Capítulo XIX – Cavalo gentil
Quando se entra em uma rotina forçada de exercícios pesados, passa-se por dois estados mentais. No primeiro, o das semanas iniciais, seu corpo inteiro dói. Para alguém travado como eu, acredito que essa dor foi ainda mais intensa, talvez porque estivesse sendo experimentada pela primeira vez.
O segundo efeito começa a surgir quando seu corpo passa a responder melhor aos exercícios. Você dorme melhor, respira melhor e, de repente, entra em um modo de silêncio ou quase silêncio. A cabeça, antes cheia de pensamentos e travas, simplesmente se liberta e parece vazia. Correr vira colocar um passo atrás do outro de maneira ritmada; levantar peso passa a ser sobre entender as alavancas naturais do seu corpo; arremessos passam a ser sobre girar o quadril e ampliar a elasticidade muscular...
Ambos os efeitos geram um problema de narrativa... Tendo ficado tão pouco tempo preso em meus próprios pensamentos, termino por confundir os dias, os momentos... O próprio Templo de Ártemis amplia esse efeito a tal ponto que não consigo fazer o mesmo tipo de relato cronológico...
Pois bem... tentemos de outro modo. Epona produziu uma escala de exercícios muito controlada em paralelo com o rigor alimentar. Intercalava treinos leves e treinos pesados, testes de estresse e descansos; ora focava-se em corrigir a forma, ora em criar complicações.
O tempo todo ela fazia anotações, tomando medidas, cronometrando o tempo e também fazendo breves check-ups. Vez ou outra, misturava algum pó em minha ração ou aplicava uma injeção intramuscular.
Durante todo esse período, minha Senhora não usava mais uniformes... A cada dia, ela aparecia com um modelo que me provocava de modo diferente. Alguns destacavam seu corpo como um todo, outros favoreciam certas partes.
Adorava quando ela estava de corselete: seus seios ficavam projetados para cima e, por vezes, os decotes eram bastante reveladores. Também gostava das calças com rasgos e entradas que convidavam a imaginar como seria doce sua flor. Um modelo em particular marcava bastante, e pude ter a antecipação do que ainda estava longe...
No entanto, o que mais me marcou não era propriamente uma roupa específica, mas sim o seu ritual... Conforme eu a decepcionava, ela ficava mais revoltada e, quanto mais estressada, mais ia se despindo. Gostaria de crer que fosse para tentar me motivar, mas a verdade é que provavelmente ela só devia ficar encalorada... Quando ela levantava parte da camisa, fazendo um nó e revelando sua cintura, ou deixava as alças dos vestidos revelarem seus ombros e partes generosas de suas costas, eu me sentia realizado...
Claro que tudo isso tinha um custo também. Em momento algum Epona parou de me humilhar e, quanto mais esbravejava em relação às minhas incapacidades, mais as humilhações e punições aumentavam.
Nas corridas cada vez mais longas, nas quais eu tinha que ir mais rápido, Epona fazia coisas como cuspir na minha água, me fazer lamber os seus dedos molhados e, o pior, houve o dia da água salgada. Imaginei que ela estivesse desatenta naquele dia; tomei a precaução de pegar o copo de suas mãos sem que ela pudesse encostar em mim e, mais que depressa, engoli tudo de uma vez.
Nos agachamentos, ela me chutava para me desequilibrar; nas pranchas, sentava nas minhas costas. Fazia-me de bobo para pegar qualquer coisa: instruía-me a pegar um peso, no meio do caminho pedia para eu voltar e pegar outro, e, após repetir isso algumas vezes, quando eu finalmente estava indo para o aparelho instruído, ela trocava o exercício, fazendo-me devolver as coisas aos seus lugares.
Quase todas as vezes em que tinha oportunidade para pisar no meu pau ou no meu saco, ela fazia. Imerso no exercício, sentia sua bota pressionar meus testículos e, por pouco, não causei acidentes graves... nos polichinelos, o chute era certo; incertas eram as quantidades e os momentos.
Quando ela percebeu que seus tapas mais me excitavam do que qualquer outra coisa, as agressões pioraram... os tapas foram trocados por socos, precisos o suficiente para me fazer sentir dor, mas não para me causar problemas severos.
Comecei a criar uma casca moral. Não era sólida e poderosa como a armadura de um besouro, mas era plástica e móvel o suficiente para reduzir os impactos e traumas mais severos e, ao mesmo tempo, não se rachar.
Isso funcionou... bom, até Epona perceber que eu já não chorava como antes... Irritada, tramou contra mim. Eu choraria, em breve, e muito.
