— CAPÍTULO UM —
Entrei na sala de aula e o professor já estava lá, sentei na cadeira três fileiras atrás de alguém que parecia mais uma muralha do que um jogador de vôlei.
— Esse idiota do Bernardo está me dando nos nervos, porque ele quer ser sempre melhor do que eu.
Bernardo Brito, o capitão do time de vôlei da universidade e um estudante de direito também, é mega inteligente, mas extremamente convencido, não basta ser o atleta, o capitão do time, tem que ser o mais inteligente aqui também. Isso me incomoda demais.
Ele é meu rival, pelo menos nas aulas de Direito.
Mas um dia e o senhor espertinho tá apresentando um trabalho, seus músculos apertam a manga da camisa de linho que ele está usando, o maxilar tensionado enquanto ele explica uma ação de Direito Administrativo, tenho que confessar, ele é lindo, mas seu jeito arrogante me deixa enfurecido.
Bernardo Brito, o homem que tem o mesmo sobrenome que eu. E sempre que o professor Horácio pede que o senhor Brito renda uma pergunta, ele se antecipa com uma velocidade alarmante e responde antes de mim.
— Ele não fez a pergunta para você senhor atleta .
— Eu apenas respondi, senhor estudante de direito.
— acho que você é muito convencido demais, além de fazer isso na quadra, tem que fazer isso aqui também?
— não é que eu tenha que fazer isso, eu só, gosto de irritar você.
Ele deu uma piscadela quando falou a última frase e isso me irritou mais ainda. Mas também me deixou confuso, isso era um flerte? Sei que não, o senhor perfeitinho não flertaria com um cara, tendo todas aquelas mulheres aos seus pés.
Senti um cheiro de sabonete e suor, e algo naquele cheiro fez surgir uma saliência dentro da minha cueca.
Eu não sabia de quem era o cheiro, mas algo me excitou profundamente. Estava perdido em pensamentos quando uma voz me tirou do transe.
— Se ele disser a palavra "jurisprudência" mais uma vez, acho que meu cérebro vai derreter e escorrer pela orelha — sussurrou Lipe, sem tirar os olhos do desenho maldoso.
— Ele já disse três vezes desde que você começou a fazer esse nariz gigante — respondi, mantendo o tom de voz confinado ao nosso espaço.
— É uma metáfora para a soberba dele, Bruno. Entenda a arte.
Dei um sorriso contido, aquele sorriso social que eu havia aperfeiçoado ao longo de cinco semestres. Era o sorriso de quem está no controle, de quem sabe o que está fazendo. O aluno exemplar de Direito, o garoto com o futuro desenhado. Quando o sinal finalmente soou, liberando a manada de futuros advogados e magistrados em direção ao pátio principal, senti meus ombros cederem sob o peso da mochila. Atravessei os corredores imponentes de mármore do prédio histórico, desviando dos grupos de calouros e veteranos.
O ar lá fora estava ameno, com o sol de fim de tarde pintando o campus universitário com um tom dourado alaranjado. Meu caminho até a cafeteria era o mesmo de todos os dias. Ao longe, no setor poliesportivo, pude ouvir o som agudo e rítmico dos tênis de sola de borracha deslizando contra o piso tátil do ginásio. Atletas. Ouvi o impacto surdo de uma bola de vôlei sendo espalmada com força bruta contra o chão. Por um instante, parei perto da grade que separava os prédios de humanas das quadras. Havia uma energia brutal e visceral vindo de lá, corpos suados, gritos de ordem, movimento. Algo cru, despido da pompa acadêmica que me sufocava. Fiquei observando as silhuetas movendo-se rapidamente atrás dos vidros embaçados por uma fração de segundo a mais do que o normal, até meu celular vibrar no bolso da calça jeans.
1°Saque: espero que o direito seja a página mais bela da história.
Página42: espero que o vôlei bata a temporada mais esperada hoje.
1°Saque: então te vejo nas arquibancadas, venha torcer por mim.
Página42: claro que vou, te vejo em quadra, mesmo que não saiba como é seu rosto ainda.
1°Saque: o desconhecido é sempre mais gostoso.
Eu sempre fiquei com garotas, mas o desejo que tenho guardado é mais do que uma simples poça, é uma represa pronta para transbordar, e quando aquela noite eu entrei na galeria de aplicativos e encontrei aquele XAMA, instalei, mas não poderia colocar meu nome no aplicativo, então o livro de direto aberto naquela página me deu uma ideia, página42, coloquei o pseudônimo e comecei a varredura, minutos depois encontrei alguém a poucos metros de mim, provavelmente ele estava no campus agora. o 1°Saque
Mas acho que foi ele quem me encontrou, pois alguns segundos depois chegou uma mensagem.
“O silêncio do campus é melhor do lado de fora do ginásio, Não acha?”
Minha resposta veio logo em seguida
“Depende de quem está ouvindo o silêncio. Por dentro das paredes, o ruído é insuportável”.
E assim começou essa história há quase 2 semanas.
1°Saque: já chegou no seu quarto?
Página42: acabei de entrar. Hoje a aula do professor Horácio foi um tanto intensa
1°Saque: não tão intensa quanto essa Ereção dentro da minha cueca.
Uma foto surgiu na minha tenha, ele estava de cueca branca e um volume imenso marcando
Página42: isso é maldade, mas eu estou igualmente a você agora.
Uma foto de um pau lindo e surgiu na minha tela, o página42 havia me enviado uma foto completamente pelado. E aquilo me excitou mais do que eu esperava. Ele estava segurando o pau com uma mão e passava o dedão pela cabeça puxando um fio de líquido pré ejaculatório. Eu retribui gravando um vídeo pequeno.
Página42: cara, como eu queria poder colocar esse pau na boca agora.
1°Saque: e como eu queria que você estivesse com meu pau na sua boca agora Página42
Enviei mais um vídeo curto, gozando gostoso enquanto falava página42. E ele me retribuiu com outro vídeo gozando falando meu nome 1°Saque, e assim terminamos a noite, os dois gozados cada um em seu quarto.
Acabamos as provas do semestres e o atleta saiu rápido, ele tem um jogo importante hoje, assim como o 1°Saque, é fim de temporada e eles irão jogar hoje a noite. Quando entrei em casa recebe uma notificação. Abri o aplicativo
1°Saque: Venha torcer por mim hoje.
Página42: claro que irei, quando você olhar da quadra e me ver, saiba que estarei torcendo por você.
Enviei a mensagem e depois deixei o celular de lado, vesti minha camiseta branca e uma calça e segui para o ginásio, encontrei o melhor lugar ao lado de Lipe e juntos aguardamos o jogo começar.
Minutos depois o capitão do time entrou em campo, o senhor convencido deu algumas entrevistas e então o jogo começou. Eu estava frenético, o jogo estava acirrado, os Lions marcavam um ponto e os Gaviões marcavam outro, a decisão sairia nos últimos segundos, eu estava apreensivo, mas aí veio o ponto final, o árbitro deu seu último apito e a vitória foi anunciada, no telão surgiu, o senhor capitão marcou o último ponto e os Lions ganharam o campeonato aquela noite. A torcida vibrou feito louco .
— É cara, o time do Bernardo ganhou.
— É, parece que o senhor perfeitinho vai ficar se sentindo mais ainda agora.
Bernardo deu algumas entrevistas para os repórteres que Estevam lá.
— Como foi ganhar essa noite Capitão?
— Foi maravilhoso.
— E o que você espera do futuro?
— Aguardando os próximos campeonatos.
A entrevista acabou e ele foi para o vestiário se preparar para a comemoração.
1°Saque: O mundo lá fora está girando rápido demais hoje. Vencemos. O gosto da vitória é bom, mas o gosto do anonimato é melhor.
Pagina42: Parabéns, Espero que o 1°Saque tenha jogado como um deus. Você merece esse momento.
Eu ri, um som abafado pelo ruído do bar. A ideia de que ele estava ali, em algum lugar, acompanhando meu sucesso — mesmo que apenas através de uma tela — criou um calor estranho no meu peito. A vodca tornou o meu desejo audaz, quase impaciente. Eu estava farto de palavras digitadas, de confissões pixeladas e de encontros que nunca passavam da interface. Eu queria a realidade. Queria o peso de um corpo real, a troca de energia que não fosse mediada por código binário.
1°Saque: Cansei de ser o que todos esperam de mim. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, não quero seguir contrato nenhum. Quero saber quem está por trás das mensagens. Quero te ver. Agora.
Enviei a mensagem antes que a sobriedade pudesse interditar meu raciocínio. O cursor piscava, frenético. Meu coração martelava contra as costelas, superando qualquer batimento acelerado que o vôlei já tivesse exigido. Eu não tinha plano, não tinha medo das consequências, meu único foco era a possibilidade de um rosto para completar a sombra do Pagina42. A resposta veio numa velocidade que me deixou sem ar.
Pagna42: Onde?
Meu polegar hesitou nos botões por um segundo antes de digitar o nome do hotel, um lugar discreto próximo ao centro, onde eu tinha reservado um quarto para poder dormir após a euforia, longe de qualquer cobrança familiar.
1°Saque: Hotel Continental. Quarto 402. Estou indo para lá agora. Se você não aparecer, eu vou entender. Mas, se aparecer... não vamos falar sobre Direito nem sobre vôlei. Preciso dar um rosto ao Pagina42. Vou deixar sua entrada liberada, aguardo você.
Bloqueei a tela do celular e me levantei, tropeçando levemente na cadeira. Meus amigos tentaram me convencer a ficar a continuar bebendo, a estender a glória da noite, mas eu já tinha partido. Saí do bar sentindo o ar frio da noite bater contra o rosto suado. Caminhei pelas ruas desertas em direção ao hotel, minhas pernas, ainda pesadas pelo esforço físico do dia, moviam-se com uma urgência que nada tinha de esportiva. Cada passo em direção àquele quarto era uma desconstrução. Eu estava deixando para trás o atleta, o estudante, o brilho das medalhas, o peso das expectativas dos meus pais e a rigidez da minha própria disciplina. Estava a caminho do desconhecido, um encontro que carregava o potencial de mudar tudo o que eu conhecia sobre quem eu era.
Quando avistei as luzes do hotel, com o peito ofegante e a mente instável devido ao álcool e à adrenalina, eu sabia que a próxima vez que eu abrisse aquela porta, o Pagina42 estaria lá, e a ficção que eu construíra para sobreviver à minha própria vida chegaria, finalmente, ao fim. A cada passo que eu dava em direção ao hotel, era mais um passo em direção aquele que há meses tem me arrancado da minha própria normalidade.
Cheguei ao hotel e fui direto para o quarto 402. Abri a mensagem e li ela novamente e mais uma vez, meu coração acelerou, eu não sabia se deveria ir, se deveria dar um rosto ao 1°Saque, mas a necessidade de vê-lo era algo que eu desejava a muito tempo. Pensei uma, duas, três vezes se realmente eu deveria ir. No silencio do meu quarto eu parei em frente ao espelho, troquei de roupa varias vezes ate escolher uma que ficou realmente bem em mim, sentei na cama e peguei o celular, li a mensagem mais uma vez.
1°Saque: Hotel Continental. Quarto 402. Estou indo para lá agora. Se você não aparecer, eu vou entender. Mas, se aparecer... não vamos falar sobre Direito nem sobre vôlei. Preciso dar um rosto ao Pagina42. Vou deixar sua entrada liberada, aguardo você.
Pensei em digitar uma mensagem falando que não poderia ir, mas quando comecei a digitar, parei na primeira frase.
Pagina42: Acho que não posso...