O ronco do motor do carro sumindo lá na esquina deixa um eco esquisito naquela rua iluminada e vazia. Pronto: é o som da minha libertação. Meu marido entrando no carro, o estalo da fechadura da porta do carro, o seu desaparecimento lento na esquina, marca o segundo exato em que posso, finalmente, chutar o balde e parar de fingir. Minutos antes, eu estava ali na porta da sala, a própria imagem da doçura. "Vai com Deus, meu amor, bom trabalho", eu disse, com aquela voz mansa de quem não quebra um prato. Dei um beijo terno, daqueles estalados e demorados bem no meio dos lábios dele, enquanto ajeitava o colarinho da sua camisa. Ele sorriu carinhosamente. “Tenha uma boa noite meu amor” e foi embora com o peito cheio de orgulho da esposa dedicada que tem em casa.
A verdade é que nosso casamento virou um grande deserto de gelo embrulhado em papel de presente. Esses cinco anos de matrimônio nos transformaram em dois irmãos dividindo as contas e a mesma cama, um arranjo morno onde o desejo foi sepultado pelo tédio sexual e pelas aparências. Ele se acostumou tanto com a minha presença que passou a me enxergar como parte da mobília, um objeto sagrado que se respeita, mas não se toca com aquele desejo ardente. Não existe mais atração, não existe o calafrio do toque; o conservadorismo religioso dele transformou nossa intimidade num dever burocrático e sem sal, onde qualquer faísca de malícia é vista como pecado. Essa falta de interesse, essa indiferença vestida de santidade, foi me sufocando aos poucos. Eu precisava de carne, de fogo, de algo que me fizesse sentir viva de verdade. Foi no meio desse abandono disfarçado de lar cristão que descobri que o meu prazer morava bem longe das regras dele. Minha transgressão não nasceu do nada; foi a única saída que encontrei para não morrer de fome numa mesa farta de aparências: as almofadas alinhadas no sofá, o cheiro de lustra-móveis no ambiente, e a Bíblia aberta bem no centro da mesa de centro fazem com que nosso lar exale essa ordem impecável. Pouco antes de ele cruzar a porta, nós dois estávamos ali, de joelhos no tapete da sala, de mãos dadas. Ele puxou um clamor fervoroso, pedindo proteção para a nossa noite, agradecendo pela nossa união e louvando a minha pureza, enquanto eu, de cabeça baixa e olhos fechados, fingia concordar com cada palavra. Que papelão. Meu marido, com aquela pose de varão cheio de autoridade e compromisso perante a sociedade, nem desconfia que a mulher recatada que ele acabou de beijar carrega uma mente pervertida. Ele acha que me conhece porque dividimos a mesma rotina morna, o mesmo café da manhã sem graça e as mesmas orações decoradas antes de deitar, basta a porta bater para a máscara derreter. Quando o silêncio da noite desaba feito chumbo nessa casa perfeitinha, sinto uma casca sufocante descascar da minha pele. Caminho pro quarto pisando em ovos, devagarzinho, mas com o coração na boca, ciente de que a farsa acabou. Enquanto ele trabalha na sua jornada noturna achando que o lar está em paz, o meu sangue começa a ferver com uma força assustadora. É uma contagem regressiva silenciosa que faz cada tique-taque do relógio da sala soar como uma bomba prestes a explodir. A quietude da casa não me traz sossego; ela liga o motor da minha perversão.
Diante do espelho do guarda-roupa, encaro a mosca-morta que os vizinhos e a comunidade cansam de elogiar. Credo, chega a dar náusea pensar no teatrinho diário que acabei de encenar na sala. Começo soltando o cabelo, desfazendo aquele coque esticado e certinho, arrancando os grampos um por um como se estivesse desarmando uma armadilha. Transformo esse penteado recatado em um rabo de cavalo mais descontraído, mudando completamente a minha cara, mas deixo que meus óculos de 0,25 graus continue repousando em minhas orelhas. Depois, vêm as roupas. O vestido recatado, de pano grosso e sem graça feito pra sepultar qualquer rastro de vaidade, escorrega pelo corpo como uma cobra trocando de pele. Peça por peça, a farsa desmorona no chão, formando uma pilha de pano morto que não me representa em nada.
Nua diante do reflexo, o sangue cutuca as veias e eu finalmente me acho. Gosto do meu corpo, sim senhor, e minha autoestima não passa fome no meio da minha podridão; muito pelo contrário, ela se esbanja. Há uma delicadeza nas minhas formas, uma fragilidade aparente que faz o que está por vir parecer uma grande e violenta profanação. Olho pro meu próprio reflexo e sinto aquele frio na barriga, a eletricidade da mente estragada conversando com a carne limpa. É o meu primeiro gatilho de excitação. A transgressão começa na cabeça: pensar no choque que o meu marido teria se me visse despida de toda aquela hipocrisia puritana, minutos após aquela oração de mãos dadas, já faz minha buceta pulsar fortemente. Tô encharcada. Apoio o joelho na beirada do colchão, abro as pernas de uma vez e enfio a mão ali embaixo pra ver o tamanho do estrago. "O que você tá querendo, hein, sua devassa?", minha voz sai meio trêmula, mastigando as palavras no escuro enquanto três dedos afundam de uma vez. Enfio tudo, torcendo a mão com eles bem lá dentro, ouvindo aquele estalo abafado de carne molhada com carne molhada. Quando puxo os dedos melados de volta, levo direto pra boca. Chupo cada um até limpar tudo, engolindo o gosto. "Nossa, que delícia... Como é que aquele homem não gosta disso? Meu Deus...". Encho a ponta dos dedos de saliva e empurro tudo pra dentro de novo, repito isso duas vezes ainda de forma que o picadeiro tá pronto, a lona tá erguida, e a engrenagem do meu desejo já está girando na minha mente desvairada. Dou um passo à frente, quase colando os seios no vidro frio. Ajusto os óculos com a ponta do indicador, só para ter certeza de que não vou perder nenhuma linha do que sou. Devagar, vou girando o corpo de lado, depois de costas, torcendo o tronco e empinando o bumbum o suficiente para que meus olhos encontrem o reflexo lá atrás. Minhas mãos descem firmes pelas curvas do meu quadril, apertando a carne com uma audácia que assustaria qualquer um.
Passo os dedos pela curvatura perfeita da minha bunda, sentindo a pele firme, empinada, intocada pela gravidade e totalmente desperdiçada por aquele homem. Solto um risinho anasalado, que ecoa quebrando o silêncio do quarto, e dou voz ao que minha mente grita sem nenhum pudor:
— Olha só para isso... — sussurro, assistindo à minha própria boca se mover no espelho. — Que desperdício de bunda. Tão redonda, tão perfeita, e aquele varão de Deus nem imagina o que ela está prestes a aguentar. Uma gostosa dessas, presa numa jaula de santidade. Ele que continue rezando, porque quem vai usar isso aqui hoje sou eu. O som das minhas próprias palavras mundanas bate no vidro e volta direto para o meu peito, fazendo meu coração errar a batida. A autoadmiração me incendeia. É o empurrão final que eu precisava. Deixo o espelho para trás e dou as costas pro quarto. Mas antes do banheiro, preciso pegar minhas ferramentas. Vou direto pro closet, bem no cantinho da minha ala, onde sei que aquele homem não mete o nariz nem que a vida dele dependa disso. Atrás de um amontoado de roupas velhas, daquelas que já mofaram de tanto ficar sem uso, tá escondida a caixa que guarda os meus segredos mais sórdidos. Abro a tampa com cuidado e sinto uma onda de calor percorrer todo meu corpo só de olhar pro arsenal: uma coleção de dildos de tudo quanto é tamanho, uns plugs cabeçudos, um pote gigante de lubrificante e a bolsa de enema com a mangueira enrolada. É o meu tesouro profano. Agarro a bolsa e o pote de gel, sentindo o plástico frio contra os meus dedos ainda melados, e sigo descalça pro banheiro. Chegou a hora da faxina.
O chão de azulejo gela a sola dos meus pés de uma vez, um choque térmico que me traz de volta pra realidade mecânica da coisa. Ali não tem romance. Penduro a bolsa de água na altura certa do box, abro a torneira e deixo o líquido morno preencher o plástico devagarzinho. Enquanto a água sobe, já me acomodo ali mesmo no vaso sanitário, na maior naturalidade do mundo. Para uma sonsa, isso seria um pesadelo de dor ou vergonha; para mim, é só terça-feira. Como meu cu já tá mais do que calejado e o meu reto já perdeu qualquer resistência faz tempo, não tem aquela frescura de hesitação de principiante. Coloco um pouco de gel na ponta dos dedos, besunto bem e enfio dois de uma vez só, girando, entrando e saindo, laceando a entrada num movimento rápido, só pra dar passagem pra mangueira. Sinto a carne ceder na hora, totalmente acostumada. Com a outra mão, pego o bico do aplicador e empurro direto, sentindo a borracha deslizar sem achar barreira nenhuma, sumindo na carne que já se alargou de tanto ceder aos caprichos da minha mente desvairada. Abro a válvula e a água morna começa a descer pela mangueira. O peso do líquido invadindo o meu ventre traz uma sensação esquisita, um preenchimento forçado que me estufa por dentro, mas que eu já conheço de cor e salteado. É uma cólica artificial, uma pressão pesada que vai ocupando cada espaço lá embaixo, como se eu estivesse engolindo a água de ré. “Aguenta firme, sua louca”. Sigo ali sentada no vaso, segurando o rojão pra não sujar o chão de jeito nenhum, sentindo a barriga pesar e as paredes do reto se esticarem ao máximo sob a força do líquido. Minha pele branca fica até meio tensa, esticada pelo volume. Dá uma cólica chata, daquelas de arrancar lágrima, mas o desconforto pra mim é combustível. Quando a bolsa esvazia, deixo tudo ir embora no vaso, mas sei que a brincadeira tá longe de acabar.
Uma mulher com o reto já castigado sabe que uma vez só não limpa nada. Para o nível de degradação e o tamanho dos dildos que vêm depois, o negócio tem que ser cirúrgico. Repito o processo uma, duas, três vezes. Levanto, encho a bolsa de água morna de novo, sento no vaso, enfio os dedos, coloco a mangueira e deixo inundar tudo por dentro de novo, até as minhas entranhas darem um nó de tanto cansaço. Só paro quando dou a descarga e vejo que a água tá saindo límpida e cristalina, sem rastro nenhum de sujeira. Aí vem o toque final pra garantir que não sobrou uma gota perdida no fundo. Pego um dildo médio no meu arsenal, passo um bocado de gel na ponta dele e enfio devagarzinho, sentindo o silicone empurrar o resto de ar e água que ficou preso nas curvas da carne. O movimento do dildo faz o meu reto contrair e expelir os últimos jatos de água que insistiam em ficar escondidos, limpando o caminho por completo. Lavo os instrumentos, seco tudo e recolho o meu arsenal. Saio do banheiro flutuando, com aquela sensação de esvaziamento absoluto, leve e tinindo de limpa. O quarto continua mergulhado naquela calmaria de farsa. Abro a porta do armário com cuidado e começo a tirar os ursos de pelúcia um por um. Coloco o urso maior na cadeira, exatamente na altura em que ele possa encarar a linha da minha cintura e o contraste da minha pele contra o que vem por aí. Distribuo os menores na cabeceira da cama. Olho pro rostinho inocente deles e dou um risinho de canto.
— Vocês querem ver o que vou fazer, né? Guardem segredo, não contem isso pra ninguém — sussurro, instruindo a minha própria plateia silenciosa.
Pego os dildos menores, aqueles que não assustam, só pra ir abrindo passagem na carne e preparando o caminho. Alterno os objetos com a minha própria mão, que entra inteira, mergulhando sem freio até a metade do meu antebraço de tanto gel. Tiro a mão de lá de dentro e enfio de novo, repetindo o movimento várias vezes, ouvindo aquele estalo abafado de carne esticada. Toda vez que puxo o braço, trago comigo uma abundância de lubrificante viscoso. Uso esse excesso para besuntar meu próprio corpo: esfregando na barriga, subindo pros seios e lambuzando a minha bunda inteira, que fica completamente reluzente e suja no meio daquela bagunça.
Já se passaram quase três horas que estou perdida nesse transe, testando os limites do meu próprio corpo no silêncio da casa vazia, sem pressa alguma para o tempo acabar. Depois de me esbaldar com essa brincadeira e sentir o canal totalmente anestesiado, puxo a caixa de ferramentas para perto. Encaro o urso maior sentado na cadeira, vigiando cada respiração minha com aqueles olhos parados de vidro. No auge da minha loucura, aponto para o arsenal e pergunto diretamente para a pelúcia:
— E aí? Qual vai ser o próximo?
No silêncio do quarto, na minha mente desvairada, sinto o comando dele vir nítido: "Pega esse preto grande cheio de ranhuras". Dou um passo atrás, sentindo o peito subir e descer com força, e reluto:
— Não... esse não, vai me arrombar toda.
Mas na minha cabeça, a voz dele insiste, firme, mandando no meu desejo: "Pega logo, você aguenta". Eu olho bem para o rostinho de pano dele, com o coração parecendo uma bateria no peito, e imploro:
— Você não vai falar pro meu marido, né?
E no meu delírio, ele responde mansinho, me dando a segurança que eu preciso para pecar: "Não, não vou não, confie em mim".
Pronto. Agarro o monstro de vinte e cinco centímetros de comprimento por uns vinte e três de circunferência, cheio de texturas e sulcos salientes esculpidos no silicone maciço. Mas antes, o cálculo frio do segredo entra em ação. Uma gota desse gel na capa e o meu marido descobre tudo amanhã. Vou até a cozinha com as pernas meio bambas, as duas partes do bumbum deslizando de um lado pro outro toda melada de gel, puxo aquele rolo de plástico filme estridulante e embalo a Bíblia da sala com uma precisão quase médica, esticando o PVC até o livro ficar totalmente blindado. Monto a pilha rígida com outros livros bem no meio da cama, com as escrituras coroando o topo, e pressiono a ventosa do dildo de silicone direto na capa plastificada. O estalo seco da sucção sela a profanação sob a luz suave.
Subo nele de uma vez. Quando o topo encosta na entrada, sinto o corpo travar, mas a carne cede na hora, engolindo aquela grossura toda com o apetite de quem já apagou os próprios limites faz tempo. Com as pernas dobradas e bunda arrebitada, começo a subir e descer lentamente, cada descida meu cu engole mais um centímetro, arrumo meu óculos e olho no espelho, pouco a pouco minha reto engolia aquele pinto enorme e pesado, ficava vidrada na imagem, o ritmo foi aumentando, eu subia e deixada a gravidade fazer o resto descendo com força na base rígida. O atrito é brutal. As ranhuras do silicone raspam por dentro, arrastando as paredes da carne e trazendo aquela dor rasgada que eu tanto procuro. É aí que o bicho pega. O meu próprio corpo resolve lutar contra mim. O meu abdômen endurece, contraindo num reflexo violento, uma vontade involuntária e desesperada de expelir aquele corpo estranho, de empurrar aquela massa preta pra fora de qualquer jeito. É uma briga interna assustadora: minhas entranhas forçam pra expulsar, mas eu travo os dentes, ponho todo o peso do meu quadril para baixo e empurro o dildo ainda mais fundo, devorando cada centímetro à força. Essa guerra entre o reflexo da carne querendo botar pra fora e a minha mente perversa enfiando pra dentro me dá um prazer imenso, uma eletricidade que faz minhas pernas tremerem.
Com as costas curvadas, ressaltando minha lordose, olho de relance pro espelho. Meus óculos de grau estão meio embaçados por causa do bafo quente da minha própria respiração ofegante, mas pelo canto da lente eu consigo enxergar a cena inteira. Fico em choque. Me impressiono com o tamanho daquela tora preta enfiada inteira no meu rabo, sumindo dentro de mim a cada descida, de vez em quando eu o tirava totalmente, só pra contemplar o estrago refletido no espelho, meu cu estava todo deformado. É uma imagem absurda, violenta. Encaro aquela destruição e a minha boca se move num sussurro desesperado:
— Meu Deus... não me arregaça assim não, moço... por favor, eu não aguento...
Mas quanto mais eu choramingava, mais a minha bunda arrebitada subia e descia com violência, esmagando o silicone contra os livros. Naquela esticada extrema, o preenchimento é tão brutal que a grossura absurda do dildo empurra as paredes internas lá dentro, massageando o clitóris por trás, pelo lado avesso da carne. Aquela pressão maciça esmagando tudo por dentro gera um choque elétrico, disparando uma onda de prazer incontrolável na minha frente. O tesão explode. Minha voz sai inteiramente embargada, sufocada pelo choro e pelo prazer que me atropela sem dó. Olho fixo pro urso na cadeira, com as lágrimas borrando a lente dos óculos, e começo a me xingar alto, expondo toda a minha podridão no meio do quarto:
— Olha o que essa puta vagabunda tá fazendo... olha o tamanho disso dentro de mim, meu Deus... como eu sou nojenta, como eu sou porca... por favor, não deixa meu marido saber, não conta pra ele, esconde isso de todo mundo...
A velocidade aumenta, a carne se esfrega com uma força desesperada no colosso cumprido e grosso e o clitóris parece que vai explodir de tanta pressão por dentro. O espasmo começa a travar minhas pernas. No auge da euforia, quando sinto que vou desabar, a pose de dona da situação rui por completo. Agarro o lençol com as pontas dos dedos, cravo as unhas no colchão e começo a implorar socorro pro brinquedo inanimado, chorando de verdade na hora do orgasmo:
— Me ajuda... por favor, socorro! Não deixa ele fazer isso comigo não... ele tá acabando comigo, tá me destruindo inteira... não, não, para... ai, meu Deus...
O corpo estremece inteiro num sobressalto violento, o reto contrai com tudo esmagando os sulcos do dildo e o clitóris descarrega aquela onda elétrica de uma vez só, me fazendo desabar de peito no colchão, mole, ofegante e completamente inundada pela minha própria perversão e então fico ali esticada por longos minutos, ouvindo apenas o som da minha respiração pesada voltando ao normal no silêncio do quarto. Aos poucos, o transe vai passando e a frieza do mundo real bate na porta. Levanto com as coxas ainda trêmulas, o corpo todo colando de lubrificante. Desgrudo o dildo monstruoso da base rígida, fiquei meio assustada porque reparei que estava melado com um liquido viscoso avermelhado “passei dos limites”, pensei e levo tudo de volta pro banheiro. Lavo os brinquedos meticulosamente, limpo o braço e a pele, e esvazio o meu interior de qualquer rastro que possa me denunciar. De volta ao quarto, o foco é apagar as pistas. Desenrolo o plástico filme da Bíblia com cuidado cirúrgico. Passo os dedos pelas páginas e pela capa dura: perfeitamente secas, intactas, sem uma mancha sequer de gel. Um alívio gelado percorre minha espinha. Devolvo o livro sagrado exatamente pro centro da mesa de centro da sala, alinho as almofadas do sofá e coloco os ursos de pelúcia de volta no armário, guardados em suas posições inocentes do dia a dia. Tranco a caixa de segredos bem escondida no fundo do closet, embaixo das roupas velhas. Quando apago a luz suave do abajur, o quarto volta àquela calmaria opressiva de sempre. Deito na cama limpa, ajeito os óculos na cabeceira e me cubro, pronta para receber meu marido na manhã seguinte com o meu melhor sorriso de esposa devota. O teatro acabou. Mas o verdadeiro fim do show não acontece no corpo; acontece na cabeça. Conforme a adrenalina escorrega pelos ralos e o cortisol baixa, a química do cérebro muda num estalo frio. O córtex frontal assume o comando e a ressaca moral bate com força de ressaca física. Olho pro teto escuro e o peso de tudo o que acabei de fazer desaba no meu peito, esmagando aquela vaidade que eu sentia horas atrás. Credo, que nojo de mim mesma. Olho para minhas mãos limpas e sinto uma repulsa violenta da criatura que estava montando aquele picadeiro bizarro minutos antes, de joelhos, implorando socorro pra bicho de pelúcia. Uma onda de culpa e arrependimento amargo sobe pela garganta, me deixando com um vazio esquisito, um gosto de cinza na boca. De olhos fechados, engolindo o choro no silêncio do quarto, faço aquela promessa jurada de pé junto que já fiz tantas outras vezes: nunca mais. Essa foi a última vez, eu juro por Deus. Amanhã eu mudo, amanhã eu volto a ser a santinha que ele merece. Encolho o corpo debaixo do cobertor, tentando me esconder de mim mesma, sabendo que a farsa da manhã seguinte vai começar antes mesmo de o meu marido cruzar a porta.
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