Um Banho Diferente - Parte 5
A Beatriz estava de calcinha preta, rendada, recolhendo a blusa amarela do chão.
— Fecha a porta.
Fechei.
Do outro lado da parede a cama da Helena rangeu pesado. Depois outra vez, mais curta. Um corpo se jogando. Um lençol puxado. Um som que não chegou a ser gemido — ficou preso no meio.
A Beatriz levantou o rosto.
— Você ouviu?
— A cama dela.
— Ela está bem?
— Disse que a cabeça doía.
A Beatriz ficou parada com a blusa no colo, olhando a porta, depois olhando para mim.
— O que vocês estavam fazendo no corredor?
— Ela perguntou se a gente ia almoçar aqui.
— Precisava ficar os dois parados daquele jeito? Minha mãe com o olho vermelho. Você com essa cara.
— Que cara.
— Essa. De quem saiu de uma conversa que não era conversa.
Sentei na beira da cama. O corpo ainda estava ligado. A cabeça, não. O cansaço veio de uma vez — não só de sexo, de susto, de mentira...
— Beatriz. Estou morto.
Ela cruzou os braços.
— Morto de quê? Você acabou de me comer. Não era para estar morto.
— Estou com a cabeça cheia. Trabalho. Cliente. Essa casa, a tensão entre eles.
— Sempre essa casa.
Ficou em pé, de calcinha, a blusa pendurada num dedo. Bonita. Desconfiada. Não veio sentar no meu colo. Não puxou o zíper. Só me olhou.
— Rafael. Tem coisa que vocês não estão me contando.
— Não tem.
— Tem. Minha mãe anda calada. Você anda ausente. Meu pai anda fazendo pose de namorado. E eu no meio, parecendo boba.
— Você não é boba.
— Então me fala.
Não falei. Ela respirou fundo, puxou um short por cima da calcinha.
— Tá. Não fala. Mas não vem com mão agora. Não tenho saco para transar com um homem que está com a cabeça longe.
— Eu também não ia pedir.
Isso a deixou ainda mais quieta.
Ela deitou do lado da parede, de costas. Eu deitei atrás, sem encostar de verdade. O perfume dela era limpo, de quem tinha acabado de se arrumar. Quando virei o rosto perto do cabelo, senti só isso: asseio, cuidado, a Beatriz se cuidava como uma princesa, que não ia para a cama sem se ajeitar.
— Você está distante até quando está dentro de mim — murmurou, já com sono e raiva misturados. — Eu sinto.
— Estou cansado.
— Cansado é desculpa de homem.
Não respondi. A mão dela procurou a minha por um segundo, apertou, soltou.
— Se for outra pessoa, Rafael, eu quero saber. Não sou besta.
O coração bateu errado.
— Não é outra pessoa.
A frase saiu limpa. E era mentira do tamanho da casa.
Do outro lado da parede, a cama da Helena não rangeu mais. Só um silêncio grosso. Como quem tinha escutado a gente não transar. Como quem tinha escutado a filha perguntar.
A Beatriz dormiu primeiro, resmungando alguma coisa. Eu fiquei olhando o teto. O pau ainda latejava por reflexo. Não fiz nada. Qualquer movimento ia parecer o que ela já desconfiava.
Trabalhar no dia seguinte me deu desculpa para sair cedo.
Sou representante comercial. Linha para mercado do interior: Itatiaia, Resende, Barra Mansa. Notebook, planilha, WhatsApp, visita quando o cliente pede. A base é em casa, então o meio do dia fura. E todo furo eu acabava nessa casa — não porque eu não tivesse o que fazer. Porque eu inventava que a rota passava aqui.
Mandei duas propostas de manhã, no meu apartamento. Café ruim. Planilha. A Beatriz ligou.
— Você sumiu de novo.
— Trabalho. Tenho que entregar isso hoje.
— À noite você vem? Meu pai quer jantar em família. Está estranho. Bonzinho demais com a minha mãe.
— Vou.
— Rafael… ontem eu dormi com uma pulga atrás da orelha. Ainda está lá.
— Eu sei.
— Então se comporta. Não me deixa parecendo louca.
À tarde o portão do Curso Horizonte abriu. O Paulo estava na varanda, camisa social azul, manga dobrada, cerveja na mão. Sem time no peito, parecia querer agradar a esposa.
— Genro. Senta. A Helena está no banho.
Sentei. Ele olhou o terreno vazio das férias.
— Trinta e cinco anos, Rafael. Se eu encosto, ela endurece. Tô tentando. Hoje eu vou tentar de novo. Eu não sei mais o idioma.
A Helena saiu do banho. Cabelo preto úmido, argolas, vestido simples. O Paulo puxou a cadeira, elogiou o cabelo, pôs a mão na cintura. O beijo começou. Ela virou o rosto no meio.
— Paulo.
— Só um beijo, Lena.
— Depois.
Ele foi buscar vinho. Beatriz ainda na varanda. Helena passou por mim. O vestido roçou a minha perna.
— Você veio — sussurrou.
— Vim. Trouxe o notebook. Tenho reunião à tarde, se precisar.
— Ele está assim desde ontem, quando chegou de madrugada. Flor. Mão. Cama. Eu quase deixei. Aí eu pensei em você e parei. Isso é doentio.
— Helena.
— Não fala meu nome agora. A Beatriz já está de olho.
No jantar o Paulo serviu ela primeiro. Falou de viagem. A Beatriz olhava de um para o outro, depois para mim. Debaixo da mesa o joelho da Helena achou o meu. Ficou. Saiu quando a filha levantou a cabeça.
— Vocês três estão raros — disse a Beatriz, sem sorrir direito. — Parece reunião de gente que esconde merda.
O Paulo riu.
— Drama de filha única.
A Helena não riu.
Após o jantar, ele chamou a mulher para o quarto. A porta não fechou até o fim. Fiquei na sala com a Beatriz, o notebook aberto, uma planilha que eu não via.
— Está trabalhando de verdade ou fugindo da conversa? — ela perguntou.
— Das duas.
— Pelo menos é honesto.
Ouviu-se a voz do Paulo, baixa, no corredor:
— Me deixa te beijar direito.
Silêncio. Um beijo. Um “espera” da Helena. O range da cama. Depois a voz dela, falhando:
— Encosta. Só encosta. Não enfia.
A Beatriz franziu a testa.
— Meu pai está tentando.
— Está.
— Ela vai deixar?
Não deu tempo de responder. Veio o “para, Paulo, não consigo”. Depois passos. O Paulo passou pela sala com a cara desfeita, foi fumar na varanda. Nem olhou para a gente.
A Beatriz baixou a voz.
— Eu deveria ir lá.
— Deixa.
— Por que você fala como quem já sabe o final?
A Helena apareceu no vão da porta. Vestido no lugar. Olhos fora do lugar. Viu a filha. Viu a mim. Ajeitou o cabelo.
— Vou deitar. A cabeça…
— Mãe.
— Estou bem, filha. Seu pai só… esquece a hora.
A Beatriz não comprou. Mas também não empurrou. Ficou me olhando.
— Vamos dormir. Sem sexo. Não tenho cabeça. E você também não tem, mesmo que o corpo tenha.
No quarto, ela deitou longe. O cheiro dela era de banho recente, de toalha limpa, de mulher que se lava por inteiro antes de encostar em alguém. Quando beijei a testa dela, a pele tinha gosto de asseio. Nada de boca molhada. Nada de convite.
— Se for outra, Rafael, eu descubro.
— Não é outra.
Do outro lado da parede, a cama da Helena rangeu uma vez. Curta. Como quem se vira para não chamar o marido de novo. E para não gemer o nome que não podia.
No sábado o Paulo mandou mensagem.
“Bar do Alcides. Onze. Preciso conversar. Só nós.”
Li três vezes. O estômago virou. A Beatriz viu a tela por cima do meu ombro, no meu apartamento, onde ela tinha ido tomar café pela manhã e trabalhar no notebook dela.
— Meu pai te chamou para o bar.
— Chamou.
— Sobre o quê.
— Não sei.
Ela fechou o computador.
— Se ele souber de alguma coisa que eu não sei, você me liga. Não me deixa por último.
O bar do Alcides era escuro, chope gelado e amendoim, rock baixo no canto, tocava Rush, Limelight. O Paulo já tinha dois copos suando. Camisa xadrez.
— Senta, genro. Relaxa a cara. Não é briga.
Sentei com o copo gelando a palma, certo de que o ar da casa tinha denunciado.
— A Helena — ele disse.
O copo parou.
— O que tem ela.
— Eu perdi minha mulher. Não de papel. De corpo. Ontem ela me deixou encostar e me tirou de cima. Eu não vou perguntar isso pra amigos. Quero sua opinião. Você está sempre em casa. Ela fala com você.
O chão voltou um pouco. Não era denúncia. Era pior.
— O que uma mulher de cinquenta e cinco quer quando cansou do marido.
Eu sabia. Não podia falar.
— Tempo — disse. — Sem mão. Sem vinho. Conversa. Se você insistir de noite, ela foge mais.
Ele assentiu como quem recebe mapa.
— Você acha que ainda tem jeito.
A pergunta ficou na mesa. Se eu ajudasse de verdade, o corredor acabava.
— Tem — falei, e odiei a frase. — Mas não na força.
— Segunda eu viajo para Resende. A casa fica com a Lena. A Beatriz tem reunião cedo. Se puder passar. Ela não gosta de casa vazia.
— Posso. Levo o notebook.
— Bom rapaz, Rafael. A Beatriz teve sorte.
Quando ele foi ao banheiro, a Helena mandou mensagem.
“Ele te chamou.”
“Chamou.”
“Ele sabe?”
“Não.”
“O que você vai fazer.”
“Não sei.”
Ela apagou um texto longo e mandou:
“Não ajuda demais. Eu não aguento voltar a ser só a mulher dele agora. E eu me odeio por escrever isso.”
No estacionamento o Paulo me abraçou, alto e magro, cheiro de chope, cigarro e colônia.
— Se pensar em mais alguma dica, me fala. Eu quero minha mulher de volta.
Na segunda cedo, dirigi até a casa deles com o notebook no banco. A Beatriz tinha ido ao escritório. O Paulo saiu para o serviço em Resende. A Helena abriu o portão.
— Como foi.
— Ele quer um mapa para te reconquistar.
Ela riu sem humor e me puxou para dentro.
— E você deu.
— Dei metade.
— Põe o notebook na mesa. Liga. Se a Beatriz ligar, você está em reunião. Ela já desconfia. Não me beija na frente de porta aberta. Não me toca se o portão ranger.
A tela acendeu. Planilha. Cliente. A Helena ficou atrás da cadeira. Não desceu o vestido. Não ajoelhou. As mãos pararam nos meus ombros.
— Ele me beijou — sussurrou. — Encostou. Eu recuei. E mesmo assim fiquei molhada. Não por ele. Por saber que você estava na casa.
— Helena.
— Eu não vou te dar agora. A Beatriz dormiu de costas. Eu ouvi. Ouvi ela te acusar. Se a gente foder hoje, eu confirmo o que ela já está cheirando.
Minha mão subiu por fora do vestido e parou na coxa. Ela deixou. Abriu um pouco. Tirou. Abriu de novo.
— Perto — pediu. — A mão por cima. Só isso. Se você enfiar o dedo, eu gemo. E se eu gemer, eu não paro.
Fiquei assim. A palma no tecido quente. O pau duro. A planilha acesa. A Helena respirando no meu cabelo, sem sentar, sem beijar a boca, o corpo pedindo o que a voz recusava.
— Não ensina ele a me ter de volta — sussurrou. — Mentira. Ensina. Não ensina. Rafael… eu não sei mais de que lado eu estou.
O portão continuava quieto.
A pulga da Beatriz, não.
E a linha que a Helena tinha riscado — perto, não dentro — já estava tão fina que qualquer frase a mais ia romper.
A palma parou no vestido. O tecido já estava quente. A Helena não sentou. Não beijou a boca. Só abriu um pouco as pernas atrás da minha cadeira e deixou a mão ficar.
— Mexe — pediu, baixo. — Por cima. Devagar.
A planilha continuava acesa. Uma mensagem de cliente piscou no canto. Eu não abri. Os dedos subiram entre as coxas dela, ainda por fora, e acharam o meio. O vestido grudou. Ela estava molhada o bastante para o tecido denunciar.
— Assim?
— Assim. Não entra. Se entrar, eu…
Não terminou. O quadril dela veio para frente, um recuo curto contra a minha mão. Um vai-e-vem mínimo, como se estivesse se sentando sem sentar. A respiração bateu no meu cabelo.
— Rafael.
— Fala.
— Fala você. Quero ouvir. Quero que você descreva o que está sentindo. Se ficar quieto, eu penso. Se eu pensar, eu paro.
— Estou sentindo o vestido colado. Estou sentindo você quente. Estou com o pau doendo na calça.
Ela riu, sem graça, sem humor.
— Mostra.
— Helena.
— Mostra. Não tira para meter. Tira para eu ver. Igual no banheiro. Só que agora eu já sei o que eu fiz.
Afastei a cadeira. O zíper desceu no silêncio da casa. O pau saiu pesado, vermelho na ponta. A Helena olhou de cima, atrás de mim, e a mão direita desceu por cima do meu ombro, desceu o peito, parou no ar.
— Posso.
Não era pergunta. Era ela pedindo permissão para si.
— Pode.
Os dedos dela fecharam em volta. Quentes. Úmidos de suor. A primeira subida foi lenta, insegura. A segunda já apertou. Ela se curvou, o peito no meu ombro, o vestido abrindo na frente quando o corpo acompanhou.
— Grosso — sussurrou. — Eu esqueci que era assim de perto. No box eu vi. Agora eu sinto.
A outra mão dela pegou a minha e colocou de novo entre as pernas. Dessa vez puxou o vestido para cima, até a cintura. Sem calcinha. Pelos pretos. A fenda brilhando. Encostou meus dedos nos lábios e segurou ali, sem deixar entrar.
— Esfrega. Fora. No meio.
Esfreguei. O clitóris inchado sob o dedo. Ela gemeu no meu ouvido e a mão no pau acelerou sem ritmo.
— A Beatriz pode ligar.
— Então atende se ligar — ela falou, a voz falhando. — E eu solto. E você fecha a calça. E a gente finge planilha.
O celular vibrou na mesa.
Beatriz.
Os dois congelamos. A Helena não soltou o pau. Eu não tirei a mão. O nome da filha piscando na tela, a buceta da mãe na minha palma.
— Atende — ela mandou. — Agora. Se deixar cair, ela desconfia mais.
Passei o dedo na tela com a mão esquerda. A direita ficou onde estava. A Helena apertou a minha, um aviso: não entra.
— Oi.
— Cadê você? — a voz da Beatriz saiu seca. — No escritório ou na casa da minha mãe?
— Na casa. Trabalhando. Notebook na mesa.
— Minha mãe está aí?
A Helena encostou a boca no meu ombro e desceu a mão até a cabeça do pau, espalhou o líquido, subiu de novo. Eu fechei os olhos.
— Está. Tomando banho, acho.
Mentira. Ela estava ali, o vestido na cintura, me batendo uma.
— Põe ela.
— Beatriz…
— Põe. Quero ouvir a voz dela. Estou com uma pulga enorme.
A Helena pegou o celular da minha mão sem largar o pau. A voz saiu quase firme.
— Oi, filha.
— Mãe. O Rafael está trabalhando mesmo?
— Está. Tela acesa. Cara de quem não quer ser atrapalhado.
— Vocês estão na mesma peça?
Pausa. A Helena olhou para mim. Os olhos pretos. A mão subiu e desceu uma vez, lenta, enquanto respondia.
— Cozinha. Eu vim beber água. Já vou sair.
— Tá. Me liga se ele sumir de novo. Estou saindo daqui em uns quarenta minutos.
— Quarenta — a Helena repetiu, olhando o relógio da parede. — Tá.
Desligou. Pôs o celular de bruços. A mão no pau parou.
— Quarenta minutos — sussurrou. — Não dá para foder. Dá para sucumbir um pouco.
Virou a cadeira com o pé. Ficou na minha frente, entre a mesa e eu, o vestido ainda erguido. Abaixou o quadril e encostou a buceta no pau. Só encostou. A fenda abriu em volta da cabeça, quente, escorregadia, e parou ali.
— Não desce — pediu, para os dois. — Se descer, entra. Se entrar, acabou.
Ficamos assim. A cabeça do pau no meio dela, pulando contra o clitóris quando ela respirava. As mãos dela nos meus ombros. As minhas na bunda mole, por baixo do vestido, sem puxar para baixo.
— Fala — ela exigiu. — Está quase dentro. Fala o que você quer.
— Quero enfiar.
— Eu sei. Fala outra coisa.
— Quero gozar assim. Por fora. Em você.
— Onde.
— Na buceta. Nos pelos. No vestido, se precisar.
Helena rebolou um centímetro. A cabeça escorregou, quase achou a entrada, e ela segurou o meu quadril com força.
— Não. Aí não. Esfrega. Me fode por fora.
O vai-e-vem ficou mais sujo. O pau inteiro no meio da fenda, saindo molhado, voltando, batendo no clitóris. Ela gemia baixo, com ódio do próprio som. O peito caído quase saindo do decote. Argolas balançando.
— Isso… caralho… eu estou gozando com o pau do namorado da minha filha na porta da buceta.
— Helena.
— Cala a boca e aperta minha bunda.
Apertei. Ela veio mais forte. O notebook apitou outra notificação. Ninguém olhou. O pau latejava, a cabeça inchada, a entrada dela se fechando e abrindo contra a pele, sem engolir.
— Vou gozar — ela falou, surpresa, raivosa. — Só com isso. Só com você aí. Não segura.
Gozei primeiro. O primeiro jato saiu grosso entre os lábios dela, subiu na barriga, manchou o forro do vestido. O segundo ficou escorrendo na fenda. Ela olhou para baixo, viu o leite branco no pelo preto, e gozou no mesmo segundo, as coxas tremendo, a unha cravada no meu ombro, um gemido preso nos dentes.
Não caiu no meu colo. Ficou em pé, ofegante, o vestido caindo sozinho por cima da sujeira.
— Meu Deus.
Passou dois dedos entre as pernas, juntou o que escorria, olhou. Não levou à boca dessa vez. Limpou no meu pau, devagar, como quem esconde prova.
— Quarenta minutos viraram trinta — disse. — Vai no banheiro. Lava a mão. Lava isso. Se a Beatriz chegar e a cozinha cheirar a sexo, ela não pergunta. Ela sabe.
Fui. Água fria. Sabão. O pau ainda sensível. Quando voltei, a Helena estava com outro vestido. O manchado sumiu. O notebook na mesma tela. Um copo de água na mesa.
Ela não chegou perto.
— Não me beija. Se beijar, começa de novo.
— Eu sei.
— Você gozou em mim e ainda não comeu. Isso é pior. Eu vou andar o resto do dia com o tesão no lugar onde você quase entrou.
O portão não rangeu ainda. O relógio sim.
A Helena encostou na pia, longe, e cruzou os braços.
— Quando a Beatriz chegar, você senta nesse notebook e fala de cliente. Eu falo de dor de cabeça. E de noite… de noite o Paulo tenta de novo. Se eu deixar ele encostar, é porque você deixou meu corpo ligado. Não é reconquista. É resto seu.
— E se ela quiser transar.
— Aí você decide se aguenta. Eu não vou pedir para você recusar a minha filha. Só não goza nela pensando no vestido. Mentira. Você vai. E eu vou odiar saber.
O portão rangeu.
A Helena ajeitou o cabelo. Eu sentei. A planilha voltou a fazer sentido nenhum. A Beatriz entrou com a bolsa, o olho fino, o cheiro de escritório.
— Ainda na mesma peça — disse, olhando a cozinha. — Que reunião longa.
— Cliente chato — respondi.
Ela beijou minha boca. Rápido. Afastou. O olfato dela era bom demais para uma casa que tinha acabado de ser usada.
— Cheira a perfume da minha mãe aqui.
A Helena, na pia, não virou.
— Passei perto. Desculpa.
A Beatriz ficou dois segundos no meio da cozinha. A pulga mexeu. Não furou.
— Vou tomar banho. Hoje vocês dois não me deixam sozinha na sala com essa cara.
Foi pelo corredor. A água ligou.
A Helena olhou para mim por cima do ombro. Os olhos ainda acesos. A mancha que não estava mais no vestido ainda estava nela.
— Amanhã o Paulo viaja — sussurrou, por cima do barulho do chuveiro. — Aí não é vestido. Aí é cama. A minha. Perto. Se eu aguentar. Se eu não aguentar…
Não completou.
O chuveiro da filha corria.
O pau, lavado, já começava a lembrar do meio molhado.
E a linha — perto, não dentro — tinha levado porra, gemido e quarenta minutos. Só não tinha levado o resto.
Ainda...
(continua)