Acordei com a brisa entrando suavemente pela janela entreaberta. Por alguns segundos, permaneci deitado, olhando para o teto. Senti o cheiro de café, um sorriso involuntário surgiu no meu rosto. Ao longe, o som das ondas chegava até o quarto. Era um ruído constante, tranquilo, quase hipnótico. O mar estava perto o bastante para que eu pudesse ouvi-lo todas as manhãs.
Foi então que me lembrei, Gillian e eu tínhamos abandonado tudo. Depois de tudo o que havíamos vivido, decidimos simplesmente desaparecer. Deixar para trás aquela vida, aquelas pessoas, todos os problemas que pareciam nos perseguir. Compramos uma casa na praia, o nosso cantinho. Levantei da cama e caminhei até a cozinha.
Gillian estava diante do fogão, preparando o café. O cabelo ainda estava um pouco bagunçado, e ela usava uma roupa simples, completamente diferente da imagem da bruxa que eu havia conhecido.
— Bom dia — ela disse, sem sequer se virar.
— Bom dia — me aproximei por trás e a abracei.
— Dormiu bem?
— Muito.
Ela finalmente se virou para mim e sorriu, beijei seus lábios. Por alguns segundos, simplesmente ficamos ali, abraçados, sem precisar dizer mais nada. Tomamos café juntos. Conversamos sobre coisas banais, sobre o que poderíamos fazer naquele dia, sobre a casa, sobre a praia. Não havia nenhuma preocupação, nenhuma ameaça. Nenhum mistério para resolver. Era apenas nós dois, aquilo era perfeito.
Mais tarde, como sempre, fomos à praia. Caminhamos pela areia sem pressa, deixando as ondas alcançarem nossos pés. Gillian parecia particularmente feliz. Às vezes ela parava para observar o mar, outras vezes simplesmente continuava andando ao meu lado, segurando minha mão.
Eu também estava feliz. Talvez aquela fosse a primeira vez em muito tempo em que eu realmente conseguia respirar sem sentir que alguma coisa estava prestes a acontecer. Passamos horas ali, conversamos, rimos, caminhamos pela praia e ficamos simplesmente aproveitando a companhia um do outro. Quando percebi, o sol já começava a desaparecer no horizonte.
— Acho que está ficando tarde — falei.
— Então vamos para casa — Gillian olhou para o céu.
Voltamos caminhando lentamente. Naquela noite, tivemos a transa mais alucinante da minha vida. A brisa do mar batia contra nossos corpos ainda quentes, provocando um arrepio que percorria minha pele. Tinha me esquecido de como tudo era tão intenso com ela.
Depois, deitamos lado a lado, ouvi o som das ondas através da janela. Gillian se aproximou de mim e apoiou a cabeça no meu peito. Fechei os olhos e apenas dormi.
...
Acordei com a brisa entrando suavemente pela janela entreaberta. Por alguns segundos, permaneci deitado, olhando para o teto. Senti o cheiro de café, um sorriso involuntário surgiu no meu rosto. Ao longe, o som das ondas chegava até o quarto. Era um ruído constante, tranquilo, quase hipnótico. O mar estava perto o bastante para que eu pudesse ouvi-lo todas as manhãs.
Foi então que me lembrei, Gillian e eu tínhamos abandonado tudo. Depois de tudo o que havíamos vivido, decidimos simplesmente desaparecer. Deixar para trás aquela vida, aquelas pessoas, todos os problemas que pareciam nos perseguir. Compramos uma casa na praia, o nosso cantinho. Levantei-me da cama e caminhei até a cozinha.
Gillian estava diante do fogão, preparando o café. O cabelo ainda estava um pouco bagunçado, e ela usava uma roupa simples, completamente diferente da imagem da bruxa que eu havia conhecido.
— Bom dia — ela disse, sem sequer se virar.
— Bom dia — me aproximei por trás e a abracei.
— Dormiu bem?
— Muito.
Ela finalmente se virou para mim e sorriu, beijei seus lábios. Por alguns segundos, simplesmente ficamos ali, abraçados, sem precisar dizer mais nada. Tomamos café juntos. Conversamos sobre coisas banais, sobre o que poderíamos fazer naquele dia. Enquanto mexia distraidamente na minha xícara, percebi que havia algo familiar demais naquela manhã.
— Você já reparou que estamos fazendo sempre as mesmas coisas?
— Como assim? — Gillian levantou os olhos.
— Café pela manhã. Praia durante o dia. Voltamos para casa quando o sol se põe. Jantamos, ficamos juntos e dormimos.
— E qual é o problema? — ela sorriu.
— Não sei — dei de ombros. — Às vezes parece que nossos dias estão ficando repetitivos.
Gillian ficou alguns segundos em silêncio, me observando.
— Talvez porque você esteja procurando problemas onde não existem.
— Pode ser.
— Eu gosto disso — ela estendeu a mão sobre a mesa e segurou a minha.
— De fazer sempre a mesma coisa?
— De ter uma vida tranquila — ela sorriu. — Depois de tudo o que vivemos, não acha que temos esse direito?
— Acho — sorri.
— Então não pense tanto.
— Está bem — apertei sua mão.
Não havia nenhuma preocupação, nenhuma ameaça. Nenhum mistério para resolver. Era apenas nós dois, aquilo era perfeito.
Mais tarde, como sempre, fomos à praia. Caminhamos pela areia sem pressa, deixando as ondas alcançarem nossos pés. Gillian parecia particularmente feliz. Às vezes ela parava para observar o mar, outras vezes simplesmente continuava andando ao meu lado, segurando minha mão.
Eu também estava feliz. Talvez aquela fosse a primeira vez em muito tempo em que eu realmente conseguia respirar sem sentir que alguma coisa estava prestes a acontecer. Passamos horas ali, conversamos, rimos, caminhamos pela praia e ficamos simplesmente aproveitando a companhia um do outro. Quando percebi, o sol já começava a desaparecer no horizonte.
— Acho que está ficando tarde — falei.
— Então vamos para casa — Gillian olhou para o céu.
Voltamos caminhando lentamente. Naquela noite, tivemos a transa mais alucinante da minha vida. A brisa do mar batia contra nossos corpos ainda quentes, provocando um arrepio que percorria minha pele. Tinha me esquecido de como tudo era tão intenso com ela.
Depois, deitamos lado a lado, ouvi o som das ondas através da janela. Gillian se aproximou de mim e apoiou a cabeça no meu peito. Fechei os olhos e apenas dormi.
No meio da noite acordei, não conseguia dormir com aquelas ondas rugindo a cada segundo nos meus ouvidos.
Fechei a maldita janela e voltei a dormir.
...
Acordei na cama, a janela estava parcialmente aberta. Dessa vez, alguma coisa me incomodou imediatamente, eu tinha fechado aquela janela antes de dormir. Tinha certeza disso. Talvez Gillian tivesse aberto antes de levantar. Mas aquela janela rangia tanto que, se ela realmente tivesse aberto, não tinha como eu não acordar.
Senti novamente o cheiro de café vindo da cozinha. Ao longe, ouvi o mar, mas o som parecia diferente. As ondas continuavam quebrando na praia, mas havia alguma coisa naquele ruído que me incomodava. Quase parecia que havia uma voz escondida no som. Um lamento, um grito distante, o mar parecia estar gritando.
Senti um arrepio percorrer meu corpo, não sabia explicar o motivo, mas alguma coisa estava errada. Me levantei da cama e caminhei até a cozinha. Gillian estava lá, exatamente como nas outras manhãs. Preparava o café diante do fogão, com os cabelos levemente bagunçados e aquela expressão tranquila que já começava a me parecer familiar demais.
— Bom dia — ela disse.
— Bom dia — me aproximei e a abracei.
— Dormiu bem?
— Muito.
Ela se virou para mim e sorriu, beijei seus lábios. Por alguns segundos, tudo pareceu normal. Tomamos café juntos. Conversamos sobre coisas banais. Sobre a casa, sobre a praia, sobre o que faríamos durante o dia.
Comecei a prestar atenção nos detalhes, a xícara estava no mesmo lugar. A mesa estava organizada da mesma maneira, a luz entrava pela janela exatamente como antes. Tudo parecia exatamente igual, era uma sensação difícil de explicar.
Não era apenas familiaridade, era como se eu já tivesse visto aquela manhã. Como se já tivesse estado exatamente naquele lugar, sentado naquela mesma cadeira, olhando para aquelas mesmas coisas.
— Está tudo bem? — Gillian perguntou.
— Está — olhei para ela.
— Você parece distraído.
— Eu só estou pensando.
— Isso nunca é uma boa coisa — ela sorriu.
— Talvez nossos dias estejam ficando repetitivos — ri discretamente.
— Repetitivos? — ela inclinou a cabeça.
— É — olhei novamente para a janela. — Café, praia, pôr do sol, casa... todos os dias parecem iguais.
— E isso é ruim? — ela segurou minha mão sobre a mesa.
Pensei por alguns segundos.
— Não sei.
— Eu gosto dos nossos dias — ela sorriu.
— Eu também — apertei sua mão.
Saímos para a praia pouco depois, caminhamos pela areia como sempre fazíamos. As ondas alcançavam nossos pés, Gillian segurava minha mão. Tudo parecia normal, mas não conseguia deixar de prestar atenção ao mar. Aquele som continuava ali, aquele ruído estranho, profundo, quase como um lamento. Olhei para o horizonte, o sol estava diferente. Não sabia dizer exatamente o que havia mudado. A luz parecia ter uma tonalidade estranha, quase artificial. Fiquei alguns segundos observando o céu.
Tive uma sensação repentina, eu já tinha visto aquilo. Parei de caminhar.
— O que foi? — Gillian perguntou.
Não respondi imediatamente, olhei para ela. Depois para o mar, então para o céu. Uma lembrança começou a surgir, não era exatamente uma lembrança. Era uma sensação, como se uma parte de mim estivesse tentando me dizer que aquela cena já tinha acontecido. Mais de uma vez.
Respirei fundo, talvez fosse apenas déjà-vu. Era a única explicação racional. Mas, quanto mais eu observava, mais aquela explicação parecia insuficiente.
— Vou dar uma caminhada sozinho.
Gillian me olhou por alguns segundos.
— Eu vou com você.
— Não precisa — franzi a testa.
— Eu quero ir.
Havia alguma coisa na maneira como ela respondeu que me incomodou.
— Gillian, eu só quero caminhar um pouco sozinho.
Ela ficou em silêncio.
— Por quê? — perguntei. — Por que você não quer me deixar sozinho?
— Não é isso.
— Então o que é?
— Você está estranho desde que acordou.
— E você não está?
Gillian me encarou. Por um instante, tive a impressão de que ela sabia exatamente do que eu estava falando.
— Você está pensando demais — ela sorriu.
Aquilo não me convenceu. Mesmo assim, não insisti. Saí de casa e comecei a caminhar pela praia. Gillian veio logo atrás. Decidi mudar o caminho. Em vez de seguir pela faixa de areia que costumávamos percorrer, virei na direção contrária.
— Para onde você está indo? — ela perguntou.
— Não sei.
— Não deveríamos ir por ali.
— Por quê?
— Porque... não temos nada para fazer naquele lado — ela hesitou.
Continuei andando, ela me acompanhou. Alguns minutos depois, parei diante de uma pequena trilha que levava para uma região mais afastada da praia.
— Vamos por aqui.
— Melhor não — ela ficou imóvel.
— Por quê?
Ela não respondeu, entrei na trilha. Depois de alguns passos, olhei para trás. Gillian continuava parada.
— Você não vem?
Ela respirou fundo e finalmente me acompanhou, comecei a testar pequenas coisas. Queria descobrir se aquilo era apenas uma sensação ou se realmente havia alguma coisa acontecendo. Não fomos até o ponto onde normalmente ficávamos. Não sentamos na areia. Não voltamos para casa quando o sol começou a se pôr. Fiz questão de mudar tudo, mas, de alguma maneira, as coisas continuavam convergindo para os mesmos lugares. O sol começou a descer, o mar ficou mais escuro.
— Deveríamos voltar — ela insistiu.
— Ainda não.
— Está ficando tarde.
— E daí?
— Precisamos voltar — ela me encarou.
Aquelas palavras ficaram ecoando na minha cabeça.
Precisamos.
Não devemos.
Não seria melhor.
Precisamos.
Comecei a sentir um aperto no peito, olhei para o céu. O sol estava exatamente na mesma posição. O mesmo som perturbador vindo do mar. Eu havia tentado mudar o caminho. Tentado mudar o horário, tentado fazer coisas diferentes. Mas o dia continuava caminhando para o mesmo lugar. Como se alguma coisa invisível estivesse empurrando tudo de volta aos trilhos.
— Você sabia — olhei para Gillian. — Sabia que isso aconteceria.
Gillian abaixou os olhos, meu coração começou a acelerar.
...
Acordei na cama. A janela estava parcialmente aberta. A brisa entrava suavemente no quarto, trazendo consigo o cheiro de café vindo da cozinha. Ao longe, o mar continuava quebrando na praia.
E lá vamos nós de novo.
Fiquei sentado na cama, tentando organizar os pensamentos. A sensação de familiaridade que antes parecia apenas estranha agora era absoluta. Eu sabia o que aconteceria.
Me levantei imediatamente.
Quantas vezes?
A pergunta surgiu na minha cabeça.
Quantas vezes eu já tinha acordado naquela cama?
As lembranças começaram a se sobrepor, como páginas de um livro que alguém havia embaralhado. Eu me lembrava de ter tomado café com Gillian, de ter ido à praia, de ter caminhado pela areia, de ter dormido. E então acordado novamente, em algumas lembranças, eu não havia percebido nada. Em outras, havia sentido uma estranheza, em outras, tentara mudar a rotina. Em algumas, havia discutido com Gillian, em outras, simplesmente havia seguido o dia como se nada estivesse acontecendo.
Mas todas terminavam da mesma maneira.
Eu dormia, e acordava novamente naquela cama. Meu coração começou a bater mais rápido, não tinham sido duas ou três vezes, nem cinco, nem dez. Foram muitas, talvez dezenas, talvez centenas.
Corri para a cozinha. Gillian estava diante do fogão, preparava o café. Exatamente como sempre. Ela ouviu meus passos e se virou.
— Bom dia.
Parei diante dela, não respondi. Gillian me observou por alguns segundos. Então seu sorriso desapareceu, havia alguma coisa diferente em seus olhos.
— Há quanto tempo? — perguntei.
Gillian permaneceu em silêncio.
— Há quanto tempo isso está acontecendo?
— Você não deveria lembrar — ela abaixou os olhos.
— Então você sabe — senti um frio percorrer a espinha. — Você sabia o tempo todo.
— Eu tentei impedir que você percebesse.
— Impedir? — minha voz começou a tremer. — Você sabia que eu estava vivendo o mesmo dia repetidamente e simplesmente ficou fingindo que estava tudo normal?
— Não é tão simples.
— Então me explica!
Gillian permaneceu imóvel por alguns segundos. Parecia procurar alguma maneira de dizer aquilo sem me destruir ainda mais.
— Quando Eva foi embora... você ainda estava vivo.
Senti um aperto no peito, é, inconscientemente eu me lembrava do que tinha acontecido, só não queria que fosse verdade.
— Você estava caído na sala. Seu corpo praticamente não respondia mais. Seu coração estava parando. Eu tentei salvar você — a voz dela começou a falhar. — Eu não podia deixar você simplesmente morrer.
Ela abaixou os olhos, as lágrimas rolaram pelo rosto.
— Mas Eva conseguiu o que queria, ela conseguiu mexer no nosso vínculo. Conseguiu aquilo que procurava em mim.
— Então por que eu estou aqui?
— Porque você ainda estava vivo, ainda estava respirando — ela se aproximou lentamente. — E eu não queria que você morresse daquele jeito.
Fiquei em silêncio.
— Eu sabia que não conseguiria impedir sua morte. Não completamente. Mas ainda havia um pouco de mim dentro de você.
— Um pouco de você?
— Energia. Uma parte daquilo que ainda ligava nós dois — ela assentiu, Gillian enxugou uma lágrima que escorria pelo rosto. — Eu usei essa energia para criar isso e prolongar sua vida um pouco mais.
Olhei ao redor da cozinha, tudo aquilo que parecia tão real.
— Isso é uma ilusão?
— Sim.
— Então nada disso existe?
— Existe na sua mente.
Fiquei alguns segundos sem conseguir falar.
— Você fez isso comigo?
— Eu só queria... — ela interrompeu a própria frase. — Eu só queria que você tivesse boas lembranças... antes... antes de ir...
— Boas lembranças? — minha voz saiu mais alta. — Você me colocou dentro de uma mentira!
— Eu sei.
— Você não tinha esse direito!
— Eu sei — Gillian voltou a chorar.
— Você não podia decidir por mim!
— Eu sei! — ela levou as mãos ao rosto, a voz saiu quebrada. — Mas o que eu deveria fazer? Eu estava vendo você morrer!
Fiquei em silêncio.
— Você estava sozinho naquela sala. Eu conseguia sentir o que estava acontecendo com você, mas não conseguia trazer você de volta — ela respirou com dificuldade. — Então eu pensei que, se não podia salvar sua vida... pelo menos poderia salvar seus últimos momentos.
— Você criou tudo isso para me manter feliz até eu morrer?
— Eu queria que você tivesse uma vida comigo — ela assentiu, mais uma lágrima escorreu pelo rosto dela. — Mesmo que fosse apenas dentro da sua cabeça.
Olhei novamente para a janela. A praia, a casa, o mar. Tudo aquilo que eu havia começado a amar.
— Quantas vezes?
— Eu não sei — ela abaixou o olhar.
— Quantas vezes você fez isso?
— Muitas — ela respirou fundo. — Sempre que você acordava, eu tentava fazer aquele dia ser perfeito.
— E quando eu dormia?
— Eu fazia tudo começar novamente.
— Então você ficou me fazendo viver a mesma vida repetidamente enquanto meu corpo está morrendo.
— Eu não queria que você sofresse.
— Mas você decidiu que eu deveria viver uma mentira.
— Desculpa — Gillian chorava em silêncio agora, ela se aproximou mais um passo. — Eu sinto muito.
— Por que não me contou?
— Porque eu sabia que você tentaria escapar — ela fechou os olhos.
Fiquei olhando para ela. Aquele sorriso tranquilo que ela carregava todas aquelas manhãs não era felicidade, era despedida.
— Eu só queria que você tivesse boas lembranças de mim — ela sussurrou.
Por um momento, ficamos abraçados ali. Era estranho, mesmo sendo uma ilusão, eu ainda podia sentir suas lágrimas molhadas, seu corpo quente.
— Então estamos perdendo tempo.
Gillian ergueu os olhos.
— Se eu ainda estou vivo, ainda temos tempo. Podemos encontrar uma maneira de derrotar Eva. Ou prendê-la. Fazer alguma coisa.
— Não — a resposta dela veio rápida. — Acabou.
— Não acabou.
— Você não entende — ela enxugou o rosto. — Eva está acima de nós. Muito acima. Ela conseguiu alterar o nosso vínculo, tomou aquilo que queria de você. Se ela quisesse, já teria acabado com a gente.
— Então vamos descobrir como impedir isso.
— Não existe como.
— Tem que existir.
— Não existe.
— Gillian...
— Eu já procurei — ela fechou os olhos. — Durante todo esse tempo, enquanto você estava aqui, eu procurei uma saída. Tentei encontrar alguma maneira de alcançar você, de desfazer o que ela fez, de recuperar o controle do vínculo.
Ela respirou fundo.
— Não há uma saída.
— Então tenta de novo.
Gillian permaneceu em silêncio.
— Você está desistindo porque acha que não existe uma saída. Eu não vou aceitar isso.
Ela me encarou. Por alguns segundos, não disse nada. Então seu olhar mudou, foi quase imperceptível. Como se alguma lembrança tivesse acabado de surgir.
— Talvez exista uma maneira — Gillian desviou o olhar. — Mas você não vai gostar.
— Não importa, eu prefiro ter uma chance a ficar aqui esperando morrer.
— Eu sei — ela me encarou por alguns segundos, então baixou os olhos.
— O que precisamos fazer?
— Você precisa ir até a cabana.
— A cabana onde nos encontramos? — meu corpo ficou tenso.
— Sim — a voz dela ficou mais baixa. — Meu coração está lá.
— Seu coração? Sobrou alguma coisa daquela noite?
— Ele ainda está lá, preso àquele lugar, eu posso sentir.
— E o que eu faço com ele?
— Você precisa perfurá-lo.
— Por quê?
— Porque... — ela fez uma pausa. — O vínculo some, os poderes também...
Ela se aproximou de mim.
— Enquanto ele existir, uma parte de mim continuará ligada àquilo que aconteceu naquela noite.
— Mas, e você? — olhei para ela.
Gillian permaneceu em silêncio.
— Essa é a parte que você não vai gostar — ela tentou sorrir, mas não conseguiu.
— O que você quer dizer com isso?
Gillian me abraçou, senti as lágrimas molhando a camisa.
— Eu amo você — Gillian respirou fundo.
— Gillian... — meu peito apertou.
— Espera — ela colocou um dedo sobre meus lábios. — Deixa eu terminar.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Eu sei que isso não é justo. Sei que você provavelmente vai me odiar quando entender o que precisa fazer. Mas eu preciso que você faça.
— Eu não vou deixar você.
— Vai — um sorriso triste brotou em seus lábios. — E eu vou encontrar um jeito de voltar.
— Gillian...
— Eu prometo — ela segurou meu rosto entre as mãos, uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — Não importa quanto tempo leve. Não importa onde eu esteja. Eu vou encontrar um caminho de volta para você. Porque eu te amo.
Apertei os olhos, os abri, desviei o olhar.
— Você realmente acha que vai conseguir?
— Preciso acreditar que sim — ela respirou fundo. — Você me ama?
Sorri, apesar das lágrimas que começavam a surgir nos meus próprios olhos.
— Eu nunca amei tanto uma bruxa quanto amo você.
Gillian sorriu. Dessa vez, de verdade. Ela se aproximou e me beijou. Foi um beijo longo, silencioso, quase como se tentássemos guardar um ao outro na memória. Quando seus lábios se afastaram dos meus, ainda mantive os olhos fechados por alguns segundos.
— Eu vou voltar — ela sussurrou. — Agora, você precisa ir.
Abri os olhos. A cozinha havia desaparecido, a casa desapareceu. O cheiro de café desapareceu, o som do mar também.
Tudo foi substituído por uma sensação brutal de queda, abri os olhos de repente. Estava deitado no chão frio da sala do apartamento. Tudo estava do mesmo jeito.
Tentei respirar, tentei puxar o ar. Senti meus pulmões sendo rasgados conforme o ar ia entrando. Eu tossi, senti uma tontura, uma queimação de dentro para fora enquanto meu corpo tentava absorver todo o oxigênio.
Assim que tentei me levantar, uma dor atravessou meu corpo inteiro. Meus músculos pareciam ter esquecido como funcionavam. Apoiei uma mão no chão e tentei erguer o corpo, mas meus braços e pernas tremiam.
Minha garganta estava seca. Água, era a primeira coisa de que eu precisava. Fui até a cozinha praticamente me arrastando. Cada passo parecia exigir um esforço absurdo. Abri a torneira e bebi diretamente da pia, desesperado, deixando a água escorrer pelo rosto e pelo pescoço.
Só depois de alguns goles consegui sentir a respiração se normalizando. Olhei para o meu reflexo no vidro da janela. Eu estava pálido, abatido, com o rosto coberto de marcas do chão onde havia permanecido deitado.
Eu não fazia ideia de quantos dias haviam passado.
Então me lembrei, Eva, Gillian e do maldito vínculo, a cabana, o coração e a promessa de que um dia ela voltaria.
Não estava totalmente recuperado, mas não perdi tempo. Vesti a primeira roupa que encontrei e saí do apartamento. Eu precisava chegar à cabana, mesmo com o meu corpo duro e doendo. A fraqueza era tanta que às vezes eu sentia uma vertigem que quase me fazia desmaiar.
Mas não podia me dar o luxo de descansar, não agora. Eu precisava chegar na cabana, o mais rápido possível. Já era noite quando cheguei à estrada que levava até o lugar onde tudo havia começado. A iluminação era praticamente inexistente. Quanto mais eu me afastava da cidade, mais escuro ficava.
Segui pela estrada de terra usando apenas os faróis como referência. Depois de algum tempo, nem mesmo isso parecia suficiente. A cabana ficava longe de qualquer lugar habitado. Era isolada, cercada pela mata e praticamente esquecida pelo mundo. Tive que diminuir a velocidade várias vezes para não perder o caminho.
Quando finalmente avistei a construção entre as árvores, senti um arrepio. Ali estava, era a mesma cabana da noite em que encontrei Gillian. Parei o carro e desci, por alguns segundos, fiquei olhando para ela. Era estranho estar ali novamente, aquele lugar havia sido o começo de tudo.
Caminhei até a porta e entrei, o interior estava mergulhado na escuridão. Acendi a lanterna do celular e comecei a iluminar os cômodos, então parei. A sensação foi imediata, eu conhecia aquele lugar. Não aquela cabana, a outra. A casa que Gillian havia criado dentro da minha mente.
A disposição dos móveis, alguns objetos, até certos detalhes das paredes pareciam familiares demais. Era como se eu tivesse entrado novamente naquela casa da praia. Mas não tinha paredes dividindo os cômodos, era um espaço só. Passei lentamente a luz por tudo o que estava ao redor. Meu coração acelerou, aquela ilusão não tinha sido inventada do nada.
Gillian havia usado memórias, sensações e lugares que carregavam alguma importância para nós dois, talvez aquela casa tivesse sido construída a partir daquela cabana. Ou talvez fosse o contrário, eu não sabia. Só sabia que tudo ali parecia familiar.
— Gillian... — murmurei.
Minha voz ecoou pelo interior vazio, nenhuma resposta. Continuei avançando com dificuldade, mesmo com a luz do celular, a escuridão ainda era densa, como se evitasse qualquer tipo de luz. E quando mais adentrava, mais densa ficava, a ponto de a lanterna não iluminar sequer um palmo à minha frente.
Parei. Não fazia sentido continuar tentando enxergar. Segui tateando o caminho até sentir algo sob meus pés, a cama de palha. Era exatamente como eu me lembrava. Fiquei parado diante dela, foi então que senti alguma coisa.
— Embaixo da cama — o sussurro veio. — O baú.
Aquele sussurro estava tão próximo que parecia ter sido dito diretamente no meu ouvido, ou talvez dentro da minha cabeça. Não consegui distinguir. Me abaixei diante da cama. Estendi a mão por baixo dela, avançando os dedos pela escuridão até tocar alguma coisa.
Senti a madeira. Segurei a caixa e a puxei para fora, coloquei-a sobre o chão e abri. Um cheiro intenso de queimado imediatamente tomou o ar, recuei por instinto, tapando o nariz e fechando os olhos. Estendi a mão novamente, toquei alguma coisa dentro do baú. Estava quente, não apenas quente, fumegante.
Mesmo depois de tantos séculos, aquele pedaço de Gillian ainda parecia guardar o calor das chamas que haviam destruído seu corpo.
Passei os dedos lentamente sobre aquela coisa. Havia alguma coisa errada naquilo. Não era apenas um coração que havia sobrevivido ao fogo. Eu podia sentir.
Aquilo era uma manifestação física da própria maldição.
A maldição involuntária que havia mantido Gillian presa àquele lugar durante todos aqueles séculos precisava existir em algum lugar. Precisava de uma âncora.
E aquela coisa diante de mim era essa âncora, seu próprio coração carbonizado.
Eu precisava perfurá-lo. Mas como?
Olhei ao redor, embora já soubesse que não conseguiria enxergar nada, então ouvi um som. Alguma coisa metálica havia caído ao meu lado, arrastei os pés pelo chão até tocar no objeto. Abaixei-me e passei os dedos sobre ele, uma faca.
Segurei o cabo, meu coração batia tão forte que parecia acompanhar cada movimento da minha mão. Ergui a lâmina, foi então que ouvi novamente aquela voz.
Dessa vez, não havia dúvida. Era Gillian.
— Eu te amo.
Minha respiração parou por um instante, eu hesitei.
— Sempre vou te amar.
Fechei os olhos, apertei a faca e perfurei. Por alguns segundos, nada aconteceu. Então o coração pareceu se desfazer sob a lâmina. Uma onda de calor atravessou a cabana, a escuridão começou a recuar. As paredes surgiram diante dos meus olhos, num instante tudo ficou visível. E então percebi que a cabana estava pegando fogo.
As chamas começaram a surgir pelas paredes e pelo teto, espalhando-se rapidamente pela madeira seca. Não havia tempo para pensar, corri em direção à porta. As chamas já começavam a bloquear parte do caminho. Passei por elas o mais rápido que consegui, sentindo o calor queimando meu rosto e meus braços.
Atravessei a porta e caí de joelhos do lado de fora, rolei pela terra e me afastei alguns metros. Quando finalmente me virei, a cabana inteira estava em chamas que dançavam violentamente no meio da escuridão da mata. Fiquei olhando para ela, ofegante. O fogo iluminava a mata ao redor e queimava apenas a cabana, não atingia a vegetação em volta por mais próximo que estivesse.
Senti um vazio no peito, não era tristeza. Era como se alguma coisa tivesse sido brutalmente arrancada de mim de uma única vez. Fiquei ali, sentado no chão, observando a cabana queimar. Não sei quanto tempo passou, apenas fiquei ali.
As chamas consumiram as paredes, o teto desabou e, pouco a pouco, tudo aquilo que havia restado da cabana desapareceu diante dos meus olhos. Gillian havia prometido que voltaria, eu precisava acreditar nisso. Me levantei e entrei no carro. Durante todo o caminho de volta, uma única coisa permanecia na minha cabeça.
Ela vai estar lá.
Quando eu abrir a porta do apartamento, ela vai estar lá.
Talvez sentada no sofá, talvez na cozinha, talvez preparando café, como fazia todas aquelas manhãs.
Ela tinha prometido.
Quando finalmente cheguei, saí do carro e subi as escadas. Abri a porta.
— Gillian?
Entrei. O apartamento estava vazio, nenhuma voz, nenhum movimento, nenhum cheiro de café. Apenas silêncio. Fiquei parado no meio da sala.
— Gillian?
Chamei novamente, nada. Então as lembranças começaram a surgir.
Gillian fazendo uma careta na primeira vez que tomou café.
Gillian sentada no canto da cozinha, com o rosto todo sujo de chocolate branco.
Gillian acordando com o cabelo completamente bagunçado, tentando entender onde estava.
Ela descobrindo coisas simples do mundo como uma criança. Rindo de coisas idiotas. Ficando irritada por motivos absurdos. Me olhando daquele jeito que fazia parecer que, por alguns segundos, nada mais existia.
Fechei os olhos, meu estômago se revirou, me lembrei de Eva. Ela havia me usado para chegar até Gillian. E eu havia acreditado nela. Eu havia seguido cada caminho que ela colocou diante de mim. Tudo porque achei que estava tomando minhas próprias decisões.
Abri os olhos. O apartamento continuava vazio. Um pensamento atravessou minha cabeça.
É tão fácil manipular um idiota como eu...
Fiquei em silêncio. Então percebi, a sensação era exatamente a mesma. Aquela mesma sensação de ter sido conduzido por alguém. Só que, dessa vez... Não havia sido Eva.
Havia sido Gillian. Ela sabia que eu estava morrendo, criou um mundo inteiro para mim. Fez-me acreditar que aqueles dias eram reais. E, quando finalmente descobri a verdade, ela me deu uma última esperança.
“Eu vou voltar.”
Meu peito começou a doer. Ela sabia exatamente o que dizer. Sabia exatamente no que eu precisava acreditar. E eu acreditei. Porque queria acreditar. Porque precisava acreditar. Passei as mãos pelo rosto, uma lágrima escorreu.
E, naquele momento, o apartamento pareceu grande demais.
Vazio demais, silencioso demais.
Eu estava sozinho, encarando o fato de que ela nunca mais voltaria.
Nota do autor: e na ansiedade e insônia durante a madrugada, consegui revisar e postar o penúltimo capítulo. Espero que gostem!
