Capítulo XXXVIII – Cavalo companheiro
Adormecemos lado a lado, mas meu sono não foi tranquilo nem contínuo. Tive saltos de tempos em tempos... Achava que Epona poderia descer a qualquer momento e nos arrastar para sua arena desacordados... Também pensava que Notau poderia desistir de nosso projeto e tentar me matar ali mesmo, bastava esticar um pouco os braços e me sufocar... Mas não podia perturbá-lo, não podia sair daquela posição. Se me mexesse, poderia despertar meu herói; ele precisava descansar, e mais: ele precisava saber que eu estava a seu lado e, acima de tudo, que estava confiante...
Tentava fechar os olhos, mas todas as agressões de Epona passavam em sequência na minha cabeça... e então dei-me conta de mais uma maldade que a Senhora do Estábulo tinha arquitetado, ainda que nem soubesse disso... ela comemorara ao meu lado minha vitória nos 400m contra Notau... Eu tinha conseguido ser mais rápido que ele naquele momento, e, se eu tinha conseguido superá-lo... será que Notau conseguiria subjugar o monstro?
Comecei a imaginar os cenários: nosso ataque deveria ser o quanto antes e da maneira mais improvável possível... não teríamos chances de vencer Epona se ela primeiro nos colocasse na arena... nem tínhamos certeza de que ela assistiria à nossa batalha. Não... assistir, ela ia; é o tipo de coisa que ela não perderia, me ver morto por aquele que ela escolhera para me humilhar... Não podia pensar nisso, tinha que focar: se Notau não fosse meu aliado, tudo já estaria perdido... eu o chupei, ele teve e estava tendo a oportunidade de me matar... ele não iria simplesmente me matar... nós teríamos uma chance. Mas a chance ia ser curta, uma pequena janela, e era isso: ou matávamos o monstro, ou ele nos matava...
Mas precisava dormir... se Notau precisasse de mim, se por algum momento tudo dependesse de mim, eu tinha que estar apto para isso... como seria doce bater em Epona... mas eu nunca havia batido em ninguém... bom, houve uma vez em que troquei socos na escola, até que bati bem... mas, também, quebrei minha mão... Queria me virar, mas o braço de Notau estava sobre minha barriga... se eu me mexesse e ele acordasse? E se eu, por acordá-lo quando ele precisava dormir, fosse visto como incapaz ou como estorvo, e ele convertesse o que parecia carinho e aliança em uma chance de arrancar meu pau com sua mão? Suava... mas precisava dormir... fechei os olhos, determinado a não abri-los... mas havia um barulho de fundo, não havia? Não seriam os passos de Epona, descendo para nos levar dormindo? Alternava entre abrir os olhos e fechar com força as pálpebras...
Numa dessas, dormi... ou imaginei que dormia... ou dormia pensando estar desperto... Lembrava-me do riso sádico de Epona, lembrava-me de seu cabelo castanho-escuro, seu tom avermelhado... aos poucos, via as texturas de seu cabelo se misturarem e se metamorfosearem em cobras... assustei-me com o bote... o tremer do meu corpo fez com que Notau retirasse seu braço... teria despertado? Teria só se ajeitado? Não importa, Epona tem acesso a armas, e ela é boa... a janela se transformava em um milésimo de segundo; se Epona tivesse tempo para nos olhar, já cairíamos duros como pedras ao chão!
Decidi que iria me masturbar para tentar conseguir dormir... era a técnica que eu usava antes dos medicamentos... comecei a tentar me excitar, mas estava muito desesperado... resolvi, então, fechar os olhos e começar o vaivém, tentando focar só no contato físico... mas Epona podia descer... tinha que abrir os olhos... conseguia uma ereção... isso, era só continuar, mas então me lembrei do beijo de Epona, lembrei-me de sua imagem gozando enquanto enfiava a tesoura entre minhas costelas; a cicatriz ainda estava lá... os pontos tinham caído há pouco tempo... eu brochava... A Senhora do Estábulo tinha decretado minha morte bem antes de tudo isso... comecei a chorar...
O choro, no entanto, trouxe algum tipo de catarse e, ainda que por um período curto, consegui dormir... infelizmente, já estava tarde para um longo descanso. Notau me balançava levemente:
— Hey, hey... look!
Acordei... não vi nada... olhei para Notau, mas então ouvi barulhos... pessoas estavam descendo a escadaria... guardas... Estava horrorizado: não seria uma batalha contra o Monstro, mas contra o Monstro e seus lacaios...
— De pé! Stand up! — gritou um dos guardas que desceram...
Eram três, todos estavam armados, com suas bandoleiras, roupas pesadas e escuras... Um outro aproximou-se de minha cela e a abriu, gesticulando para que eu saísse... em choque, saí... um ia à frente, o outro atrás de mim. Subimos a escada de volta para o laboratório, enquanto Notau ficava para trás...
Não eram apenas os guardas que me conduziam; havia guardas no laboratório, guardas nos corredores, na frente do Estábulo... Atravessamos o Estábulo como se eu estivesse sendo levado para a execução. Passamos pelo corredor e Epona estava lá... Com seu casaco, com suas roupas normais; a fantasia de que aquele era um grande dia para ela começava também a ruir...
— Dejen ese pedazo de mierda aquí y busquen al otro...
Epona me segurava pelo braço enquanto os guardas começavam a voltar pelo corredor...
— ...El otro podría reaccionar; inmovilícenlo, pero no lo maten ni lo hieran mucho.
Epona então me arrastou até um ponto da Antessala onde ela havia riscado um X. Ela soltou meu braço e disse:
— Agora você fica aí parado enquanto o outro Potro vem... como eu imagino que você nunca deu um soco nessa vida, eu espalhei umas armas pelo chão para você ter alguma chance. — Ela parou para rir. — Ai, Potro, eu não aguento você... olha, eu não espalhei as armas para lhe ajudar não, viu! É só porque eu quero que isso acabe rápido, e matar alguém no murro é demorado demais...
Ela se afastou de mim. Em meio ao terror perdia a única chance que tinha de pegar algo e golpeá-la pelas costas... mas o momento passou; antes que eu pudesse perceber, Epona já estava próxima ao corredor... distante demais para que eu tivesse alguma chance sozinho e sem o elemento surpresa...
Havia tacos, facões e, próximo a mim, um cano de ferro... infelizmente, a minha caminhada, que fora tão lenta, não foi igual à de Notau; o tempo pareceu voar, e os guardas logo apareceram com ele pelo corredor. Sua boca sangrava... deveria ter tentado lutar... Epona deixou que os guardas o levassem até o seu X... Eles então se retiraram para o corredor. Estávamos eu, Notau e Epona...
Olhei para o Outro, não sabia o que ele iria fazer... esperava algum anúncio de Epona, mas não houve anúncio. Notau pegou um facão e começou a andar na minha direção... peguei o cano, tremendo, e comecei a andar na sua direção... Teria ele desistido de tudo? Seria meu fim? Não... percebi algo: Notau não estava vindo em linha reta, ele fazia um pequeno desvio em direção a Epona... segui seus passos como um espelho...
Quando estávamos muito próximos, próximos o suficiente para nos atacarmos, Notau balançou a cabeça para mim e se virou para correr em direção a Epona. Fiz o mesmo, virei-me para correr, mas, sem olhar para Epona, com toda a força que consegui, bati com o cano em sua cabeça!
Notau deu mais alguns passos e, em uma elipse, começou a cair... o tilintar do facão veio primeiro, e depois seu pesado corpo veio ao chão; sangue espirrou delimitando um arco que começou a ser preenchido pelo que saía de sua cabeça amassada... joguei o cano longe e tive o impulso de levantar os braços... Epona deveria já ter sacado sua arma; olhei para ela... e não encontrei nada, ela estava parada, simplesmente parada... havia apenas um sorriso, o mesmo sorriso de quando ela me costurava...
Caí de joelhos no chão, chorando e tremendo... havia matado Notau? Eu havia matado alguém? Comecei a chorar e gritar... o que Epona havia me feito fazer? Tive o impulso de bater minha cabeça contra o chão... mas, antes que eu o fizesse, ela falou:
— Surpreendente, Potrinho! Só um conselho: quando for matar alguém, garanta que ele não vai se levantar...
Epona falou isso e se virou de costas, deixando a Antessala, e então percebi algo horrível... Notau não havia morrido... não ainda. Ele tentava se levantar... não sabia o que fazer, não conseguia me mexer... sangue cobria toda a parte esquerda do seu rosto amassado e pingava de seu cabelo empapado... ele vinha em minha direção... já estava morto, mas o inferno lhe havia permitido voltar para me arrastar com ele... Caí de bunda no chão, minhas pernas falhavam, pus-me a arrastar com as mãos para trás... Notau andava como se estivesse bêbado; essa foi minha sorte. Meu engatinhar parecia levar a melhor, ganhava uma distância que ele, em seus momentos derradeiros, não conseguiria alcançar. Pensei que estava a salvo, e então senti o facão, arremessado por ele com suas últimas forças, bater nas minhas costas, cortando-me um pouco, mas, seja porque encontrou osso ou porque sua força já não era a mesma, quicou e caiu do meu lado esquerdo, próximo ao meu rosto.
A última Doma foi a mais difícil, mas ela resolvia o meu problema entre predador e presa... O Cavalo, a presa, está condenado por sua essência ao sofrimento, mas com sua própria carne pode aumentar a potência do Predador e nisso, enquanto extensão das potencialidades de uma Vontade, encontrar algum sentido! A Doma companheira havia sido aprendida.
