— CAPÍTULO DOIS —
A TOALHA BRANCA
O corredor do quarto andar do Hotel Continental cheirava a produtos de limpeza cítricos e um silêncio opressivo que contrastava com a batida ensurdecedora no interior do meu peito. A cada passo no carpete bege, eu sentia que o chão sob meus pés era feito de vidro, pronto para estilhaçar ao menor sinal de movimento brusco. Eu estava usando a mesma jaqueta que vestira para a aula daquela manhã, um uniforme de estudante comum que agora parecia uma fantasia mal ajustada. A mão que segurava a chave eletrônica tremia tanto que precisei de duas tentativas para estabilizá-la antes de localizar o número 402.
Eu parei em frente à porta. O momento era de uma clareza absoluta: eu não sabia o que iria encontrar, mas sabia que, após essa decisão, não haveria caminho de volta para aquela vida cinzenta e previsível que eu vinha colecionando. Aproximei o cartão da fechadura e senti um clique magnético ecoar pelo corredor como um disparo.
Empurrei a porta, que cedeu com um rangido sutil, e entrei no ambiente semicerrado, mal iluminado por uma luz de cabeceira que projetava sombras longas e dançantes pelas paredes.
O ar lá dentro estava carregado de calor e de um perfume familiar — uma mistura de desodorante esportivo, suor seco e algo mais, algo que pertencia à energia visceral que eu sentia todas às vezes que olhava para as quadras do setor poliesportivo.
— Você veio — a voz soou vinda do fundo do quarto, grave, rouca, carregada de uma hesitação que eu nunca, em nenhum momento na sala de aula, poderia ter associado ao capitão do time.
Virei-me e o tempo pareceu congelar em uma inanição estática.
Bernardo estava ali, parado perto da janela entreaberta, onde o vento da noite agitava levemente a cortina. Ele segurava uma toalha branca na cintura, o tecido úmido colado à musculatura definida dos ombros, gotas de água ainda descendo pelo peito nu até desaparecerem na borda do pano. O rosto, o mesmo rosto que eu observava de longe e que eu desdenhava por ser o símbolo da perfeição acadêmica e esportiva, estava agora desprovido de qualquer máscara. Havia uma vulnerabilidade crua, um brilho de embriaguez e expectativa intensa naqueles olhos que pareciam me escanear, processando cada detalhe da minha presença.
O choque foi sísmico, intenso. O ar sumiu dos meus pulmões. Meus olhos saltavam de um ponto a outro: as marcas de arranhões nos braços, a pele alva, a estrutura física que eu desejava secretamente enquanto escondia minha própria essência nos livros de Direito. Era ele. O cara da frente. O meu oponente invisível. O meu oposto complementar. Eu me senti como se tivesse tropeçado em uma evidência que não podia ser ocultada, um fato jurídico irrefutável e devastador. Bernardo parecia ter levado um soco. Ele recuou um passo, a mão soltando a beirada da toalha por um segundo antes de ele a agarrar com mais força. O reconhecimento brilhou em seus olhos, uma centelha de horror misturada com um desejo tão violento que eu senti minhas pernas fraquejarem.
— Bruno? — a voz dele saiu como um suspiro quebrado.
Ele não usou o meu nome com a formalidade da sala de aula; ele o pronunciou como se estivesse testando a textura de uma descoberta impossível.
— Bernardo, você é... —Tentei falar, mas minha voz falhou.
O Pagina42 e o 1°Saque tinham deixado de ser entidades digitais; tinham se tornado homens de carne e osso, vivendo um pesadelo e um sonho simultâneos. As horas que passamos trocando confissões sobre a faculdade, sobre a pressão, sobre a vontade de queimar tudo, agora tinham um rosto. Ele era a pessoa que eu via todos os dias, o aluno exemplar cujas costas eu analisava com uma mistura de inveja e atração que eu nunca me permitira nomear.
— Bernardo — respondi, o nome soando estranho, como uma revelação. O espaço entre nós parecia ter se transformado em uma zona de guerra. A tensão física era palpável, uma espiral ascendente de eletricidade que fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem. Ele não se moveu, eu não me movi.
Ficamos ali, dois estranhos que se conheciam melhor do que qualquer outra pessoa na terra. A toalha branca, o símbolo daquela fragilidade escondida, parecia ser a única coisa mantendo o mundo girando. Senti o meu celular vibrar no bolso, um lembrete insolente da nossa vida real que, a menos de um metro de distância, parecia ter perdido completamente qualquer relevância. A revelação não nos separou; pelo contrário, ela fundiu as nossas realidades de uma forma que me deixou tonto. Eu estava lá, parado na penumbra de um quarto de hotel com o cara que eu deveria detestar, mas que eu, na verdade, estava morrendo de vontade de tocar desde o primeiro semestre. E, ao ver a forma como ele me olhava — com a mesma fome, o mesmo medo e a
mesma urgência que me consumiam — entendi que o choque não era um ponto final, mas apenas a ignição de uma verdade que ambos não poderíamos mais ignorar.
O silêncio do quarto 402 não era mais opressivo; ele estava carregado de uma eletricidade que parecia vibrar nas paredes. O choque do reconhecimento — o choque de ver o colega de classe, o arquétipo da perfeição, o estudante que eu julgava e desejava simultaneamente — ainda latejava em minhas têmporas, mas a gravidade da situação estava sendo rapidamente substituída por algo mais urgente: a realidade de estarmos trancados ali, sozinhos, com meses de palavras não ditas clamando por uma forma física.
Bernardo deu um passo à frente. O movimento foi tateante, quase desajeitado, denunciando que a confiança do atleta em quadra tinha se dissipado diante do que estávamos prestes a cruzar. A toalha branca continuava ali, mas ele parecia menos preocupado em mantê-la do que em manter o contato visual comigo.
— Nós deveríamos ser inimigos, não é? — a voz dele cortou o ar, rouca. — Na sala de aula, nos corredores... nós somos o que todos esperam. O “estudante de Direito” e o “capitão”.
Eu sorri, um riso curto e sem humor, e dei um passo em sua direção, fechando o abismo que nos separava.
— Esquece as aulas. Esquece o professor Horácio. Esquece o time de vôlei. — Meus olhos percorreram o peito dele, as linhas dos músculos tensionados pela adrenalina. — Aqui dentro não existe o Pagina42 ou o 1°Saque. Existe apenas o que a gente guardou por semanas.
Bernardo soltou o ar de forma controlada e, em um gesto que parecia uma capitulação, deixou a toalha deslizar para o chão. A nudez revelada não foi apenas física; foi a última barreira de proteção. Ele estava ali, exposto, real, sem a armadura da conduta impecável que ele carregava como uma cruz. Quando ele se aproximou, senti o calor que emanava de sua pele, um contraste direto com a penumbra fria do quarto. Minhas mãos tocaram o ombro dele. O contato foi como um curto-circuito. Ele reagiu imediatamente, sua mão encontrando minha nuca com uma força que era, ao mesmo tempo, uma súplica e uma exigência. Não houve delicadeza, não houve cerimônia. Havia o desespero acumulado de cada troca de mensagem, de cada olhar que desviávamos nos corredores da faculdade para não sermos descobertos, de cada frustração que jogamos no feed de um aplicativo enquanto sentávamos a poucos metros um do outro.
Sua pegada era forte e sua respiração exalava pecado e luxuria. Ele me empurrou contra a porta que eu acabara de fechar atrás de mim, e o estrondo metálico da tranca foi o único som que interrompeu nossa respiração. O beijo foi uma colisão. Tinha gosto de vodca, de anonimato e de uma urgência que não respeitava os dogmas que passamos anos aprendendo a estudar. Suas mãos, as mesmas mãos que eu observava secretamente enquanto ele anotava matérias no auditório, agora apertavam minha pele com uma fome que me deixava tonto.
— Por que você? — ele murmurou contra minha boca, um som entre a dúvida e o deleite. — Por que foi você que eu procurei?
— Porque eu estava cansado de fingir — respondi, puxando-o para mais perto, querendo fundir nossos corpos até que não soubéssemos mais onde o meu receio terminava e a coragem dele começava.
O beijo veio com uma urgência absurda da qual eu não imaginava que precisava. Sua língua procurava a minha com uma fome absurda. Nós desatamos todas as amarras ali. A entrega foi total, um atropelo de sensações onde a hierarquia da faculdade e as expectativas sobre os “Brito” — o estudante e o atleta, simplesmente deixaram de existir. Havia apenas o toque, o arranhar das unhas, a busca desesperada por uma conexão que não fosse mediada por tela ou teclado. A desinibição que ele trouxe do bar e o alívio que eu carregava desde o término com Lisandra se uniram em um frenesi que ignorava qualquer regra de convivência universitária.
Suas mãos percorreram meu corpo e arrancaram as peças de roupas que encontrou pelo caminho me deixando totalmente exposto e a mercê de sua fome vorás. O 1°Saque devorava meus lábios como um animal faminto que passou dias sem nenhum alimento descente, assim como eu devorava seus lábios como um verdadeiro lobo em busca de um cordeiro.
Seu corpo forte de atleta me pressionava contra a porta do quarto 402, enquanto suas mãos buscavam algo abaixo da minha cintura. Senti meu corpo inteiro eletrizado quando ele encontrou o que buscava, segurando meu pênis firme, ele apertou com força me fazendo gemer como um adolescente em sua primeira vez. Se bem que realmente é a minha primeira vez com um outro homem.
Suas mãos continuaram a percorrer meu corpo agarrando a minha bunda com uma força inimaginável. Bernardo me ergueu nos braços e me levou para a cama king size me deitando e jogando seu corpo sobre o meu.
— Se eu soubesse que você era o Pagina42 eu já tinha te arrastado para esse quarto de hotel a muito tempo Bruno.
— Acho que o anonimato do aplicativo foi o melhor tempero para a nossa fome. Mas eu preciso te contar logo. Essa é a minha primeira vez.
Bernardo lançou um sorriso de canto atrevido
— Então quer dizer que serei o seu primeiro?
O tesão e a vergonha tomaram conta de mim e tudo que pude fazer foi um leve aceno de cabeça.
— Não se preocupa Bruno, eu cuidarei muito bem de você hoje.
Seus lábios colaram aos meus com mais intensidade e rapidez jamais imaginável. A minha confissão foi o estopim para a sua audácia. Lá fora, a vida continuava em um loop de normas e competições, mas, naquele quarto, suspendemos nossas identidades. O Pagina42 tinha um rosto, mãos, uma boca faminta; o 1°Saque tinha falhas, medos e uma vulnerabilidade que me pertenceria pelo resto da noite. Não era apenas sobre desejo físico; era sobre a destruição da imagem que tínhamos sido forçados a sustentar. Cada beijo, cada toque na pele nua, era uma assinatura de liberdade. Pelo espaço de algumas horas, a faculdade, o Direito, o vôlei e o peso que vinha com nossos sobrenomes foram trancados do lado de fora. Éramos apenas dois estranhos, que casualmente se conheciam melhor do que qualquer outra pessoa no mundo, descobrindo que a maior Transgressão não era o desejo que sentíamos um pelo outro, Mas a coragem de finalmente assumi-lo sem pedir autorização a ninguém.