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Disputa entre Amigos

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 1905 palavras
Data: 27/08/2026 22:47:45
Última revisão: 28/08/2026 13:11:54
Assuntos: Amigo, colega, Disputa, Gay, Romance

Na manhã seguinte ao sonho, descobri que dormir pouco é uma atividade que o corpo tolera com mais elegância aos dez**seis anos do que a consciência. De tarde, cheguei ao galpão com a sensação de ter passado a noite inteira discutindo com mortos que, além de tudo, dirigiam mal.

O sol já estava alto e o concreto devolvia o calor acumulado dos dias anteriores. Havia cheiro de óleo velho, borracha e café recém passado vindo da pequena cozinha dos fundos. Um caminhão estava estacionado perto do portão, e alguém, em algum ponto do galpão, resolveu que uma rádio sertaneja tocando baixo seria uma contribuição importante para o funcionamento da economia nacional.

Luquinhas estava sentado sobre uma pilha de pneus. Não estava trabalhando, o que, vindo dele, significava que provavelmente já havia trabalhado o suficiente para ter o direito moral de não trabalhar por alguns minutos. Ele me viu entrar.

— Ih.

— Bom dia pra você também.

— Cê tá com uma cara de quem perdeu dinheiro.

— Não perdi dinheiro.

— Então perdeu sono.

Não respondi, Luquinhas sorriu.

— Perdeu os dois?

Joguei minha mochila sobre a mesa.

— Você é muito irritante.

— E você tá muito previsível.

Ele saltou dos pneus e veio até mim. Usava uma camiseta larga, bermuda manchada de graxa e aquele sorriso que tinha a inconveniente capacidade de fazer parecer que estava sempre dois pensamentos à frente.

— Cristiano não veio?

Perguntei sem pensar, Luquinhas parou. Eu odiei imediatamente a minha pergunta.

— Olha só — ele diz — Mal chegou e já sentiu falta dele?

— Eu só perguntei.

— Perguntou.

— Ele tá de folga – me lembrei.

— Tá.

— Então por que eu perguntei?

Luquinhas deu uma risada.

— Essa pergunta você devia fazer pra você.

Passei por ele.

— Vai trabalhar.

— Tô indo.

— Finalmente.

— Mateus.

Parei, Luquinhas não estava sorrindo. Era uma mudança pequena, mas eu percebi. Talvez porque estivesse começando a aprender que os silêncios das pessoas diziam coisas diferentes. O de Cristiano parecia uma porta trancada, o de Luquinhas, não. O dele era mais parecido com alguém que fecha a janela porque percebeu que vai chover.

— Que foi?

— Você tá bem?

A pergunta era simples, por isso demora.

— Tô.

— Mentira.

— Nossa, vocês todos fizeram um curso secreto pra me irritar?

— Não.

Ele olhou para o galpão vazio.

— Mas cê tá com uma cara estranha desde que chegou.

Desviei.

— Dormi mal.

— Pesadelo?

Olhei para ele.

— Como você sabe?

Luquinhas deu de ombros.

— Porque você tá acordado, mas parece que deixou alguma coisa lá.

Eu rio, apesar de ser verdade.

— Você fala umas coisas muito estranhas.

— Você que gosta.

— Não gosto.

— Gosta sim.

Ele voltou a sorrir, mas a frase ficou comigo. Parece que deixou alguma coisa lá. Talvez eu tivesse deixado, ou talvez tivesse encontrado coisa demais.

Trabalhamos quase a tarde inteira sem falar de Cristiano, ou, mais precisamente, sem falar dele diretamente. Luquinhas tinha essa habilidade, ele não precisava mencionar o nome de alguém para tornar óbvio que estava falando da pessoa. Quando me viu olhando para o portão pela terceira vez, disse:

— Se ele aparecer, você vai fingir que não tava esperando?

— Eu não estou esperando.

— Claro.

— Você também espera alguém? – perguntei, de supetão.

— Espero.

— Quem?

— Minha mãe ganhar na loteria.

— A diferença é que eu perguntei.

— E eu não respondi.

Era impossível discutir com ele porque Luquinhas parecia considerar qualquer conversa uma espécie de esporte coletivo. No meio da tarde, paramos para comer. Nos sentamos do lado de fora, onde uma sombra estreita atravessava o muro. O barulho do galpão diminuiu durante a pausa do café, e por alguns minutos a cidade pareceu distante. Luquinhas abriu uma vasilha, eu abri a minha, ele olhou.

— Sanduíche de frango?

— É.

— Minha mãe mandou frango também.

— E?

— Nada. Só acho estranho duas mães decidirem a mesma coisa.

— Talvez exista um grupo.

— Grupo de quê?

— Mães que fazem frango.

Ele riu tão alto que um dos homens do outro lado do pátio olhou para nós. Luquinhas diminuiu a voz.

— Cê é engraçado quando para de tentar ser inteligente.

— Isso foi um elogio?

— Quase.

Comemos em silêncio, o sol batia no chão diante de nós, uma pequena poça de óleo refletia o céu, lá dentro, alguém deixava cair uma ferramenta. Luquinhas raspou o fundo da vasilha.

— Ele gosta de você.

Parei no meio do caminho.

— Quem?

Ele me olhou.

— Ah, não começa.

— Você disse “ele”.

— Cristiano.

A palavra ficou entre nós, eu voltei a comer.

— Você não sabe disso.

— Sei.

— Como?

— Porque conheço ele.

— Conhece?

Luquinhas mastigou devagar.

— Mais do que você.

Não houve provocação na frase, isso me incomodou mais.

— Vocês são amigos?

— Somos.

— Só?

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Tá querendo saber se eu já peguei ele?

— Eu não perguntei isso.

— Mas pensou.

— Luquinhas.

— Não.

Ele voltou a olhar para a comida.

— Nunca.

Fiquei em silêncio.

— Eu conheci o Cristiano antes de você chegar aqui.

— Quanto tempo?

— Uns bons anos.

— E vocês nunca...

— Não.

Ele pareceu quase ofendido.

— Eu gosto dele, Mateus.

A maneira como falou mudou alguma coisa em mim. Não era a frase de alguém que estava reivindicando propriedade, era justamente o contrário.

— Ele já teve pouca gente do lado dele — Luquinhas continuou — E a maior parte das pessoas que diziam que gostavam dele gostava enquanto era fácil.

Olhei para ele.

— Você sabe da família dele?

— Sei.

— Tudo?

— Ninguém sabe tudo de ninguém.

A frase me fez lembrar de Cristiano na cozinha, com as mãos apoiadas sobre a pia.

“Meu pai bebia.”

“Muito?”

“O suficiente.”

Luquinhas fechou a vasilha.

— Ele não fala muito, né?

— Não.

— Mas fala mais agora.

— Comigo?

— Às vezes.

— Como você sabe?

— Porque ele nunca perguntava de ninguém.

Meu estômago apertou.

— O que ele pergunta?

Luquinhas sorriu.

— Não vou te contar.

— Por quê?

— Porque você ia ficar todo convencido.

— Eu não fico convencido.

— Mateus.

— Tá bom.

Ele deu uma risada, depois a expressão mudou novamente.

— Só toma cuidado.

Meu corpo se fechou antes que eu quisesse.

— Com ele?

— Com você.

Não entendi, ele percebeu.

— Você acha que conhece o Cristiano porque transou com ele, dormiu com ele, foi na casa dele, ouviu umas histórias.

Não gostei da precisão.

— Eu nunca disse que conheço.

— Mas você tá tentando.

— Isso é ruim?

— Não.

Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Só não tenta transformar ele numa coisa que você consiga entender.

— Eu não faço isso.

Luquinhas me olhou de lado.

— Faz sim.

Fiquei quieto. O vento trouxe o cheiro quente da rua, ao longe, um cachorro latia.

— Você vive falando de futuro — ele disse — Faculdade, cidade, essas coisas.

— E o que tem?

— Nada.

— Luquinhas.

Ele suspirou.

— Cristiano não vive assim.

— Eu sei.

— Não, você sabe da boca pra fora. Saber mesmo é outra coisa.

Aquilo me irritou, talvez porque fosse verdade.

— Você acha que eu vou machucar ele?

Luquinhas demorou a responder.

— Acho que você pode.

— Obrigado pela confiança.

— Todo mundo pode machucar alguém.

— E você?

— Eu também.

Ele me encarou.

— A diferença é que eu não tô tentando ficar com ele.

A frase não foi agressiva, por isso acertou. Olhei para a rua.

— Eu não sei se estou tentando ficar com ele.

Luquinhas riu, mas sem alegria.

— Aí é que mora o perigo.

Voltamos ao trabalho, a conversa terminou, mas não terminou, continuou em mim. Cada vez que eu olhava para o portão, cada vez que o celular notificava e não era Cristiano, cada vez que eu percebia que estava prestando atenção demais na ausência dele.

No final da tarde, Luquinhas me chamou para o ajudar a guardar algumas caixas no depósito. O lugar estava escuro e quente, o cheiro de papelão velho se misturava ao de ferrugem, uma pequena janela deixava entrar uma faixa de luz amarela que cortava o pó no ar. Colocamos a última caixa sobre uma prateleira, Luquinhas ficou parado.

— Posso te falar uma coisa?

— Você já está falando.

— Sem gracinha.

— Desculpa.

Ele olhou para o chão. Pela primeira vez desde que o conheci, pareceu escolher cuidadosamente as palavras.

— Você sabe por que eu gosto dele?

— Por quê?

— Porque ele sempre fingiu que não precisava de ninguém.

— Isso parece uma razão estranha.

— É.

Ele deu um pequeno sorriso.

— Mas quando você conhece alguém assim, aprende a perceber as coisas pequenas.

— Tipo?

— Quando ele tá cansado. Quando tá com fome. Quando tá inventando briga porque tá preocupado.

Pensei em Cristiano me mandando trabalhar depois que conversei cinco minutos com Luquinhas, quase dei risada.

— Ele faz isso.

— Eu sei.

Luquinhas encostou no armário.

— Cristiano passou a vida inteira achando que, se precisasse de alguém, ia acabar pagando caro por isso.

Meu peito apertou.

— E eu?

— Você é um problema.

— Muito obrigado.

— Não desse jeito.

Ele sorriu, depois perdeu o sorriso.

— Você é a primeira coisa boa que eu vejo acontecendo com ele em muito tempo.

A frase me impediu de responder imediatamente, Luquinhas continuou:

— E é por isso que eu tô falando.

O galpão estava quase silencioso agora. Lá fora, alguém fechava o portão, o som metálico atravessava o depósito.

— Você acha que ele precisa de um namorado — Luquinhas disse.

Engoli em seco.

— Eu não acho isso.

— Talvez ache.

Ele ergueu os olhos.

— Eu acho que ele precisa de paz.

Não disse nada.

— Se você conseguir dar isso pra ele...

Luquinhas fez uma pausa, não teatral, apenas necessária.

— ...não estraga.

A frase não pareceu uma ameaça, seria mais fácil se fosse. Ameaças a gente enfrenta, pedidos, não. Fiquei olhando para ele.

— E se eu não conseguir?

— Então não promete.

— Ele não me pediu nada.

— Ainda.

O silêncio que veio depois foi longo, mas não desconfortável. Era o silêncio de alguém que acabou de colocar uma verdade sobre a mesa e não sabia mais onde guardar as mãos.

— Você gosta de mim? — perguntei.

Luquinhas deu uma gargalhada.

— Agora você quer estragar o momento?

— Pergunta séria.

Ele balançou a cabeça afirmativamente.

— Gosto.

— Como?

— Ah, Mateus...

— Responde.

— Do jeito que você quiser entender.

Sorri, ele também. Então acrescentou:

— Mas eu sei quando perdi uma briga.

Meu sorriso desapareceu.

— Não é uma briga.

— Eu sei.

Ele passou por mim em direção à porta.

— É justamente por isso.

Quando saímos do depósito, o galpão estava vazio, o sol já havia desaparecido atrás dos morros, e a cidade começava a entrar naquela hora azul em que tudo parecia mais distante do que realmente estava. Peguei minha mochila, meu celular acendeu, olhei para a tela, uma mensagem. De Cristiano.

“Preciso falar com você.”

Meu corpo inteiro se concentrou naquelas quatro palavras, Luquinhas percebeu.

— Ele?

Assenti.

— Tá.

Ele não perguntou mais nada. Li novamente.

“Preciso falar com você.”

Digitei:

“Aconteceu alguma coisa?”

A resposta demorou, tempo suficiente para eu começar a imaginar coisas demais. Então chegou outra mensagem.

“Vem pra minha casa. Agora.”

O vento atravessou o pátio, levantei os olhos. Luquinhas já estava alguns passos à frente.

— Luquinhas.

Ele se virou.

— O quê?

Olhei novamente para o celular.

— Acho que ele não tá bem.

A expressão dele mudou, dessa vez, não havia sorriso.

— Então vai.

— E se eu piorar as coisas?

Luquinhas sustentou meu olhar por um segundo, depois apontou para a rua.

— Descobre lá.

Comecei a caminhar, mas, antes de sair pelo portão, ele chamou:

— Mateus.

Me virei, Luquinhas estava parado no meio do galpão, sozinho entre os caminhões e as sombras.

— Não vai pra casa dele achando que você é o salvador dele.

A frase me atravessou, ele continuou:

— Se ele chamou você, vai como alguém que gosta dele.

Meu celular acendeu outra vez, olhei. Uma nova mensagem. Dessa vez, apenas duas palavras.

“Meu pai.”

E, abaixo:

“Ele tá atrás de mim.”

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Comentários

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Para o amigo Jota abaixo..parei de receber notificações no e-mail, achei estranho também.

Sobre o conto...Segue sendo algo incrivel, muito bem escrito.

Mateus, queria sentar contigo para tomar um chá (odeio), café (me deixa agitado) ou uma cerveja (não bebo mais no auge dos meus 28 aninhos kk). - Se topar água, só vamos kk

Mas é tão gostoso ver uma escrita agradável, onde parecemos submergir dentro da cabeça do autor e entender exatamente tudo que ele tenta fazer, tudo que ele tenta passar. Você está indo bem demais!

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Gosto de chá, amo café, adoro cerveja... hahahahaha. Mas podemos tomar um suco ou só água, como preferir!! rs

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PS: só eu não estou mais recebendo as notificações da CDC? Tenho que ficar caçando nos últimos contos pra ver se tem novidades dos autores que sigo...

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Luquinhas tem um "veneno" que é saber usar as inseguranças do Mateus contra ele mesmo. Ele sabe que Mateus tende a (gosta?) encaixar as pessoas em rótulos para entende-las, mas ele usa isso para seu interesse. Querendo ser encaixado em outra categoria, mais a ver com Mateus. Além de tudo, é gostosinho, e para o Mateus, nessa idade, isso conta também hahaah (não só pra ele, e não só nessa idade haha).

Mateus (autor): eu leio esse conto e eu sinto o quanto você está gostando de escrevê-lo! Isso é tão gostoso, faz o leitor adorar o que está lendo também. Continue!

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Obrigado, Jota! Estou gostando mesmo, como você percebeu. Um grande abraço!!

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