado, juntos.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
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