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O Começo do Fim

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2186 palavras
Data: 31/08/2026 21:56:54
Última revisão: 31/08/2026 22:02:00

A mensagem de Cristiano continuava acesa na tela do meu celular durante todo o caminho até a casa dele. “Meu pai, ele me encontrou”. Há frases que deveriam vir acompanhadas de instruções. Essa, por exemplo, poderia dizer: “não corra, não imagine o pior, não transforme cinco palavras numa tragédia inteira antes de chegar ao endereço”. Naturalmente, fiz as três coisas.

A cidade, àquela hora, parecia ter decidido colaborar com a minha ansiedade. Todas as ruas eram longas demais, todos os carros andavam devagar demais, um menino atravessou a rua diante de mim com a tranquilidade de quem jamais precisou receber uma mensagem dizendo que o pai de alguém o encontrou.

Quando finalmente cheguei, a motocicleta de Cristiano estava diante da casa. O portão estava fechado, a janela da frente, aberta, e havia luz na cozinha. Bati uma vez, nenhuma resposta. Bati de novo.

— Cristiano?

O trinco se moveu, ele abriu a porta. Não estava machucado, essa foi a primeira coisa que verifiquei. A segunda é que, mesmo sem nenhum sinal visível de violência, havia alguma coisa profundamente errada em seu rosto. Cristiano parecia mais velho, não sei explicar melhor. É como se aquelas cinco palavras tivessem acrescentado anos de idade a ele durante apenas uma tarde.

— Você veio.

— Você mandou eu vir.

— Eu sei.

— Então por que está surpreso?

Ele se afastou para que eu entrasse. A casa estava abafada, a televisão estava ligada sem volume. Havia um copo de água sobre a mesa e, ao lado dele, um molho de chaves.

— O que aconteceu?

Cristiano fechou a porta.

— Nada ainda.

— Isso não é uma resposta.

— É a que eu tenho.

— Ele esteve aqui?

Cristiano passou a mão pelo rosto.

— Não.

— Então como sabe que ele está atrás de você?

— Porque eu apareci lá em casa.

Meu estômago apertou.

— Na casa da sua mãe?

Ele assentiu.

— Ele ainda mora lá. Com ela. Com meu irmão.

A lembrança me atravessou. Cristiano não tinha simplesmente saído de casa, ele tinha fugido dela.

— Ele viu você?

— Não.

— Então como sabe que ele te tá atrás de você?

— Meu irmão me ligou.

Ele pegou o celular e o deixou sobre a mesa.

— Disse que meu pai tava perguntando onde eu moro. Se eu ainda trabalhava no mesmo lugar. Com quem eu andava.

Fiquei olhando para ele.

— Seu irmão ligou escondido?

— Do banheiro.

A resposta era baixa.

— Ele disse que meu pai ficou perguntando por mim. Minha mãe não falou nada. Só ficou parada na cozinha, como sempre.

Cristiano apertou os dedos contra a palma da mão.

— Meu irmão desligou antes que ele percebesse.

— Você contou pra polícia?

Cristiano riu. Era um som baixo e sem qualquer humor.

— Polícia?

— Sim.

— Mateus...

— O quê?

— Meu pai não é um bandido.

— Isso quer dizer o quê?

Ele se aproximou da pia.

— Quer dizer que você acha que as coisas são simples porque, na sua casa, quando alguma coisa dá errado, alguém conversa bonitinho e todos se acertam, como num desenho infantil.

A frase me atingiu, Cristiano percebeu imediatamente. A expressão dele mudou.

— Desculpa.

— Não. Tudo bem.

— Não tá.

— Cristiano.

— Eu não devia ter falado assim.

— Mas falou.

Ele apoiou as duas mãos na pia, ficamos alguns segundos olhando para o mesmo azulejo rachado.

— O que você vai fazer? — perguntei.

— Não sei.

A sinceridade me assustou mais do que qualquer resposta. Cristiano quase sempre sabia alguma coisa prática, como consertar uma peça, quanto custava uma conta atrasada, como fazer uma motocicleta voltar a funcionar depois de parecer definitivamente morta. Mas não sabia o que fazer com o próprio pai.

— Ele pode vir aqui?

— Pode.

— Você quer ficar na minha casa?

Ele olhou para mim.

— Com seus pais?

— Eles não vão te expulsar.

— Não é isso.

— Então o que é?

Cristiano se afastou da pia.

— Eu não quero virar problema seu.

A frase permaneceu no ar. Pensei em responder imediatamente, não respondi. Porque, pela primeira vez, percebi que existia uma pergunta escondida nela: quanto de mim você aguenta? E, pior, percebi que não sabia se tinha coragem de responder.

________________________________________

Dois dias depois, Sandra me chamou à sua sala. O escritório dela ficava no segundo andar do galpão e tinha uma janela de onde se via quase tudo: os caminhões entrando, os homens gritando instruções, as ferramentas espalhadas, a cidade crescendo depois do muro como se aquele lugar fosse apenas uma engrenagem pequena dentro de uma máquina muito maior.

— Pode fechar a porta, Mateus?

Era uma frase inocente, mas ninguém gosta de ouvir isso. Fechei, Sandra tirou os óculos.

— Você está preocupado com alguma coisa?

— Fiz alguma coisa errada? – perguntei de imediato.

— Não.

— Quebrei alguma coisa?

— Ainda não.

— Então é uma conversa boa?

Ela sorriu.

— Você é engraçado quando está nervoso.

— Eu estou tranquilo.

— Está tremendo a perna.

Olhei para baixo, estava mesmo.

— Traição do corpo.

Sandra riu. Havia alguma coisa confortável nela, talvez porque ela conhecia minha mãe há anos. Talvez porque ela fosse o tipo de adulta que não precisava levantar a voz para fazer uma conversa parecer séria.

— Seu pai me procurou.

Meu pé parou de se mover.

— Meu pai?

— Sim.

— Ele reclamou de mim?

— Não.

— Então é pior.

— Mateus.

— Desculpa.

Sandra se inclinou sobre a mesa.

— Ele está preocupado com você.

Isso, de algum modo, me deixou mais desconfortável.

— Minhas notas?

Ela assentiu.

— Seu pai disse que você sempre foi muito bom aluno.

— Que maneira educada de dizer que deixei de ser.

— Ele disse que você está cansado.

— Estou.

— E que este é seu último ano.

Olhei para a janela. Lá embaixo, Cristiano passava pelo pátio, estava carregando uma caixa, por alguns segundos, esqueci a conversa. Sandra percebeu para onde eu estava olhando.

— Você tem potencial.

Me voltei para ela.

— Eu?

— Sim, você.

— A senhora está tentando me demitir com delicadeza?

— Estou tentando dizer que este emprego nunca foi para ser permanente.

Havia alguma coisa cruel nas verdades quando elas vinham de alguém que não pretendia machucar.

— Eu sei.

— Sabe?

— Sei.

— Então por que está com essa cara?

Não respondi, ela esperou.

— Porque eu gosto daqui.

Sandra sorriu.

— Eu também.

— Não é só isso.

— Eu sei - ela disse, sorrindo.

Olhei novamente para o galpão, Cristiano já havia desaparecido atrás de um caminhão.

— Seu pai quer que você pare de trabalhar — ela diz.

Meu peito apertou.

— Agora?

— Em breve.

— Quando?

— Ele queria que fosse imediatamente.

— E a senhora?

— O convenci a esperar o fim do mês.

— Obrigado.

— Não agradeça ainda.

— Por quê?

— Porque eu concordo com ele.

A frase me fez rir.

— Claro que concorda.

— Você precisa estudar, Mateus.

— Eu estudo.

— Menos do que deveria.

— Isso é verdade.

— Faculdade não é uma coisa que você faz quando sobra tempo.

Olhei para as minhas mãos.

— Eu sei.

— Seu pai quer que você tenha opções.

A palavra ficou comigo, opções, que palavra bonita para quem tem o privilégio de as ter. Pensei em Cristiano, que pensava no aluguel do barraco, enquanto eu pensava no vestibular. Ele calculava o preço do gás, já eu calculava notas. Eu sempre soube disso, mas saber uma coisa e a ver sentada diante de você, usando óculos e falando calmamente, são experiências completamente diferentes.

— Eu posso terminar o mês? — perguntei.

— Pode.

— E depois?

Sandra sorriu.

— Depois você vai embora daqui.

________________________________________

Não contei a Cristiano, não naquele dia, nem no seguinte. O segredo durou quarenta e oito horas, foi menos do que eu gostaria de admitir e mais do que Cristiano gostaria de descobrir. Estávamos no galpão, perto do fim do expediente, quando ele apareceu ao meu lado.

— Você tá estranho.

— Não tô.

— Tá.

— Você e Luquinhas fizeram um combinado?

— Ele também falou isso?

— Não importa.

Cristiano cruzou os braços.

— Tá escondendo alguma coisa.

— Não estou.

— Mateus.

— Cristiano.

Ele estreitou os olhos.

— Odeio quando você faz isso.

— O quê?

— Repete meu nome como se eu fosse burro.

— Você não é burro.

— Então fala.

Olhei ao redor, Luquinhas estava do outro lado do pátio, Sandra ainda estava no escritório, os últimos caminhões saíam lentamente.

— Depois.

— Não.

— Cristiano...

— Depois, não.

Havia uma irritação diferente em sua voz, não era a irritação cotidiana. Era medo procurando uma roupa para vestir.

— Por que você está bravo? — perguntei.

— Porque você está escondendo alguma coisa.

— E se eu estiver?

Ele ficou imóvel, a pergunta parecia ter escapado de mim.

— Você tá fazendo o quê?

Respirei fundo.

— Meu pai quer que eu pare de trabalhar aqui.

Cristiano não disse nada.

— Para estudar.

Nada.

— É meu último ano.

Ele olhou para o chão.

— Ah.

A mesma palavra, o mesmo som. Dessa vez, no entanto, reconheci, era o som de alguma coisa caindo.

— Eu vou terminar o mês — continuei — Não é amanhã.

— Tá.

— Cristiano.

— Tá, Mateus.

— Fala alguma coisa.

Ele pegou uma ferramenta da bancada.

— O que você quer que eu fale?

— Qualquer coisa.

— Parabéns?

— Não faz isso.

— Fazer o quê?

— Fingir que não importa.

Ele colocou a ferramenta de volta.

— Você queria que eu fizesse o quê? Te pedisse pra ficar?

A pergunta cortou o ar.

— Não.

— Então pronto.

— Não é assim.

— É exatamente assim.

A voz dele continuava baixa, isso me deixou ainda mais nervoso.

— Você sempre soube que ia sair daqui – ele continuou.

— Eu sei.

— Você falava disso.

— Eu sei.

— Faculdade. Cidade grande. Tudo isso.

— Cristiano...

— Eu sabia.

Ele finalmente olhou para mim e havia alguma coisa no rosto dele que eu não conseguia suportar. Não porque estivesse chorando, Cristiano não chorava. Pelo menos, nunca diante de mim. Era algo pior, ele parecia ter esperado por aquilo, como se uma parte dele estivesse preparada desde o começo para o momento em que eu confirmaria que tinha data de validade.

— Eu não estou indo embora da sua vida — disse.

Cristiano riu, dessa vez, quase com raiva.

— Não fala como se soubesse.

— A gente vai continuar se encontrando.

— Vamos?

— Claro.

— Entre a faculdade, a cidade grande, seus amigos novos, seus concursos, seus livros?

— Por que você está sendo assim?

— Porque você tá tentando transformar despedida em promessa.

A frase me deixou sem resposta, Cristiano se aproximou. Não havia ninguém perto o suficiente para ouvir.

— Você não precisa mentir pra mim, Mateus.

— Eu não estou mentindo.

— Não?

Ele olhou para o galpão, depois para mim.

— Você vai embora.

— Um dia.

Ele balançou a cabeça.

— De novo isso.

Me lembrei imediatamente da noite em sua casa, daquela pergunta.

“Você vai embora?”

Da minha resposta.

“Um dia.”

Cristiano apertou a mandíbula.

— Pra você, isso é futuro.

— E pra você?

Ele demorou.

— Pra mim, é só você indo embora.

A frase me desmontou de uma maneira tão silenciosa que ninguém perceberia, ninguém além dele. Cristiano desvia o olhar primeiro.

— Vai estudar, Mateus.

— Cristiano.

— Sério.

Ele tentou sorrir.

— Você não vai ficar carregando caixa comigo pra sempre.

— Talvez eu quisesse.

— Não.

A resposta foi imediata, quase brutal.

— Não ia mesmo.

Ele pegou as próprias coisas.

— E nem deveria.

— Você está terminando comigo?

Cristiano riu de novo.

— Olha só.

— Estou perguntando.

— Você sempre acha que alguém está rejeitando você porque nunca teve que ser expulso de lugar nenhum.

A frase me atingiu, ele percebeu tarde demais. Fechou os olhos.

— Merda.

— Cristiano...

— Eu não devia ter falado.

— Mas falou.

Ficamos olhando um para o outro. Ao fundo, Luquinhas deixou cair alguma coisa, o barulho pareceu absurdo de tão distante.

— Meu pai está atrás de mim — Cristiano disse, de repente.

Não sei por que ele escolheu aquele momento, talvez porque não existisse um bom momento.

— Eu sei.

— Não, você não sabe.

Ele deu um passo para trás.

— Você não sabe como é viver sem saber se alguém vai aparecer pra destruir o pouco que você conseguiu arrumar.

— Então deixa eu ajudar.

Cristiano olhou para mim.

— É isso que você não entende.

— O quê?

— Eu não quero que você me ajude a sobreviver.

A frase me paralisou.

— Então o que você quer?

Ele pareceu prestes a responder, não respondeu. Porque, naquele instante, uma voz chamou seu nome do portão, Cristiano ficou branco. Eu me virei, um homem estava parado do lado de fora. Não precisava perguntar quem era, os dois eram terrivelmente parecidos.

Cristiano não se moveu e, pela primeira vez desde que o conheci, vejo o rapaz que sempre pareceu pronto para enfrentar o mundo inteiro voltar a ser alguém muito mais novo. Alguém que, de repente, não sabia para onde correr.

— Cristiano? — o homem chamou outra vez.

Cristiano manteve os braços junto ao corpo, os dedos fechados ao lado das pernas, como se qualquer movimento pudesse revelar mais do que pretendia. E eu fiquei ao lado dele, tentando parecer apenas mais uma pessoa no galpão.

Então o homem atravessou o portão.

_________

Veja você, arco-íris já mudou de cor, uma rosa nunca mais desabrochou. Não quero ver você, com esse gosto de sabão na boca

Arco-íris já mudou de cor, uma rosa nunca mais desabrochou. Não quero ver você, eu não quero ver

Veja meu bem, gasolina vai subir de preço. Eu não quero nunca mais seu endereço, ou é o começo do fim, ou é o fim

Eu vou partir, pra cidade garantida, proibida. Arranjar meio de vida, margarida, pra você gostar de mim

Essas feridas da vida, margarida. Essas feridas da vida, amarga vida. Pra você gostar, pra você gostar de mim

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Comentários

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Mateus, acabei de ler com o coração esmagado e a reiterada perplexidade de querer e não conseguir entender como você não está publicando livros...

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Ahh Mateus, assim você quebra seus leitores!! Será que Cristiano vai virar mais um na vida de Mateus?

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Os dois são jovens com dores e amores e vivências diferentes, contudo um diálogo com os pais poderia ajuda-los a tentar uma solução ao futuro dos dois?

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Ah, Mateus, por que escreves tão bem assim?! Este capítulo me deixou sem norte e com lágrimas nos olhos... Essa incomunicabilidade entre Mateus e Cristiano é algo sufocante, desconcertante, desequilíbrio total. E essa canção no final foi, digamos, dilacerante. Ponto

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