Não foi fácil, mas uma decisão foi tomada. Talvez não fosse a mais correta; o que decidimos fazer não me dava segurança, mas Helena acabou me convencendo. Ir para longe, pelo menos por um tempo, parecia ser o melhor, mas eu não queria. Sabia que todos iriam sofrer com isso, inclusive Manu. Acho que esse foi o maior motivo para eu aceitar o que Helena propôs, pelo menos por enquanto.
Ficamos um bom tempo combinando tudo. Novas ideias surgiram e, no fim, aquilo pareceu mais viável. Helena também me contou que, pelo pouco que conhecia do pai de Rogério, ele era um homem sério e honesto. Ela não acreditava que ele ajudaria o filho, mas não podia confirmar isso com certeza, pois não tinha um conhecimento mais profundo sobre ele. Disse que as famílias se encontravam de vez em quando nas festas da empresa, quando seu Geraldo trabalhava para ele, mas não eram amigos íntimos. Ela se ofereceu para sondar o marido e descobrir mais sobre o caráter dele.
Agradeci e disse que precisava ligar para Pedro para perguntar se ele poderia me deixar ficar lá por alguns dias. Eu tinha quase certeza de que ele deixaria, até porque ele sempre ajuda quando pode e, além disso, viajava quase a semana toda.
Assim que liguei, ele atendeu e perguntei o que precisava. Pedro ficou surpreso e quis saber o que havia acontecido para eu querer sair de casa. Expliquei tudo de forma resumida e ele se prontificou a ajudar. Contudo, avisou que se eu fosse na segunda, provavelmente não o encontraria mais no apartamento, pois ele iria sair às cinco da manhã para viajar. Ele deixaria a chave e a autorização com o porteiro. Agradeci e disse que o avisaria se iria naquele início de noite ou na manhã seguinte.
Helena partiu logo depois que Tânia ligou perguntando por ela. Tamires decidiu ficar para me ajudar a arrumar minhas coisas e brincar com Manu, que já estava cansada dos brinquedos e queria atenção.
Decidi ir na manhã seguinte. Troquei algumas mensagens com Helena e ela me disse para ir de manhã; ela me levaria ou me emprestaria seu carro para levar minhas coisas. Agradeci e fui terminar de arrumar tudo. Eu só levaria o básico para mim e para Manu. No meio da semana, pegaria mais coisas. Se conseguisse alugar um apartamento, também pegaria alguns móveis, já que, como Helena disse, eram meus, pois tudo ali pertencia a Carla.
Carla tinha apenas uma mala pequena. Tamires disse que assim que Tânia fosse embora, poderíamos pegar algumas na casa dela. Aceitei a oferta e também queria levar Manu para ver seu Geraldo.
Enquanto arrumava minhas coisas, encontrei o envelope que Laura me havia dado, contendo o cheque sem assinar. Fiquei em dúvida se deveria deixá-lo ou levá-lo. Decidi levar, talvez no futuro ele pudesse ser útil. Não tinha certeza do que seria da minha vida, e aquilo poderia ser uma tábua de salvação, caso eu precisasse. Embora não tivesse intenção de usá-lo naquele momento, não poderia ignorá-lo. Eram dez mil reais e, provavelmente, uma noite com uma mulher muito interessante. Ri de mim mesma por pensar assim, mas coloquei o envelope na bolsa.
No início da noite, Helena me avisou que Tânia e Rogério tinham ido para casa, então fui até a casa dela. Seu Geraldo estava bem abatido, mas conversou comigo por um tempo e ficou de papo com Manu enquanto fui pegar as malas com Tamires. Deixei as malas na cozinha e voltei para o quarto de Helena. Fiquei ali por mais um tempo, mas Manu começou a dar sinais de sono, então nos despedimos e voltamos para casa. Helena me acompanhou até a porta, junto com Tamires. Era estranho; não era uma despedida, mas havia aquele clima. Helena me deu um abraço, e um em Manu. Depois, disse que nunca seria contra eu ser namorada de uma de suas filhas; pelo contrário, teria muito orgulho de me ter como nora. Agradeci, e Tamires, que estava ao lado, disse que se ela gostasse de mulher poderia resolver isso, porque eu com certeza seria uma ótima namorada. Ri e Helena também. Trocamos abraços e, após Tamires encher minha sobrinha de beijinhos, fui para casa.
Dei um banho em Manu, preparei algo para comermos e, depois de fazermos nossa higiene, coloquei-a na cama para dormir. Não demorou muito. Levantei da cama com cuidado e mandei uma mensagem para Pedro avisando que iria para seu apartamento na manhã seguinte. Ele logo respondeu, dizendo que era só eu falar com o porteiro e pegar a chave. Isso seria tranquilo, já que os porteiros do prédio me conheciam.
Terminei de fazer as malas, escolhi alguns brinquedos, os preferidos de Manu, e coloquei em um saco grande de lixo. Era o que tinha para usar. Depois, fui tentar dormir um pouco. Foi difícil; minha cabeça estava a mil. Estava preocupada, toda a segurança que achei que tinha ali se dissipou. Agora, meu futuro era um mar de dúvidas, e isso me preocupava muito.
Na manhã seguinte, acordei cedo e olhei em todos os cômodos para ver se não estava esquecendo nada. Logo, Helena ligou e disse que já estava me esperando. Falei que em quinze minutos estaria no portão. Levei uma das malas e o saco de brinquedos para perto do portão. Quando voltei, Manu já estava acordada. Vesti-a e disse que iríamos para a casa do tio Pedro, que tia Helena nos levaria. Não precisei dizer mais nada; ela ficou toda animada. Apenas escovei seus dentes, ajeitei seu cabelo e saímos.
Manu ficou olhando enquanto eu carregava a mala, mas não disse nada. Até achei estranho, já que ela estava na fase curiosa, querendo saber de tudo. Coloquei as malas no carro de Helena com a ajuda dela e seguimos em direção ao meu novo lar provisório. Chegamos rápido, a cerca de cinco minutos de carro com o trânsito calmo. O porteiro parecia já estar me esperando, pois, assim que desci do carro, ele veio me ajudar com as malas. Ele disse que Pedro tinha pedido sua ajuda, agradeci e me despedi de Helena assim que tiramos todas as malas.
Subimos para o apartamento de Pedro. Graças a Deus, o porteiro era forte e conseguiu trazer duas malas pesadas. Eu levei Manu no colo para subirmos mais rápido, além do saco de brinquedos que não era muito pesado. No entanto, Manu já estava pesada e quase desisti no final da escada que dava no terceiro andar, mas consegui chegar ao topo e logo estava entrando no apartamento. Foi aí que surgiu o problema.
Manu achou que o tio Pedro estaria lá e, ao perceber que ele não estava, não gostou nem um pouco. Chorou pedindo para ir embora e ficou de bico um bom tempo sentada no sofá. Demorou para eu conseguir fazê-la melhorar o humor; ainda bem que trouxe os brinquedos, pois isso a distraiu e fez com que voltasse a sorrir.
O apartamento de Pedro era pequeno, mas muito bem arrumado. Tinha dois quartos e eu me instalei no de hóspedes. O guarda-roupa era pequeno, mas coube tudo, já que levei apenas o necessário. Passei o resto da manhã arrumando as coisas e retirando alguns objetos perigosos que estavam ao alcance das mãos curiosas de Manu. Graças a Deus, eu tinha muita liberdade com Pedro; se não, isso não teria dado certo.
Às onze e pouco da manhã, o porteiro ligou no interfone e avisou que uma garota chamada Tamires queria subir. Pedi para ele liberar a entrada e agradeci. Logo Tamires chegou; ela já conhecia o apartamento, já havia visitado Pedro algumas vezes, uma delas até comigo e Manu. Ela não ficou muito; apenas repassamos o que tínhamos combinado e ela se foi levando minha sobrinha feliz ao lado dela. Foi aí que me joguei no sofá e comecei a pensar nos próximos passos.
Precisava arrumar um trabalho de verdade e um apartamento para alugar. Se tivesse um naquele prédio, seria perfeito. Também precisava ligar para minha irmã e mentir sobre meu novo emprego e mudança. Decidi não contar a verdade para ela; se soubesse, me levaria à força para casa. Conheço bem minha irmã e o cuidado que ela tem comigo e com Manu. Resolvi adiar essa ligação para o fim da semana ou talvez deixasse para contar a mentira pessoalmente.
Fiquei repassando o que havíamos combinado na minha antiga casa para ver se havia algo mais que eu pudesse fazer para me proteger. Também decidi que falaria com o porteiro para saber se havia algum apartamento vago no prédio para alugar ou se ele conhecia algum por perto. Fiquei ali pensando por um tempo.
A ideia de dizer que tirei um mês de férias para as pessoas me pareceu que funcionaria. Para Tânia, Rogério, seu Geraldo e os funcionários da padaria, eu estaria de férias por um mês. Isso explicaria minha ausência. Se Manu soltasse algo sobre estar na casa do tio Pedro, o que provavelmente aconteceria, elas poderiam dizer que eu ficaria dois ou três dias lá para fazer uma faxina geral no apartamento e depois passaria uns dias com meus pais. Porém, eu iria visitar a família da Helena e levar Manu para vê-los. Essas desculpas provavelmente me dariam uma semana para arrumar um apartamento. Não era muito tempo, mas era o que eu tinha.
Depois de me mudar, tentaríamos convencer Manu de que sua nova casa era um segredo e que não podia contar a ninguém. Isso com certeza seria difícil, mas Tamires disse que inventaria alguma brincadeira durante a semana para acostumar Manu a guardar segredos. Essa parte do plano me deixava apreensiva; fazer uma criança de quatro anos guardar segredo é muito complicado, ainda mais uma que fala pelos cotovelos.
Manter Manu longe de Rogério não deveria ser tão complicado. Ele geralmente ia à casa dos sogros à noite durante a semana porque trabalhava na empresa do pai. Nos finais de semana, ele ia durante o dia, então Manu ficaria apenas comigo. Se ele aparecesse durante o dia, Tamires retiraria Manu da casa o mais rápido possível para que ele não tivesse chance de ficar perto dela sozinho ou apenas com Tânia por perto. Tamires também evitaria que Tânia ficasse com Manu sozinha ou conversando com ela por muito tempo.
Sinceramente, não tinha muita fé de que isso daria certo, mas pelo menos eu iria tentar por um tempo. Talvez, por milagre, as coisas dessem certo. Só o tempo diria, mas eu acreditava que Tamires e Helena se esforçariam muito, já que, se não o fizessem, a chance de Manu sair da vida delas era enorme. Já havia avisado isso a elas. Se sentisse que ia dar errado, iria embora para a casa dos meus pais ou para algum lugar longe de Rogério e Tânia.
Se nosso plano desse certo, após trinta dias, inventariamos que eu tinha recebido uma oferta de trabalho irrecusável e que iria aceitar. Eu também me mudaria, porque queria ter meu próprio espaço e não ficar dependendo da família da Helena para sempre. Basicamente, faria o que Pedro fez, porém de uma vez, trabalho e mudança ao mesmo tempo. Contudo, Manu continuaria indo para a casa da família da mesma forma; nesse sentido, nada mudaria.
O problema não era Manu ficar na casa. Rogério não poderia tentar sequestrá-la ou tomá-la de mim à força. Por mais que ele tivesse dinheiro ou as influências do pai, a lei não permitiria. O plano dele era me tirar do caminho e, se não soubesse onde eu estava, seria muito difícil para ele conseguir. Havia riscos, muitos, mas iríamos tentar evitar todos.
Levantei do sofá e fui procurar algo para comer. Não havia nada pronto, então preparei um almoço e comi um pouco. Depois, desci até a portaria para falar com o porteiro. Ele foi muito educado, mas não havia apartamentos vagos para alugar no momento. Disse que, ali no prédio, seria difícil encontrar um, já que a maioria era comprados e os donos moravam lá. Ele falou que talvez eu encontrasse algum nas redondezas, pois havia vários prédios como aquele no bairro. Pedi para ele me avisar se soubesse de algum ou se aparecesse algum no prédio. Ele disse que faria isso; agradeci e voltei para o apartamento.
Parece que arrumar um apartamento não seria fácil, mas ainda tinha alguns dias para tentar. O resto do dia passou devagar, mas passou. No início da noite, Tamires apareceu com Manu. Ela disse que o dia foi tranquilo, que não houve nada para se preocupar, mas sua mãe contou que Tânia perguntou por mim. Helena falou o que tinham combinado, e Tânia não rendeu assunto; pelo jeito, ela acreditou.
Tamires não demorou muito, mas antes de sair, aproveitou um momento de distração de Manu e pediu para eu perguntar à pequena onde ela tinha sido levada para passear. Eu disse que iria perguntar; Tamires pediu para eu contar a ela depois o que Manu falasse e qual foi sua reação. Na hora, entendi o que ela queria e prometi que faria isso. Tamires logo se despediu, dizendo que no dia seguinte passaria para buscar Manu. Agradeci, nos despedimos e ela foi embora.
Fiquei brincando com Manu por um tempo e, em seguida, perguntei se ela havia jantado. Ela confirmou; banho eu sabia que ela tinha tomado, pois estava cheirosa. Fui perguntando sobre seu dia na casa da tia Tamires, e ela foi me contando sem nenhum problema. Então perguntei se a tia Tamires a tinha levado para passear; nesse momento, ela não respondeu com palavras, apenas fez um sinal de positivo com a cabeça. Perguntei onde elas foram e Manu ficou um tempo sem responder, parecendo tentar lembrar de algo. Depois olhou para mim e disse que não sabia. Assim que falou, levantou e saiu andando para o quarto.
Fiquei ali sentada no sofá sorrindo. Se o que aconteceu foi o que eu estava pensando, Tamires era uma gênia e Manu muito mais confiável do que eu imaginei. Aquilo me deixou mais tranquila, mas ainda precisava confirmar tudo com Tamires no dia seguinte.
Naquela noite, tive dificuldades para dormir novamente. Cama nova, lugar novo e muitas preocupações na cabeça. Eu tinha muitos problemas para resolver e preocupações que provavelmente demorariam a passar. Minha vida estava bastante bagunçada e eu tinha várias dúvidas.
O que eu não imaginava era que um reencontro casual me ajudaria a resolver quase tudo e que em menos de um mês minha vida seria completamente diferente.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
