MENTIRAS PERFEITAS
Capítulo 9 – Depois da Caçada
Parte 1 – O nome que não podia ser dito
A sala da chácara ainda cheirava a pólvora, poeira e madeira velha. O vidro quebrado espalhava reflexos irregulares pelo chão, iluminado pelas lanternas dos agentes que entravam e saíam, revistando cada cômodo, cada armário, cada canto escuro onde Renato poderia ter escondido documentos, armas ou alguma última armadilha.
Renato estava algemado, de joelhos, respirando com dificuldade. O rosto mantinha a arrogância, mas os olhos já não sustentavam a mesma confiança. Havia raiva ali. Havia humilhação. E havia, acima de tudo, incredulidade. Ele havia perdido. Diante de todos. Diante de Beatriz. Diante de Jonathan. Diante de Fred.
Fred permaneceu sentado no chão por alguns segundos, abraçado à esposa e ao filho, como se o corpo demorasse a compreender que os dois estavam vivos. Beatriz tremia, mas não se afastava dele. Pelo contrário, buscava com força o abraço e encontrava nele conforto. Jonathan, com o rosto marcado pelo tapa de Renato, segurava o braço do pai com força.
— Acabou? — perguntou Beatriz, a voz quase sem som.
Fred olhou para Renato sendo puxado por dois agentes.
— A parte dele, sim.
Mas a resposta não convenceu nem a ele mesmo.
Enquanto Renato ainda cuspia ressentimentos contra Fred, uma movimentação quase imperceptível atravessou a entrada da chácara. Poucos notaram a presença de Helena Costa no primeiro instante. Ela surgiu sem anunciar a própria chegada, mantendo-se nas sombras laterais da sala, longe do campo de visão de Renato, como se cada passo tivesse sido calculado para não interromper o interrogatório emocional que ele mesmo parecia disposto a prolongar.
Travando os pés no piso da chácara antes de ser arrastado pelas equipes, Renato buscou desferir seu último ataque psicológico contra o irmão, elevando o tom de voz para inflamar o ressentimento que Amanda plantara em seu peito desde a infância:
— Você acha que venceu, não é, Frederico? — sibilou Renato, a voz carregada de ódio. — Olhe para você, bancando o protetor... Você sempre foi o escolhido, o queridinho do papai, o centro das atenções daquela casa e da empresa. Mas a verdade é que você é um miserável. Você sequer conheceu a sua própria mãe! Passou a vida inteira vivendo pela lembrança de uma mulher de quem nem lembra o rosto! Eu, pelo menos, tive uma mãe de verdade. Eu tive a Amanda presente, cuidando de mim, me protegendo enquanto o nosso pai fingia que eu não existia! A minha mãe estava lá todos os dias, Fred! Mas o velho Fernando a ignorava. Ele a tratava como um fantasma dentro daquela casa, sempre lembrando, sempre comparando a Amanda com a sua perfeita e falecida Cristina! Ele transformava o nosso lar em um santuário de adoração para uma morta, reduzindo a minha mãe a uma sombra de conveniência carnal!
Fred levantou-se lentamente do chão, ignorando a dor na costela, e deu dois passos firmes na direção de Renato. Quando respondeu, sua voz saiu linear, cortante como o metal de um bisturi:
— Você sabe perfeitamente o que a sua mãe fez para casar com o meu pai, Renato. Você sabe que ela se aproveitou da vulnerabilidade de um viúvo destruído pelo luto e engravidou por um suposto descuido planejado para garantir uma herança e um sobrenome. O nosso pai sempre a tratou com o mais absoluto respeito e dignidade dentro daquela casa, Renato. Ele deu a ela uma vida de posses e estrutura que ela jamais teria de outra forma. Mas não se força o amor. O nosso pai nunca deixou de amar a minha mãe. Sua mãe sabia disso quando decidiu engravidar dele e você passou a vida inteira transformando a frustração da ambição da sua mãe em uma obsessão doentia contra mim.
Enquanto Renato permanecia de joelhos, focado unicamente em Fred e de costas para a entrada principal, a silhueta de Helena Costa cruzou a soleira da chácara de forma silenciosa e cirúrgica. Ela se moveu com precisão tática pelos cantos da sala, mantendo-se estrategicamente fora do raio de visão de Renato.
Ao erguer os olhos ainda vermelhos de choro, Beatriz viu a mulher loira parada à distância, parcialmente encoberta pelas lanternas táticas. O reconhecimento veio antes da explicação. O rosto, os traços, a presença impossível naquele lugar: era a mesma mulher dos arquivos que tinham sido usados para destruir sua confiança em Fred. Só depois Beatriz percebeu o colete balístico, a arma no coldre e a postura de comando que contradiziam brutalmente a imagem da suposta consultora internacional.
Beatriz soltou um arquejo sufocado, a mão subindo mecanicamente para apertar o colar de safira no pescoço. Ela olhou para a mulher, depois para Fred, com uma expressão de traição e pânico absoluto. Contudo, sua mente entrou em curto-circuito ao notar que aquela mulher não vestia roupas civis, mas sim um colete balístico escuro com as inscrições da Polícia Federal e portava uma arma no coldre. Beatriz não conseguia processar porque a suposta "consultora internacional" que Renato mencionara na empresa e que era a mulher dos arquivos fabricados estava ali comandando um cerco armado.
Percebendo a iminência de um colapso emocional e agindo com extrema cautela profissional para que o criminoso continuasse sem notar sua presença ou intervenção imediata, Helena fez um sinal discreto para Mauro manter a custódia de Renato no chão. Ela contornou a mesa destruída, aproximou-se de Beatriz com as mãos abertas para demonstrar neutralidade e a puxou delicadamente pelo braço para o canto mais afastado da sala, completamente fora do campo visual e do raio de audição de Renato.
— Dona Beatriz, por favor, respire e me ouça — sussurrou Helena, mantendo a voz baixa, firme e urgente. — Eu sei quem a senhora acha que eu sou. Eu sei o que colocaram no seu celular. Mas agora eu preciso que confie em apenas uma coisa: eu sou da Polícia Federal, Fred não traiu a senhora, e Renato ainda não acabou de ferir esta família. Os detalhes vêm depois. Primeiro, precisamos sair daqui vivas.
Beatriz piscou repetidas vezes, as lágrimas limpando a poeira de seu rosto enquanto assimilava as palavras de Helena. O nó de ciúmes e a certeza da traição de Fred que foram rompidas por Jonathan ao analisar os arquivos, se desfaziam definitivamente sob a autoridade daquele distintivo, abrindo espaço para uma clareza tardia e dolorosa.
Helena se aproximou devagar, ainda longe da visão de Renato. A arma estava presa ao coldre, mas seus olhos permaneciam atentos. Ela observou Fred, depois Beatriz, depois Jonathan. Havia alívio em seu rosto, embora a tensão ainda não tivesse se dissipado.
— Renato tinha contatos demais — disse Helena, os olhos varrendo as janelas quebradas, a porta dos fundos, o corredor escuro. — Não sabemos quem mais sabia deste lugar. Se alguém estiver esperando uma confirmação, cada minuto aqui vira uma vantagem para eles.
Mauro entrou na sala, removendo os estilhaços do caminho com a bota.
— Equipe externa informou que a área está limpa. Mas eu concordo com Helena. Quanto menos tempo ficarmos aqui, melhor.
Beatriz olhou de Fred para Helena.
— Vocês falam como se isso fosse maior do que Renato.
Ninguém respondeu de imediato. Esse silêncio foi a primeira resposta.
Jonathan percebeu.
— Pai?
Fred respirou fundo. Esse era o momento que tentara adiar durante duas décadas. Havia imaginado muitas possibilidades para aquela conversa. Em sua cabeça, ela ocorreria em uma sala tranquila, talvez em casa, talvez depois de uma aposentadoria discreta, quando pudesse explicar tudo sem colocar ninguém em perigo. Nunca imaginou que a verdade surgiria no chão de uma chácara, entre vidro quebrado, agentes armados e o irmão algemado.
Helena se aproximou dele.
— Fred, precisamos conversar antes que alguém diga algo que não deve.
Ele a encarou.
— Já passou desse ponto?
Helena não respondeu, mas seu olhar foi suficiente.
Mauro gesticulou para que os agentes conduzissem Renato para fora. Um deles, jovem, nervoso, ainda tomado pela adrenalina da operação, aproximou-se com um rádio na mão.
Fred deu um passo para conduzir Beatriz e Jonathan até a saída, mas hesitou ao ouvir o rádio chiar no corredor. O som atravessou a sala como uma lâmina curta. Mauro tentou reagir antes que qualquer ordem fosse dita em voz alta, porém o agente mais jovem já entrava com pressa demais e cautela de menos.
— Agente Alves, a equipe médica está esperando lá fora. O senhor quer que levem primeiro a senhora Beatriz e o rapaz?
O mundo parou. Beatriz virou lentamente o rosto para Fred. Jonathan fez o mesmo. Mauro fechou os olhos, como se a palavra tivesse sido um tiro. Helena endureceu. O agente percebeu tarde demais o erro.
— Eu... desculpe, eu quis dizer...
Mas já não havia como recolher o que fora dito.
Renato, que era conduzido para a porta, parou. Por um instante, toda a raiva em seu rosto desapareceu, substituída por uma compreensão incômoda. Ele olhou para Fred. Depois para Helena. Depois para Mauro. Os fragmentos soltos que jamais conseguira encaixar começaram a formar uma imagem nítida.
As viagens. As fotografias em locais de operações internacionais. A presença de Helena. Os contatos estrangeiros. A postura de Fred em meio ao caos. A forma como ele entrara naquela sala. Renato sorriu. Um sorriso lento, venenoso.
— Agente Alves...
Fred sentiu o corpo gelar. Renato deu uma risada curta.
— Eu sabia. Eu sabia que tinha alguma coisa. Sempre soube.
Mauro o empurrou.
— Cala a boca.
Renato resistiu, ainda sorrindo.
— Não. Agora faz sentido. As viagens, os encontros, aquela maldita fotografia na Europa... Você nunca foi só empresário.
Beatriz levou a mão à boca. Jonathan continuou imóvel. Fred deu um passo à frente.
— Renato, fica quieto.
Renato arregalou os olhos em fingida surpresa.
— O quê? Está preocupado? Comigo? Com sua família? Ou com seus amigos da polícia?
Helena avançou.
— Tirem ele daqui.
— Ah, Helena Costa! Uma policial federal!! Vejam que surpresa!! Meus contatos estrangeiros vão adorar saber disso — Renato continuou, erguendo a voz. — Fred Alves. O grande empresário brasileiro. O marido traído. O irmão perfeito. Um agente secreto. Isso dá até um novo filme nacional!
Fred perdeu a cor. Não por si. Por sua família. Pelos homens e mulheres que ainda estavam em campo. Pelas identidades construídas. Pelas operações em andamento. Pelos nomes que poderiam aparecer se Renato falasse com as pessoas certas.
— Helena... — disse ele, quase sem voz.
Ela entendeu o desespero por trás do chamado.
— Eu sei.
Renato percebeu a reação e seu sorriso aumentou.
— Acertei, não foi? Vocês estão com medo. Não de mim. Do que eu posso contar.
Mauro segurou Renato pela gola.
— Se você abrir a boca sobre qualquer coisa que ouviu aqui, eu mesmo faço questão de...
— Mauro! — Helena cortou.
As portas traseiras do camburão da Polícia Federal se abriram com um estrondo metálico definitivo diante de Renato. O espaço era claustrofóbico, cheirando a plástico queimado e suor. Renato se sentou na parte traseira da viatura, com as pernas ainda para fora, encostou a cabeça contra a parede de metal fria da viatura, observando Fred manter Beatriz e Jonathan sob sua proteção.
Um riso amargo escapou de seus lábios sujos de terra. Naquele instante de ruína total, o silêncio do camburão foi invadido pelo eco das palavras que Amanda costumava usar na infância: “O Fred acha que herdou o mundo, mas ele não é melhor do que você. Tudo o que é dele, por direito, deveria ser seu... Frederico teve sorte por nascer primeiro, mas sorte não é destino. Um dia, você vai precisar tomar o que é seu.”
— Eu segui o plano, mãe... — sussurrou Renato para a escuridão do camburão, os nós dos dedos algemados doendo. — Eu tirei a paz dele. Eu fiz a esposa perfeita deitar na cama de outro homem apenas com o poder de uma mentira.
O silêncio voltou pesado.
Fred olhou para Beatriz e Jonathan.
Era tarde demais.
A verdade havia escapado.
E agora não pertencia mais apenas a ele.
Parte 2 – A verdade que restava
Eles foram levados para uma área externa protegida, ao lado de uma das viaturas descaracterizadas. A noite continuava quente, mas Beatriz sentia frio. Uma manta térmica fora colocada sobre seus ombros, embora ela mal percebesse.
Jonathan estava ao lado dela, de braços cruzados, os olhos fixos no pai. Fred evitava olhar diretamente para os dois.
Helena aproximou-se dele alguns metros adiante, longe o suficiente para que a família não ouvisse tudo, mas perto o bastante para que Beatriz percebesse a tensão.
— Você precisa contar — disse ela.
Fred passou as mãos pelo rosto.
— Não aqui.
— Aqui. Agora. Do jeito que for possível.
— Helena, Renato ouviu.
— Sim.
— Se ele falar...
— Vamos isolá-lo. A custódia será especial. Comunicação bloqueada. Audiência sob sigilo. Tudo o que for necessário.
Fred balançou a cabeça.
— Você sabe que isso não é tão simples.
— Eu sei. Mas você também sabe que o problema maior agora não é só Renato.
Fred olhou para a esposa e o filho. Beatriz continuava parada, esperando. Jonathan também.
Helena baixou a voz.
— Eles ouviram.
— Um agente distraído cometeu um erro.
— Não. O erro foi seu, Fred.
Ele a encarou. Helena sustentou o olhar.
— Não por ter servido. Não por ter aceitado as missões. Mas por achar que conseguiria sustentar uma vida inteira sobre uma verdade que não podia ser tocada sem que um dia ela desabasse em cima de todos.
Fred fechou os olhos.
— Eu tentei protegê-los.
— Eu sei.
A voz dela suavizou.
— Mas agora eles precisam entender de quem você os estava protegendo. E por quê.
Fred permaneceu em silêncio. Helena respirou fundo.
— Beatriz merece ouvir de você. Jonathan também.
Ele olhou outra vez para a família.
— Você acha que eles vão me perdoar?
Helena demorou a responder.
— Não sei. Mas, se você continuar calado, eles nunca vão ter a chance.
Fred assentiu lentamente. Quando caminhou de volta, cada passo pareceu mais difícil do que invadir a casa da chácara.
Beatriz ergueu o olhar.
— Agente Alves?
A pergunta saiu baixa, quebrada.
Fred parou diante dela.
— Bia...
Ela recuou um passo.
— Não. Não me chama assim agora. Responde.
Jonathan ficou ao lado da mãe.
— Pai, o que está acontecendo?
Fred olhou para os dois. O rosto dele, que tantas vezes parecera impenetrável, agora estava exposto de uma forma que nenhum deles jamais vira.
— Eu nunca fui apenas empresário.
Beatriz fechou os olhos.
Jonathan permaneceu imóvel.
Fred continuou:
— Antes de assumir integralmente a empresa, eu servi à Polícia Federal. Oficialmente, minha trajetória mudou quando meu pai morreu e eu assumi responsabilidades na Alves Participações. Eu inicialmente pedi licença sem remuneração. Beatriz veio para assumir o comando da empresa junto comigo, mas, anos depois, quando pedi para sair da vida operacional de vez, fui procurado por pessoas da própria Polícia e de agências parceiras no exterior.
Beatriz abriu os olhos.
— Agências?
— Cooperação internacional. Inteligência. Combate a organizações criminosas transnacionais. Gente que movimenta drogas, armas, dinheiro, pessoas... e que mata muito antes de chegar às manchetes.
Jonathan respirou fundo.
— Então as viagens...
Fred assentiu.
— Algumas eram só negócios. Muitas eram negócios reais com objetivos paralelos. Eu sempre fechava contratos verdadeiros. Nunca usei a empresa como uma farsa vazia. Essa foi uma exigência minha para aceitar. Tudo que a Alves construiu é legítimo. Seu trabalho, Beatriz, é legítimo. O crescimento da empresa é legítimo.
Ele fez uma pausa.
— Mas, em alguns países, minha presença também permitia contato, observação, troca de informações, aproximação de alvos. Em certas situações, eu integrava operações de apoio. Eu coletava informações usando a minha fachada de empresário. Eu me sentava próximo a banqueiros internacionais que financiavam atividades terroristas e os fotografava ou gravava suas conversas com bandidos, por exemplo.
Beatriz levou a mão ao colar de safira.
— Operações como aquela da fotografia.
Fred olhou para ela.
— Sim.
Ela soltou um som entre o riso e o choro.
— Você me disse que estava no quarteirão errado.
— Eu estava no quarteirão certo.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.
— Você mentiu.
Fred abaixou os olhos.
— Sim.
A palavra foi pequena. Mas rompeu algo enorme.
— Eu nunca te traí, Beatriz. Nunca. Não houve mulher nenhuma. Não houve caso. Não houve amante em hotel, nem vida escondida desse tipo. Mas eu menti sobre a natureza de parte das minhas viagens. Menti porque estava preso a juramentos, protocolos, operações em andamento e uma dívida moral comigo mesmo causada pela morte da minha mãe. Menti porque achei que contar colocaria você e Jonathan em risco.
Beatriz chorou com mais força.
— E colocou mesmo assim.
Fred recebeu a frase como merecia. Sem defesa.
— Sim. E por isso eu peço o perdão de vocês.
Jonathan olhava para o pai como se o visse pela primeira vez.
— Desde quando?
Fred respondeu sem hesitar:
— Desde antes de você nascer, em operações domésticas. Depois do falecimento de papai e quando herdei o Grupo Alves, de forma mais intensa, quando a empresa passou a ter presença internacional suficiente para sustentar uma cobertura que já existia de maneira natural.
Beatriz deu um passo para trás, como se precisasse de ar.
— Todo esse tempo...
— Eu tentei sair mais de uma vez.
— Mas não saiu.
— Não.
— Por quê?
Fred fechou os olhos por um segundo. Quando respondeu, sua voz estava diferente. Mais baixa. Mais antiga.
— Porque eu tinha dois anos quando minha mãe morreu.
Beatriz ficou imóvel. Jonathan também.
— Um homem bêbado, protegido por influência política, tirou ela de nós. Meu pai tinha dinheiro, contatos, nome... e ainda assim não conseguiu justiça. Eu cresci vendo aquele vazio na nossa casa. Isso acabou com meu pai, mesmo ele tendo uma vida com a mãe do Renato depois, nunca foi o mesmo da época da minha mãe, pelo que as pessoas diziam. Cresci entendendo que, às vezes, o mundo protege culpados e abandona vítimas.
Ele respirou fundo, com lágrimas nos olhos.
— A Polícia Federal me deu a primeira sensação de que eu podia fazer algo contra isso. Depois, a força-tarefa internacional me mostrou que havia crimes que atravessavam fronteiras, destruíam famílias, financiavam terror, escravizavam pessoas e enriqueciam homens que jamais apertavam gatilhos com as próprias mãos e que as polícias dos países não eram suficientes para ajudar as vítimas desses bandidos. Eu achei que, se pudesse impedir parte disso, se pudesse salvar algumas pessoas, talvez aquele menino que perdeu a mãe pudesse encontrar algum sentido.
Beatriz cobriu o rosto com as mãos.
— Meu Deus, Fred...
— Eu não fiquei longe porque queria fugir da nossa vida. Eu ficava longe porque, de alguma forma, achava que estava impedindo outras famílias de viverem o que eu vivi.
Ela chorava de um jeito que o desarmava. Não era apenas dor. Era compreensão chegando tarde demais.
— Você lutava por justiça no mundo inteiro... por causa dela.
Fred não respondeu.
Não precisava.
Beatriz olhou para ele, devastada.
— E eu achei que você tinha me traído.
— Você foi manipulada.
— Mas eu escolhi acreditar.
— Renato fabricou provas.
— E eu escolhi não confiar em você.
Fred tentou se aproximar, mas ela levantou a mão.
— Não. Eu preciso dizer isso.
A voz dela tremia.
— Meu casamento não acabou só por causa do Renato. Ele plantou a mentira, sim. Mas eu tomei uma decisão. Eu deixei a dor falar mais alto do que a história que nós tínhamos. Eu fugi para Rafael. Eu transei com Rafael porque quis ferir você, porque me senti sozinha, humilhada, abandonada. Eu achei que estava reagindo a uma traição... mas era eu destruindo o que restava da minha confiança em você. Eu me arrependi na hora, mas o estrago já estava feito.
Fred engoliu em seco.
— Bia...
— Você não tem que me perdoar porque soube que fui manipulada por imagens falsas ou sugestões do Renato ou Cláudia. Eu não mereço que você facilite isso para mim. Só que também não é fácil para mim descobrir que você mente sobre esse outro lado da sua vida e não pode esperar que eu perdoe e aceite facilmente, ainda que eu tenha errado!
Ela chorava sem tentar esconder.
— Você jamais me traiu. Você carregava um segredo absurdo, perigoso, injusto comigo talvez para dizer mínimo, mas não me traiu. E eu... eu não confiei no homem que passou vinte e dois anos me escolhendo.
Fred sentiu os próprios olhos arderem.
— Eu também falhei com você. Eu transformei silêncio em proteção e não percebi que, para quem ama, silêncio demais vira abandono, ainda que eu tentasse compensar de todas as maneiras quando estava em casa. E o recente aumento no número de viagens, que eu não posso explicar por envolverem informações confidenciais, aumentaram esse desgaste até que você não suportou mais.
Jonathan deu um passo à frente.
— Chega.
Os dois olharam para ele. O jovem respirava com dificuldade, mas seus olhos estavam firmes.
— Eu preciso falar também.
Fred assentiu, sem força para dizer nada.
Jonathan encarou o pai.
— Eu passei anos sem entender suas viagens. Quando era criança, achava que era só trabalho. Depois comecei a achar estranho. Muitas datas, muitos países, explicações sempre corretas demais. Eu vi as reportagens. Fotos de reuniões suas em locais onde, depois, apareciam notícias de terroristas presos, traficantes capturados, operações internacionais. Eu notava coincidências. Só não sabia o que fazer com elas.
Fred ouviu em silêncio.
— Eu fiquei com raiva algumas vezes. Achei que você escolhia o mundo em vez da gente. Achei que talvez o senhor fosse daqueles homens que amam a família, mas não conseguem ficar nela.
A frase feriu mais do que qualquer bala.
Jonathan prosseguiu:
— Hoje eu entendo melhor. Não completamente. Talvez eu nunca entenda tudo. Eu ainda acho que o sacrifício da nossa família poderia ter sido menor se tivesse existido um diálogo franco. Algum tipo de verdade possível. Algum limite. Alguma forma de nos deixar entrar sem nos colocar em risco.
Fred assentiu.
— Você tem razão.
— Mas também entendo que talvez não fosse simples. Talvez contar nos colocasse em perigo. Talvez a mentira não tenha sido covardia. Talvez tenha sido a única forma que você encontrou de fazer o que achava certo sem nos arrastar junto.
Jonathan respirou fundo. A voz falhou pela primeira vez.
— Só que o senhor sofreu sozinho.
Fred não conseguiu responder.
— O senhor viu minha mãe sofrer, viu o casamento... nossa família rachar, viu tudo desmoronar, e ainda assim não podia se defender sem expor coisas maiores. Isso deve ter sido horrível.
Beatriz chorava em silêncio.
Jonathan se aproximou do pai.
— Eu não estou dizendo que está tudo bem. Não está. A gente vai ter que reconstruir muita coisa, se ainda for possível. Principalmente a confiança no que é dito. Mas eu preciso dizer uma coisa agora.
Ele abraçou Fred. Com força. Como filho. Como adulto. Como alguém que acabava de perder uma imagem do pai e encontrar outra maior, mais humana e mais dolorosa.
— Eu tenho orgulho de você!
Fred fechou os olhos. As lágrimas prontas para correr sua face.
Jonathan continuou, a voz abafada contra o ombro dele:
— Orgulho de saber que, mesmo sofrendo em silêncio, você foi herói para várias pessoas. Para famílias que talvez nunca saibam seu nome. Para gente que voltou para casa porque você aceitou não poder explicar por que saía da sua.
Fred segurou o filho como se aquela frase o impedisse de cair.
— Meu filho...
— Eu te amo, pai.
Fred chorou. Em silêncio.
— Eu também te amo. Mais do que qualquer missão. Mais do que qualquer país. Mais do que qualquer juramento.
Beatriz observava os dois. A dor em seu rosto parecia ter mudado de forma. Ainda era dor. Mas já não era apenas culpa. Era amor ferido tentando encontrar um caminho.
Parte 3 – O último gesto de Renato
Renato assistia à cena a poucos metros dali, encostado contra a lateral de uma viatura, algemado e escoltado por dois policiais. O rosto dele se contorceu.
Mesmo depois de tudo, Fred era abraçado.
Mesmo depois das mentiras, Fred era compreendido.
Mesmo depois de uma vida secreta, Fred era chamado de herói.
A inveja, que sempre fora brasas dentro dele, virou incêndio.
— Patético — murmurou.
Um dos policiais olhou para ele.
— Quieto.
Renato riu.
— Vocês também acreditaram na historinha do herói?
O policial não respondeu.
Renato observou Fred abraçado a Jonathan, Beatriz chorando ao lado deles, Helena alguns passos atrás, atenta, mas operacionalmente e emocionalmente tocada. Aquilo era insuportável.
Ele havia destruído reputações, fabricado provas, manipulado dores, sequestrado Beatriz e Jonathan, quase acabado com a própria família. E, ainda assim, quem recebia compreensão e amor era Fred. Sempre Fred.
Um dos agentes se distraiu ao responder ao rádio preso ao colete. Foi um segundo. Apenas um segundo. A mão dele se afastou da arma no coldre em um gesto mínimo, negligente, mas suficiente. Renato viu. Não pensou. Agir era a única coisa que restava.
Com um movimento brusco, jogou o corpo contra o agente, usou as algemas para puxá-lo pelo braço e arrancou a pistola do coldre.
— Arma! — gritou alguém.
Fred virou-se.
Beatriz também.
Jonathan ainda estava perto demais do pai.
Renato ergueu os olhos com a arma nas duas mãos algemadas, o rosto deformado pelo ódio.
— Vamos ver se morto você deixa de ser o escolhido!
Fred empurrou Jonathan e Beatriz para trás. O primeiro disparo atingiu seu peito. O impacto o jogou contra a lateral da viatura.
Beatriz gritou.
— Fred!
Renato disparou de novo.
O segundo e o terceiro tiros atingiram Fred mais abaixo, fazendo-o dobrar o corpo.
Helena já havia sacado. Não houve hesitação. Ela mirou no centro da ameaça e atirou duas vezes.
Renato foi atingido no peito e caiu para trás, a arma escapando das mãos algemadas e batendo no chão de terra. O silêncio que se seguiu pareceu impossível. Depois vieram os gritos.
— Médico!
— Arma no chão!
— Alvo neutralizado!
Beatriz correu para Fred e caiu de joelhos ao lado dele.
— Fred! Olha para mim! Olha para mim!
Jonathan chegou logo depois, desesperado.
— Pai!
Fred tentava respirar. O rosto estava contraído pela dor. Beatriz abriu o colete dele com as mãos trêmulas, esperando encontrar sangue. Não havia. Apenas o tecido deformado pelos impactos.
Mauro se ajoelhou ao lado.
— O colete segurou.
— Ele foi atingido três vezes! — Beatriz chorava.
— Segurou, Bia. Segurou.
Fred soltou um gemido de dor ao tentar se mexer.
— Costela... acho que quebrou.
Mauro quase riu de nervoso.
— Filho da puta, tomou três tiros e está reclamando de costela.
Helena permaneceu parada alguns metros adiante, com a arma ainda apontada para Renato, até que um agente confirmou:
— Sem pulso.
Só então ela abaixou o braço. O rosto dela não demonstrava vitória. Apenas a exaustão de quem sabia que, às vezes, salvar alguém exigia carregar outra morte.
Fred olhou para ela. Mesmo com dor, conseguiu dizer:
— Obrigado.
Helena engoliu em seco.
— Eu sempre disse para você usar colete.
— Pela primeira vez... obedeci.
Beatriz segurou o rosto dele.
— Nunca mais faz isso comigo.
Fred tentou sorrir, mas a dor o impediu.
— Vou tentar evitar levar tiros.
— Não brinca.
Ele ficou sério.
— Eu estou aqui.
Ela encostou a testa na dele.
— Quase não esteve.
Jonathan segurava a mão do pai como se ainda fosse menino.
— Eu achei que tinha te perdido.
Fred apertou seus dedos.
— Não hoje.
As sirenes finalmente se aproximaram com força. Dessa vez, ninguém tentou escondê-las.
Fred olhou o corpo inerte do irmão e se permitiu, mesmo com raiva pelo que aconteceu, sentir um pouco de pena.
Parte 4 – O hospital
Fred foi levado ao hospital sob escolta. Beatriz não saiu de seu lado em nenhum momento. Mesmo quando os médicos explicaram que os tiros haviam sido contidos pelo colete balístico, ela só respirou de verdade depois dos exames confirmarem que não havia perfuração, hemorragia interna ou lesão grave.
Duas costelas quebradas. Contusões extensas. Dor intensa. Mas vivo. Fred estava deitado no leito, monitorado, com curativo no tronco e expressão contrariada.
— Eu já posso ir embora.
Beatriz, sentou-se ao lado, olhou para ele com os olhos inchados de tanto chorar.
— Você acabou de levar três tiros.
— Tecnicamente, o colete levou.
— Fred!
Ele fechou a boca. A enfermeira saiu do quarto com um sorriso discreto, percebendo que aquela discussão já não precisava de mediação médica. Beatriz segurou a mão dele. Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou. O silêncio era diferente dos silêncios antigos. Não era confortável. Também não era vazio. Era um lugar cheio de coisas quebradas.
Fred foi o primeiro a falar.
— Eu sinto muito.
Beatriz fechou os olhos.
— Pelo segredo?
— Por tudo que o segredo causou.
Ela respirou fundo.
— Eu também sinto.
Ele tentou mover a mão, mas a dor o fez contrair o rosto. Ela se levantou imediatamente.
— Não se mexe.
— Só queria tocar você.
Beatriz se inclinou e levou a mão dele ao próprio rosto.
— Assim?
Fred passou o polegar sobre a pele dela.
— Assim.
Ela chorou de novo, mas dessa vez sem desespero.
— Eu não sei o que vai acontecer com a gente.
Fred assentiu.
— Eu também não.
— Eu te amo.
Ele fechou os olhos.
— Eu te amo desde antes de saber o que essa palavra realmente significava.
— Mas amor talvez não baste.
A frase doeu nos dois. Fred respondeu com honestidade:
— Talvez não. Mas talvez seja o único lugar de onde podemos começar, se você quiser tentar algum dia.
Beatriz ficou em silêncio. Depois disse:
— Hoje eu só quero que você fique vivo.
— Isso eu posso prometer.
Ela deu um sorriso triste.
— Você promete muitas coisas difíceis.
— Essa é a mais importante.
Jonathan entrou no quarto pouco depois, acompanhado por Larissa, Helena e Mauro. O jovem tentou parecer controlado, mas os olhos vermelhos entregavam o medo que ainda o consumia. Larissa tentava acalmá-lo, fazendo um carinho em seu braço.
— O médico disse que você vai sobreviver.
Fred olhou para ele.
— Desculpa decepcionar quem esperava herdar a empresa mais cedo.
Jonathan soltou um riso quebrado.
— Idiota.
Atravessou o quarto e abraçou o pai com cuidado.
— Ai — Fred reclamou.
— Aguenta. Você levou tiro. Um abraço não vai matar.
Beatriz sorriu pela primeira vez desde a chácara. Mauro cruzou os braços.
— As costelas quebradas foram sorte. O colete segurou bem. Se estivesse sem ele...
— Eu estava com ele — Fred interrompeu.
Helena, encostada perto da porta, falou:
— Porque eu mandei.
Fred olhou para ela.
— Sim, chefe.
Beatriz percebeu o tom, a naturalidade antiga entre os dois, e algo apertou dentro dela. Mas, desta vez, não era ciúme. Era a compreensão de que havia uma parte da vida de Fred que sempre tivera testemunhas enquanto ela ficava do lado de fora.
Helena percebeu. Aproximou-se de Beatriz.
— Eu sei que nada do que eu disser conserta o que aconteceu, mas preciso que você saiba de uma coisa.
Beatriz ergueu o olhar.
— Fred nunca usou o trabalho como desculpa para se afastar de você. Pelo contrário. Em todas as operações, em todos os países, em todos os riscos, você e Jonathan eram o motivo pelo qual ele fazia questão de voltar inteiro.
Beatriz segurou as lágrimas. Helena continuou:
— Isso não apaga as mentiras, mas talvez ajude você a entender que elas não nasceram de falta de amor.
Beatriz assentiu devagar.
— Obrigada.
Helena olhou para Fred.
— E você, quando sair daqui, vai prestar depoimento, passar por avaliação institucional e ficar fora de qualquer atividade operacional até segunda ordem.
Fred abriu a boca para protestar. Mauro apontou para ele.
— Nem começa.
Jonathan completou:
— Pela primeira vez, pai, obedece.
Fred olhou para os três. Depois para Beatriz.
— Estou cercado.
Beatriz apertou sua mão.
— Pela sua família.
A frase o atingiu mais do que qualquer reprimenda. Ele assentiu.
— Então eu obedeço.