Nunca pensei que aos quarenta e cinco anos ainda pudesse descobrir uma versão de mim que desconhecia.
Sempre fui a mulher responsável. Trabalhava, pagava as contas, sorria quando era preciso e fazia o que esperavam de mim. A minha vida era tranquila, previsível... demasiado previsível.
Foi numa sexta-feira, ao sair do trabalho, que tudo começou.
Passei novamente pela pequena loja que via quase todos os dias. Nunca tinha entrado. Não por vergonha, mas porque dizia a mim própria que aquele mundo não era para mim.
Nesse dia parei.
Fiquei alguns segundos a olhar para a montra. Havia um corset preto, elegante, sem exageros. Não parecia uma fantasia. Parecia uma armadura.
Respirei fundo e empurrei a porta.
Um pequeno sino anunciou a minha entrada.
O ambiente era inesperadamente acolhedor. A luz era suave, havia música baixa e um discreto aroma a baunilha misturado com couro novo. Nada era vulgar. Pelo contrário, tudo parecia pensado para que as pessoas se sentissem confortáveis.
— Boa tarde.
Levantei os olhos.
Atrás do balcão estava uma mulher de sorriso tranquilo. Não tentou vender-me nada. Apenas esperou que eu explorasse a loja ao meu ritmo.
Foi isso que me fez ficar.
Passei lentamente pelas prateleiras. Livros. Máscaras. Luvas. Corsets. Cada objeto parecia contar uma história diferente.
Sem dar por isso, parei novamente diante do corset da montra.
— Pode experimentá-lo, se quiser.
Olhei para a funcionária, surpreendida.
— Acho que sim...
Ela conduziu-me até ao provador e deixou a caixa sobre um banco.
— Não tenha pressa.
Fechou a cortina e saiu.
Fiquei sozinha.
Quando vesti o corset, senti algo difícil de explicar.
Não era apenas a forma como moldava o meu corpo.
Era a forma como mudava a minha postura.
Endireitei as costas.
Levantei o queixo.
Olhei para o espelho.
A mulher refletida à minha frente era eu.
Mas parecia diferente.
Mais segura.
Mais firme.
Mais consciente da presença que ocupava no espaço.
Sorri pela primeira vez.
Não porque me achasse mais bonita.
Sorri porque, durante alguns segundos, senti que deixara de pedir licença para existir.
A voz da funcionária ouviu-se do outro lado da cortina.
— Como se sente?
Olhei novamente para o espelho antes de responder.
— Diferente.
Ela sorriu.
— Às vezes basta encontrarmos a peça certa.
Saí do provador já com o casaco vestido, mas trazia a caixa do corset debaixo do braço.
Enquanto pagava, a funcionária disse apenas:
— Espero voltar a vê-la.
Sorri.
— Acho que vai.
Quando saí para a rua, percebi que nada à minha volta tinha mudado.
As pessoas continuavam a caminhar apressadas.
Os carros continuavam a passar.
O céu tinha exatamente a mesma cor.
Quem mudara era eu.
E, pela primeira vez em muitos anos, tive a sensação de que a minha verdadeira história estava apenas a começar.
