Quando cheguei em casa, tive que disfarçar tudo o que estava sentindo. Manu estava comigo, e eu não queria que ela percebesse os sentimentos ruins que me atormentavam. Ela ainda estava meio sonolenta, veio apoiando a cabeça em meu ombro durante quase todo o trajeto. Coloquei-a na minha cama, peguei seu ursinho favorito e o coloquei em seus braços, sabendo que ela iria pedi-lo antes de dormir. Ela ficou acordada por um tempinho, abraçada ao ursinho, enquanto eu acariciava seu cabelo, que já estava bem comprido.
Logo, Manu voltou a dormir, e eu permaneci ali, fazendo carinho nela. Mas eu precisava pensar, de preferência com calma, e isso não seria fácil. Resolvi tomar um banho primeiro para ver se conseguia me acalmar. Eu estava em uma situação complicada: o risco de perder Manu era real.
Saí do banho um pouco mais tranquila e fui até meu quarto. Manu dormia como um anjinho, alheia a tudo o que estava acontecendo. Fui para o quarto ao lado, vesti uma roupa leve e me joguei na cama. Não estava com um pingo de fome, então nem lanche fiz. Fiquei ali, pensando com mais clareza sobre tudo o que ouvi e tentando encontrar uma saída. Minha única certeza era que não deixaria ninguém tirar minha sobrinha de mim.
Tudo o que Rogério disse poderia acontecer; se eu fosse presa, a chance de eles tirarem a Manu de mim era real. A família dele era muito rica e, se o pai dele realmente quisesse ajudar, eu estava ferrada. Mas o pior não era isso; era o que isso poderia trazer para Helena e sua família. Eu nem queria imaginar o que poderia acontecer quando Helena soubesse o que Tânia estava disposta a fazer por causa do traste do Rogério. E o pior: seu Geraldo estava se recuperando. Se isso chegasse a ele, só Deus sabia o que poderia acontecer. Era muita coisa para pensar e resolver, e eu não tinha ideia de por onde começar.
Eu estava em uma sinuca de bico; ficar ali era um risco que eu não podia correr. Sair sem dizer nada seria cruel com todos, especialmente com Manu, que amava todos ali. Eu também não queria me afastar deles nem quebrar a promessa que fiz a Helena de nunca afastar Manu de suas vidas. Precisava de uma saída que causasse o mínimo de estragos possível. Era o que eu queria, mas não conseguia pensar em nada que pudesse resolver a situação.
Passei boa parte da noite refletindo sobre o que fazer a partir daquele momento. Não cheguei a conclusão alguma e, então, desisti de ficar remoendo aquilo, resolvi tentar dormir. Fui para minha cama e me deitei ao lado de Manu, que estava meio atravessada na cama, com seu ursinho caído no chão. O sono dela parecia não estar tão tranquilo como eu pensava. Arrumei seu corpo devagar e deitei ao seu lado. O sono demorou a chegar, mas consegui dormir um pouco. Quando acordei, o sol já havia nascido e Manu ainda dormia. Levantei e fui preparar nosso café.
Estava tomando café quando ouvi meu celular tocar. Corri para atender antes que Manu acordasse, mas já era tarde. Ao entrar no quarto, ela já estava com os olhinhos abertos, tentando entender onde estava. Quando me viu, estendeu os braços. Peguei-a no colo e peguei o celular em cima do criado-mudo. Era Helena, dizendo que estava no hospital com seu Geraldo e que Tamires estava com ela. Perguntei o que havia acontecido e ela disse que seu Geraldo começou a passar mal durante a noite, mas foi só um susto e que ele estava bem, logo estariam em casa. Ela ligou apenas para me avisar, para eu não me preocupar se visse que não havia ninguém em casa. Agradeci e pedi que me avisasse caso algo acontecesse ou se precisasse de algo. Ela se despediu.
Só me faltava essa: seu Geraldo estava melhor nos últimos dias e agora essa notícia só me preocupou ainda mais. Assim que Helena desligou, levei Manu ao banheiro para fazer sua higiene, algo que ela odiava. Chorava toda vez que eu tentava escovar seus dentes ou pentear seus cabelos, mas graças a Deus, nos últimos meses, ela parou de chorar nesses momentos. O bico que ela fazia, no entanto, deixava evidente seu descontentamento.
Depois de tudo pronto, tomamos café e levei Manu para a sala. Deixei-a no tapete e fui buscar alguns de seus brinquedos favoritos. Ela sorriu ao ver os brinquedos e começou um longo e sem sentido papo de adulta com suas bonecas e seu melhor amigo. Eu a observava, e a certeza de que não deixaria ninguém tirá-la de mim só aumentava. Eu amava aquela criança mais que tudo na vida. Foi então que tomei uma decisão: eu não iria me esconder, não era justo com Helena, Tamires e muito menos com Manu. Precisava da ajuda das pessoas que amavam Manu como eu.
Não era justo eu decidir tudo sozinha; essa decisão afetaria várias pessoas. Portanto, achei que era justo falar com pelo menos duas delas, as que mais confiava e que provavelmente seriam muito afetadas. Porém, não poderia falar com elas naquele momento, então resolvi deixar o tempo passar. Eu ainda tinha o resto do dia para resolver a situação, ou pelo menos tentar.
O dia passou devagar, mas eu ao menos tinha uma boa notícia: seu Geraldo já estava em casa, junto com o resto da família: Helena, Tamires, Tânia e Rogério. Eu já imaginava que o casal estaria na casa. Assim que soube da notícia, liguei para Tamires e disse que precisava falar com ela e Helena urgentemente. Não precisava ser naquele instante, mas tinha que ser ainda naquele dia. Pedi que ela avisasse sua mãe e que as duas viessem à minha casa assim que possível. Tamires quis saber o motivo, e eu disse que contaria na minha casa, mas era realmente algo importante. Pedi que não falasse sobre isso com Tânia e que, se pudesse, viessem sem serem vistas pelo casal. Ela ficou em silêncio por um tempo e depois disse que assim que pudesse, desceriam para minha casa.
Minha espera não durou nem trinta minutos. Logo vi Tamires e Helena através da janela da sala. Fui abrir a porta, e as duas tinham expressões de preocupação. Tamires já entrou perguntando o que Tânia tinha aprontado desta vez. Eu disse que era melhor elas se sentarem. Deixei Manu destraida com os brinquedos no tapete da sala e assim que Helena se sentou, eu comecei a falar.
Camila— Antes de começar o que tenho a dizer, quero adiantar que não vou quebrar a promessa que fiz a você, Helena; não vou tirar Manu do convívio de vocês.
Helena— Ah, meu Deus, você vai se mudar, não vai?
Camila— Eu preciso, Helena. Não posso continuar morando aqui nem trabalhando na padaria. Sinto muito, mas isso é algo inegociável. Agora, preciso da ajuda de vocês para que essa decisão cause o mínimo de estrago possível. Para todos nós, e principalmente para Manu.
Tamires— Mas por que isso agora? O que aconteceu?
Camila— Antes de contar o que você não sabe, acho que preciso contar toda a verdade para sua mãe. Não quero mais segredos entre nós; confio em vocês e preciso da ajuda de vocês, então acho justo ser totalmente honesta.
Helena— Qual verdade? O que eu ainda não sei?
Olhei para Helena e comecei a contar tudo o que ela não sabia sobre mim e Tânia. Não escondi nada, apenas poupei-a dos detalhes íntimos. Helena ouvia atenta, fazendo caras e bocas, mas em ninguém momento vi uma expressão de raiva. Acho que Helena não deu importância a eu ter me envolvido com sua filha. Mas quando comecei a contar sobre o que ouvi, ela ficou pasma. Não parecia acreditar, mas Tamires, por outro lado, parecia ter certeza de que aquilo era verdade. Ela disse que agora entendia o monte de presentes, Rogério querendo sair com Manu todo final de semana, e principalmente sua irmã trabalhando na padaria, mesmo odiando aquele lugar. Mas, de repente, Tamires falou algo que eu não esperava.
Tamires— Camila, eu acredito em cada palavra que você disse. Só que é estranho. Minha irmã tem muitos defeitos; sei que ela já te magoou e que, em muitos sentidos, não vale nada. Porém, ela não é má; nunca foi. Ela ama a Manu e amava a Carla. Mesmo o Pedro ou os funcionários daqui, nunca a vi tratar mal. Ela pode parecer uma criança mimada às vezes, mas não sei... isso é muito estranho.
Helena— Eu ainda estou em choque com tudo que você falou, mas o que Tamires disse faz total sentido. Minha filha não é uma pessoa má; talvez tenha se perdido no meio do caminho, mas má ela nunca foi. Notei que Tânia não estava normal há alguns dias; raramente sorri e fala do seu casamento perfeito, como se quisesse afirmar para si mesma que isso é verdade. Tentei falar com ela dias atrás, mas ela não quis se abrir comigo. Disse que estava bem, feliz com seu casamento e que só faltava construir uma família com Rogério para sua vida ser perfeita. Agora você me conta tudo isso, e acredito em você, Camila, o que deixa claro que Tânia não está no seu juízo perfeito.
Tamires— Agora que você falou, percebo que nem brigar comigo ela tem brigado; realmente, ela está estranha.
Camila— Olha, eu não sei o que está acontecendo com ela, só sei que não vou arriscar perder a Manu por causa disso. Vou me mudar amanhã de manhã; isso é uma certeza que tenho, mas não queria ir longe nem tirar Manu da vida de vocês. Preciso de ajuda.
Helena— Vou falar com Tânia; ela não vai fazer nada, e as coisas continuam como estão.
Camila— Já pensei nisso, e acho que não vai dar certo. Tânia vai negar, e se confessar a verdade, não vai voltar aqui, nem Rogério. Porém, Rogério ainda saberá onde moro e pode pagar alguém para fazer algo comigo. Talvez vocês tenham razão: Tânia talvez não seja má e esteja apenas sendo manipulada, mas Rogério é e tem dinheiro e coragem para fazer isso. Não posso ficar em um lugar que ele saiba.
Helena— Camila, não é fácil assim ele te incriminar de algo, ainda mais agora que sabemos. Se algo acontecer, estaremos do seu lado.
Camila— Eu sei, Helena, mas ele é rico. Pelo que sei, o pai dele tem muita influência e dinheiro. Desculpe, mas não vou arriscar ser presa e perder a guarda da Manu.
Tamires— Meu pai conhece o pai dele, talvez ele possa ajudar.
Camila— Não, seu pai nem pode sonhar com isso. Não posso ser culpada pela piora da saúde dele; por favor, não envolva seu pai nisso de maneira alguma.
Helena— E tem mais isso: a saúde do Geraldo anda fraca. Se ele ficar sabendo disso tudo, não sei se ele aguenta.
Camila— Já pensei nisso. Seu Geraldo não pode nem sonhar que isso está acontecendo, pelo menos não agora. Também não quero que a filha dele deixe de vê-lo; se isso acontecer, ele vai querer saber o motivo. Se eu e Manu sumir sem uma explicação lógica, ele também vai querer saber, e não existe uma explicação que justifique nosso desaparecimento sem causar problemas para ele. Não quero sumir da vida de vocês, muito menos tirar vocês da vida da Manu. Porém, não posso continuar aqui. Sinceramente, não sei o que fazer.
Tamires— Que baita problema! Eu também não sei como ajudar, mas não quero nem pensar em não ver você e Manu todos os dias.
Helena— Calma, gente! Precisamos pensar com calma. Já entendi que você não pode ficar morando aqui nem trabalhar na padaria. Mas você não quer ir longe nem mudar a rotina da casa, exceto pela sua ausência no trabalho e aqui. Precisamos pensar em como fazer isso; tem que haver uma saída.
Camila— Pensei nisso a noite toda. O mais perto que cheguei de uma solução é me mudar para um bairro próximo, longe o suficiente de Tânia e Rogério, mas perto o bastante para que vocês possam nos visitar todos os dias e Manu possa vir ver vocês. O problema é que não consigo um lugar assim até amanhã e, além disso, preciso de uma desculpa para essa mudança, sem levantar suspeitas.
Helena— Acho que sei como resolver isso. Pedro viveu aqui por alguns anos, depois alugou um apartamento e foi morar sozinho. Anos depois, teve a chance de ganhar mais em outro trabalho. Mesmo que todos tenham ficado tristes com sua saída, todos nós entendemos os motivos. Você pode fazer a mesma coisa.
Camila— Como assim? Não tenho nem apartamento, nem emprego!
Helena— O emprego a gente inventa; o apartamento o Pedro tem para te arrumar até você achar um. Ele mora a uma distância considerável, mas não tão longe que não possamos ir e Manu possa vir. Seria perfeito, e enquanto você não arruma outro emprego, a gente te ajuda.
Tamires— Parece uma boa ideia. Posso passar no apartamento quando vier do colégio e trazer Manu para ficar comigo. Se você quiser, posso até ficar com vocês lá.
Camila— Eu até tenho dinheiro suficiente para me manter por alguns meses, mas não tenho móveis nem condições de pagar aluguel por muito tempo. Sei que vocês podem me ajudar por um tempo, mas não quero depender de vocês, até porque sei que vocês têm boas condições, mas tem muitos gastos. E você, Helena, guarda dinheiro para a Manu todo mês. Não sei se isso pode dar certo, ainda mais porque Manu pode contar ao Rogério onde estamos morando. Manu não é mais um bebê; fala pelos cotovelos e ainda não sabe definir o que é certo ou errado para contar aos outros.
Helena— Talvez, se você convencê-la de que é um segredo, ela não conte. Podemos mantê-la longe do Rogério. Ele trabalha com o pai e não pode vir aqui o tempo todo; é só a gente tirar Manu da casa o mais rápido possível quando ele chegar e não trazê-la aqui nos finais de semana. Podemos fazer isso por enquanto, até pensarmos em algo diferente.
Camila— Tenho muito medo de tudo isso dar errado e eu perder a Manu; esse é o maior problema.
Helena— Camila, não é só você que tem medo de perdê-la. Não estou comparando sentimentos, mas nós amamos muito a Manu. Você acha que não estou morrendo de medo de você decidir ir embora para longe e tirar a Manu de mim? Estou morrendo de medo, mas confio em você, como sempre confiei. Então, por favor, confie em mim. Vamos fazer dar certo. Eu, você e Tamires somos mais espertas que aquele desgraçado do Rogério.
Tamires— Mãe!!!
Helena— Desculpe, filha, perdi a cabeça. Estou com muito ódio dele, mas vou me controlar; preciso fazer isso para tudo dar certo.
Camila— Sabe, Helena, você e Tamires são como família para mim. Eu amo vocês, de verdade. Não queria jamais causar esse tipo de problema para vocês; me desculpem.
Helena— Não foi você que causou o problema, então não tem que se desculpar. Só pense no que falei com carinho e, por favor, não leve a Manu embora sem pelo menos tentar. Eu amo aquela menina e amo você como uma filha.
Camila— Tudo bem, vamos tentar. Vocês se arriscaram muito me trazendo para cá; acho que posso arriscar um pouco por vocês.
Tamires— Graças a Deus.
Passamos um bom tempo organizando e combinando tudo para que não desse errado. Porém, eu não sentia muita segurança nesse plano da Helena, mas iria tentar, por ela, por Tamires e também por Manu. Eu não queria separá-la das pessoas que a amavam de verdade. Porém, na primeira vez que sentisse o perigo, colocaria Manu em primeiro plano. Não iria perdê-la por nada desse mundo.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
