Parte 3 – A Advertência de Cláudia
Logo após Jonathan contar sobre a adulteração das imagens para Beatriz, e de Cláudia testemunhar o sofrimento excruciante e as suspeitas da amiga na sala íntima, o nervosismo a dominou. Ela percebeu que a situação havia saído completamente do controle familiar que imaginava. Cláudia ligou para Renato trancada no banheiro. A torneira aberta disfarçava sua voz, mas não escondia o medo. O som da água batendo contra a louça da pia preenchia o cubículo estreito.
Cláudia não fazia ideia de que Renato produziu as mentiras eletrônicas ou que foi ele quem enviou as mensagens para Fred.
Ela ligou para ele puramente para relatar o estado de Beatriz e avisar que as fotos do encontro entre Beatriz e Rafael chegaram (o que causou espanto a ela), agindo com base na aliança que mantinham de separar Fred e Beatriz através de Rafael. O susto dela ocorre quando Renato reage com frieza criminosa.
— Renato, além das fotos e vídeos da traição do marido que a Beatriz recebeu, enviaram fotos da traição da Beatriz com o Rafael para o Fred! — disse ela, tensa.
— Ela mostrou as fotos e vídeos da traição do Fred recebidos por ela para Jonathan. Parece que ele tem um programa para verificar autenticidade desses arquivos de computador e descobriu que são falsas. Ela está se questionando se foi você quem enviou as fotos e vídeos dela com o Rafael para o Fred para acabar com o casamento deles. O que está acontecendo?
No outro lado da linha, Renato ficou em silêncio.
— Renato? Você ouviu?
— Ouvi.
— O que você vai fazer?
— O que eu deveria ter feito antes.
— Você prometeu que ninguém se machucaria, que queria separar a Beatriz do Fred porque ele não a merecia.
Renato riu sem humor. — Você cumpriu a sua parte trazendo o Rafael, Cláudia. Agora o resto não é mais problema seu.
— As pessoas se machucam o tempo todo, Cláudia. A diferença é que algumas merecem.
Ela ficou sem voz. Um arrepio frio subiu por sua espinha ao notar o tom gélido e desconhecido do cunhado de Beatriz.
— Renato, pelo amor de Deus...
— Você está com medo de quê? De mim? Ou de que eu conte para todo mundo sua participação no episódio de Rafael? De todos saberem como ele entrou na vida da Beatriz nesse exato momento? De como incentivamos ele a tentar reconquistá-la? De como você encheu os ouvidos dela antes falando que ele estava bonito, que perguntou por ela, que queria acertar as contas por tê-la abandonado sem explicação no passado?
Cláudia fechou os olhos.
— Eu só quero sair disso.
— Tarde demais.
No mesmo instante, outro telefone tocou sobre a mesa de Renato. Era o aparelho usado exclusivamente para contatos com um político envolvido em esquemas de lavagem de dinheiro para traficantes e que tinha ouvidos dentro da Polícia Federal e do Poder Judiciário.
Renato atendeu.
— Fale.
A voz do outro lado estava baixa, apressada.
— A casa caiu. Fiquei sabendo que mandados de prisão e busca e apreensão foram emitidos em seu nome. Vão cumprir ainda hoje.
Renato permaneceu parado por alguns segundos.
A sala pareceu diminuir ao seu redor.
Os quadros, a mesa, os arquivos, tudo adquiriu o peso de uma condenação.
— Quem falou?
— Isso não importa. Se vai fugir, fuja agora.
A ligação caiu.
Renato ficou imóvel.
Depois virou-se lentamente para a gaveta da mesa.
Abriu-a.
Retirou uma arma.
O desespero misturava-se ao ressentimento de forma indistinguível. Ele sabia que havia perdido o controle da narrativa. Sabia que Fred descobriria. Sabia que Beatriz finalmente entenderia tudo.
E, se isso acontecesse, não restaria nada.
Nem empresa.
Nem poder.
Nem Beatriz.
— Se eu não posso tê-la — murmurou, com os olhos frios — Fred também não terá.
Mas, no fundo, sabia que aquilo já não era amor.
Era punição.
Era a necessidade doentia de arrastar todos para o abismo que ele mesmo havia cavado.
Renato saiu apressado.
Antes de fugir, faria Beatriz pagar por lhe negar o lugar que ele acreditava merecer.
Parte 4 – O Cativeiro e o Cerco
Jonathan chegou em casa com o coração acelerado, embora tentasse manter a aparência de naturalidade. O pequeno localizador permanecia preso ao chaveiro no bolso. Ele sabia que Helena acompanhava seus movimentos. Sabia que havia uma equipe por perto.
Isso deveria tranquilizá-lo.
Não tranquilizava.
O portão estava aberto.
A casa, silenciosa demais. O vento seco e quente de Brasília soprava folhas mortas pelo hall de entrada deserto, amplificando a sensação de abandono.
— Mãe?
Nenhuma resposta.
Ele entrou devagar. Cada passo no piso de mármore ecoava como um aviso.
— Mãe?
Ouviu um ruído vindo da sala.
Quando virou o corredor, viu Renato segurando Beatriz pelo braço.
A arma encostada ao corpo dela transformou o ar da casa em chumbo. O cano frio da pistola pressionava a costela de Beatriz, que mantinha os olhos fixos no filho, num pedido mudo de cautela.
— Que bom que chegou, sobrinho — disse Renato, com um sorriso quebrado. — Faltava você para a reunião de família.
Jonathan sentiu a garganta secar. O suor frio escorreu por sua nuca.
— Solta a minha mãe! Gritou.
— Sempre dando ordens. Igual ao seu pai.
Beatriz tentou manter a voz firme.
— Jonathan, fica calmo.
— Cala a boca! — gritou Renato, apertando o braço dela.
Jonathan deu um passo à frente.
— O problema é comigo? Então deixa ela sair.
Renato riu. Uma risada histérica, desprovida do antigo verniz de elegância corporativa.
— Você acha mesmo que isso é sobre você, moleque?
— Você está cercado, Renato. Não tem para onde ir.
A frase fez o rosto de Renato mudar.
— Então ela já te contou.
Jonathan não respondeu.
Renato entendeu.
— Helena — Renato sibilou, o rosto contraído. — Eu vi a Helena deixando você agora pela câmera do portão. Aquela vadia da consultoria corporativa que usei para quebrar o casamento do seu pai... ela achou que conseguiria me cercar.
Beatriz arregalou os olhos.
— Helena?
Renato aproximou o rosto do dela. A respiração dele era rápida, descontrolada.
— Você ainda não entendeu, Bia? Todo mundo mentiu para você. Fred. Cláudia. Seu filho. Rafael. A diferença é que eu fui o único honesto sobre o que queria.
— Você nunca foi honesto — respondeu Beatriz, a voz firme apesar do medo. — Você fabricou mentiras para destruir minha família.
— Sua família? — Renato cuspiu as palavras. — Sua família sempre foi uma vitrine do Fred. Uma família de comercial de margarina. A empresa de sucesso, o filho perfeito, a esposa perfeita... Pelo menos acabar com a família perfeita eu consegui. Afinal, o corno do meu irmão jamais vai perdoar a sua traição! A esposinha perfeita, o troféu dele, transou com o ex-namorado como vingancinha porque acreditava ter sido traída!
— Você é doente.
Ele apertou ainda mais o braço dela.
Jonathan avançou meio passo.
— Tira a mão dela.
Renato apontou a arma para ele. O clique do cão da pistola sendo puxado para trás ecoou na sala.
— Mais um passo e eu mato sua mãe na sua frente.
Jonathan parou.
O coração batia tão forte que parecia ferir o peito.
— O que você quer?
— Sair daqui.
— Então sai.
Renato riu.
— Com vocês dois.
Beatriz fechou os olhos por um segundo.
— Não.
— Sim. Você e o garoto vêm comigo. Fred vai entender o que é perder tudo de uma vez.
Jonathan tentou ganhar tempo.
— Para onde?
— Para um lugar onde ninguém vai procurar.
Ele empurrou Beatriz em direção à porta.
— Anda. Deixem os celulares.
Jonathan acompanhou os dois, mantendo as mãos visíveis. Ao passar pelo hall, sentiu o chaveiro bater contra sua perna. O leve toque do localizador o lembrou de respirar.
Helena sabia.
Eles não estavam completamente sozinhos.
Do lado de fora, Renato obrigou Beatriz a entrar no banco do motorista. Jonathan entrou ao lado dela. Renato foi no banco de trás com a arma apontada para Beatriz.
— Se tentarem alguma coisa, eu atiro primeiro nela. Depois em você.
O carro arrancou. Os pneus cantaram no asfalto quente da rua vazia, rasgando o silêncio do Lago Sul.
A poucos quilômetros dali, Helena acompanhava o ponto luminoso se deslocando pelo mapa no tablet.
— Ele levou os dois — disse, a voz controlada.
Mauro, pelo rádio, respondeu:
— Fred está comigo. Estamos saindo da superintendência.
Helena ficou em silêncio por um segundo.
— Mauro, segurem Fred.
— Tarde demais.
No banco do passageiro da viatura descaracterizada, Fred ouvia a conversa com os olhos fixos à frente. Seu semblante era uma máscara de pedra, mas os nós de seus dedos estavam brancos ao redor do punho de sua arma.
— Para onde ele está indo? — perguntou.
Helena observou o trajeto.
— Saída para uma área rural. Espera...
Ela ampliou o mapa.
— Uma chácara antiga.
Fred fechou a mão sobre o apoio do banco.
— Sei onde é. Pertence à família de Patrícia, ex-mulher de Renato. Ele levou minha mulher e meu filho para lá.
Fred aproveitou e fez uma rápida ligação para Patrícia. Não falava com ela há muito tempo. Ele não deu maiores detalhes, só questionou se havia alguém da família na antiga chácara (para tentar evitar que Renato tivesse mais reféns). Inventou que estava próximo ao local e pensou em dar uma passada. Ela estranhou a ligação, brincou o que ele estaria fazendo perdido por ali, já que a vida dele era na Europa, perguntou por Beatriz (o que causou mais nervosismo em Fred que queria desligar rapidamente), mas ao final disse que depois do que aconteceu nos casamentos dela e da irmã, que a família abandonou a chácara e quase não iam até lá, o que causou um certo alívio nas pessoas que ouviam a conversa. Fred se despediu sem esperar a resposta.
Mauro acelerou. O motor da viatura rugiu alto enquanto cortavam o tráfego do Setor de Mansões.
— Equipes em deslocamento.
Helena transmitiu as coordenadas.
— Cerco discreto. Nada de sirene. Nada de aproximação brusca. Ele está armado e instável.
Fred pegou o rádio.
— Ele não vai encostar neles.
Mauro o encarou por um instante.
— Fred.
— Ele não vai encostar neles — repetiu.
A estrada de terra era estreita, ladeada por árvores altas. A casa principal da chácara, antiga e mal iluminada, surgia ao fim do caminho como uma lembrança abandonada de tempos melhores. A escuridão do cerrado envolvia a propriedade, que parecia engolida pelo mato alto.
Renato estacionou bruscamente.
— Desçam.
Beatriz segurou a mão de Jonathan por um segundo antes de sair.
Ele apertou de volta.
Renato os empurrou para dentro da casa.
— Sentem.
A sala cheirava a mofo, madeira velha e poeira. Cortinas grossas bloqueavam as janelas. Um relógio parado marcava uma hora sem importância. A penumbra era cortada apenas pela luz fraca dos faróis do carro que ficaram acesos do lado de fora.
Beatriz ficou ao lado do filho no sofá.
Jonathan analisava tudo.
Portas.
Janelas.
Distância até Renato.
Posição da arma.
Possibilidades.
Poucas.
Renato caminhava de um lado para o outro.
A máscara de controle começava a se desfazer.
— Você devia ter ficado comigo, Bia.
Ela o encarou com desprezo.
— Eu jamais ficaria com você, Renato.
— Teria sido melhor tratada.
— Você não sabe amar ninguém. Só sabe possuir.
Renato virou-se bruscamente.
— Cuidado.
Jonathan interveio:
— Ela tem razão.
Renato apontou a arma para ele.
— Você fala demais.
— E você perdeu.
O rosto de Renato endureceu.
— O quê?
— Perdeu. Meu pai sabe. A polícia sabe. Helena sabe. Seus contatos fugiram ou vão te entregar. Tudo o que você construiu acabou.
Renato caminhou até ele e o acertou com um tapa violento.
Beatriz gritou:
— Não toca no meu filho!
Jonathan sentiu o gosto de sangue na boca, mas não desviou o olhar.
— É isso que você é. Um covarde armado.
Renato respirou com dificuldade.
Por um instante, pareceu prestes a atirar.
Lá fora, os faróis das viaturas descaracterizadas foram apagados a algumas centenas de metros. Sombras táticas do Comando de Operações Táticas (COT) da PF avançavam silenciosamente pela vegetação rasteira, movendo-se como fantasmas com submetralhadoras em punho.
Helena acompanhava a movimentação pelo tablet.
Mauro coordenava a aproximação das equipes.
Fred estava ao lado dele, colete por cima da camisa, arma em punho, o rosto tomado por uma calma perigosa.
— Fred, você entra quando eu autorizar — disse Mauro.
— Se eu ouvir um disparo, entro antes.
— Se você entrar antes, pode matar todos eles.
Fred olhou para a casa escura.
A frase o atingiu.
Ele respirou fundo.
Dentro da chácara, Beatriz percebeu, pela mudança quase imperceptível no olhar de Renato, que ele começava a duvidar de si mesmo.
— Renato — disse ela, mais baixa. — Ainda dá tempo de acabar isso sem mais dor.
Ele riu.
— Você agora vai fingir que se importa comigo?
— Eu me importo com Jonathan. Com Fred. Com a minha família. E, por isso, estou te dizendo: se fizer qualquer coisa contra nós, Fred nunca vai parar.
Renato sorriu.
— Fred não manda mais em nada.
Jonathan limpou o sangue do canto da boca.
— Você não conhece meu pai.
Renato apontou para ele.
— Eu conheço Fred melhor do que todos vocês.
A porta da frente rangeu.
Renato se virou em um sobressalto, puxando Beatriz contra si e apontando a arma na direção da entrada.
Do lado de fora, a voz de Fred surgiu, firme, controlada, cortando a noite:
— Renato!
Beatriz fechou os olhos ao ouvir a voz do marido.
Jonathan respirou fundo.
Renato sorriu de forma distorcida.
— O herói chegou! Disse Renato, cheio de sarcasmo.
Fred apareceu na soleira, com Mauro e outros agentes posicionados atrás, parcialmente encobertos pela escuridão.
— Solta minha mulher e meu filho.
— Agora são sua mulher e seu filho? Pensei que você estivesse ocupado demais viajando pelo mundo.
Por um momento o fato de Fred a chamar de “minha mulher” e exigir a sua soltura aqueceu o peito de Beatriz.
Fred não reagiu à provocação.
— Isso é entre nós.
— Sempre foi entre nós! — Renato gritou.
— Desde o começo! Você sempre teve tudo. A empresa, o respeito, o nome do nosso pai, Beatriz. Até quando desaparecia por semanas, voltava e todos te recebiam como se nada tivesse acontecido.
Fred deu um passo para dentro.
— Não dá mais para fugir.
Renato apertou o braço de Beatriz.
— Eu não quero fugir. Só quero ver você se desfazendo em desespero quando eu tirar tudo aquilo que você mais ama!
Jonathan percebeu o dedo dele tensionando no gatilho.
— Pai...
Fred olhou rapidamente para o filho.
Naquele breve instante, Jonathan entendeu.
Fred estava calculando.
Distância.
Ângulo.
Tempo.
Renato continuou:
— Se eu não posso ter o que é seu, você também não vai ter.
Beatriz encarou Fred.
Não havia medo em seus olhos naquele momento.
Havia confiança.
Fred ergueu as mãos lentamente.
— Olha para mim, Renato! Não para eles.
Renato obedeceu por instinto.
Foi o suficiente.
Uma equipe tática arrombou a janela lateral com um aríete, lançando uma granada de luz e som. O clarão ofuscante e o estrondo ensurdecedor rasgaram a penumbra da sala, desorientando por um momento Renato. Uma equipe pela lateral quebrou a janela ao mesmo tempo em que Mauro avançou pela entrada. Fred se lançou na direção de Beatriz e Jonathan no exato segundo em que Renato virou a arma. O estilhaço do vidro rasgando o silêncio da chácara rompeu a tensão.
O disparo de Renato ecoou pela sala, perfurando o teto de gesso antigo.
Vidro, gritos, ordens, passos.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Fred derrubou Beatriz e Jonathan no chão, protegendo os dois com o próprio corpo. Ele usou o próprio peso para blindar a família de qualquer linha de tiro. Mauro atingiu Renato pelo lado, derrubando-o com um tranco violento sobre uma mesa velha de madeira, que se desfez em pedaços. Fazendo a arma cair. Dois agentes o imobilizaram antes que ele conseguisse reagir.
— Arma no chão! Arma no chão!
Renato gritava, se debatendo. Sua bochecha estava prensada contra a poeira do piso.
— Tira as mãos de mim! Eu sou Renato Alves! – como se isso importasse naquele momento.
Mauro o algemou com força.
— Agora é só mais um preso filho da puta.
Fred permaneceu sobre Beatriz e Jonathan por alguns segundos, como se o corpo ainda não aceitasse que o perigo havia passado.
— Bia?
Ela tocou o rosto dele.
— Estou bem.
— Jonathan?
— Estou bem, pai.
Fred fechou os olhos.
Só então respirou.
Beatriz o abraçou com força.
Jonathan fez o mesmo.
Os três ficaram no chão da sala antiga, cercados por agentes armados, poeira e vidro quebrado, unidos por uma verdade que nenhuma mentira conseguiria mais destruir.
Do lado de fora, Helena observava a cena pela porta aberta.
Por um instante, permitiu-se fechar os olhos.
A caçada havia terminado.
Mas as consequências estavam apenas começando.