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Quarenta e poucos ep:3 - Gozei

Um conto erótico de feminive
Categoria: Heterossexual
Contém 1025 palavras
Data: 28/08/2026 22:57:57

Duas semanas depois daquela noite, eu estava em casa vendo televisão quando uma amiga minha entrou pela porta.

Eu lembro até hoje da cara dela. Aquela cara marcada de quem traz notícia de tragédia — e todo mundo conhece essa cara. Puxei ela pra dentro, sentei ela no sofá, segurei as mãos dela e olhei bem fundo nos olhos dela.

— Amiga, o que aconteceu? Por que você tá com essa cara?

Eu reagi como uma boa amiga reage. Prestativa, preocupada, cheia de empatia. É engraçado lembrar disso hoje — eu consolando ela.

Ela tentava falar e não conseguia. Não tinha uma lágrima nos olhos dela, mas não precisava: a angústia estava ali, escorrendo por tudo. Ela sacou o celular e ficou alguns segundos correndo o dedo na tela, procurando. Quando achou, apertou o aparelho contra o peito, como se estivesse protegendo ele de mim, e falou:

— Amiga… você precisa ser forte.

— Puta que pariu, quem morreu?

Foi exatamente isso que passou na minha cabeça. Pensei nos meus pais. A garganta secou na hora, veio aquela dor funda no meio do peito e o corpo inteiro dormente — como se a sala tivesse sumido em volta e sobrado só eu, ela, e o que ela ia dizer.

Ela estendeu o telefone e mandou:

— Vai passando as fotos.

Eu fui passando. Uma a uma.

Era um casal. Felizes daquele jeito bobo, de mão dada, ele com a mão enfiada no bolso de trás da calça dela. Beijo na boca no meio do shopping da cidade, praça de alimentação cheia, três da tarde, luz do dia, na frente de quem quisesse ver.

Na terceira foto eu reconheci a camisa. Azul, de botão. Eu tinha passado aquela camisa no ferro no domingo.

Era o meu marido.

O meu marido.

Devolvi o telefone. E balbuciei:

— Me manda essas fotos?

Foi só isso que saiu. Não veio "não acredito", não veio "você tem certeza", não veio grito. Me manda essas fotos. Como quem pede o comprovante.

Depois disso eu quis matar. Quis morrer. Quis tacar fogo naquela casa com nós dois dentro. Foi escândalo, foi vergonha, e a minha amiga passou não sei quanto tempo com o corpo na frente da porta pra eu não descer atrás dele na rua.

O resto dessa noite eu não vou contar.

Eu acabei de descrever pra você, com detalhe, a última vez que eu transei com esse homem. Isso eu consigo, mas esse dia não, eu simplesmente não consigo.

Uma semana depois, pela mesma porta por onde ela entrou, ele saiu.

E algumas semanas depois disso, num dia em que não tinha ninguém em casa, um caminhão parou na frente do prédio. Eu cheguei do trabalho e faltava metade do apartamento. Ele levou tudo que valia alguma coisa e teve o cuidado de escolher a hora em que não ia precisar olhar na minha cara.

Deixou os filhos — que se viraram contra ele sozinhos, sem eu precisar dizer uma palavra.

E deixou a mulher que tinha aberto mão da vida inteira por ele.

Depois que tudo passou — as brigas, os advogados, a papelada, a divisão do pouco que tinha sobrado — chegou a hora de começar de novo.

E aí eu descobri uma coisa: quando uma mulher se separa, todo mundo em volta vira agente matrimonial. Meus amigos, meus filhos, minha irmã, a moça do salão. Qualquer homem solteiro num raio de dez quilômetros era empurrado na minha direção. "Ah, tem um cara lá do meu trabalho. Ah, o vizinho do meu cunhado separou também."

E eu preciso dizer uma coisa que ninguém fala: homem solteiro e disponível na minha idade quer dizer que tem alguma coisa muito errada ali. Não é sorte sua ter achado. É estoque parado.

Eu saí pra encontro, não vou mentir. O primeiro cara foi ótimo comigo. Ótimo mesmo — educado, atencioso, pagou a conta sem fazer cara feia, me levou até o carro. Não tenho uma reclamação sobre a pessoa dele, mas o beijo daquele homem foi a coisa mais esquisita da face da Terra. Um beijo de novela das seis. Selinho demorado, sem língua, boca fria, lábio parado. Eu fiquei ali de olho aberto pensando é agora que abre… não abre? Não abriu.

Nunca conectou em lugar nenhum.

Fui pra casa e passei a noite inteira concluindo que o problema era eu. Que eu tinha desaprendido. Devia ter atrofiado alguma coisa. Não me passou pela cabeça, em nenhum instante, que o homem simplesmente não sabia beijar.

Eu sei, eu sei.... eu tou enrolando muito. Mas antes de eu começar a história de verdade, eu quero contar uma que foi quase boa. Ou, pra não mentir: uma que foi engraçada.

Porque foram seis anos, lembra? E aconteceram muita coisa nesses seis anos. E o mais perto que eu cheguei de furar essa conta foi com o Celso.

Começou num sábado de manhã, com a minha amiga — a mesma que entrou pela minha porta para me dar aquela notícia — gritando comigo no telefone.

— Márcia, mulher! — a voz dela vinha com uma empolgação que eu definitivamente não tinha às nove da manhã de sábado. — Hoje ainda tu vai dar essa buceta e tirar essas teias de aranha!

— Que isso, meu amor! Não é assim não! — Respondi estranhando a liberdade dela comigo.

— Então vem almoçar comigo que eu te apresento um carinha. Faz um visual, mas não tenta ficar bonita, pra não parecer encontro, sabe? Eu tou com um colega que vai tá trabalhando comigo e vocês trocam telefone.

Repara na engenharia da coisa: eu tinha que estar bonita, mas não bonita demais. Tinha que parecer que eu tinha acordado assim. Passei uma hora e meia me arrumando pra parecer que não tinha me arrumado — que é, de longe, o tipo de arrumação que mais dá trabalho na vida de uma mulher.

Encontrei os dois no shopping.

E o cara era bonito mesmo. Mas não foi isso que me pegou. Foi que dava pra ver que ele tinha se barbeado. Pele lisa, aquele cheirinho de pós-barba, camisa de trabalho passada.

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https://www.feminivefanfics.com.br/posts/quarenta-e-poucos/ep-03-gozei

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