Todas as vezes anteriores, alguém convidou a gente.
Dessa vez, fomos nós dois, na mesa da cozinha, decidindo juntos que íamos puxar a mão de alguém pela primeira vez.
E, olha, é bem mais assustador do lado de cá.
Para quem está chegando agora: prazer, somos o Casal Apimentados.
Vamos nos apresentar como Jorge e Lúcia — nomes fictícios, por motivos que qualquer casal liberal entende.
Eu, Jorge: negro, 1,85 m, corpo forte sem ser musculoso, 33 anos na época.
Ela, Lúcia: 1,72 m, loira natural, olhos verdes, seios fartos e umas coxas grossas que sempre foram meu ponto fraco. Mesma idade que eu.
Casados havia treze anos quando tudo começou. Nada de liberal, nada de swing, nada de nada — até uma tarde de 2017, numa feira erótica em São Paulo, quando um desconhecido no escuro fez uma pergunta que mudou o rumo do nosso casamento.
A pergunta foi: "com ou sem emoção?". E ela respondeu com emoção.
É por isso que essa frase aparece em todos os nossos contos.
A Nina
Vou chamar ela de Nina.
Vinte e quatro anos, analista de marketing, entrou na empresa da Lúcia havia pouco mais de um ano. Outro time, outro andar, nenhuma relação de chefia com a minha esposa — e eu faço questão de registrar isso, porque importa e porque a gente pensou nisso antes de qualquer outra coisa.
Fisicamente: baixinha, uns 1,60 m, magra mas com bunda, cabelo preto curto na altura do queixo, uma tatuagem de cobra subindo pela costela e um piercing no nariz. Nada da beleza clássica da Lúcia. Era outro tipo de coisa — daquelas mulheres que não são as mais bonitas da mesa e são, sem discussão, as mais interessantes.
E a Nina era safada. Não tem outra palavra e ela mesma não usaria outra.
Era a pessoa que contava a vida sexual inteira no almoço, em voz alta, sem editar nada. Que fazia piada pesada na frente do gerente. Que chegava na segunda-feira e narrava o fim de semana como quem comenta um jogo. As mulheres mais velhas do escritório fingiam escândalo e não perdiam uma palavra.
A Lúcia adorava ela. Ficou amiga de verdade em três meses.
E foi a Lúcia quem começou a desconfiar de que a Nina estava jogando alguma coisa na mesa.
Os sinais
Começou com pergunta.
A Nina descobriu, num happy hour, que a gente já tinha ido a uma feira erótica. E não largou mais o osso.
"Lú, e aquela feira, tinha o quê?"
"Lú, você já beijou mulher?"
"Lú, pergunta pro seu marido se ele deixaria."
Sempre em tom de piada. Sempre rindo. Sempre com aquele meio segundo de silêncio depois da risada, esperando a resposta de verdade.
Aí ela conheceu a gente junto, num aniversário de uma colega, e o negócio ficou mais claro.
Ela sentou entre nós dois. Passou a noite inteira ali. Falava comigo com a mão no meu braço e falava com a Lúcia encostada no ombro dela. Em determinado momento, com quatro doses no corpo, olhou para mim e falou, na frente da minha esposa:
— Você é grande, hein.
E depois, virando para a Lúcia, sem tirar o sorriso:
— Desculpa, amiga. Mas é.
A Lúcia riu e respondeu:
— Eu sei.
Aquilo ficou pendurado no ar por uns três segundos, e as duas caíram na gargalhada.
No carro, na volta para casa, a Lúcia esperou eu pegar a marginal e disse:
— Ela quer.
— Você acha?
— Eu não acho. Eu sei.
A mesa da cozinha
Foi a nossa conversa mais estranha até hoje, e demorou duas semanas.
Porque todas as vezes anteriores a gente tinha sido convidado. O Rodrigo e a Helena vieram até nós no The26. A Dani ligou para chamar a gente ao sítio. Até a casa cheia da Parte V partiu de outra pessoa.
Puxar a mão de alguém é diferente. Você deixa de ser o convidado e passa a ser responsável.
A Lúcia colocou as questões todas de uma vez, com o café esfriando na frente dela:
— Ela é mais nova que a gente onze anos.
— É maior de idade, Lú.
— Não é sobre idade legal, é sobre experiência de vida. A gente tem treze anos de casamento e um ano de lifestyle. Ela tem vinte e quatro anos e uma boca solta. Não é a mesma coisa.
— Concordo.
— E ela trabalha comigo. Se der ruim, eu vejo a cara dela todo dia.
Ficamos calados um tempo.
E aí ela mesma respondeu o que estava perguntando:
— Mas ela é adulta. Ela é solteira. E ela está perguntando há quatro meses. Se eu fingir que não estou entendendo, isso também é uma resposta — e é uma resposta que trata ela como criança.
Foi isso que decidiu.
A regra que a gente estabeleceu naquela mesa, e que vale até hoje quando a gente é quem convida, é simples:
Convida uma vez, com clareza, sem insistir, e deixa a porta aberta para o não.
O convite
Foi a Lúcia quem fez, e fez pessoalmente, num almoço de terça-feira.
Nada de áudio, nada de mensagem, nada de indireta. Ela contou que falou assim:
— Nina, eu vou falar uma coisa e quero que você me escute até o fim.
— Fala.
— Eu e o Jorge somos liberais. Frequentamos casa de swing. Faz um ano.
A Nina largou o garfo.
— Eu sabia, porra.
— Deixa eu terminar. — A Lúcia respirou. — A gente gosta de você. Você é engraçada, você é gostosa e você faz umas perguntas há quatro meses que eu resolvi parar de fingir que não entendo. Então eu vou perguntar de uma vez: você quer sair com a gente?
Silêncio de dois segundos.
— Sair como?
— Sair como você está pensando.
A Nina se jogou na cadeira, colocou as duas mãos na cara e ficou assim uns cinco segundos. Quando tirou as mãos, estava vermelha até a orelha — coisa que ninguém naquele escritório tinha visto na vida.
E aí ela falou:
— Eu tenho três perguntas.
— Manda.
— Um: eu preciso fazer alguma coisa com você ou é só com ele?
— É o que você quiser. Inclusive nada.
— Dois: se eu quiser parar no meio?
— A gente para. Sem discussão e sem chateação.
— Três... — e aqui ela abaixou a voz pela primeira vez na história daquele escritório — segunda-feira eu vou ter que olhar na sua cara.
E a Lúcia respondeu a melhor frase da noite, sem nem ser noite ainda:
— Nina, na segunda-feira eu vou te trazer café igual eu trago todo dia.
A Nina levantou, deu a volta na mesa, abraçou a minha esposa por trás no meio do restaurante e falou no ouvido dela:
— Sábado.
Sábado
A gente levou ela ao Enigma.
Escolhemos aquela casa de propósito: grande, movimentada, muita gente, muito barulho. Para quem está estreando, multidão é bom — ninguém repara em ninguém.
Buscamos às onze. Ela desceu de shortinho de couro, coturno e uma blusa preta que cobria menos do que anunciava. Entrou no banco de trás falando pelos cotovelos, e não parou de falar por vinte minutos.
Foi aí que eu entendi uma coisa sobre a Nina.
A boca solta era armadura.
Ela falava sem parar porque estava morrendo de medo. Toda aquela safadeza de escritório, todas aquelas histórias de segunda-feira de manhã — muita coisa ali era verdade, mas a personagem era maior que a pessoa. E a pessoa, no banco de trás do meu carro, estava com a mão tremendo.
A Lúcia percebeu antes de mim. Virou para trás e perguntou:
— Você está bem?
— Estou ótima, amiga, por quê?
— Porque você está falando há vinte minutos sem respirar.
A Nina calou. Riu de si mesma. E falou, baixinho, do jeito que ela nunca falava:
— Eu falo muito, mas eu fiz menos coisa do que vocês pensam.
Dentro
Aquilo mudou a noite inteira, e mudou para melhor.
Não fomos direto para lugar nenhum. Sentamos no bar. Pedimos três doses e ficamos ali quarenta minutos, os três, olhando o movimento e comentando as pessoas como três fofoqueiros — que é a atividade mais divertida de uma casa de swing e ninguém fala disso.
A Nina foi soltando. A cada dose, um pouco mais.
Um casal se aproximou lá pelas duas da manhã, educadíssimo, e convidou. A Lúcia respondeu sorrindo:
— Hoje não, gente. Obrigada!
Eles agradeceram e sumiram em quinze segundos. A Nina acompanhou os dois com o olhar, boquiaberta.
— É só isso?
— É só isso.
— Cara, eu já saí de festa por menos.
E aí ela virou a dose, bateu o copo no balcão e falou:
— Beleza. Chega de enrolação. Eu quero.
A pista, rápido
Não vou me alongar, mas essa parte foi das minhas favoritas.
Elas dançaram. A Nina dançava muito melhor que nós dois somados, e sabia disso, e usou. Rebolou para a minha esposa de um jeito que provocou dois casais em volta a pararem de conversar.
Foi a Lúcia quem puxou o beijo.
Puxou pela nuca, do jeito dela, e a Nina subiu na ponta do pé para alcançar — porque tem doze centímetros de diferença entre as duas, e esse detalhe, por algum motivo, foi a imagem mais bonita da minha noite.
Quando se soltaram, a Nina virou para mim, ainda de olho fechado, e esticou a mão.
O quarto
Peguei o quarto na recepção. Antes de abrir a porta, fiz a pergunta que a gente sempre faz, e faço de olho no olho:
— Nina. Você quer isso?
Ela olhou para cima, para mim, com aquela cara de quem está prestes a aprontar.
— Com emoção — respondeu.
A Lúcia gargalhou. Tinha ensinado a frase no carro, e estava esperando a hora a noite inteira.
A porta se fechou, e o silêncio do quarto foi quebrado pelo som do zíper do short de couro descendo. Nina não esperou. Ela arrancou a blusa num movimento brusco, jogando-a no chão e ficando ali, exposta sob a luz suave do abajur. Seus seios pequenos, com mamilos já rígidos e escuros, subiam e desciam com a respiração acelerada. A tatuagem da cobra em sua costela parecia ganhar vida conforme ela arqueava o corpo, desafiando-nos com aquele olhar que misturava medo e luxúria.
A Lúcia, com a maestria de quem conhece o caminho do prazer, assumiu o controle. Ela sentou Nina na beirada da cama e se posicionou entre as pernas dela. O beijo começou lento, mas logo se tornou faminto. Lúcia segurou o rosto de Nina com as duas mãos, fundindo suas bocas enquanto descia a mão para a calcinha rendada da menina, que já estava completamente encharcada.
Com um puxão seco, a lingerie foi embora. Lúcia ajoelhou-se e mergulhou o rosto na intimidade de Nina. O som era explícito: lambidas longas, profundas, alternando com sucções intensas no clitóris pulsante. Nina soltou um grito que ecoou pelas paredes do quarto, as unhas cravando-se nos ombros de Lúcia. Ela abriu as pernas ao máximo, oferecendo-se por completo, enquanto gemia frases sujas, exigindo que Lúcia a levasse ao limite. O orgasmo de Nina veio como uma descarga elétrica; ela travou o corpo, a vagina contraindo-se violentamente contra a língua de Lúcia, inundando-a com seu gozo.
— Amiga... que isso... — sussurrou Nina, ainda ofegante, os olhos nublados.
Foi então que ela me chamou. Com um gesto atrevido, ela me puxou para perto. Quando eu a despi completamente, notei que ela tremia — não de medo, mas de uma antecipação insuportável. Eu a deitei na cama e a Lúcia, em um movimento perfeito, sentou-se ao lado da cabeça dela, acariciando seus cabelos e beijando seus lábios, criando um sanduíche de prazer que deixou Nina delirando.
Eu desci com a boca nela, saboreando o gosto do orgasmo anterior, enquanto Lúcia estimulava seus mamilos com a ponta dos dedos e a língua. A Nina não conseguia ficar calada; ela narrava cada sensação, soltando palavrões e pedidos urgentes.
— Agora, Jorge! Entra em mim agora! — ela gritou.
Eu me posicionei e entrei nela com uma estocada profunda e certeira. O contraste era magnífico: minha pele negra contra a brancura da pele dela, meu corpo forte preenchendo cada espaço do seu corpo pequeno. O ritmo tornou-se frenético. O som de carne batendo contra carne preenchia o quarto, misturado aos gemidos agudos de Nina e aos suspiros de aprovação de Lúcia.
Lúcia não ficou apenas observando. Ela se juntou a nós, movendo-se contra as costas de Nina, beijando seu pescoço e sussurrando obscenidades que faziam a menina arquear as costas ainda mais. Em um momento de pura luxúria, Nina gozou pela segunda vez, agarrada ao meu antebraço com toda a força, enquanto gritava palavras que eu nunca imaginei ouvir de uma analista de marketing, mas que agora faziam todo o sentido.
Depois, invertemos os papéis. A Nina, movida por uma curiosidade insaciável, revelou-se uma exploradora nata. Ela se ajoelhou diante da minha esposa, devorando a Lúcia com uma fome voraz. Ela imitava os movimentos de Lúcia, perguntava onde apertar, como lamber, e fazia isso com uma entrega absoluta. Vi a Lúcia fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, soltando gemidos longos enquanto a boca de vinte e quatro anos da Nina trabalhava com precisão, levando-a ao ápice duas vezes seguidas.
O clímax final aconteceu no caos. O abajur foi ao chão, derrubado por um coturno esquecido, mas ninguém ligou. Estávamos todos nus, suados e entrelaçados. Eu possuía a Lúcia enquanto Nina beijava meu peito e acariciava as coxas da minha esposa. Era uma sinfonia de fluidos e prazeres compartilhados.
Quando finalmente relaxamos, o silêncio voltou ao quarto, mas era um silêncio diferente. Era o silêncio de quem tinha sido despido de todas as máscaras.
Naquela madrugada, a "personagem safada" do escritório morreu para dar lugar a uma mulher real, que descobriu que o prazer mais profundo não vem da atuação, mas da entrega honesta. E nós, o Casal Apimentados, tivemos o privilégio de ser a porta aberta por onde ela decidiu passar.
Epílogo
Na segunda-feira, a Lúcia levou café para ela, igual leva todo dia.
Nenhuma das duas mencionou o sábado. Nenhuma das duas ficou estranha. A Nina fez três piadas pesadas antes das dez da manhã, uma delas na frente do gerente.
Saiu com a gente mais três vezes ao longo daquele ano. Depois começou a sair sozinha, com gente da idade dela, o que era exatamente o que a gente queria — porque puxar a mão de alguém não é adotar, é abrir uma porta e sair da frente.
Hoje ela mora em Portugal, tem um relacionamento aberto com um português muito paciente, e manda áudio de dez minutos para a Lúcia todo domingo.
E, quando alguém pergunta como ela entrou nesse mundo, ela responde sempre a mesma frase:
— Um casal me convidou direito.
Se você é um casal pensando em puxar a mão de alguém, é isso. Convida uma vez, com todas as letras, olhando na cara. Deixa o não ser fácil.
O resto acontece sozinho.
Casal Apimentados
