— E isso, meu amor — ela disse, sorrindo enquanto a gente relaxava, satisfeitos, os braços um no outro, os lábios perto o bastante pra que cada movimento mínimo virasse um beijo leve — é a sua segunda lição nesse dia corrido.
— Lição? — perguntei, seguindo a pergunta com um beijo.
— Sim, Davi, lição. Talvez a mais importante que eu vou te ensinar — ela respondeu.
— E qual é? — perguntei.
— Sexo bom, meu querido — ela disse, beijando meus lábios enquanto descia a mão e apertava meu pau agora mole — muitas vezes é sujo, mas nunca é bagunçado, nunca é algo que os dois não queiram.
Pensei no que ela tinha falado.
— Sem limites? — perguntei.
— Nenhum que eu tenha encontrado até agora — ela disse, e o sorriso que soltou fez a palavra “travesso” saltar na minha mente.
— Nenhum? — repeti.
O sorriso dela se alargou, o travesso sendo substituído por algo mais predador, um lobo talvez? Ou uma grande felina de caça.
Ela rolou para fora da cama, de novo me fazendo pensar numa grande felina pelo jeito que se movia, e saiu do quarto.
Eu segui aquela bundinha saltitante enquanto ela me levava para o antigo escritório do meu pai, que agora era o meu. Ela se sentou, ainda pelada, na cadeira de escritório sofisticada e começou a digitar no computador.
Navegou rápido até a pasta “NÃO ABRIR APAGAR ANTES DE ABRIR”.
— Você já fez isso antes? — perguntei.
Ela riu, começando a vasculhar os vários arquivos.
— Sua mãe, seu pai e eu temos uma história longa, amor — ela disse.
E aí eu pensei. A tia Rita é viúva do irmão do meu pai. Então, minha relação com a tia Rita é por casamento. “Então”, pensei, “é incesto?”.
— Quanto tempo você e o tio João foram casados? — perguntei, observando ela rolar e clicar.
— Dezoito anos — respondeu, distraída, a atenção no que estava fazendo.
— Por que você nunca casou de novo? — perguntei e, sim, percebi o quão surreal era ter essa conversa, massageando os ombros nus da minha tia enquanto ela caçava numa longa lista de nomes de arquivos que eu agora sabia conterem vídeos pornográficos caseiros.
— Honestamente? — ela perguntou, girando na cadeira pra sorrir pra cima, pra mim.
— Não, bobinha, mente pra mim — respondi, dando um beliscãozinho no mamilo dela.
— Davi — ela disse, e eu percebi que agora estava séria — eu era apaixonada pelo Carlos — demorou um segundo pra traduzir “Carlos” pra “seu pai” — mas a Carla — e de novo precisei traduzir, transformando “Carla” em “sua mãe” — conquistou ele, então… Bem, acho que eu “me contentei” com o João. Mas quando o João morreu e a Carla, que era minha melhor amiga desde a infância, me convidou pra… bem… — pausou aqui, corando e baixando os olhos, juntando os pensamentos — participar dos… experimentos deles, eu nunca mais senti necessidade de outro homem na minha vida.
Ali estava eu, sem palavras de novo.
Ela riu.
— Você perguntou — disse, dando um apertinho no meu pau, que não estava totalmente duro mas também não mole.
— Então — falei, pensando duro — você topava ser a “outra”?
Ela riu.
— Ai, amor — disse — Era muito mais do que isso. Eu podia “jogar o jogo” e, bem, explorar coisas que nunca imaginei que ia viver.
— Explorar? — perguntei.
Ela revirou os olhos.
— Puxa uma cadeira, Gafanhoto — disse — e tudo será revelado.
Eu puxei, e foi.
Ela rolou, parou, murmurou “Não”, rolou mais, parou e clicou no arquivo chamado “Festa em Casa – 12 de Agosto”.
De novo fiquei impressionado com a qualidade de produção daqueles vídeos. Não era aquele cinema-verdade com quadro tremido que a gente vê em tantos vídeos caseiros de mão. A câmera panou, lenta e profissionalmente, pela grande sala de planta aberta onde uma dúzia de casais claramente fazia uma festa. Quando passou por um lance de escadas, entendi que estava olhando um porão reformado. Quase todos seguravam algum tipo de drink, e um narguilé na mesa de centro estava sendo compartilhado por quatro — três homens e uma mulher — numa nuvem de fumaça.
Eu não reconheci a casa, mas reconheci alguns casais. Tinha a Márcia e o Fred, tios de consideração, que já tinham cuidado de mim quando eu era criança, nas vezes em que a mãe e o pai saíam de fim de semana ou de férias. No canto, a Letícia, mulher do meu primo, conversava com um homem que eu não reconhecia. A postura deles sugeria que se conheciam muito bem, se é que você me entende. O Fred e a Eva falavam com outro casal, a Eva com as duas mãos no braço do outro homem daquele jeito possessivo de algumas mulheres. Uma mulher extremamente idosa, que aparentava estar bem nos setenta, segurava a mão de um cara que parecia ter uns vinte e poucos, enquanto conversavam com a minha mãe e meu primo Dalton. O microfone pegava o burburinho geral de uma dúzia de conversas e, ao fundo, rock and roll dos anos 70/80 tocava. Numa áreazinha livre o Jairo e a Kathy (nunca soube o nome inteiro dela), casados mas não um com o outro, dançavam uma daquelas danças de ficar de frente e meio que rebolar, enquanto um grupo que eu não reconhecia cantava alguma coisa.
A campainha tocou e a câmera acompanhou uma ruiva grande — presumivelmente a dona da casa — até a porta da frente. A mãe seguiu de perto. Não consegui deixar de notar que a mãe parecia uma prostituta extremamente oversized. A blusa vermelha viva era de um material transparente que aparentemente irritava os mamilos. Eles apareciam como pontinhos duros contra o tecido. A saia vermelha combinando mal cobria a bunda enorme, e as suspensórias da cinta-liga com quatro tiras por perna estavam quase totalmente à mostra. Ok, ela estava gostosa.
Na porta, a tia Rita vestia um casacão longo, parecendo algo de filme de espião.
— Tá bom — a mãe gritou, aquela voz forte dela ecoando clara pela sala — a atração chegou.
— Relaxa, pessoal — Rita disse naquela voz rouca de uísque — eu cheguei.
Ela riu, beijou a ruiva grande, beijou a mãe e disse, a voz saindo clara:
— Cadê o bar?
Estiquei o braço por cima da Rita e apertei o botão de pausa.
— Quem é aquela ruiva? — perguntei.
Ela riu baixinho.
— Essa é a Ingrid — apontou na tela um homenzinho acanhado, daqueles que parece ter setenta anos desde que ficou velho o bastante pra comprar cerveja — e esse é o Jairo, o marido dela. Ele é o revendedor de carros de luxo e ela é uma puta que deu sorte.
Eu ri com aquilo.
Ela clicou no play e a cena continuou.
Assisti fascinado enquanto a tia Rita tomava uma cerveja em dois goles longos e pegava outra, longneck marrom. A câmera a seguiu até o que acabou sendo um palco montado no canto do que eu assumi ser um porão bem acabado.
Ela se virou pro grupo, puxou o cinto do trench coat e se livrou dele.
O biquíni minúsculo que ela vestia fazia um modelo fio dental parecer positivamente modesto e comportado.
Colocou um CD no aparelho do palco e quando a música começou — a versão da Peggy Lee de Fever — ela fez uma dança de pole bem profissional. Quando o riff de bateria de abertura terminou e a voz da Peggy começou, a tia Rita subiu no poste de cabeça pra baixo, as pernas de algum jeito (e eu ainda não entendo como) oferecendo apoio suficiente pra ficar pendurada enquanto, mais mágica ainda, alcançava atrás, desprendia o sutiã e jogava pro grupo que assistia de pé.
Um homem que eu não conhecia pegou o sutiã e levou ao rosto, inspirando fundo, dramaticamente.
— Paraíso — proclamou.
A mulher ao lado dele, uma mulher bonita mais do que bonitinha, disse numa voz grave, quase masculina:
— Pronto. Você não vai ganhar nada hoje à noite.
Ele sorriu pra ela e respondeu:
— Bebê, acho que vou ser bem tratado.
Enquanto essa vinhetazinha rolava, a tia Rita trabalhava o poste, os peitinhos e a falta de cintura aparente de algum jeito só aumentando a pureza crua e sem adulteração da sensualidade com que se movia.
— Tá bom, meninas — a ruiva anunciou — noite das garotas.
A câmera abriu o enquadramento, alargando a visão, e eu assisti as mulheres do grupo seguirem pras escadas. Algumas beijavam um homem de despedida — notei que a mãe beijou um homem que eu não conhecia e NÃO o pai. Algumas simplesmente viraram e saíram.
A Ingrid foi a última nas escadas. Virou e anunciou teatralmente:
— Vocês se divirtam, rapazes, não esperem acordados.
A câmera fechou e a seguiu escada acima até a porta fechar com um clique audível da fechadura.
Outra mudança de enquadramento lento e profissional da câmera e a tia Rita estava no poste, desafiando a gravidade e mostrando um nível de força, ou puro poder.
E os homens — chuto uma dúzia, embora pelo jeito que se movimentavam fosse difícil contar com precisão — estavam se despindo enquanto assistiam.
A tia Rita fez outro daqueles movimentos impossíveis, desafiando a gravidade e demonstrando força e controle corporal impressionantes enquanto ficava pendurada pelas pernas e usava as duas mãos pra puxar os lacinhos nos quadris e então jogar o retalho de tecido pros homens. Um homem que eu conhecia casualmente de vezes em que ele tinha ido na nossa casa pra jantar ou jogar no torneio mensal de buraco que a mãe e o pai organizavam, o Bill, pegou e enfiou na boca, virando, sorrindo, orgulhoso como um labrador com um pato na boca.
Enquanto ela continuava no poste, agora ao som de Pour Some Sugar On Me do Def Leppard, finalmente estava cansando. Quando aquele matinho vermelho-laranja passou voando, notei que ela suava, a maquiagem começando a escorrer.
Quando a música terminou ela se levantou e fez uma reverência profunda.
Olhou em volta pros homens alinhados na frente do palco, todos eles não mais moles e três com ereções bem óbvias à mostra, sorriu e disse:
— Venham buscar — como se fosse uma cozinheira avisando que a janta estava pronta.
Afundou graciosamente, embora cansada, nos joelhos e, antes de ser cercada pelos homens, olhou direto pra câmera. Ouvi ela prender a respiração, sentada ao meu lado. Na tela, o suor tinha esborrado a maquiagem, o rímel preto escorrendo em linhas escuras pelas bochechas.
Ela parecia — me perdoe a expressão — uma puta profissional das mais vagabundas, digna de filme pornô.
O resto do vídeo, segundo a barrinha embaixo da tela ainda tinham uns 57 minutos, era basicamente uma festa de bukkake. Assistimos uns quinze minutos. Naquele ponto o rosto dela era uma máscara de porra, ela babava e o nariz escorria. Ela estava linda.
— Tá, Gafanhoto — ela disse, clicando e desligando — agora você sabe.
Minha mente estava a mil.
Ela observava meu rosto intensamente.
Acho, olhando pra trás, que ela pode ter visto a próxima pergunta chegando.
— A… — comecei e não consegui terminar.
— A? — ela perguntou, os olhos grandes e inocentes. É, ela sabia o que vinha.
Respirei fundo e cuspi.
— A mãe já fez isso? — perguntei.
Ela sorriu e voltou pra tela. Rolou, parou, murmurou “Não”, rolou mais, clicou duas vezes num arquivo e, de novo, eu fiquei cativado.
Não era uma sala de festa.
A câmera enquadrou devagar.
Porra. Era uma porra de uma MASMORRA.
As paredes eram de concreto inacabado, dava pra ver as linhas onde as formas se encontravam, os pontinhos onde as travas seguravam as formas. Pareciam úmidas e alguma coisa escura — eu pensei “mofo” — parecia subir do chão. O chão era de terra. A luz parecia vir de velas, embora eu achasse que talvez fossem aquelas velas elétricas porque não via fumaça. Era amarelada, fraca e tremeluzia.
Uma dúzia de homens, vestidos formalmente — bem, de terno pelo menos — sentavam-se em cadeiras de frente pra mãe.
A mãe estava acorrentada.
Sim, literalmente acorrentada. Estava pelada e claramente numa das fases “gorda” das dietas yo-yo dela. Só de olhar eu chutava uns 130 quilos. Uma coleira pesada no pescoço e uma corrente passava por um olhal grande no chão. A corrente era curta o bastante pra ela não conseguir endireitar as costas. Os pulsos estavam presos atrás, capturados por algemas de couro de aparência profissional.
Um homem se levantou da cadeira e foi ficar em pé diante da minha mãe.
— Carlos — ele disse, bem, ele “entoou” — venha à frente.
Aquela linguagem estranha cravou que aquilo era algum tipo de ritual.
— Sua mulher — o outro homem disse, e o uso da palavra “mulher” em vez de “esposa” me atingiu — transgressou.
— O que ela fez? — o pai perguntou, e a câmera deu zoom pra mostrar o cenho franzido no rosto dele.
— Ela disse “NÃO” a um membro — o homem respondeu.
Eu percebi então que aquilo era atuação. Quero dizer, o olhar chocado no rosto do pai era demais.
Mas não era atuação quando ele deu um tapa na mãe forte o bastante pra virar a cabeça dela.
— Peço desculpas em nome da minha família e da minha mulher. Nunca mais vai acontecer — ele disse.
— Prepare-a — o homem ordenou.
Eu via que a mãe estava chorando enquanto o pai saía da cena por um momento e quando voltou colocou um cinto de couro pesado onde a cintura da mãe teria sido se ela tivesse cintura e depois apertou tanto que ele desapareceu na maciez da barriga. Depois foi pra trás dela e, com um movimento coordenado, torceu o cabelo num nó. O outro homem entregou ao pai um pedaço de corda e o pai amarrou no nó na nuca da mãe e depois num anel de prata na parte de trás do cinto. Puxou firme então, forçando a mãe a dobrar o pescoço e arquear as costas, fazendo ela olhar direto pra cima e colocar os peitões de travesseiro e as dobras de barriga em exibição.
O outro homem entregou alguma coisa ao pai e demorou um segundo pra eu entender o que ele fazia. Parecia um cordão de couro, me fez lembrar dos cadarços de uma bota que eu tive uma vez. Enquanto assistia entendi. O cordão se dividia em dois nos últimos quinze centímetros mais ou menos, e cada fio separado tinha um gancho de aço inox, um “J” pequeno e brilhante com uma bolinha na ponta.
O pai enfiou os ganchos no nariz da mãe, puxando até as narinas distorcerem e ela gritar — o primeiro som que ela fez — e depois amarrou o cordão naquele anel na parte de trás do cinto.
Era como um acidente de carro. Eu não conseguia desviar o olhar.
O homem entregou mais alguma coisa ao pai e ele se inclinava sobre o rosto virado pra cima da mãe. Eu reconheci assim que ele começou a colocar na boca dela. Era um abridor de boca de dentista. Eu tive problemas dentários, uma fase de gengivite forte, anos atrás, e reconheci. Ele encaixou na boca da mãe e foi apertando os parafusinhos laterais, abrindo, até eu ter medo de que a mandíbula dela deslocasse.
Ela gemeu.
O outro homem foi até lá e manuseou a mãe como um pedaço de carne, inspecionando o que o pai tinha feito.
Sorriu.
— Ela está pronta — disse, virou e começou a abrir o zíper da calça.
Eu esperava que ele começasse a bater punheta pra gozar no rosto dela.
Em vez disso, um jato quente atingiu o peito e o rosto dela.
— Ai, Jesus — eu disse, enquanto assistia os outros homens se alinharem atrás dele.
— Desliga — falei.
Eu não conseguia desviar o olhar enquanto a Rita clicava, parava a ação e a cena sumia.
A imagem que ficou queimada na minha mente era o pai parado ali, assistindo e sorrindo.
— Você quer mais? — Rita perguntou, a voz macia e a mão cobrindo a minha.